DrauzioCast #165 | Hipertensão em jovens

Jovens com comorbidades ou pais hipertensos também têm risco de desenvolver a doença. O controle da pressão arterial é importante para evitar problemas mais graves em qualquer idade. Ouça neste episódio.

Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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Publicado em: 12 de novembro de 2021

Revisado em: 16 de novembro de 2021

Jovens com comorbidades ou pais hipertensos também têm risco de desenvolver a doença. O controle da pressão arterial é importante para evitar problemas mais graves em qualquer idade. Ouça neste episódio.

 

 

 

Olá, nós vamos falar hoje sobre um assunto que em geral não recebe muita atenção. Todo mundo acha que pressão alta é coisa dos mais velhos. De fato, o número de pessoas com mais de 50 anos hipertensas é bem grande mesmo, mas a hipertensão não é uma doença que atinge só as pessoas quando têm mais idade; ela pode atingir os jovens, e eles não costumam prestar atenção.

Já o jovem nem mede pressão, nem nada. Acham que nunca vão ter problema, né?! Mas nós temos assim, mais ou menos uns 30% de brasileiros com pressão elevada, considerando todos os adultos, né? É uma doença que tem um fator hereditário importante. Por isso, se você tem a mãe hipertensa, pai hipertenso ou especialmente tem os dois hipertensos, você tem que saber que você tem um risco mais alto de desenvolver hipertensão durante a vida.

Em muitos casos, a doença também está associada a outros problemas de saúde, como diabetes, a obesidade — principalmente a obesidade — e até à vida sedentária. É importante saber logo o diagnóstico, pra poder controlar a pressão arterial e evitar as possíveis complicações.

Ninguém dá muita bola pra isso, acha: “ah, a pressão alta… Minha mãe tem pressão alta, mas ela está bem…”, mas a pressão alta pode ter complicações graves, entre elas o infarto do miocárdio, o AVC (acidente vascular cerebral), insuficiência renal, alterações visuais… Uma série de problemas eventualmente graves, que comprometem a qualidade de vida.

 

Quem está com a gente pra conversar sobre esse tema é a doutora Fernanda Weiler, que é médica cardiologista, especializada em estilo de vida e membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Seja bem-vinda, Fernanda.

Dra. Fernanda Weiler — Obrigada, Drauzio, muito obrigada.

 

Bom, nós vamos começar pelo começo mesmo, né? Quais são os fatores que levam uma pessoa jovem a desenvolver hipertensão? 

Bom, a hipertensão arterial é uma doença multifatorial, então não existe um só fator determinante pra pessoa desenvolver esse aumento da pressão, né? Então, fatores hereditários, né, como você disse, de ter pais que têm hipertensão, uma dieta inadequada, uma dieta rica em sódio, o sedentarismo, a inatividade, né? — que a gente hoje fala muito de sedentarismo, mas pouco de inativo; inativo seria aquela pessoa que passa uma parte do tempo sentado e não faz nenhuma atividade física, e o sedentário é aquela pessoa que não faz exercício físico, né, aquela atividade física programada —, mas as duas coisas, tanto a inatividade quanto o sedentarismo, combinam com esse aumento da pressão.

Então, além disso, o cigarro, o consumo de bebida alcoólica, a obesidade… Tudo isso são fatores que levam ao aumento da pressão — e isso a gente pode ter desde a infância. A gente tem, hoje, que pacientes que nascem com baixo peso e bebês prematuros têm maior chance de desenvolver a hipertensão arterial em fases mais precoces da vida também. Então, são bebês, crianças e filhos de pais hipertensos que a gente tem que tomar mais atenção, ter um cuidado maior e aferir a pressão com mais regularidade. 

 

Que peso tem a hereditariedade? Quer dizer, se eu tenho pai e mãe hipertensos eu estou fadado a desenvolver hipertensão inevitavelmente?

Não, não é inevitável. A gente tem bastante claro estudos de filhos gêmeos, gêmeos idênticos, em que um filho desenvolve hipertensão e que o outro filho não desenvolve hipertensão. Então, a gente consegue demonstrar com isso que não é um fator simplesmente hereditário, né?

Se você tem um dos pais, ou o pai ou a mãe hipertensos, aumenta o seu risco de desenvolver hipertensão em 25%; se os dois, o pai e a mãe são hipertensos, aumenta o seu risco em 60%, mas tem todos os outros fatores que podem diminuir o seu risco também.

Então, se você tem essa hereditariedade de pai e mãe, você tem 40% para correr atrás de não ser hipertenso. Então, você tem que se manter mais ativo, você tem que ter uma dieta mais adequada, você tem que ter cuidados maiores, mas você não está fadado a ser um hipertenso.

Veja também: Por que você deve redobrar os cuidados com a hipertensão? | Live

 

Fernanda, eu disse no início que os adultos jovens não se preocupam em medir a pressão e hipertensão pode ocorrer na adolescência, etc. E nas crianças?

Pode ocorrer. O que a gente está vendo hoje, né, Drauzio, é o aumento da obesidade infantil, um aumento do sedentarismo infantil. Hoje, nossas crianças ficam muito tempo no celular, nas telas de televisão e pouco ativas, né, não tem mais aquele de brincar na rua, correr, jogar bola e aquela atividade física no ambiente da criança.

E além do mais, eles consomem mais processados. A gente vê até em escolas, salgadinhos, crianças que trocaram frutas que a gente tinha na nossa infância por pacotes, né, então “coma mais, descasque mais e desembale menos” é a nossa meta de hoje pra criança também ter esse consumo consciente em casa.

Então, tudo isso está levando a um aumento da hipertensão na infância, e é uma doença silenciosa, então, muitas vezes, a nossa criança tem hipertensão e os pais não sabem — e a gente só vai saber quando surgirem os sintomas, quando a doença começar a ter suas complicações. Então, é importante na consulta de rotina a gente aferir a pressão arterial da criança, sim.

Hoje, a gente faz essa medida rotineiramente em crianças a partir de 3 anos de idade, né. Então, nas consultas de rotina com o pediatra partir dos 3 anos de idade, a gente usa um aparelho especial, o manguito do tamanho da criança, pra que possa fazer essa aferição. E não existe, na criança, um número, uma meta ideal; o que existe é uma curva, que a pressão tem que estar dentro daquela curva, então vai depender da idade da criança; se é um menino ou uma menina; vai depender da altura da criança, né, e seu peso. Então, tudo isso determina se ela está com uma pressão elevada pra aquela média da idade dela, ou se ela está com uma pressão diminuída. 

A gente usa gráficos pra estipular isso, né, então, assim, você medir em casa, com aparelho caseiro, pra dizer “meu filho está com a pressão 12 por 8, está boa” não é tão fidedigno. A gente tem outras formas de avaliar a pressão alta na criança. 

 

E mesmo uma pessoa jovem, vamos pegar uma menina, um menino de 17, 18 anos, saudável, que se alimenta adequadamente, que pratica atividade física… Pode ter pressão alta?

Pode. Nesses casos, de bastantes jovens saudáveis, que têm todos os hábitos de vida bons, né… Às vezes tem paciente que não bebe, não consome cigarros, tem uma alimentação saudável, mas, às vezes, tem o fator hereditário muito grande, e às vezes tem hábitos na família que levam a ele o aumento da pressão.

Então, hoje, a gente sabe assim, que o brasileiro, em média, consome o dobro do sal recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Então, essa recomendação é que o mundo coma cinco gramas de sal, né, o sal branco, que a gente come no mercado por dia. Nós, brasileiros, em média consumimos 10 gramas.

Então, às vezes, o paciente vai no consultório e a gente fala “como é que está alimentação?” e ele fala “tá normal”. Normal como? Normal do jeito que os pais dele comiam, né, comem, do jeito que prepara o alimento em casa. Mas, às vezes, é uma alimentação riquíssima em sódio, né, riquíssima nesse sal branco, porque no Brasil, a gente ainda tem muito o hábito de temperar o alimento com sal branco e alho, né?

Então, você macera aquelas duas coisas juntas e faz o tempo inteiro — e é isso que a gente tem que divulgar, é isso que a gente tem que desmistificar: que a gente precisa temperar, dar o sabor pro alimento com outros temperos. E aí o paciente fala “ah, doutora, não consigo. Esse alimento fica muito insosso”. E o que que a gente já sabe hoje também quanto ao sal? Que as nossas papilas gustativas, essas papilas que sentem os sabores das coisas na língua, elas sofrem um estilo de regulação. Ou seja, se o paciente come muito sal, muito sal, as papilas têm uma sensibilidade menor ao sal. Então, o paciente come bastante, pra tentar sentir esse gosto salgado.

Quando a gente tenta reduzir, nas primeiras duas, três semanas, o paciente sente, de fato, o alimento mais insosso. É como quando a gente vai comer na casa de uma pessoa que tem um tempero diferente do nosso: não é aquela comida que a gente está acostumada, parece um alimento insosso ou muito salgado, quando a gente sai de casa. E aí, por três semanas, as nossas papilas, elas começam a se regular novamente e a gente volta a sentir aquele gosto que a gente sentia antes — de um pouquinho mais salgado; isso também acontece com doce, né?

Então, às vezes, você vê paciente que se consome uma quantidade enorme de doce; as nossas papilas, quanto ao doce, conseguem diminuir, pra sentir menos esse sabor. E aí, quando a gente vai retirando o doce, a gente ativa essas papilas novamente, pra sentir o sabor doce. Então, é uma questão de adaptação. A gente precisa saber por que que esse paciente está desenvolvendo, numa forma jovem — 15, 16, 17 anos… — essa hipertensão. Será que esse paciente dorme bem? Será que não é um desses jovens que, às vezes, fica jogando videogame até muito tarde da noite [e] acaba dormindo um período muito curto da noite? Ou esse paciente — você disse que ele é atleta, que ele se move, que ele não é obeso… —, mas será que ele não tem alguma obstrução? Que ele ronca durante a noite e que isso não faz elevar a minha pressão arterial também?!

Então, a pressão arterial, ela precisa ser medida, pra gente descobrir o que o paciente apresenta, porque ela é uma doença silenciosa, nem sempre vai ter sintomas, mas ela precisa ser também investigada, pra gente saber o que que tá levando a essa causa. Será que é só os pais, que são hipertensos, que tá causando isso? Só hereditariedade? Ou será que, de fato, a gente tem um sono prejudicado? Ou será que a gente tem uma forma sedentária de ser? 

Aos 17 anos, o adolescente está começando a se preparar pro vestibular, muitas escolas, hoje, erroneamente, passam a deixar a educação física como uma matéria optativa, pra que o estudante tenha mais tempo pra se dedicar àquelas matérias que caem no vestibular, então a gente acaba obrigando o paciente a uma inatividade e a um sedentarismo, pra focar naquele estudo, né. Então, a gente vê isso muito, inclusive, nos estudantes de medicina; às vezes, era um estudante que até era ativo na adolescência, mas quando entra nesse ciclo de vestibular, de faculdade, de ter que estudar pra prova, de ser tão cansativo, vai se tornando inativo e acaba desenvolvendo uma doença crônica, como a hipertensão. 

 

Quer dizer, eu posso dizer que mesmo um adolescente ou uma adolescente magrinho, sem histórico familiar, ainda assim pode ter hipertensão?

Pode ter hipertensão, e por isso a gente precisa medir a pressão arterial desses pacientes com regularidade. Qual é a regularidade que a gente fala disso? É importante falar que pacientes que não tem na família casos de hipertensos, é importante a gente medir a cada dois anos a pressão arterial.

Então, a gente vê muitas vezes que esses pacientes, a primeira medida da pressão arterial, vai ser no exame admissional do primeiro emprego. Aí você pergunta pro paciente [que] apresentou a pressão alta nessa medida admissional “você já mediu a pressão antes?”, “nunca”, então, às vezes, a primeira vez que o paciente vai medir a pressão, aos 23, 24 anos. Ele nunca mediu antes. É importante a gente ter essa regularidade, pra gente pegar a doença na sua fase inicial, e a gente fazer o tratamento adequado, pro paciente não ter complicações ao longo da vida. 

Se a gente pensar que esse paciente, se for diagnosticado aos 15 anos, desenvolver uma hipertensão arterial aos 15 anos, ele vai ter cerca de 60 anos de vida pela frente, com uma média de pressão arterial elevada, as complicações que ele pode ter durante essa vida são muito grandes, né. É diferente de um paciente com 60, 70 anos, que vai desenvolver uma hipertensão arterial, porque o tempo de sobrevida dele não dá tempo de chegar a desenvolver tantas doenças, tantas complicações. 

Veja também: Como medir a pressão arterial corretamente?

 

Fernanda, dessas complicações, quais costumam ser as mais frequentes?

O aumento da pressão nos vasos, a gente pode pensar assim, como uma mangueira que a gente fecha a pontinha, né, então aumenta a pressão da água ali dentro daquele vaso. Nos vasos pequenos, que tem uma musculatura em volta do vaso, do encanamento, que mais é fina, ele pode chegar a se romper, e ele pode chegar também a hipertrofiar o vaso tentando segurar aquela pressão, ele vai se tornando cada vez mais grosso em sua parede.

Então, quando a gente fala em vasinhos muito sensíveis, como os vasinhos dos olhos, os vasinhos dos rins, a gente acaba por perder a visão; o rim não consegue mais filtrar aquele sangue que vem, então a gente acaba desenvolvendo uma insuficiência renal — e hoje a principal causa de insuficiência renal é a pressão alta, né. 

Então, a gente vê que muitas vezes, o paciente que tem pressão alta, acaba por desenvolver o diabetes e vai somando doenças crônicas, que levam a desfechos ruins pra mortalidade cardiovascular; aumenta o risco de infarto, aumenta o risco de AVC, porque alguns desses vasos podem não aguentar a pressão e acabam por se romper. E então, quando a gente tem rompimento de um vaso na cabeça, a gente tem um AVC, um acidente vascular cerebral, e isso é muito grave, né, pode trazer um impacto, tem uma perda de qualidade de vida muito grande pro paciente e até levar ao óbito. 

 

É, todos nós, médicos, temos casos de pessoas que chegam no consultório, você mede a pressão e essa pressão tá alta. Daí você diz “olha, está com pressão alta” e fala “eu? Mas eu não sinto nada”. O fato de não ter nenhum sintoma é indicativo de que nós temos a pressão normal?

Não, como a gente disse, a hipertensão é uma doença silenciosa. Então, às vezes, ela passa cinco, 10 anos elevada, sem ter nenhum sintoma. Pressão a gente não sente, a gente mede, né, a gente costuma usar essa palavra para dizer que a gente descobre quando a gente mede e está elevada.

Muitas vezes no consultório, Drauzio, a gente pega o que a gente chama de “hipertensão do jaleco branco” ou “hipertensão do avental branco”. O que que é isso? A pessoa tá um pouco ansiosa na consulta, né, tá com medo do que aquele médico vai falar, e a pressão acaba por subir, no momento em que o médico tá fazendo a consulta. Então, o diagnóstico da pressão alta não é feito na primeira medição, no consultório, em uma medida só, né. É um diagnóstico sério, que a gente vai falar pra pessoa que ela tem uma doença crônica, então eu preciso ter cautela nas medidas e dar esse diagnóstico.

Então, a gente faz duas a três medidas, assegura que o paciente estava em repouso, não é um paciente que veio, por exemplo, atrasado pra consulta, chegou, sentou na frente do seu consultório, né, não é aquele paciente que enquanto estava na sala de espera estava tomando um cafézinho — porque a gente sabe que a cafeína, o chocolate também aumenta essa pressão arterial —, então a gente tem algumas medidas para tornar essa medição da pressão arterial mais eficaz — e a gente conseguir dar esse diagnóstico.

Então, às vezes, a gente não consegue pegar uma hipertensão arterial numa medida no consultório, mas, às vezes, quando a gente pede pra esse paciente fazer uma tabela, medir em casa, anotar os valores pra gente e nos mandar os valores ou levar numa consulta de retorno, a gente percebe que em casa, a pressão dele está ficando mais aumentada.

Ou, pra um paciente que a gente quer medir como é que tá a pressão dele durante o sono, a gente pede aquela medida ambulatorial pressão arterial, MAPA, e a gente coloca o aparelho no braço do paciente, ele fica 24 horas medindo a pressão, e aí a gente tem um componente importante de ver como está essa pressão arterial durante o sono. 

A gente pouco lembra do sono, né? Acho que é importante falar nessa questão dos jovens, porque é tão, tão comum a gente escutar de professores, dos chefes no trabalho, falar assim “o que que você faz de meia-noite às seis?”, né, dando pouca importância ao sono do paciente, “de meia-noite às seis, eu durmo”, né, então eu preciso disso para manter uma saúde cardiovascular, uma saúde mental, um peso adequado… Tudo isso é influenciado pelo sono. Então, não é porque o paciente não sente nada que ele não tem pressão alta. A gente precisa investigar, medir, fazer medidas seriadas, muitas vezes, pra fazer esse diagnóstico.

 

E quando são… Quer dizer, normalmente você tem pressão alta e leva a vida normal, sem perceber. E, às vezes, você mede pressões bem elevadas em pacientes e eles estão [em] 17X12, “mas não estou sentindo nada”… Quando a pressão sobe muito, o que, quais costumam ser os sintomas?

O que que acontece? Esse paciente que chega com a pressão 17, 18 no consultório, provavelmente é um paciente que já vem com essa pressão sendo aumentada lentamente durante anos; não é um pico súbito. Então, não foi que de repente esse paciente chegou a 18; é um paciente que vinha de 12, 13, 14 durante anos, e que chegou naquele momento com 18. 

Pode ser que esse paciente com 18 comece a sentir uma tontura, um zumbido no ouvido, pode dar uma sudorese, uma cefaleia, dor de cabeça, o paciente pode se sentir mal, um mal-estar, uma angina, dor no peito, às vezes, até uma falta de ar. Muitas vezes, o paciente não sabe explicar o que ele está sentindo. Ele fala “doutor, estou me sentindo mal”, e aí você vai ver a pressão [e] está um pouco aumentada ou bastante aumentada.

A gente tem que saber que esses casos de pressão acima de 18, muitas vezes são urgências hipertensivas, então a gente precisa encaminhar esse paciente prum pronto-socorro. A gente precisa manejar com que a pressão volte ao normal o mais rápido possível, pra evitar essas rupturas desses vasos. 

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No caso dos jovens, você recebe um jovem com pressão um pouco elevada… Há sempre necessidade de medicamentos?

Não. Aí que entra a medicina preventiva, que ela é linda, né, então, assim, a gente fala que a mudança do estilo de vida é pra todo hipertenso. Então, a gente precisa mudar o estilo de vida, independente de entrar ou não com medicamento.

E a gente tem que, por exemplo, se você faz uma atividade física regular, a gente tem 30% a menos de chance de desenvolver hipertensão, então, atividade física deve ser prescrita pra todo paciente que entra em qualquer consultório médico — e qualquer médico, de qualquer especialidade, tem que tomar a frente disso, assim como a cessação do tabagismo: qualquer médico tem que abordar seu paciente fuma, porque o tabagismo traz inúmeras consequências a todo mundo, e a gente vê, inclusive, que a maioria das crianças que desenvolve hipertensão antes dos 10 anos de idade, são tabagistas passivas. Ou seja, tem pai ou mãe que fumam dentro de casa, né, então a gente vê que não faz mal só para o fumante, mas pra’quela pessoa que está convivendo com ela também.

Então, Drauzio, a gente precisa mudar seis pilares que a gente chama do estilo de vida: a gente precisa cuidar da alimentação desse paciente, a gente tem a dieta dash, a dieta mediterrânea, que são dietas comprovadamente eficazes pra baixar os níveis pressóricos, são dietas pobres em sódio, ricas em potássio, ricas em magnésio. Bem, então, a dieta rica em frutas, verduras, vegetais, grãos, feijões, né… 

Então, tudo isso e pobres em insumos animais — não é uma dieta vegetariana, mas são pobres em insumos como carne gorda, iogurtes gordos, então, a gente preza por um iogurte desnatado, a gente preza por gorduras boas, como a do azeite, como a que consta nas castanhas… Então, tudo isso a gente tem que falar pro paciente, informar que é a melhor dieta naquele momento. 

A gente precisa falar sobre atividade física. Que que a gente tem de atividade física ideal hoje pro paciente? Quanto mais ele se move, melhor, né. Então, quanto mais ele sai da posição sentada, fica em pé, já ajuda, mas se ele fizer uma caminhada, melhor ainda. Se eu conseguir que ele faça 150 minutos de atividade aeróbica por semana, ótimo; e se eu conseguir que, além dos 150 minutos, ele faça, duas vezes por semana, uma atividade resistida, excelente. Então, eu tenho isso como melhor pra atividade daquele paciente. 

Além da alimentação e da atividade física, eu tenho que orientar o sono do paciente. Às vezes, são pequenas mudanças. Por exemplo, a luz azul, ou seja, tela de celular, tela de televisão, computadores… Tudo isso emite uma luz azul, que muda a configuração das nossas ondas de sono, e isso influencia pra um mau sono, com aumento da pressão arterial — e isso eu preciso informar pro paciente: que duas horas antes de dormir, ele desconecte desse tipo de aparelho. Eu preciso ver se esse paciente ronca e tentar reduzir as apnéias que ele apresenta.  Então, às vezes, são pacientes que eu preciso indicar o uso de set up, daqueles aparelhos pra auxiliar na ventilação durante o sono. 

Além da atividade física, da alimentação e do sono, eu preciso falar com esse paciente sobre o controle de tóxicos, principalmente cigarro e bebida alcoólica, que é tão aceito na nossa sociedade hoje. Graças a Deus, as campanhas de tabagismo deram muito certo no nosso país, né, eu acho que você foi o principal incentivador dessa campanha contra o cigarro…

 

Um dos! Um dos…

…Mas a gente conseguiu bastante êxito nisso, e a gente precisa encarar a bebida alcoólica. O que que a gente tem, hoje, com a bebida alcoólica, de benefício? As pessoas falam “ah, mas tomar uma taça de vinho é bom?”, a gente tem estudo que mostra que até 30 gramas de álcool, no dia, estaria ok pro um paciente masculino, e 15 gramas por dia pro o feminino; para as mulheres, 15 gramas, para os homens, 30 gramas. 

E o que que dá isso em quantidade, né? Então, a gente vai falar em 15 gramas, a gente tem 240 ml de uma cerveja, ou 120 ml de um vinho, ou 30 mls de algum destilado — a vodka, uísque —, são 30 ml  só. Pro paciente que nunca bebeu, não bebe, a gente não deve estimular que comece a beber pra ter esse benefício, porque as chances desse paciente passar da dose e passar a ter os malefícios da bebida alcoólica, são grandes. 

Mas, no paciente que já tem o hábito de beber, a gente precisa estimular que esse paciente, em vez de juntar todas essas doses e tomar no sábado e no domingo, que a gente tome esses 240 ml de cerveja, se for o que ele gosta, uma vez ao dia, né, ou essa taça de vinho de 120 ml uma vez ao dia. Então, esse controle de tóxicos é muito importante também nessa mudança do estilo de vida. 

Um quinto pilar que a gente fala é sobre o controle do estresse. Aqui entra aquele paciente que você fala assim “nossa, mas fulano tinha uma vida tão ativa, fazia atividade física, comia super bem, tinha um corpão e infartou”, mas era aquele paciente que muitas vezes era super estressado no trabalho, dormia mal por tanto estresse, chegava ansioso em casa, à noite, porque não tinha como dissipar esse estresse. Então, a gente precisa ensinar pro paciente esse controle de estresse.

Tem pacientes que vai desestressar mexendo numa horta, tem paciente que vai se estressar vendo um filme, ou escutando uma música, ou até tomando um banho mais demorado, mas a gente precisa ensinar esse paciente a se conectar consigo, que saber o que que ele precisa pra atingir a calmaria, o que que ele precisa pra desacelerar o cérebro naquele dia e ter esse momento seu, né, então a gente tem que ter esses momentos de pausa durante o dia.

E o sexto pilar, que a gente fala na medicina do estilo de vida, é a conectividade. Como é importante a gente estar com pessoas, né, como é importante a gente estar conectado e não isolado. A gente sabe que tem as ‘blue zones’ — são as seis áreas do mundo, em que essas pessoas atingem a longevidade, com mais qualidade de vida —, e uma característica muito importante dessas blue zones, essas zonas azuis de longevidade, é que esses pacientes são hiper conectados; eles se conectam com a comunidade que vive ali perto dele, às vezes com o pessoal da padaria, às vezes com o porteiro do prédio, mas ele está sempre se comunicando — e esse é um fator de risco que a gente está considerando de grande gravidade, por conta da pandemia, porque tava todo mundo isolado por mais de dois anos, então a gente vai ter repercussões disso a longo prazo ainda.

A gente precisa incentivar que esse paciente seja inserido em ambientes saudáveis, a gente sabe, hoje, que o amigo do amigo do seu amigo, mesmo que você nunca o tenha visto, influencia no seu modo de viver, então se esse terceiro amigo do amigo do amigo do seu amigo, fumar, aumenta a chance de você fumar; se essa pessoa beber, aumenta a chance de você beber; se essa pessoa for obesa, aumenta o seu risco de obesidade.

Então, a gente precisa estar inserido dentro de um grupo, de uma comunidade saudável. Então, a gente mudando esses seis pilares, a gente tem uma grande chance de evitar as principais doenças crônicas, como hipertensão, o diabetes, a obesidade, né, então tudo isso é influenciável.

 

Fernanda, nós estamos chegando no final e eu queria que você falasse um pouquinho dos medicamentos. Quer dizer, os casos em que o adolescente precisa tomar medicamentos, como eles agem, assim, em linhas bem gerais?

Certo, os medicamentos, às vezes, eles agem diminuindo a força que o coração tem, pra diminuir a pressão que vai dentro desse vaso, e os medicamentos, às vezes, outras classes, agem dilatando esses vaso, pra que a pressão lá dentro também diminua. E outros medicamentos ainda agem jogando um pouco de água, jogando o sódio fora, ou seja, aumentando a sua diurese, aumentando a quantidade de urina, pra diminuir o volume de sangue circulando.

Tudo isso é individual. Qual medicamento vai ser melhor pra pessoa?  O médico dela que vai decidir. A gente tem algumas classes que a gente entra primeiro e testa, então tem paciente que fala assim “eu já comecei a tomar remédio pra pressão alta, mas eu não me dei bem”, tem que voltar no seu médico e tentar mudar a classe, tentar mudar o tipo de medicamento, que vai agir de uma outra forma, mas que também vai ter como resultado a diminuição da pressão arterial.

Então, não é porque um medicamento te deu algum efeito colateral, que você não tolerou, que você vai parar de tomar a medicação. A gente tem que… a mudança do estilo de vida é muito importante pro controle pressórico, mas o medicamento, muitas vezes, é necessário e é essencial. 

Então, a gente não pode suspender simplesmente os medicamentos, porque começou a fazer ter hábitos melhores, a fazer as coisas mais corretas; a gente acompanha com o médico, às vezes, a gente consegue diminuir esses medicamentos, né, a perda de peso, de 10% do peso corporal, a gente vê que é importante na redução da média pressórica, e, às vezes, a gente consegue diminuir um medicamento pra pressão quando a gente emagrece, mas a gente, às vezes, não consegue suspender totalmente.

A gente tem várias classes de medicamentos anti-hipertensivos, o mercado farmacêutico pra isso é bem desenvolvido, então se tiver um efeito colateral, vamos tentar outros, mas a gente não pode ficar sem o tratamento. 

Veja também: A hora de tomar remédio | Artigo

 

Os jovens, principalmente os adolescentes, são muito indisciplinados, né. Na tua experiência, você consegue fazer com que eles tomem regularmente a medicação todos os dias? 

Aqui a gente tem um estudo, Drauzio, que não só os adolescentes, mas o paciente em geral, é muito difícil a adesão medicamentosa. Então, a gente tem um estudo que mostra que 70% dos pacientes não estão usando a prescrição passada pelo médico 30 dias após a consulta, então é muito difícil que a gente consiga esse hábito, mas a gente precisa insistir. 

A gente tem algumas técnicas, ou seja, em vez de passar um medicamento que precisa tomar de oito em oito horas, três vezes ao dia, vamos tentar um medicamento que a gente consiga que seja dose única, e aí a gente conversa com esse adolescente, será que a gente não consegue deixar esse medicamento ao lado da escova de dente escova os dentes — escovou o dente, de manhã, e já toma esse medicamento? —. Tentar inserir essa prática, esse tomar o remédio com alguma atividade que ele já faça rotineiramente. E a gente consegue estipular assim.

Às vezes, pra um adolescente, é muito difícil a gente colocar um medicamento antes de dormir, porque esse paciente, às vezes, vai para festa, esquece o remédio; às vezes, dorme fora de casa, esquece o remédio. Então, às vezes, a gente consegue uma melhor adesão  se esse  medicamento for ao acordar, se esse medicamento for na hora do almoço, se esse medicamento, às vezes, for na hora do recreio da escola — que às vezes o remédio já fica dentro da mochila da escola. Então, a gente tem que ver como é a rotina desse paciente e tentar adequar o menor número de doses por dia à rotina dele. 

 

Fernanda, muito obrigado pela participação nesse DrauzioCast de hoje.

Eu que agradeço a participação, de poder divulgar as informações, de poder melhorar a saúde da população, né, e que essa informação chegue ao maior número de pessoas possíveis.

 

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