Podcasts

DrauzioCast #153 | Tontura é só labirintite?



A labirintite é apenas uma das possíveis causas de tontura. Entenda o que pode estar motivando esse sintoma.

 

 

 

Labirintite e tontura são a mesma coisa? Na verdade, labirintite é um termo impróprio, mas muito usado para definir qualquer tipo de alteração de equilíbrio. A labirintite é uma das várias causas de tontura. Existem inúmeras. Ela se apresenta como tontura tipo vertigem, que é aquela sensação, de intensidade forte e muito incapacitante, de que a cabeça e o mundo estão rodando, normalmente provocada por infecções virais. E, por incrível que pareça, não é um dos tipos mais frequentes. 

Quem vai explicar melhor essas diferenças para nós é o dr. Saulo Nader, médico neurologista do Hospital Israelita Albert Einstein e membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). 

 

Drauzio Varella: Saulo, quando a tontura é consequência de uma labirintite? 

Dr. Saulo Nader: Já vou começando com essa revelação. A tontura quase nunca é labirintite. Como assim? O pessoal de casa que está ouvindo deve estar pensando que estou maluco, porque a gente escuta que tudo é labirintite. A labirintite é um apelido. Essa palavra caiu na moda, entrou na cultura popular e na cultura médica e, hoje, acaba que a gente a usa muito. Mas, por trás dela, existem mais de 40 doenças diferentes que geram tontura e todas ganham esse nome, esse rótulo de labirintite. 

Quer saber qual é a real, a verdadeira? É uma infecção viral ou bacteriana do labirinto, normalmente complicação de meningite ou de infecção do ouvido, raríssima, que a gente quase não vê na prática. Então, a gente pegou uma que menos acontece e usou o nome dela para todas as outras doenças, olha só que curioso. 

 

Drauzio: Tem gente que faz essa confusão de tontura com vertigem. Você pode explicar o que é a vertigem? 

Dr. Saulo Nader: Quando eu falo “vertigem”, significa uma percepção anormal de movimento. A pessoa está parada e sente como se estivesse se mexendo ou o mundo se mexendo, girando ou balançando (exemplos clássicos); ou está fazendo o movimento, mas o cérebro percebe outro totalmente diferente – é uma ilusão de movimento, eu acho que estou me mexendo, quando, na verdade, não estou.

Por que é importante para o médico decifrar se a tontura é ou não uma vertigem? Porque nesses casos, a chance da doença estar no sistema vestibular, que é o sistema do labirinto, é muito maior. O sistema vestibular é o “fiozinho do labirinto”, que é o nervo vestibular e as áreas do cérebro que conversam com o labirinto. Então, para o médico, é muito valioso entender, através da fala da pessoa, se aquela tontura é ou não uma vertigem. 

Drauzio, é difícil demais contar sobre a tontura. A gente tem muita dificuldade de contar para o nosso médico, para os familiares, para os nossos amigos. Porque tontura pode ser tudo, depende muito da experiência prévia de saúde daquela pessoa, da cultura, de onde ela foi criada, do que ela já ouviu falar que é tontura ou não. Então, eu vejo no dia a dia, que as pessoas têm muita dificuldade em verbalizar, traduzir em palavras para o médico. 

Por isso, entra a habilidade médica de ajudar essa pessoa a conseguir entender melhor qual tontura está lidando para chegar no diagnóstico e tratamento correto. 

a tontura é um sinal de alarme. É o seu corpo te contando que alguma coisa não está legal. Então, ter tontura é um sinal de alarme.

Drauzio: Saulo, você falou que existem mais de 40 problemas de saúde que provocam tontura. Mas as pessoas chamam a tontura ora de labirintite, ora de tontura mesmo, ora de vertigem. Como é que você se orienta para entender o que representa essa tontura? 

Dr. Saulo Nader: Pois é, né? Então, é uma boa entrevista médica, com calma. Nessa parte de tontura, a entrevista médica é artesanal. O profissional, com muita delicadeza, tem que extrair da fala da pessoa o que a tontura dela quer dizer. E não só a caracterização da tontura, mas o “jeitão”, o padrão dela. Então, o médico vai entender junto com a pessoa, como que essa tontura acontece. Ela é curta? Demora muito? Aconteceu uma vez na vida e nunca foi embora? Acontece várias vezes no dia ou várias vezes na semana? Acontece, fica meses bem, depois volta? Com isso, o médico vai conseguir decifrar qual dessas mais de 40 doenças está por trás da tontura que aquela pessoa está tentando contar.

E por que é muito comum confundir esses termos? Acho que falta informação. A gente conversa muito pouco sobre tontura, então entrou no cultural: labirintite ficou e parece que tudo é a mesma coisa. Não é. Não aceite que seu caso é uma labirintite e ponto. Calma! É uma labirintite? Legal, não tem problema nenhum você usar essa palavra, é a palavra que todo mundo usa. Mas o próximo passo é: qual é a doença por trás do que está sendo chamado de labirintite? A gente precisa chegar nesse diagnóstico para te proporcionar a tão sonhada melhora. 

 

Drauzio: Tem gente que levanta da cama ou da cadeira no tranco, de uma vez só, fica um pouco tonta e já rotula de labirintite. 

Dr. Saulo Nader: Perfeito. Isso que você está dando de exemplo, nós chamamos de lipotimia ou lipotímia. É uma sensação de quase desmaio. Todo mundo aqui já deve ter vivenciado isso. Levanta, a vista apaga como se fosse um túnel fechando ou vai escurecendo a visão, fica pálido, parece que vai desmaiar, mas não desmaia. Olha que curioso, né? Muitas vezes, o problema da tontura não está no sistema do labirinto. É esse exemplo da lipotimia ou lipotímia. O problema está na pressão: o sistema neurológico que controla a pressão arterial está descalibrado por algum motivo. A pressão cai mais do que deveria quando eu me levanto rápido e eu tenho essa percepção, por segundos, de quase desmaio. É normal de vez em quando, de vez em nunca, quando não tem impacto na qualidade de vida. Algumas pessoas tem isso sempre, a todo momento e começa a ser impactante na qualidade de vida. Aí tem que procurar ajuda médica.

Veja também: Pressão baixa (hipotensão arterial)

Drauzio: A crise clássica de labirintite costuma durar quantos dias? Por exemplo, eu fiquei resfriado e depois, comecei a sentir essas tonturas. Esses quadros costumam durar quanto tempo? 

Dr. Saulo Nader: Vai depender da doença. Por exemplo, uma labirintite infecciosa, que é raríssima, vai durar dias. Na neurite vestibular, uma doença super comum, que é uma inflamação do “fiozinho” que liga o labirinto ao cérebro – o nervo do labirinto inflama de uma hora para outra, um quadro terrível, uma das piores vertigens que a pessoa pode sentir -, normalmente dura dias a semanas com a sensação de tudo girando, balançando, desequilíbrio, enjoo e vômito. Por outro lado, uma doença super comum é a VPPB, que é a soltura de cristais do labirinto. As crises duram de segundos a poucos minutos. 

Então, olha só como depende do diagnóstico. Tem labirintites que duram pouquinho, tem labirintites em que a crise dura dias a semanas e tem casos de doenças que a tontura nunca mais vai embora, é crônica e diária – a pessoa vira refém, a tontura vira uma grande ditadora da vida dela 24 horas por dia. É impressionante o sofrimento dessas pessoas. 

 

Drauzio: E no caso dessas tonturas, sejam elas por labirintite ou outro fator, o que a pessoa deve fazer no momento da crise? De repente me bate uma tontura, o que eu faço? Deito, fico sentado? 

Dr. Saulo Nader: Sempre me perguntam isso, no Instagram, no YouTube, no consultório. Eu desenvolvi um macete mnemônico com a palavra tontura para ajudar a pessoa a saber o que fazer quando acontecer isso. “Poxa, fui pego desprevenido, do nada, tudo começou a girar. Estou em uma crise franca de labirintite, o que é que eu vou fazer?”

Pensa comigo na palavra tontura. Primeiro, o T: tenha calma. Como assim? Calma, respira, a maior parte das doenças que geram tontura ou vertigem não são fatais, sua vida não está em risco. Quando a gente começa a ter uma crise de labirintite, vem pensamentos do tipo: “Meu Deus, e agora? Será que eu vou morrer? Será que isso é grave? O que vai acontecer comigo?”. O primeiro passo é ter calma.

Letra O: oriente-se. Como assim? Você vai, com as mãos, se orientar no espaço em que está tendo a crise. Você vai pegar na cadeira, nos móveis, na parede, para se situar naquele ambiente.

O N é: não fique em pé. Então, você se orienta no espaço e aí vai sentar ou deitar. Me perguntam muito: “Melhor sentado ou deitado, doutor?”. Cada pessoa prefere de um jeito. Tem pessoas que vão ficar mais confortáveis sentadas, deitadas, do jeito que se sentir mais acolhido e que o incômodo seja menor. 

Próximo T: tranque a boca. É muito comum em uma crise de labirintite alguém trazer um copinho de água com açúcar ou sal para colocar embaixo da língua ou alguma coisa para comer. Não, é cilada, é errado. Por quê? Porque você está em uma crise de labirintite, você está ou pode ficar nauseado se colocar alguma coisa na boca. Pode até vomitar. Então, nada de estímulo na boca. Não beba, não coma nada.

Letra U: una forças. Você já está protegido, já se situou, já sentou ou deitou. Então, una forças, respire de novo para os próximos dois passos finais. 

R: remédio. Você vai tomar o remédio que o seu médico te mandar. Não se auto prescreva jamais, isso é muito perigoso. Mas existem remédios que são abortivos da crise de labirintite. Qual é a ideia dessas medicações? Fazer com que as crises sejam mais curtas e menos intensas, aliviar o sintoma. Seu médico vai te passar medicações para você lançar mão quando você estiver numa crise. 

E letra A: aguarde. Toda crise termina. Como a gente falou aqui, tem crises que duram dias, horas, segundos a minutos, mas ela vai passar. Então, aguarde. Você já está protegido, sentado ou deitado, já tomou o seu remedinho. Aguarde a crise passar. 

Com esse mnemônico da palavra tontura, a pessoa pode lançar mão no momento da crise para lembrar o passo a passo do que fazer. 

O sofrimento é terrível. Quem está me ouvindo agora e sofre de labirintite bem sabe o quão pesaroso, o quão incômodo é a tontura. 

Drauzio: Saulo, você disse que labirintite, embora seja uma causa de tontura, não é tão frequente assim. Quais são as causas que você vê com maior frequência na clínica? 

Dr. Saulo Nader: Disparado, a principal causa de vertigem é uma doença chamada VPPB. Só nomes estranhos dessas doenças com tontura, viu Drauzio. VPPB é vertigem posicional paroxística benigna. O que é? Dentro do labirinto, temos cristaizinhos que saem, escapam e vão para um cantinho onde não deveriam. Moral da história: a pessoa olha para cima e tudo gira; vira na cama, tudo gira; agacha para pegar um negócio no chão, tudo gira. 

VPPB é a doença provocadora de vertigem que mais acontece. E aí vem a grande mágica por trás, porque eu não preciso de remédio para tratar. Olha que maluco! O médico consegue fazer manobras com a cabeça da pessoa, em uma velocidade e ângulo específicos, que varre de volta os cristaizinhos para o lugar e a doença está resolvida. Então, estou te contando aqui que a principal causa de vertigem nem precisa de remédio para ser tratada. Já imaginou quanta gente tem por aí taxada de labirintite, tomando Dramin, Vertix, Labirin, nunca melhora e, na verdade, são os cristaizinhos que estão soltos e precisam ser colocados no lugar? Pois é. 

Outra doença que acontece muito, na sequência, super misteriosa, é chamada de TPPP. Falei que os nomes eram estranhos, hein? Tontura perceptual ou vertigem fóbica. É a segunda causa de tontura em adultos jovens. É uma tontura estranha. A pessoa tem dificuldade de contar, dá um vazio na cabeça, um oco; cabeça pesada, estranha e diferente; instabilidade, sensação de desequilíbrio, sensação de insegurança, de que vai cair, mas nunca cai; e piora dos sintomas em ambientes visuais com muita informação. Em ambientes com cor, luz ou movimento, por exemplo, um shopping, mercado, igreja ou estacionamento (locais amplos), a pessoa tem uma piora dos sintomas. Há ainda uma nítida correlação com o emocional. Ansiedade piora muito a tontura e vice-versa. Então, a tontura perceptual é também uma das causas mais comuns. 

Outra, hein? Vamos falar do nervo do labirinto – a neurite vestibular, que eu citei aqui. É a inflamação do nervo do labirinto, também uma das causas mais comuns. O paciente tem uma inflamação do nervo do labirinto e uma crise de vertigem absurda, horrível. Normalmente, vai para o hospital e dura dias a semanas. Até confunde-se com AVC. A missão do médico no pronto-socorro é diferenciar essa tontura neurite vestibular de um AVC, que seria mais perigoso. 

E outra famosa, para finalizar as mais comuns, é a doença de Ménière, que é uma pressão alta do labirinto. Vamos imaginar que o seu labirinto sofre de pressão alta. Quando isso acontece, há uma doença que gera crises de vertigem, zumbido e perda de audição. Normalmente, são crises de vertigem com mais de vinte minutos de duração, ou seja, prolongadas e com fenômeno auditivo. Então, durante a tontura, o ouvido entope, se escuta menos, apita forte ou chia o ouvido. Essas são as mais comuns.

Veja também: Neuralgia do trigêmeo | Entrevista

Drauzio: Para uma pessoa que tem crises de tontura ocasionais, quais são os sinais de alerta que dizem que não está legal e é preciso procurar um médico para fazer o diagnóstico?

Dr. Saulo Nader: Pegando carona na sua fala, é o que eu sempre digo: a tontura é um sinal de alarme. É o seu corpo te contando que alguma coisa não está legal. Então, ter tontura é um sinal de alarme. Lógico, tem de vez em nunca, fraquinha, ok. Se gerou impacto na qualidade de vida, ou seja, se foi uma tontura mais intensa; ou se são várias vezes, fracas, a ponto de estar te atormentando; já vale atenção médica, com certeza. 

E as pessoas sofrem muito com tontura, Drauzio, muito mesmo. O sofrimento é terrível. E são pessoas, normalmente, que não são muito compreendidas. Elas acabam até, às vezes, ficando constrangidas de contar toda hora o que sentem, porque não se sentem ouvidas e acolhidas. Então, quantas e quantas vezes buscaram ajuda, foram taxados de labirintite e nunca melhoraram? A pessoa sofre em silêncio por anos, muitas vezes, décadas a fio. O sofrimento é terrível. Quem está me ouvindo agora e sofre de labirintite bem sabe o quão pesaroso, o quão incômodo é a tontura. 

 

Drauzio: Quando você recebe alguém que vem com essa queixa de tontura, você, em geral, consegue fazer o diagnóstico só com a descrição do tipo de tontura e a história (o  tempo que ela durou ou que vem durando, etc) ou você precisa de exames adicionais?

Dr. Saulo Nader: Até brinco que se eu encontrasse uma lâmpada mágica de Aladdin e pudesse fazer três desejos para as pessoas que sofrem de tontura no Brasil, um deles seria que tivesse um exame mágico, que a pessoa fizesse e o médico recebesse exatamente o diagnóstico. “Olha, o problema está aqui, é esse”. Infelizmente, esse exame não existe. Então, sim, nós temos exames que a gente pode lançar mão na investigação da tontura, como ressonância do labirinto, eletrococleografia, posturografia, entre outras ferramentas neurológicas, mas na esmagadora maioria dos casos, com a entrevista médica e exame neurológico, a gente consegue decifrar a causa de tontura. 

Os exames são realmente de suporte e vão ser usados em alguns casos particulares. A maior parte das vezes, nem precisa. Como eu brinquei lá atrás, é uma medicina artesanal. Através da garimpagem da história da pessoa, mais os dados do exame neurológico, a gente consegue, na maior parte das vezes, chegar ao diagnóstico. 

 

Drauzio: E o caso específico da labirintite, Saulo, como você encaminha o tratamento? 

Dr. Saulo Nader: Dependendo do que for a doença, o tratamento será totalmente diferente. Vamos dar um exemplo: VPPB, faltou cristalzinho. Vou tratar com manobra, nem remédio eu vou precisar. Vamos dar outro exemplo que eu citei: a doença de Ménière, a pressão alta do labirinto. Vou dar remédios para o resto da vida para controlar a pressão do labirinto. No caso do nervo inflamado, neurite vestibular: doses altas de corticoide para ajudar a desinflamar. No cérebro, migrânea vestibular, uma enxaqueca especial que, além de dor de cabeça, dá vertigem e tontura: eu vou usar remédios antimigranosos, como por exemplo, propranolol, topiramato, ou injeção de anticorpo. 

Enfim, eu peguei alguns exemplos pra tentar passar a mensagem de que o tratamento é totalmente diferente, Drauzio. Então, naquelas mais de 40 doenças que existem, cada doença vai ter um tratamento totalmente diferente uma da outra. Por isso, a importância de decifrar qual é a doença por trás do que está sendo chamado labirintite. Porque o tratamento muda totalmente. Se eu encaro tudo como a mesma coisa e dou o mesmo remédio para todo mundo, ninguém vai melhorar. E é o que a gente vê acontecendo, infelizmente. 

Veja também: Dor de cabeça e enxaqueca | Entrevista

 

Drauzio: O que acontece muito entre os nossos colegas não especialistas, como os clínicos gerais, é que as pessoas se queixam de tontura, eles rotulam como labirintite e dá um desses medicamentos que você citou. 

Dr. Saulo Nader: Exato. E a gente vê que é um fenômeno global, viu, Drauzio? Não é um problema só do Brasil, é um problema mundial. A capacitação dos médicos para atender esse sintoma magno que é a tontura é muito ruim no mundo inteiro. 

Faltam especialistas. Somos poucos, somos raros no mundo, comparando com o tanto de gente que sofre de tontura. Olha a estatística: três a cada dez pessoas, ou seja, 30% da população, tem tontura em algum momento da vida. E somos pouquíssimos especialistas.

Você bem sabe que, na faculdade de Medicina, a maior parte dos médicos não se interessa muito por tontura. Pelo contrário, né? “Ah, é tudo labirintite”, “Ah, não gosto muito de tontura”. Então, existe essa tendência dos profissionais de saúde não terem muita afinidade por essa área, o que é uma das coisas que a gente luta na Academia Brasileira de Neurologia. A gente quer capacitar melhor os neurologistas e os médicos gerais para atender bem a tontura, saber fazer um atendimento com qualidade, pelo menos o “arroz com feijão” principal, e proporcionar mais saúde para a população. 

Não é culpa dos médicos brasileiros. Nós somos ótimos, a formação daqui é excelente. Eu diria que é uma das melhores do mundo, inequivocamente. É, infelizmente, uma deficiência mundial. É uma tendência global o ensino de tontura ser carente. 

 

Drauzio: Quando você tem alguém que vem com um quadro de tontura na fase aguda, você identifica, faz o diagnóstico e trata com medicamentos, manobras, enfim. Aí a pessoa sai do quadro, volta à vida normal, está tudo em ordem. O que você recomenda no estilo de vida que possa evitar a repetição da crise? 

Dr. Saulo Nader: Essa é uma pergunta que me fazem muito. “O que eu posso fazer, doutor, para evitar que eu tenha a danada da labirintite?”, “Eu nunca tive, como é que eu faço pra evitar?” ou “Eu já tive, como é que eu faço pra não ter de novo?”. Não temos essa resposta, Drauzio. Lógico que uma boa dieta, dormir bem e evitar estresse são medidas de saúde globais que vão ajudar na prevenção de qualquer tipo de doença, mas especificamente para as doenças vestibulares, viver é correr o risco. 

Qualquer pessoa está sujeita a ter tontura de repente. Pode ser que, agora, aconteça uma neurite vestibular em mim, pode soltar cristalzinho, como aconteceu com a minha esposa, psiquiatra. A gente fala que os médicos sempre dão azar, porque ela teve o tipo mais raro de soltura de cristais. Então, acontece. Pode acontecer ao acaso. Dependendo da doença, tem alguns fatores que têm que ser evitados, mas, no geral, não existe uma medida magna. Infelizmente, o risco está aí. Qualquer um está sujeito a ter. Tomara que você que está me ouvindo aqui não tenha, nunca. Tomara que você que já teve encontre o seu caminho para a melhora, estarei torcendo muito para isso. 

 

Drauzio: Saulo, muito obrigado por dividir a sua experiência pessoal com a gente.

Dr. Saulo Nader: Você que sofre de labirintite, não desista de encontrar o seu caminho para a melhora. Não desista, tá? Não aceite que tudo é igual, que tudo é labirintite, que você está tratando e não melhora. A esmagadora maioria das doenças que geram tontura têm, sim, tratamento. Dá para devolver para você qualidade de vida. Então, não desista. Fé e foco. Busque essa ajuda, busque médicos, você vai conseguir lidar e voltar a sua vida livre de tontura. 

 

Se você gostou dessa conversa com o neurologista Saulo Nader, você pode encontrar no nosso site mais de 100 episódios do DrauzioCast sobre os temas mais variados. Conheça também os nossos outros podcasts: Por que Dói?, Saúde Sem Tabu e Outras Histórias. Todos estão disponíveis nos principais agregadores. Um abraço a todos. 

 

Ouça também no YouTube:

Veja também: Nem toda tontura é labirintite

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

Leia mais