Histoplasmose ou “doença das cavernas” é uma infecção causada pela inalação de esporos microscópicos oriundos de um fungo.

 

A histoplasmose, também conhecida como “doença das cavernas” e “doença de Darling” (Samuel Darling foi quem primeiro descreveu a doença), é uma infecção micótica sistêmica causada pela inalação de esporos microscópicos provenientes de um fungo dimórfico (cresce nas formas de bolor e levedura), saprófita do solo, o Histoplasma capsulatum.  Esse micro-organismo se alimenta de matéria orgânica em decomposição, que retira dos excrementos de aves e morcegos que habitam grutas e cavernas, galinheiros e pombais, ocos de árvore, poleiros, telhados ou construções antigas, por exemplo.

O Histoplasma capsulatum tem predileção por solos úmidos, ricos em nitrogênio, e clima temperado ou tropical.  No continente americano, já foram registradas áreas endêmicas da infecção nas regiões centro-oeste e sudeste dos Estados Unidos e em vários países da América Latina. O fungo foi também identificado em nações da África e da Ásia. Atualmente, é considerado de distribuição universal. Em julho/2018, o caso de 12 garotos e de seu treinador no time de futebol Javalis Selvagens, presos numa caverna da Tailândia por mais de duas semanas, reacendeu a discussão sobre os riscos que o contágio por esse fungo pode representar.

Importante deixar claro, porém, que a infecção pelo Histoplasma capsulatum não está restrita a grutas e cavernas. Agricultores, paisagistas, jardineiros, pessoas que trabalham na construção civil, com a criação de aves e o controle de pragas também estão expostos ao risco de serem infectados e desenvolver a doença.

 

A doença

 

A doença não é contagiosa, nem é transmitida de uma pessoa para outra. Embora seja considerada uma zoonose, não passa diretamente do animal para o homem. Também não confere imunidade depois da primoinfecção nos pulmões. O contágio se dá por via respiratória, quando microesporos se soltam do Histoplasma capsulatum e, absorvidos pelas vias aéreas, penetram no organismo do hospedeiro e se instalam nos alvéolos pulmonares, que inflamam.

 

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Assim que reconhecem os invasores, células de defesa chamadas macrófagos iniciam o processo de fagocitose visando a eliminar os germes patogênicos. No entanto, sob condições especiais de temperatura, eles sobrevivem e, transformados em leveduras, continuam crescendo e se multiplicando dentro dos macrófagos alveolares, de onde partem para invadir os linfonodos e penetrar na corrente sanguínea, o que lhes permite migrar para órgãos e sistemas distantes, onde estabelecem novos focos inflamatórios. Na tentativa de isolar os agentes invasores, que resistiram ao processo de fagocitose, surgem granulomas (ou nódulos) de natureza inflamatória nos pulmões.

A histoplasmose não é uma doença de notificação compulsória no Brasil, apesar de o número de casos estar aumentando a cada ano.

 

Período de incubação

 

O período de incubação varia de uma a três semanas.

 

Sintomas

 

Os sinais e sintomas da histoplasmose variam de acordo com a quantidade de esporos inalados, com a resposta do sistema de defesa do hospedeiro e com a intensidade da exposição ao agente infectante. Isso quer dizer que, quanto maior o número de esporos envolvidos, mais grave pode ser a infecção. O mesmo acontece quando o sistema imunológico está debilitado. Prova disso fica evidente na reação das pessoas saudáveis e imunocompetentes à infecção pelo Histoplasma capsulatum, uma vez que, em por volta de 90% dos casos, ela pode ser assintomática, autolimitada e regredir espontaneamente. Não é raro encontrar pessoas infectadas que nunca souberam sequer que já tinham entrado em contato com os esporos de um fungo presentes no ambiente.

Nos quadros sintomáticos, as manifestações clínicas são determinadas pelo tipo de histoplasmose que se instala. Em linhas gerais, são os seguintes:

 

  • Histoplasmose pulmonar aguda (caso isolado) ou epidêmica – em geral de curso benigno, autolimitado e de regressão espontânea. Quando provoca sintomas, eles são inespecíficos, a ponto de serem confundidos com os de infecções virais leves, ou com os da gripe ou da pneumonia. Febre, calafrios, inapetência, dores musculares, de cabeça e no peito, fadiga, tosse seca e persistente, palidez, falta de ar são os mais comuns;
  • Histoplasmose pulmonar cavitária crônica – acomete especialmente os tabagistas, com mais de 50 anos e portadores de lesões pulmonares (DPOC, enfisema, cavidades apicais e fibrose) que favorecem a proliferação do fungo. Febre baixa, sudorese noturna, tosse produtiva com secreção sanguinolenta, astenia, anorexia, perda de peso, nódulos calcificados são sinais da doença, muitas vezes, confundidos com os sintomas da tuberculose pulmonar;
  • Histoplasmose disseminada progressiva – é a forma mais grave do processo infeccioso, que se difunde pelas vias linfática e sanguínea e pode afetar todo o sistema reticuloendotelial (fígado, baço, medula óssea, glândulas adrenais, pele, mucosas, etc.) . Acomete especialmente os bebês, os adultos depois dos 55 anos e as pessoas com sistema imunológico debilitado, como portadores do HIV/Aids, de neoplasias, os transplantados e os que fazem uso de corticoides ou quimioterapia.

A forma disseminada da doença pode produzir complicações pulmonares, cardíacas, nas glândulas adrenais e nas meninges, que põem em risco a vida dos doentes.

 

Diagnóstico

 

O diagnóstico da histoplasmose leva em conta a avaliação clínica e o histórico de vida do paciente, incluindo as condições de trabalho, os lugares que frequenta e o possível contato prolongado com fezes de animais, especialmente de aves e morcegos.

Dada as características pouco específicas de grande parte dos sintomas, para chegar ao diagnóstico de certeza pode ser necessário recorrer a diferentes métodos de avaliação e análise, tais como:

 

  • Exames laboratoriais de cultura para a isolar o fungo em secreções brônquicas e catarro para acompanhar seu crescimento e evolução;
  • Estudo histopatológico (biópsia) realizado em amostras de tecidos retiradas das lesões, medula óssea, sangue e escarro;
  • Testes sorológicos para determinar a resposta dos pacientes imunodeprimidos às diferentes formas da doença;
  • Exames de imagem como a tomografia computadorizada e os raios X que permitem a localização de nódulos calcificados

O diagnóstico diferencial com a leishmaniose tegumentar, a sífilis e o líquen plano é de fundamental importância para a prescrição do tratamento.

Nos casos assintomáticos, a prevalência de histoplasmose detectada por meio da reação cutânea positiva para testes de histoplasmina pode de ser essencial para adoção de medidas rápidas para o controle epidemiológico da infecção.

 

Tratamento

 

As formas assintomáticas e pulmonar aguda dispensam tratamento específico. Na grande maioria dos casos, elas regridem espontaneamente e não deixam sequelas nas pessoas imunocompetentes.

No entanto, a introdução de medicamentos antifúngicos, como anfotericina B, cetoconazol, fluconazol e intraconazol, se faz obrigatória para os imunodeprimidos e nas formas crônicas e disseminadas da doença. Sem tratamento, nesses casos, a progressão da histoplasmose pode ser rápida e evoluir para óbito rapidamente.

 

Prevenção

 

Não existem medidas especificas para conter a disseminação do fungo Histoplasma capsulatum, que transmite a doença.  A prevenção está diretamente ligada aos cuidados pessoais de higiene e com a limpeza dos lugares onde o fungo possa proliferar. Portanto, ficam aqui algumas sugestões:

  • Molhe as fezes das aves ou morcegos antes de limpar o lugar onde foram depositadas, de lidar com terra de canteiros ou vasos, ou de exercer atividades em áreas que possam ter entrado em contato com excrementos desses animais. Isso ajuda a evitar que os agentes infectantes sejam liberados e flutuem no ar que será inalado por pessoas próximas;
  • Pense que alimentar pombos e outras aves em lugares públicos pode funcionar como agravante para a disseminação do fungo que transmite a histoplasmose em determinadas regiões;
  • Não sendo possível evitar os ambientes que facilitam a exposição aos esporos do Histoplasma capsulatum, que são muito leves e flutuam no ar, o recurso é utilizar máscaras faciais e luvas descartáveis para dificultar sua penetração no organismo dos hospedeiros;
  • Redobre a atenção e ponha em prática as medidas preventivas necessárias se, de algum modo, mantém proximidade com profissões (funcionários de empresas de limpeza pública e privada, de aviários, granjas ou produção de ovos, por exemplo), assim como com certas atividades de lazer (exploração de cavernas, etc.), porque partículas de poeira provenientes do solo contaminado e a exposição prolongada ao fungo, aumentam o risco de contrair a infecção.

 

Fontes

 

Mayo Clinic – Histoplasmosys

Ministério da Saúde – Histoplasmose: aspectos clínicos e epidemiológicos

Jornal de Pneumologia – capítulo 4 – Histoplasmose

Revista da Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba – Histoplasmose pulmonar