Psiquiatria

Pandemia não aumentou casos de transtornos mentais e suicídios em 2020

Saúde mental da população não piorou com a chegada da pandemia. Estudos em todo mundo mostram

Ao contrário do que era esperado, a chegada do coronavírus não provocou um “tsunami” de transtornos mentais no Brasil e no mundo até o momento.


A discussão em torno da saúde mental vem ganhando destaque nos últimos anos. Com a chegada da pandemia do novo coronavírus, a pauta ficou ainda mais evidente. Isso porque se esperava que houvesse uma explosão de novos casos de transtornos mentais, relacionados ao medo de se infectar, às dificuldades econômicas, ao luto e ao distanciamento social necessário para o controle da pandemia.

Do ponto de vista clínico, é possível observar que muitas pessoas passaram a buscar ajuda profissional para lidar com os primeiros sintomas de ansiedade, depressão, entre outros transtornos. Mas isso não quer dizer que houve piora na saúde mental dos brasileiros.

Uma pesquisa feita pela Universidade de São Paulo (USP) mostrou que apesar da pandemia aumentar os riscos de desenvolver transtornos mentais, não houve impacto significativo na saúde mental da população. Esse trabalho acompanhou 2.117 pessoas que fazem parte do Estudo Longitudinal da Saúde do Adulto (ELSA) e analisou sintomas e diagnósticos apresentados, comparando os resultados com as pesquisas anteriores (2008-2010, 2012-2014 e 2016-2018).

“Comparando aos dados anteriores à pandemia, a saúde mental desse grupo não piorou. Agora a gente busca entender o porquê”, afirma o dr. José Gallucci-Neto, diretor médico do Serviço de ECT e Vídeo-EEG do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo e um dos pesquisadores da publicação.

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Apesar dessa estabilidade, a pesquisa observa que mulheres, jovens, pessoas não brancas, com baixa escolaridade ou com transtorno prévio possuem risco maior de desenvolver transtornos psiquiátricos ao longo da pandemia. “A gente analisou o primeiro ano da pandemia, é preciso ficar atento para entender como isso se encaminha em 2021”, alerta Gallucci.

Nas redes sociais, é possível observar amigos e familiares que, ao falarem sobre saúde mental, demonstram estar se sentindo pior atualmente do que antes da pandemia, mas isso pode ter uma explicação. “Existe um conceito chamado ‘recall bias’ (viés de recordação). Como nossas lembranças não são claras, temos a  impressão que estamos sempre pior que o passado. Essa percepção nem sempre está correta”, ressalta o médico. Por isso, um estudo longitudinal, que analisa as variações nas características de um mesmo grupo por um longo tempo, como esse é tão importante na avaliação da saúde mental coletiva.

É importante ressaltar que os participantes são funcionários ou aposentados da USP, com idade média de 62,3 anos e que podem estar em situações mais estáveis socialmente na pandemia.

Mas os dados de outros países mostram que esse é um fenômeno observado em todo o mundo. Um estudo longitudinal publicado no Reino Unido acompanhou 1,106 pessoas durante três fases da pandemia (março, abril e julho de 2020), e observou que casos de ansiedade e depressão permaneceram estáveis, enquanto transtornos pós-traumáticos caíram com o decorrer dos meses. 

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Suicídios caíram mundialmente

Em setembro de 2020, a A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) fez um alerta: a pandemia do novo coronavírus aumenta os fatores de risco para suicídio. O aviso serve para que o assunto seja pauta de discussão e prevenção ao redor do mundo. Porém, até o momento, não se observou aumento do número de óbitos por suicídio. Dr. José Gallucci-Neto aponta que “se você considerar que 90% dos suicídios estão associados à saúde mental, assim como um tsunami de transtornos, a gente esperava um aumento dos suicídios, o que não vem ocorrendo”.

Apesar de não termos dados consolidados do Brasil ainda, de acordo com o médico oito capitais brasileiras já mostram queda nos casos de suicídio em 2020, quando comparados aos dados do ano anterior. Países como Estados Unidos, Inglaterra, Noruega e Suécia apresentaram estabilidade ou queda nos casos também.

Mesmo com quedas, é preciso observar alguns pormenores. O dr. Gallucci afirma que nos Estados Unidos, por exemplo, a taxa de suicídio geral da população caiu, mas aumentou entre negros e latinos, populações mais vulneráveis às consequências negativas da pandemia.

Com mais de 435 mil vítimas da covid-19 no Brasil, frequentemente a pandemia é comparada às guerras. No caso do suicídio, não é diferente. “Em períodos de guerra as taxas de suicido também caem. Pode ser que em situação de risco à vida, haja uma reflexão sobre o valor dela”, afirma o psiquiatra.

Em março deste ano, o presidente Jair Bolsonaro leu, ao vivo nas redes sociais, uma suposta carta de suicídio que teria sido motivado pelo lockdown, uma das medidas necessárias para controlar a pandemia, e que as medidas restritivas de circulação iriam causar uma onda de mortes na população. Entretanto, não existem indícios de que o lockdown esteja diretamente relacionado a esse prognóstico.

Uma análise da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, avaliou 25 estudos com 72 mil participantes para entender os impactos do lockdown na saúde mental e nos casos de suicídio. De forma geral, não houve impacto significativo que possa aumentar o risco para novos casos. O benefício de um lockdown no controle da disseminação do novo coronavírus é muito maior que potenciais riscos.

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Como lidamos com a adversidade?

“Existe um conceito chamado ‘crescimento pós-traumático’. Frente à adversidade, muitas pessoas experimentam efeitos positivos, e não negativos, como se espera”, aponta o dr. Galluci-Neto. É possível observar grupos de amigos e familiares que se aproximaram mais durante a pandemia, seja por estarem passando a quarentena juntos ou pelo contato digital.

Com mais de um ano de pandemia no país, muita gente já conseguiu se adaptar às mudanças nas relações sociais, no trabalho, no estudo, e buscam alternativas para conseguir realizar atividades que precisaram buscar alternativas para seguir funcionando.

Esse conceito não exclui a possibilidade de algumas pessoas desenvolverem transtornos mentais em períodos difíceis, mas já foi observado em populações que passaram por momentos de guerra, desastres e catástrofes naturais.

“As pessoas se ajudam mais, estreitam as relações, dão mais valor à vida, apreciam coisas que tenham valores não monetários, buscam crescimento espiritual, se envolver em redes de apoio, entre outros.”

Por conta da crise financeira do país e da falta de apoio por parte do Governo, diversos grupos surgiram neste período para ajudar as populações mais carentes, realizar doações de alimentos e até material de prevenção, como máscara e álcool gel. Conheça aqui algumas dessas iniciativas e contribua se puder.

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Sobre o autor: Rafael Machado

Rafael Machado é jornalista e repórter do Portal Drauzio Varella. Tem interesse nas editorias de saúde pública e direitos humanos.