Efeitos da covid-19 no organismo: o que se sabe até agora?

Sintomas da chamada “covid longa” atingem pelo menos dez órgãos e sistemas. Saiba como identificar a síndrome. 

Isabelle Manzini

Isabelle Manzini é jornalista e analista de redes sociais. Interessa-se por assuntos relacionados à saúde mental, saúde da população negra e saúde LGBTQIA+.

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Publicado em: 15 de abril de 2022

Revisado em: 14 de abril de 2022

Sintomas da chamada “covid longa” atingem pelo menos dez órgãos e sistemas. Saiba como identificar a síndrome. 

 

Os primeiros relatos de sintomas persistentes após infecção por covid-19 começaram cerca de seis meses após o início da pandemia. A “covid longa” ganhou status de doença pouco depois, em outubro de 2021, em um documento publicado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que reuniu estudos realizados em diferentes países. 

Segundo a OMS, a condição atinge aqueles com “histórico comprovado ou provável de covid-19. Os sintomas surgem cerca de três meses após o início da infecção original, duram pelo menos dois meses e não podem ser explicados por um diagnóstico alternativo”.

A síndrome pós-covid, como também é conhecida, é caracterizada por cerca de 200 sintomas que envolvem pelo menos dez órgãos e sistemas. Outro estudo, dessa vez publicado na revista BMC Medicine, agrupou os sintomas mais relatados pelos pacientes ao redor do mundo de acordo com as áreas afetadas:

 

Cabeça, olhos e ouvidos

Queda de cabelo, secura na boca, problemas dentários, problemas de audição, zumbido, distúrbio visual, conjuntivite, olhos secos ou avermelhados.

 

Coração

Doença arterial coronariana, taquicardia, palpitações, insuficiência cardíaca, dores no peito (angina), fibrose miocárdica, alterações no condicionamento cardiovascular, pressão alta.

 

Fígado e rins

Incontinência urinária, lesão renal aguda, infecções do trato urinário, doença hepática crônica, doença renal crônica. 

 

Geral

Fadiga, febre, fraqueza, perda de apetite, erupções cutâneas, redução na capacidade de se exercitar, dores nas articulações, dores inespecíficas, problemas de sono, mal-estar, sudorese, dor nas costas.

 

Pulmão

Fibrose, redução da capacidade de oxigenação do sangue.

 

Saúde mental

Depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, entre outros transtornos.

 

Sistema endócrino

Diabetes ou piora do controle do diabetes já existente, hipertireoidismo, tireoidite subaguda.

 

Sistema gastrointestinal

Náuseas ou vômitos, refluxo, diarreia, constipação, gastrite, doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), dificuldade para engolir (disfagia), síndrome do intestino irritável pós-infecciosa.

 

Sistema nervoso

Dificuldades de concentração e de memória (brain fog), tontura, dores de cabeça, AVC, epilepsia, dificuldade de fala, anosmia (perda do olfato), ageusia (perda do paladar), problemas de equilíbrio, neuropatia periférica (fraqueza, dormência e dores nas mãos e nos pés por danos nos nervos), síndrome de Guillain-Barré, síndrome das pernas inquietas.

 

Sistema respiratório

Falta de ar, garganta inflamada, congestão nasal, espirros, tosse, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), expectoração excessiva, chiado, fibrose pulmonar, pleurisia, dor ao respirar, parada respiratória, asma.

 

Sistema vascular

Tromboembolismo, anemia.

 

O que causa a covid longa?

Ainda não se sabe qual é o mecanismo exato por trás da síndrome pós-covid. De acordo com a Pesquisa Fapesp, há três hipóteses mais aceitas sobre a origem da doença:

 

  1. Ao se acoplar no receptor ACE2, presente em vários órgãos, o vírus desencadearia alterações no interior da célula, levando à doença crônica;
  2. Após a doença aguda, o vírus ficaria armazenado em reservatórios por semanas ou meses, causando a covid longa;
  3. O vírus e os tecidos humanos teriam uma proteína semelhante, que o sistema imune reconheceria, provocando uma resposta autoimune exacerbada. 

 

Quanto tempo dura a covid longa?

Sabe-se que a doença pode se apresentar de duas formas: através de manifestações agudas, com períodos de sintomas bem marcados, intercalados com períodos assintomáticos; ou cronicamente, com sintomas estáveis desde o final da infecção inicial de covid-19. 

Dados já mostram que o quadro costuma permanecer por até 3 meses, podendo chegar a 12 meses em casos mais raros. Fato é que a pesquisa sobre a síndrome pós-covid ainda está em desenvolvimento, e as informações estão em constante atualização. 

 

        Ouça: DrauzioCast #157 | A fisiatria na medicina e no tratamento pós-covid

 

Quem é mais vulnerável a desenvolver a doença?

De acordo com os dados da OMS, de 10% a 20% daqueles que foram infectados pelo Sars-CoV-2 desenvolveram sintomas mais persistentes, que podem ser enquadrados na definição de covid longa. 

A surpresa foi perceber que pessoas que tiveram casos mais graves de covid-19 não são as únicas que podem desenvolver a covid longa. Aqueles que tiveram sintomas leves ou foram assintomáticos também podem apresentar a doença. Em geral, são mais vulneráveis a desenvolver a condição mulheres, pessoas de meia-idade (entre 45 e 70 anos) e aqueles que tiveram mais sintomas da covid na primeira semana da infecção.

 

Diagnóstico

Diferente da covid-19 propriamente dita, não há um teste ou exame único que diagnostique a covid longa. O diagnóstico é clínico, feito por um profissional de saúde de acordo com o relato do paciente e a exclusão de outras condições relacionadas aos sintomas. Assim, os exames realizados têm o objetivo de excluir outras doenças.

 

Tratamento

Ainda não há tratamento específico para a covid longa, mas é possível diminuir e controlar o impacto dos sintomas no dia a dia. 

Se você se identificou com os sintomas, converse com o seu médico a respeito para entender melhor o que está acontecendo e receber o tratamento necessário.

 

        Veja também: Mortalidade pós-covid

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