Doença inflamatória pélvica (DIP)

A doença inflamatória pélvica é uma infecção que acomete os órgãos reprodutores femininos superiores e pode afetar os demais componentes da pelve e do baixo ventre.

Maria Helena Varella Bruna é redatora e revisora, trabalha desde o início do Site Drauzio Varella, ainda nos anos 1990. Escreve sobre doenças e sintomas, além de atualizar os conteúdos do Portal conforme as constantes novidades do universo de ciência e saúde.

close de mulher com avental de médico e mão no abdômen, em sinal de dor causada pela doença inflamatória pélvica

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A doença inflamatória pélvica é uma infecção que acomete os órgãos reprodutores femininos superiores e pode afetar os demais componentes da pelve e do baixo ventre.

 

O sistema reprodutor humano, também conhecido por aparelho genital humano, é constituído por diferentes órgãos e estruturas que se localizam interna ou externamente no corpo da mulher e do homem.

Sua função é viabilizar a continuidade da espécie por meio da reprodução sexuada dos indivíduos, aquela que resulta da combinação dos genes procedentes das células reprodutoras masculinas e femininas.

Veja também: Doenças ginecológicas e ISTs

O sistema reprodutor feminino é composto pela vagina, útero, tubas uterinas (antes conhecidas por trompas de Falópio) e ovários. Nas mulheres, recebe o nome específico de vulva, o único órgão visível situado fora do corpo e que faz parte do aparelho reprodutor.

Entre as principais funções desse sistema, destacam-se a produção dos óvulos (os gametas femininos) e dos hormônios sexuais (estrogênio e progesterona), assim como a condução dos espermatozoides até a tuba uterina e o alojamento do embrião no útero se tiver ocorrido a fecundação.

O sistema reprodutor masculino é constituído por órgãos que, em conjunto, respondem pela produção dos espermatozoides, os gametas masculinos. A maior parte está situada no interior do organismo. É o que acontece com os testículos, epidídimos, as vesículas seminais, os ductos deferentes e a próstata. Uretra e pênis, que pertencem tanto ao sistema urinário quanto ao reprodutor, e a bolsa escrotal constituem outros componentes da genitália masculina externa.

 

Pelve

 

Os sistemas reprodutores masculino e feminino representam parte dos elementos que compõem a pelve, estrutura formada pelos ossos ilíaco, ísquio, púbis, sacro e cóccix, que se localiza na porção final da coluna lombar.

Em outras palavras: a pelve corresponde à região do corpo humano que as pessoas definem como “cintura” ou “quadril”. Conhecida popularmente por “bacia”, pode-se dizer que ela representa uma área de transição entre o tronco e os membros inferiores e desempenha papel de extrema importância para o equilíbrio e a locomoção.

Entre suas funções, cabe ainda destacar a proteção às estruturas que conferem sustentação do tronco e suporte às articulações dos quadris. Ela serve também de abrigo para as partes moles que ocupam seu interior, como a bexiga, útero, ovários, próstata, ureteres e intestinos, por exemplo. Nas mulheres, a pelve parece ter sido projetada sob medida para acomodar o bebê durante a gestação e o parto.

 

Doença inflamatória pélvica

 

A doença inflamatória pélvica, DIP, é uma infecção que acomete os órgãos reprodutores femininos superiores – colo do útero, útero, tubas uterinas e ovários – e pode afetar os demais componentes da pelve e do baixo ventre.

Em grande parte dos casos, a doença se manifesta em decorrência de uma infecção sexualmente transmissível – com frequência a gonorreia e a clamídia – adquirida por meio de relações sexuais desprotegidas

Na hipótese de não ser precocemente tratada, o distúrbio pode atingir vários órgãos internos e representar uma causa expressiva de infertilidade nas mulheres.

São pouco comuns os casos de DIP antes da primeira menstruação (menarca), durante a gravidez e após a menopausa.

 

Causas da doença inflamatória pélvica

 

As bactérias Neisseria gonorrhoeae e Chlamydia trachomatis transmitidas por via sexual, assim como a Mycoplasma genitalium, constituem a principal causa da doença inflamatória pélvica, em mulheres jovens, entre 15 e 35 anos, com vida sexual ativa, múltiplos parceiros e expostas à prática de relações sexuais desprotegidas.

No Brasil, não há dados precisos sobre o número de pessoas infectadas. Alguns estudos mostram, porém, que a doença está ligada a aproximadamente 90% dos casos de infecção sexualmente transmissível.

No entanto, essa não é a única possibilidade de contágio. Parto normal, abortos, procedimentos ginecológicos cirúrgicos, colocação recente de dispositivos intrauterinos (DIU) e duchas vaginais, estas últimas em menor escala, respondem pelos outros casos da enfermidade.

 

Fatores de risco

 

Os fatores de risco para a doença inflamatória pélvica são praticamente os mesmos ligados a complicações das infecções sexualmente transmissíveis, tais como:

  • mulheres em idade fértil, que mantêm relações desprotegidas com múltiplos parceiros ou com parceiro sabidamente infectado;
  • portadoras de vaginose bacteriana;
  • uso de duchas vaginais como método para realizar a higiene íntima;
  • histórico de DIP ou de IST;
  • inserção recente de DIU (dispositivo intrauterino) que deve ser retirado tão logo seja diagnosticado o distúrbio.

*Entende-se por vaginose bacteriana uma proliferação anormal de bactérias que habitam naturalmente a vagina, em especial a Gardnerella vaginalis, mas que podem afetar outros órgãos localizados na pelve .

 

Sintomas da doença inflamatória pélvica

 

Dependendo da bactéria envolvida na manifestação da enfermidade, o quadro pode variar bastante, a saber:

  1. doença aguda e sintomática – em geral provocada pelas bactérias que induzem a gonorreia e a clamídia, é uma forma de doença inflamatória que se caracteriza por 1) dor abdominal ou pélvica, de início súbito e intensidade variável, que piora durante as relações sexuais ou entre os ciclos menstruais; 2) presença de corrimento vaginal com odor forte, desagradável, e de sangramento uterino irregular, às vezes acompanhado de náuseas e vômitos;
  2. doença subclínica ou crônica – quando aparecem, os sintomas podem ser leves, quase imperceptíveis. Ou seja, não há alteração da temperatura e tanto a dor quanto o corrimento vaginal são pouco expressivos. Esse abrandamento dos sintomas, que pode durar meses ou anos, acaba retardando o diagnóstico e, consequentemente, o início do tratamento. Resultado: com a falta de tratamento, a inflamação tende a agravar-se, a infecção progride e podem surgir complicações graves.

 

Diagnóstico da doença inflamatória pélvica

 

Não existem exames específicos que norteiem o diagnóstico da doença inflamatória pélvica. Muitas vezes, só é possível avaliar o quadro e estabelecer um prognóstico seguro, quando a queixa da dificuldade para engravidar está associada a lesões nas tubas uterinas, nos ovários ou no útero, que comprometem o sistema reprodutivo e não foram detectadas nos exames de rotina.

Nesse sentido, para estabelecer o diagnóstico, o médico se vale do levantamento do histórico familiar e pessoal de infecções sexuais transmissíveis, os sinais e sintomas apresentados, a avaliação criteriosa da região pélvica e dos órgãos reprodutivos, e o uso de contraceptivos. Leva em conta também os resultados obtidos nos testes laboratoriais de sangue/urina e em amostras do corrimento vaginal irregular.

Exames de imagem, como a ultrassonografia pélvica, a laparoscopia e a biopsia endometrial podem apressar o reconhecimento do processo inflamatório, a formação de tecido cicatricial nas trompas e a formação de abscessos nos órgãos do sistema reprodutor.

 

Complicações da doença inflamatória pélvica

 

Retardar o início do tratamento da doença inflamatória pélvica pode representar risco aumentado de desenvolver distúrbios irreversíveis, incluindo: 1) gravidez ectópica (também conhecida por gravidez tubária, ocorre quando o tecido cicatricial que se formou nas tubas uterinas impede que o óvulo fertilizado alcance o útero); 2) peritonite; 3) infertilidade; 4) formação de abscessos em diferentes órgãos pélvicos e no trato reprodutivo; 5) dor pélvica crônica.

 

Prevenção da doença inflamatória pélvica

 

A doença inflamatória pélvica pode ser curada. O mais seguro, porém, é adotar algumas medidas básicas para a prevenção da doença, o que pressupõe os seguintes cuidados:

  • uso da camisinha masculina ou feminina em todas as relações sexuais;
  • abstinência sexual até que tratamento com antibióticos tenha surtido os efeitos almejados;
  • avaliação e tratamento dos parceiros sexuais, mesmo que não apresentem sintomas, com o objetivo de impedir a propagação do agente infeccioso causador da doença e a recorrência das crises.

 

Tratamento da doença inflamatória pélvica

 

Como ainda não se conhece uma forma segura de reverter as lesões já instaladas no sistema reprodutivo da mulher, o principal objetivo do tratamento da doença inflamatória pélvica é interromper o processo infeccioso antes que esses órgãos tenham sido definitivamente danificados pela inflamação.

Para tanto, é introduzida uma combinação de antibióticos, por via oral ou intramuscular, que já foram testados no tratamento de infecções sexualmente transmissíveis (IST), especialmente a gonorreia e a clamídia, por prazo e dosagem previamente escolhidos pelo médico.

Essa indicação inicial, no entanto, pode ser ajustada de acordo com os resultados obtidos nos testes realizados para diagnóstico ou segundo a evolução do quadro. A internação hospitalar fica reservada para os casos que demandam a continuidade do tratamento com antibióticos por via intravenosa.

Sempre é bom repetir que os parceiros sexuais, embora assintomáticos, devem passar por avaliação médica e receber tratamento, uma vez que também podem ser portadores de agentes infecciosos.

Analgésicos, antitérmicos e anti-inflamatórios são considerados um recurso terapêutico útil para alívio dos sintomas, como dor e febre.

Durante o tratamento, a recomendação é que a mulher faça repouso e suspenda as relações sexuais a fim de evitar a recorrência da infecção.

A opção cirúrgica fica reservada para os casos que demandam limpeza e drenagem dos abscessos com risco de rompimento que se formaram no sistema reprodutivo da mulher.

 

 Perguntas frequentes sobre doença inflamatória pélvica

 

Quais os sintomas da doença inflamatória pélvica?

A forma aguda e sintomática pode causar sintomas como dor abdominal ou pélvica, de início súbito e intensidade variável, que piora durante as relações sexuais. Também pode haver corrimento vaginal com odor forte e desagradável, provocado pelas bactérias que causam gonorreia e clamídia e estão associadas à doença.

Algumas infecções podem ser assintomáticas até se tornarem mais graves.

 

Qual o tratamento da doença inflamatória pélvica?

No geral, trata-se a infecção que causou a doença inflamatória pélvica, por meio de antibióticos que também podem ser receitados ao parceiro ou parceira, mesmo que assintomáticos.

 

Quais as complicações da doença inflamatória pélvica?

A doença, quando não tratada corretamente, pode aumentar o risco de gravidez ectópica, peritonite, infertilidade, formação de abcessos em diferentes órgãos pélvicos e dor pélvica crônica.

 

 

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