Psiquiatria

Por que não tenho mais vontade de lidar com as pessoas depois da pandemia?

Sem paciência para as conversas de elevador, as pausas do cafézinho na empresa ou pequenos eventos sociais depois da pandemia? Aparentemente, você não está sozinho.

Sem paciência para as conversas de elevador, as pausas do cafézinho na empresa ou pequenos eventos sociais depois da pandemia? Aparentemente, você não está sozinho.

 

Depois de tanto tempo isolados, a ideia de voltar a realizar as mais simples confraternizações sociais pode parecer, para muitos, uma chatice. A aversão em puxar conversas sobre o clima ou comparecer a jantares com colegas que nunca foram tão próximos assim resumem o sentimento de “preguiça” em lidar com os outros no pós-pandemia.

O empenho em resguardar-se do contato social mudou a forma como encaramos o outro, os riscos aos quais nos submetemos e a nossa própria intimidade – o que resultou em uma sensação até então desconhecida, a qual estudiosos tentam resumir como “apatia social”, “fadiga pandêmica” e até “definhamento”.

“Houve um grande esforço de adaptação, inclusive da parte traumática, pois não tínhamos um repertório prévio para dar sentido ao que estava acontecendo. As pessoas perderam parentes, entes queridos, sem poder sentir o luto como tradicionalmente fariam”, explica Marina Pinheiro, professora da pós-graduação em Psicologia Cognitiva da Universidade Federal do Pernambuco (UFPE). 

Para ela, o termo que melhor explica o que estamos sentindo é o “desencantamento” com o outro.

 

Como a pandemia mudou a forma de se relacionar com as pessoas

Segundo Marina, o isolamento prolongado rompeu com três fatores fundamentais para as relações sociais:

  • Corporeidade: Como a recomendação dos especialistas em saúde é a de manter o isolamento social, as tecnologias digitais foram a solução encontrada para a manutenção do trabalho e do contato com aqueles que estavam longe. No entanto, os sinais corporais que ajudam na comunicação efetiva, como a entonação e a postura, são parcialmente perdidos nas conversas de WhatsApp e até nas populares chamadas de vídeo.

 

  • Qualidade comunicativa: Outro efeito da mediação virtual é o incentivo para que falemos continuamente, evitando, por exemplo, os silêncios constrangedores nas vídeo chamadas do trabalho. “Perdemos as sensibilidades mais intuitivas para conversar. Temos, hoje, uma comunicação tagarelante, mas pouco aberta para o outro”, explica Marina.

 

  • Tempo: A relação com o tempo também foi extremamente afetada, pois não temos mais contato com o ritmo das outras pessoas, baseando-nos apenas em nossa própria rotina. Se antes da pandemia era comum um professor esperar até 15 minutos para que todos os alunos retornassem à sala depois do intervalo, no ambiente online são apenas 2 ou 3 minutos de tolerância. A sensação é de que o tempo parou e, na incapacidade de planejar o futuro, a sequência de acordar, trabalhar, estudar, fazer as tarefas domésticas e ir dormir se repete ininterruptamente.

O que está sendo chamado de ‘preguiça’ ou ‘desencantamento’ tem a ver, justamente, com essas transformações. “Estamos passando por uma nova readaptação, dessa vez ligada à disponibilidade de estar com outras pessoas, de construir um diálogo que não seja tagarelante e de sustentar a rítmica alheia. É normal que, a princípio, tudo isso cause uma certa ansiedade”, explica a psicóloga.

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Por que eu não tenho mais saco para lidar com os outros?

Em meio a todas essas mudanças, houve ainda a imposição do confronto consigo mesmo. Com a redução das relações sociais, as pessoas se viram em uma experiência (para muitos, inédita) de encarar a própria vida, com seus erros e acertos. 

“Vamos pensar nas mães, que estão extremamente ocupadas em casa, trabalhando à distância, cuidando dos filhos e das tarefas domésticas. Nesse período de isolamento, elas foram também confrontadas com um aspecto da cultura que a pandemia catalisou: o desamparo e a falta de suporte”, exemplifica Marina.

Dessa forma, investe-se uma enorme quantidade de energia para dar conta da própria existência: em se cuidar, em se manter vivo e em continuar produzindo. Consequentemente, há uma espécie de esgotamento que interfere na disposição que temos com as outras pessoas.

“Estar presente é uma oferta, mas também é uma demanda. Esse investimento em estar bem em meio a toda a sensação de insegurança e desencantamento dificulta a distribuição de energia para outros que estão sofrendo como eu. E, depois de tantos meses de pandemia, está todo mundo dolorido demais”, diz a professora da UFPE.

Enquanto parte dos brasileiros procura o conforto de amigos e familiares para fazer frente à dor (por vezes irresponsavelmente, ignorando as medidas de prevenção contra a covid-19), outros tentam se blindar do contato para evitar lidar com o inusitado. 

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Por que é importante voltar ao convívio social?

Mesmo com todas as incertezas, conflitos e desencantamentos, é indispensável lembrar os benefícios da interação social para a saúde mental:

“Por mais desencantada que a pessoa esteja da possibilidade de voltar a socializar, ela com certeza sente saudades de alguns momentos com outras pessoas. É no encontro, na conversa e no cafezinho que compartilhamos as nossas vivências e damos a oportunidade de construir o futuro, que é o que nos mobiliza”, pontua.

Por outro lado, se mesmo depois de toda a readaptação (uma vez que a pandemia já estiver controlada no país), a ansiedade e apatia permanecerem, é preciso ficar atento. Se a evitação do outro continuar por muito tempo, inclusive causando prejuízos na vida social e produtiva, o melhor a fazer é procurar ajuda profissional. 

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Sobre o autor: Beatriz Zolin

Beatriz Zolin é estudante de Jornalismo e estagiária em Redação no Portal Drauzio Varella. Tem interesse pelas editorias de saúde, política, educação e comportamento.