Nistagmo

Nistagmo não constitui uma condição médica específica. É sintoma de um distúrbio sensorial ou neuromuscular adjacente.

Maria Helena Varella Bruna

Maria Helena Varella Bruna é redatora e revisora, trabalha desde o início do Site Drauzio Varella, ainda nos anos 1990. Escreve sobre doenças e sintomas, além de atualizar os conteúdos do Portal conforme as constantes novidades do universo de ciência e saúde.

bebê albino com olhos estrábicos, com sinais de nistagmo

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Publicado em: 14 de julho de 2022

Revisado em: 2 de agosto de 2022

Nistagmo não constitui uma condição médica específica. É sintoma de um distúrbio sensorial ou neuromuscular adjacente.

 

A notícia de que o rapper Apl.de.ap (Allan Pineda Lindo), cantor que se declara filipino-americano, aos 47 anos, é cego, viralizou nas redes sociais, no início de maio de 2022.

Apesar de não ser mais novidade de que o músico possuía um comprometimento grave da visão, o assunto tinha deixado de despertar interesse e os fãs da banda se mostraram surpresos com essa nova postagem.

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O fato é que o assunto voltou a despertar atenção, quando uma internauta resgatou uma entrevista concedida pelo cantor e compositor Will.i.am que, como Apl, integra o Black Eyed Peas, grupo de hip hop e música eletrônica formado em Los Angeles, na Califórnia.

Nessa entrevista, o distúrbio ocular do cantor foi mencionado de novo e Will. deixou claro que, nos Estados Unidos, o músico é considerado legalmente cego por ser portador de nistagmo, uma condição oftalmológica que, entre outras manifestações, impede enxergar com clareza e nitidez objetos e traços fisionômicos um pouco mais distantes.

O estranho nessa história toda é que o próprio músico já havia declarado, em outra oportunidade, que passara por uma cirurgia para implante de uma lente “artificial” a fim de corrigir um quadro de miopia, conduta que o ajudou a reduzir os danos que o nistagmo lhe causava.

 

O que é nistagmo?

 

Nistagmo é uma condição oftalmológica complexa que, segundo a Academia Americana de Oftalmologia, causa movimentos rápidos, involuntários, repetitivos e incontroláveis nos olhos, e pode estar associado à perda da acuidade e dos campos visuais.

Tal instabilidade pode prejudicar não só a visão, mas também o equilíbrio, a coordenação motora e a percepção de profundidade, se outras áreas do cérebro também estiverem envolvidas, como pode acontecer com o labirinto, órgão do sistema ventricular, por exemplo.

Importante destacar que é o cérebro que controla o movimento dos olhos. Nos portadores da condição, esse movimento pode variar de intensidade e seguir em diferentes direções e velocidades, o que representa um obstáculo para fixar o olhar, mesmo quando a cabeça permanece imóvel.

Desse modo, no nistagmo denominado horizontal, os olhos se movem lateralmente, isto é, de um lado para o outro; no vertical, o movimento é de cima para baixo ou de baixo para cima. Já nos casos de nistagmo rotatório (rotativo ou de torção), o movimento giratório dos olhos pode compor círculos.  Tais oscilações prejudicam a nitidez da imagem, uma vez que impedem fixar os olhos num objeto mesmo que ele esteja completamente parado.

 

 Nistagmo congênito e adquirido

 

Popularmente conhecido como “olhos dançantes”, o nistagmo pode afetar os olhos de crianças e adultos. A condição pode ser congênita, isto é, a criança nasce com ela. Ou pode ser adquirida mais tarde, depois dos seis meses ou, ainda, na adolescência e na vida adulta. Se acaso a criança nasce com um distúrbio ocular que afeta a visão, o risco de desenvolver nistagmo aumenta consideravelmente.

O nistagmo congênito em geral se manifesta entre dois e três meses de vida do bebê. De causa idiopática (desconhecida), quase sempre o distúrbio é transmitido de pai para filho (hereditariedade), acomete os dois olhos (nistagmo bilateral), ou apenas um deles (nistagmo unilateral), que não apresentam nenhuma anormalidade em si mesmos, uma vez que a alteração incide na musculatura dos olhos.

O nistagmo adquirido pode surgir em qualquer idade, a partir dos seis meses de vida. Geralmente está associado a condições médicas subjacentes, muitas vezes graves, tais como: AVCs, lesões cerebrais que afetam as funções motoras, albinismo, estrabismo, catarata congênita, esclerose múltipla, efeitos adversos de alguns medicamentos, deficiência de vitamina B12, inflamação da orelha interna, entre outras.

 

Classificação do nistagmo

 

Nistagmos podem ser classificados de acordo com diferentes critérios e alguns tipos são considerados normais e passageiros. Boa parte, porém, pode ser atribuída a algumas doenças, traumas ou desordens neurológicas.

Essa diferença baseia-se, principalmente, no tipo de movimento que os olhos realizam e em suas causas e fatores de risco.

Entende-se por nistagmo manifesto, a presença constante da condição; por nistagmo latente, aquela que só aparece se um dos olhos estiver coberto, e por nistagmo manifesto-latente, quando a presença constante da condição pode ser alterada, se cobrirmos um dos olhos, o que piora bastante o quadro.

Vale lembrar que o nistagmo não constitui uma doença em si mesmo. Ele pode ser reflexo de outras doenças adjacentes que podem causar baixa visão e cegueira.

 

 Causas e fatores de risco do nistagmo

 

Alguns estudos apontam que a deficiência visual é causada pelo funcionamento anormal de parte do cérebro ou da orelha interna, áreas que regulam o movimento e o posicionamento dos olhos.

Dependendo da situação, a mesma condição pode funcionar como causa ou fator de risco para a desordem.

Entre elas, vale destacar:

  • Labirintite;
  • Albinismo;
  • Lesões do sistema vestibular causadas pelo uso inadequado de cotonetes, grampos de cabelo, tampas de caneta ou de outros que podem ferir as orelhas);
  • Lesões medulares e tumores cerebrais relacionados com o controle do movimento dos olhos;
  • Esclerose múltipla;
  • Perda da visão;
  • Carência de vitamina B12;
  • Infecções bacterianas;
  • Consumo de álcool e outras drogas;
  • Comprometimento estético associado à condição.

 

Sintomas do nistagmo

 

O sintoma mais evidente do nistagmo é o movimento incontrolável e involuntário dos olhos, que pode afetar um deles ou ambos, mesmo quando a cabeça permanece imóvel.

Outros sinais da condição podem servir de alerta e para o diagnóstico diferencial, no sentido de que algo não vai bem com a visão, ou com o organismo de maneira geral.

São eles: visão trêmula e embaçada, fotofobia, dificuldade para enxergar à noite e para focalizar objetos, inclinação da cabeça como estratégia para ajustar o foco, torcicolo, síndrome de Down e prejuízo da acuidade visual.

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Diagnóstico do nistagmo

 

O diagnóstico de nistagmo geralmente é realizado pelo médico oftalmologista, que leva em conta os sinais e sintomas apresentados e os possíveis problemas oculares associados à condição, tais como: distúrbios da retina e do nervo ótico,  erros refrativos, estrabismo e catarata congênita. Nos casos em que o transtorno afeta o sistema nervoso, a avaliação de um neuro-oftalmologista é sempre um elemento que se deve considerar.

Nos adultos, o distúrbio ocular pode estar associado a doenças sistêmicas, como o AVC, a esclerose múltipla e a encefalopatia de Wernicke.

Do mesmo modo, a ocorrência de traumatismos cranianos, abuso de álcool e outras drogas e falhas estruturais na orelha interna representa um recurso importante para obter informações necessárias para estabelecer o diagnóstico diferencial.

Para referendar o diagnóstico, podem ser prescritos exames de imagem, como a tomografia computadorizada e a ressonância magnética do cérebro, assim como exames neurológicos e da anatomia e função da orelha interna.

Exames, como a eletro-oculografia e a vídeo-oculografia, são importantes para avaliar a vitalidade de certas camadas da retina, entre eles o epitélio pigmentar e os fotorreceptores oculares.

 

Tratamento do nistagmo

 

Ainda não se conhece uma forma de tratamento capaz de corrigir ou curar o nistagmo congênito infantil. Entretanto existem recursos que tornam viável aliviar o incômodo que a movimentação involuntária dos olhos promove com o objetivo de aproveitar, ao máximo, a capacidade visual de cada pessoa.

Para tanto, é possível valer-se de algumas medidas terapêuticas que devem ser orientadas por especialistas – oftalmologistas, neurologistas e clínicos – que vão acompanhar a evolução dos casos.

Veja alguns exemplos:

 

1) Sob o ponto de vista óptico é possível:

  • Substituir os óculos de grau por lentes de contato que parecem oferecer melhores resultados clínicos;
  • Dar preferência às lentes com correção de prisma que não corrigem o nistagmo, mas podem ser úteis para diminuir a inclinação da cabeça e melhorar a estética facial;
  • Optar por óculos e lentes de contato, que permitem reparar os erros refrativos (miopia, hipermetropia e astigmatismo) que comprometem a visão;

 

2) Sob o ponto de vista cirúrgico:

O tratamento cirúrgico fica reservado para alguns casos especiais em que se torna necessário:

  • reposicionar os músculos que movem os olhos, para manter a cabeça numa posição mais confortável;
  • corrigir a deficiência visual com aplicação de raio laser na córnea, método que também não cura o nistagmo, mas melhora a visão e reduz os sintomas.

 

Nos quadros de nistagmo adquirido, a situação é bem diferente.  A conduta é determinada pelo tipo de lesão e pela causa subjacente do transtorno que, conforme o caso, pode ser tratado e curado.

 

Perguntas frequentes sobre nistagmo

 

Nistagmo causa cegueira?

O nistagmo não constitui uma doença em si mesmo. Ele pode ser reflexo de outras doenças adjacentes que podem causar baixa visão e cegueira.

 

O que é nistagmo?

É uma condição oftalmológica complexa que causa movimentos rápidos, involuntários, repetitivos e incontroláveis nos olhos, e pode estar associado à perda da acuidade e dos campos visuais.

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