São frequentes as insatisfações com uma consulta médica. Para obter um diagnóstico preciso, o profissional deve seguir algumas etapas. 

 

Talvez você já tenha saído de uma consulta médica com a sensação de que o profissional não lhe dedicou a devida atenção. “Ele mal me examinou” ou “o médico nem me deixou falar direito” são queixas comuns em casos assim. Mas será que existe um protocolo de consulta a ser seguido? O médico precisa sempre tocar o paciente?

Ainda na faculdade, o especialista aprende que para conseguir formular um diagnóstico ou uma hipótese diagnóstica ele precisa ouvir atentamente a queixa do paciente, fazendo perguntas gerais, como as relativas aos sintomas e à época do seu início e à região do corpo afetada, até as mais dirigidas, como se há alguém na família com o mesmo problema, se o paciente viajou para uma região com doenças endêmicas e daí por diante.

Esse processo é chamado de anamnese médica ou entrevista clínica. Não existe uma duração pré-determinada para essa etapa, mas uma coisa é certa: é um pouco difícil realizá-la com eficiência em cinco minutos.

 

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Além da entrevista, recomenda-se também aferir a pressão arterial do paciente e a frequência do pulso para detectar se há alguma irregularidade cardíaca. Outras avaliações podem ser necessárias quando indicadas pela anamnese ou achados do exame físico. Pesagem corporal pode ser útil em casos de pacientes com sobrepeso, e testes de reflexos podem ajudar quando há suspeita de doenças neurológicas como epilepsia, por exemplo.

 

De olho no paciente

 

Na consulta, o especialista costuma realizar três condutas básicas que são classificadas como inspeção, palpação e percussão. A famosa tríade médica “ver, sentir e escutar”. À primeira vista, esses são procedimentos simples, mas se forem feitos com atenção permitem descobrir as primeiras pistas para um diagnóstico certeiro.

Na primeira vez em que fui a uma neurologista especializada em cefaleia (dor de cabeça),até estranhei o tempo de duração da consulta (mais de uma hora) e os procedimentos utilizados. A médica fez uma entrevista clínica minuciosa perguntando tudo sobre minha rotina (hábitos alimentares e de comportamento) e examinou atentamente minha cabeça, procurando pontos dolorosos, além de verificar se a dor não poderia ser causada por algum problema na ATM (articulação temporomandibular). Isso serviu para identificar o tipo específico da minha dor de cabeça — há mais de 100 — e prescrever um tratamento mais efetivo.

 

Inspeção

 

A inspeção significa olhar atentamente o paciente. Como isso é feito depende muito da especialidade médica do profissional. Um pneumologista, por exemplo, vai atentar mais para a região do pulmão. Além de ouvir as queixas, ele consegue diagnosticar problemas anatômicos como o pectus (deformidade do tórax que faz com que a pessoa tenha a região afundada ou projetada para a frente) apenas observando o paciente. Um reumatologista, por sua vez, pode ter pistas sobre um possível caso de lúpus só de atentar para a face do paciente, pois a doença costuma causar vermelhidão nas bochechas, próximo aos olhos. “Uma vermelhidão nas costas acompanhada de bolinhas com prurido pode ser herpes-zóster. Se o médico não estiver atento, pode deixar passar”, explica o pneumologista Carlos Jardim.

 

Palpação

 

É a fase em que o médico toca o paciente. A ausência da palpação é uma das responsáveis por reclamações do tipo “o médico nem encostou em mim”. Assim como os demais procedimentos, tocar é de extrema importância. Por exemplo, um simples toque na região na perna permite verificar se há retenção de líquidos, por meio da identificação de edemas. Contudo, é importante saber que, dependendo da queixa, conforme o médico registra achados durante a consulta, inspecionar ou ouvir podem ser mais importantes na investigação que o toque. É claro que para uma análise completa, o profissional não deve pular nenhuma etapa. Porém, se ao ouvir o relato do paciente o profissional rapidamente identificar o problema sem palpar, essa fase pode tomar menos tempo da consulta que os demais procedimentos.

 

Percussão e ausculta

 

A percussão restringe-se basicamente a ouvir os sons do corpo. Se você chega a um pronto-socorro reclamando de desconforto abdominal, por exemplo, ao apalpar o abdômen o especialista consegue perceber se o fígado está aumentado, o que pode sinalizar alguma doença hepática como cirrose ou esteatose (gordura no fígado). Ao dar leves batidas na região, ele consegue perceber se há presença de gases ou corpo sólido que poderia estar provocando uma eventual prisão de ventre.

A ausculta também está relacionada ao ouvir os ruídos do organismo, mas ela requer a ajuda de um aparelho, em geral o estetoscópio, que permite escutar de forma ampliada o ruído da passagem do ar pelos pulmões e os batimentos cardíacos. Dessa forma, o médico detecta se há acúmulo de líquido, muco ou secreção dentro dos pulmões, por exemplo, em consequência de inflamações ou infecções como pneumonia.

 

Excesso de exames

 

Ainda de acordo com o dr. Carlos Jardim, o excesso de exames que muitos médicos solicitam em determinadas consultas pode estar relacionado a um problema frequente na profissão: a dificuldade de escutar o paciente. “Infelizmente, isso ocorre com certa frequência com especialistas de convênio e serviços públicos, que precisam atender um número determinado de pacientes diariamente, num intervalo de tempo relativamente curto”, afirma. A falta de disponibilidade para ouvir muitas vezes faz com que as pistas que poderiam ser coletadas com a anamnese básica fiquem a cargo de exames que pesam nos sistemas de saúde pública e suplementar. “Normalmente, os pacientes que chegam aos ambulatórios apresentam queixas comuns, que não necessitam de exames sofisticados como ressonância ou tomografia.”

Infelizmente, a dificuldade para ouvir ocorre com certa frequência com especialistas de convênio e serviços públicos, que precisam atender um número determinado de pacientes diariamente, num intervalo de tempo relativamente curto.

Segundo o médico, somente situações bem específicas e definidas justificam o excesso de exames. Quando, por exemplo, o paciente já passou por vários médicos e ninguém consegue descobrir o que ele tem. “Aí, sim, a gente tem que ir além e começar a pensar em algo que não é tão comum”, avalia.

De qualquer forma, a escuta precisa ser bem apurada. Jardim se recorda do caso de um paciente que ficou internado vários dias em um hospital com problemas nos pulmões, sem que ninguém soubesse o que ele tinha. Conversando com a família, descobriu-se que o paciente havia visitado algumas cavernas. Essa informação foi suficiente para constatar que o paciente estava com histoplasmose, doença causada por fungos e que afeta os pulmões.

 

Como cobrar o médico?

 

Se durante uma consulta você sentir que suas queixas não foram muito bem compreendidas, a única saída é avisar o médico. É muito importante, também, que você conheça e expresse com clareza os detalhes importantes dos seus sintomas e evite fazer reclamações vagas. Por exemplo, em vez de dizer que está se sentindo mal, informe se teve febre, tosse, o nível de dor, se apresentou dificuldade para respirar, se os sintomas pioram em algum período do dia e quando começaram. “Conhecendo sua condição, você pode apontar para o médico e perguntar: ‘Você não vai auscultar meu pulmão?’ ou ‘não faz diferença examinar meu joelho?”, orienta Jardim.