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DrauzioCast #158 | Apatia social



Com o avanço da vacinação no país, a pandemia começa a dar sinais de melhora. Por outro lado, muitas pessoas demonstram certa apatia social, ou seja, estão resistentes em voltar a se relacionar com os outros.

 

 

 

A pandemia nos pegou no meio da confusão em que estávamos vivendo. De repente, tivemos que nos recolher. Aqueles que tiveram condições puderam permanecer em casa e trabalhar sem sair do conforto do lar. E isso já tem muito tempo. Estamos há um ano e meio nessa vida.

Agora, começa a aparecer uma luz no fim do túnel. A população vai sendo vacinada, os números começam a melhorar (menos mortes, menos ocupação de leitos) e há um pouco mais de liberdade. 

Vamos deixar claro que essa liberdade é relativa. Nós não temos nenhuma possibilidade de sair por aí sem máscara, aglomerando, fazendo festa, churrasco em família, etc. Mas nós temos um pouco mais de liberdade, especialmente ao ar livre, porque o vírus se dissemina com muito mais dificuldade em ambientes bem ventilados, especialmente nas ruas. Ainda é muito cedo para a gente parar de usar máscaras, álcool em gel e deixar de seguir aqueles cuidados que todos conhecem.

Mas o que é curioso é que, nessa hora, a gente imaginava que as pessoas sairiam dizendo: “Puxa, que delícia, posso andar na rua outra vez, posso me movimentar mais. Não preciso ficar trancado o dia inteiro”. No entanto, curiosamente, alguns (ou muita gente) começa a se sentir meio estranho. Uma estranheza que vem ao estar fora e se sentir preocupado, com vontade de voltar para casa. 

Nós vamos discutir essa insegurança na hora de sair de casa. Até que ponto isso pode ser considerado parte do quadro atual e quando começa a prejudicar as pessoas na tão esperada volta? 

Para isso, nós trouxemos o dr. Daniel Barros, que é psiquiatra e professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). 

 

Dr. Drauzio Varella: Vamos começar pela pergunta básica, Daniel: o que é apatia social?

Dr. Daniel Barros: A gente tem visto esse fenômeno, Drauzio, justamente pelo que você falou. Agora, a pessoa pode retomar a vida, encontrar alguém, combinar um passeio no parque (seguro, ao ar livre, de máscara), mas ela está apática. Está com uma apatia voltada para esse encontro. 

Isso pode acontecer por vários motivos: a pessoa pode estar desacostumada, ainda não estar se sentindo segura, ou estar chateada e triste por causa do impacto de tudo o que aconteceu na pandemia. Podem ser muitos fatores associados a esse comportamento.

Mas a apatia social é exatamente isso: a falta do desejo, do brilho. “Pathos” vem do grego e significa “paixão”. Então, a pessoa não tem a paixão, o impulso para se relacionar socialmente ou presencialmente de novo. Talvez as pessoas até estejam se relacionando socialmente, mas por outras vias. Neste momento, ela sente que não vale a pena reestabelecer conexões um pouco mais presenciais ou com um pouco mais de “trabalho” (para sair, para se encontrar, etc…).

 

Drauzio: Você acha que o fato de a gente ficar mais isolado na pandemia colaborou para o aumento do número de casos de apatia social?

Dr. Daniel Barros: Com certeza, porque a apatia em si não é uma doença ou um problema. Pode ser um fenômeno transitório em que a pessoa está reaquecendo, “voltando para o jogo”. 

Isso pode passar ou ser sintoma de outra coisa, como um transtorno de ansiedade. Ela fala: “Não, eu não quero voltar ainda”. E ela nem discerne que esse não querer, na verdade, é estar com medo. Ou talvez ela pode ter se deprimido por conta de tudo que a gente passou. Nós sabemos que não houve uma explosão de casos de doenças mentais como a gente temia, mas as pessoas ficaram deprimidas. Na hora de voltar, elas dizem: “Eu não tenho motivação”.

Então, esse longo momento que passamos de restrição de movimentação e de isolamento imposto (para o ser humano, tudo que é imposto é muito mais difícil e doloroso) pode estar associado a esse comportamento.

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Drauzio: E quando é que essa sensação de não estar com vontade de encontrar os outros é considerada um transtorno psicológico?

Dr. Daniel Barros: Isso é bem interessante, Drauzio, porque a gente usa um critério que serve para praticamente qualquer comportamento. Quando a gente pensa em psiquiatria, a tristeza pode ser um sintoma, assim como o medo, os devaneios ou o uso de uma certa substância. Então, como é que você diferencia o que é um transtorno e o que não é? Como é que você vai dizer: “Não, isso aqui agora é um problema que precisa ser tratado”. 

O critério que a gente utiliza de forma geral e que é fácil das pessoas entenderem é quando a sensação não passa. Tudo que a gente sente geralmente vem e vai. A gente passa por aquelas emoções e as emoções passam por nós. Quando aquilo não vai embora, já é um sinal de alerta.

E também quando começa a trazer prejuízos na vida da pessoa. Mesmo sabendo que está sendo prejudicada, perdendo oportunidades, brigando com a família e tendo consequências ruins daquela situação que não passa com o tempo, ela não consegue reagir.  Então, opa, isso é um sinal de alerta.

Resumindo: se a sensação não passa ou está prejudicando a vida da pessoa.

 

Drauzio: Você tem, ao lado de algumas pessoas com essa apatia e esse distanciamento do outro, outras que vão a festas clandestinas no auge da epidemia. Existe alguma separação de tipos psicológicos? Existe um que é mais sujeito a desenvolver apatia social?

Dr. Daniel Barros: Com certeza. A gente tem uma diferença que praticamente corta a população em duas: são os introvertidos e os extrovertidos. Nós costumamos associar inadequadamente a introversão à timidez, mas não é a mesma coisa. A timidez tem mais a ver com vergonha, com achar que está sendo observado e julgado pelos outros. A introversão é preferir atividades com menos pessoas, gostar de ficar sozinho, ler ou ver um filme. A extroversão é o contrário: você gosta de gente, do agito, de encontrar pessoas.

Lógico que isso tem um espectro. Nem todo mundo está nos polos. Mas quando a pessoa ouve isso, ela meio que já se reconhece. Ela diz: “É, realmente, quando eu tenho que ficar muito tempo em uma festa, eu já me canso e tenho que voltar para casa” ou “Puts, quando eu tenho que ficar muito tempo sozinho, eu já começo a ficar aflito. Preciso de alguém”.

Então, de fato, a nossa sociedade estimula e privilegia com muita ênfase a extroversão. A introversão é quase como um defeito. Os pais dizem sobre suas crianças: “Não liga, ele é muito introvertido”. Como se isso  fosse um defeito a ser corrigido. A sociedade quer o relacionamento, o networking, a festa. “Sexta-feira à noite, você vai fazer o quê?”, “Ah, vou ficar em casa lendo”, “Nossa! Você tem algum problema? Não vai para nenhum lugar?”.

E aí veio a pandemia e a quarentena. Foi bom para os extrovertidos sentirem o que os introvertidos sentem. Foi bom nesse sentido de perceberem. Você que agora tem que ficar em casa sabe como se sente alguém que é obrigado a sair em uma sexta-feira para um happy hour contra sua vontade.

Tudo isso para dizer que as pessoas que têm mais tendência ou preferência pelo isolamento (e não que não tenham sofrido na pandemia, porque foi essa desgraça toda) são as que podem ter sofrido menos. Ou, pior, podem ter descoberto a possibilidade de viver uma interação muito mais restrita, resistindo mais na hora de voltar.

 

Drauzio: Na pandemia, tenho ouvido falar pela primeira vez em duas síndromes que eu não conhecia: a síndrome da cabana e a síndrome da gaiola. São sinônimos de apatia social?

Dr. Daniel Barros: É mais uma descrição de um estado de vida do que uma síndrome do ponto de vista clínico. É como quando os filhos vão embora de casa e os pais têm a “síndrome do ninho vazio”. Ou, como a gente brinca, a “síndrome do domingo à noite”: quando a pessoa vai ter que acordar na segunda de manhã e já fica meio melancólica. Não é uma doença, é um estado da vida emocional.

A síndrome da gaiola ou da cabana, na verdade, já vinha sendo descrita como uma tendência a partir dos anos 90. Eles chamavam de cocooning, que vem de cocoon (casulo, em inglês). Cada vez mais, as pessoas teriam a possibilidade de ficar em seus casulos. Isso na era pré-internet e logo que ela surgiu. Justamente porque já se imaginava a possibilidade do teletrabalho, das pessoas mudando de suas cidades para trabalhar em outros lugares, morando sozinhas. 

Então, esse encasulamento já vinha sendo um fenômeno a partir do século 20 e acho que realmente pode ter ganhado um impulso no século 21 com a pandemia.

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Drauzio: Você falou da internet. As redes sociais, especificamente, podem ter alguma influência nessa síndrome?

Dr. Daniel Barros: Difícil dizer, viu, Drauzio? As redes sociais têm muita coisa boa e muita coisa ruim. A gente sabe que o seu uso inadequado tem muitos prejuízos, mas a possibilidade de conectar e informar as pessoas tem uma grande riqueza. Ela pode ser um substituto, um “quebra-galho”, para alguém que se sente isolado e quer manter algum tipo de relação. 

No começo da pandemia, quando a gente estava naquela fase de que não sabia nem como se pegava a covid-19, se só de tocar na maçaneta contaminada já ficaríamos doentes, as relações sociais foram praticamente todas substituídas por relações virtuais. Então, elas têm esse ganho, essa ajuda. 

Mas será que isso pode ser uma das causas das pessoas não quererem sair de casa? Dizerem: “Não quero mais conversar com ninguém. Se eu quiser, eu converso aqui na rede social”? Eu acho que isso pode acontecer para algumas pessoas, mas é difícil. Não sei nem se tem estudos suficientes ainda para saber se isso vai acontecer em um volume significativo.

 

Drauzio: Hoje, nós vivemos tempos de grande radicalização política e isso gera um pouco de confusão nas redes sociais. Tem pessoas se ofendendo, xingando umas às outras. Você acha que isso pode colaborar? Fazer as pessoas pensarem: “Não estou afim de encontrar mais ninguém, quero ficar quieto no meu canto aqui”?

Dr. Daniel Barros: Isso eu acho que sim, Drauzio, porque gasta-se muita energia. A hostilidade desses embates drenam energia mental. A gente gasta arroz e feijão para pensar nessas coisas. 

A guerra dos likes realmente leva as pessoas para os polos, porque as redes sociais privilegiam respostas mais exaltadas, sejam para criticar ou para aplaudir de pé. Então, as pessoas acabam sendo levadas para esse turbilhão de polarizações e brigas e isso faz a gente se sentir cansado, sem energia.

A pessoa diz: “Já falei com muita gente hoje”. E ela nem saiu de casa, não saiu do celular. Dá aquela sensação de que falou com muita gente, de que está cansada e fica mais apática socialmente. Não vai querer se envolver ou encontrar alguém. “Ah, vamos lá! Vamos fazer um passeio na calçada só para a gente se ver”, “Não, não quero”. E assim, a pessoa pode ir se isolando cada vez mais.

 

Drauzio: Essa apatia pode acontecer com as crianças também? Qual a diferença entre elas e os adultos?

Dr. Daniel Barros: Como a criança tem mais energia, eu acho que custa mais tirar isso. Geralmente, quando a criança tem a possibilidade de sair, encontrar amigos, descer no prédio, ir para a rua, entre outros, ela não recusa. A gente vê menos as crianças dizendo: “Não, não quero, estou sem vontade”. 

É lógico, tem crianças introvertidas que gostam menos de sair do videogame e tem crianças extrovertidas que gostam mais de sair. Mas demora mais para uma criança ficar apática dessa maneira. 

É como a depressão. A gente sabe que pode atingir as crianças? Sim. Mas é bem menos frequente. Então, para uma criança chegar nesse nível de apatia, a coisa é mais grave e vale a pena a atenção.

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Drauzio: Nessa volta, todos nós temos vivido um pouco de apatia social. A gente vivia no meio dos outros conversando, no trabalho, na rua, em todos os lugares. Agora, as coisas mudaram. Nós passamos muito tempo sozinhos. E essa vida solitária também tem seus prazeres. Você acha que isso pode ter um impacto nas relações sociais que seja definitivo ou de longa duração?

Dr. Daniel Barros: Eu acho que não. Uma coisa que a gente aprendeu com a História é que a História não ensina nada. Nós vemos erros sendo repetidos de pandemia em pandemia. A gente já sabe os erros que vão cometer na próxima pandemia, seja quando for, porque passamos pelo fenômeno e voltamos para o estado inercial.

Então, eu não antevejo grandes mudanças. Posso queimar a língua, mas não antevejo mudanças de longo prazo, não. De alguma maneira, ainda que esse estado que todos nós estamos (um pouco estressados e cansados) seja geral, o ser humano é analógico. Ele precisa da coisa real, física, da presença. Isso é muito diferente. Acho que, quando isso for acontecendo, vai ser recompensador por si só. Mesmo para introvertidos como eu, que também sentem falta da vida normal. Voltando à normalidade, vai ser emocionalmente recompensador e vai colocar a gente “nos trilhos”.

 

Drauzio: Você acha que essa apatia social, mais ou menos grave, tem alguma relação e irá aumentar a incidência de outros transtornos como TOC, ansiedade e depressão?

Dr. Daniel Barros: A gente passou uma surpresa na pandemia. Todos os dados mostram que não houve um aumento da proporção de pessoas com transtornos mentais na sociedade. Quando a gente fala isso, tem sempre um susto. As pessoas respondem: “Nossa, mas os consultórios estão lotados. Eu só ouço falar disso”. Mas quando você faz pesquisas (foram feitas no Brasil e em outros lugares do mundo), a prevalência de pessoas na sociedade com algum transtorno mental não aumentou.

O que acontece, Drauzio, é que a gente sabe que existem muito mais pessoas doentes que não se tratam do que que se tratam. A Organização Mundial da Saúde (OMS) chega a falar em 80% de pessoas com depressão nos países em desenvolvimento que não sabem que têm depressão. Temos uma reserva de pessoas com transtornos não tratados muito grande. 

O que a pandemia fez, ao aumentar o foco sobre isso e sobre o sofrimento das pessoas, foi levar mais pessoas desse contingente não tratado a finalmente procurarem tratamento. Mas, de forma geral, o número de transtornos mentais na população não aumentou.

Mesmo um índice dramático e extremo disso, os comportamentos suicidas, também não aumentaram nos outros países em que foi medido. Então, a gente descobriu que somos mais resilientes como espécie do que imaginávamos.

 

Drauzio: Pois é, tudo que eu leio a esse respeito mostra exatamente o que você está dizendo. Na hora de publicar um trabalho sobre a prevalência desses casos de depressão e ansiedade, parece que não aumentou mesmo. Mas isso contrasta um pouco com o que as pessoas dizem. É muito comum ouvir de amigos e familiares: “Eu estou muito ansioso(a). Acho que estou ficando deprimido por não poder voltar a minha vida normal”. Você não acha que existe aí uma dicotomia entre a autoavaliação e a avaliação médica desses diagnósticos?

Dr. Daniel Barros: Com certeza, mas, provavelmente, são dois fenômenos. 

Grande parte das pessoas que estão falando isso já estavam mal. A prevalência de depressão e ansiedade no Brasil é altíssima. O país é campeão mundial em transtornos ansiosos. A pessoa diz: “Agora eu acho que estou ansiosa”. Não, você já estava, só não prestava atenção ou falava nisso. Essa é uma das explicações.

E a outra é a gente usar inadequadamente, no senso comum e na linguagem cotidiana, as palavras depressão, ansiedade, entre outras. Estar, hoje, meio mal, meio desmotivado, é normal. Não é depressão, é um reflexo da situação que estamos vivendo.

Quando eu trato meus pacientes, eles estão tomando remédio e voltam, eu costumava perguntar: “E agora, já está tudo bem? Ficou ótimo? Voltou ao seu normal?”. Hoje eu não posso mais perguntar isso, porque ninguém está normal. Eu pergunto: “Já está ruim que nem todo mundo?”. Se você estiver ruim que nem todo mundo, já voltou ao seu normal. 

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Drauzio: Tem alguma explicação para os brasileiros serem as pessoas mais ansiosas do mundo? E olha que o mundo é grande, hein…

Dr. Daniel Barros: Pois é. A ansiedade tem muito a ver com o futuro, com a gente viver e pensar no futuro. Algumas pesquisas mostram que o brasileiro é um dos povos mais otimistas do mundo. E em um primeiro momento isso me pareceu um contrassenso: como a gente pode ser o mais otimista e o mais ansioso? 

Mas eu acho que é pela nossa dificuldade de viver no presente. A gente está sempre esperando o que vai acontecer: vai melhorar? Vai piorar? O que nos aguarda? Não temos as coisas já construídas para que possamos contar no agora, então estamos sempre focados no futuro. Isso nos traz muita ansiedade, embora também traga otimismo. 

Mas essa é só uma teoria muito pessoal. 

 

Drauzio: Daniel, que tipo de recomendação você pode fazer para estes que estão se sentindo apáticos, desinteressados das pessoas e até do mundo?

Dr. Daniel Barros: Eu acho que o mais importante é a gente tentar diferenciar o que é doença e o que não é. Pode ser que a pessoa se descobriu introvertida. Ela passou a vida e cresceu em um mundo que a obrigava a ser extrovertida. Ela sofria e não sabia por quê. De repente, ela se vê com a possibilidade de ficar em casa, recusar o happy hour e se vê feliz. Ela pensa: “Nossa, eu não sabia que podia ser mais feliz simplesmente por recusar um happy hour”. De repente, essa pessoa não está apática, só está se descobrindo.

Mas será que é isso? A pessoa pode pensar: “Não sei, às vezes, eu perco oportunidades. Tem coisas que eu gostaria de fazer, mas não faço porque fico muito aflito”. Isso tem mais cara de ser uma ansiedade.

Ou não. Ela diz: “Eu realmente não quero fazer, parece que nada mais me motiva. Eu sei que seria legal sair, mas embora eu saiba, não toca o meu coração e não me dá ânimo para ir”. Poxa, isso pode ser outra coisa, da linha depressiva.

Eu sempre gosto de dizer, Drauzio, que, na dúvida, é melhor procurar e não ser nada do que ser alguma coisa e não procurar. É melhor conversar com um psicólogo, um médico de família, um ginecologista, quem você tiver acesso. Converse sobre isso para ver se é alguma coisa. Se for, ele vai dar encaminhamento. 

 

Drauzio: Nós somos seres gregários. Nossa espécie gosta de formar grupos, enturmar, etc. Antes da pandemia, uma pessoa que estivesse sozinha em casa em um sábado à noite ligava para um, não atendia; ligava para outro, saiu; ligava para outro, estava viajando. E ela acaba ficando sozinha em um sábado à noite. Antes, a gente acabava ficando deprimido por estar solitário. Hoje, quantos sábados à noite e feriados nós não passamos sozinhos? Vendo por esse lado, talvez tenha um lado positivo nessa experiência. O que você acha?

Dr. Daniel Barros: Não tenho dúvidas. Um dos problemas de a gente viver em uma sociedade barulhenta e extrovertida é a gente perder ou nem desenvolver a capacidade de discernir nossos próprios sentimentos, de olhar para dentro, de aproveitar a nossa própria companhia, de se entender melhor, de pensar, de refletir, de saber o que está sentindo. E esse é um exercício que você só consegue ali no silêncio. Você não vai conseguir isso em um barzinho ou em uma festa. 

Então, desde o começo, eu falo sobre isso: é uma oportunidade de voltar o olhar para si mesmo, de tentar se entender e discernir as nossas próprias emoções e pensamentos. 

Também não sou o apologeta disso. A gente não tem que fazer isso sempre, sem sair mais nenhum sábado. Não é isso. Mas, já que tivemos essa situação, vamos tentar fazer dela uma oportunidade.

 

Drauzio: Daniel, muito obrigado pela sua paciência com a gente outra vez e pelos ensinamentos.

Dr. Daniel Barros: Abraços! Eu que agradeço.

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Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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