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Saúde Sem Tabu #14 | Infecções ginecológicas e ISTs



Dá para falar de sexualidade com o ginecologista sem morrer de vergonha? Sim! Ouça este episódio e entenda por que isso é importante para a proteção contra infecções ginecológicas e ISTs.

 

 

 

A vergonha em falar sobre a vida sexual pode levar muitas mulheres a ter dificuldade de reconhecer as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Neste episódio do Saúde Sem Tabu, a dra. Juliany Nascimento Silva, médica que administra o perfil @ginecologistasincera no Instagram, explica sem rodeios os principais cuidados que a mulher precisa ter com a região íntima.

Ela detalha as características de uma vagina saudável e os sinais que podem indicar infecções ginecológicas, como a candidíase e a vaginose bacteriana, ou ISTs, como clamídia, gonorreia, sífilisHPV. A ginecologista ressalta ainda a necessidade de fazer exames preventivos e usar preservativos durante as relações sexuais. Ouça para saber mais.

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Olá, eu sou Mariana Varella, editora-chefe do Portal Drauzio Varella, e está começando agora mais um episódio do podcast de Saúde sem Tabu, que conta com apoio da Tena, marca líder mundial em produtos para incontinência urinária.

Este é o 14º episódio do nosso programa, e aqui é um espaço pra discutir temas de saúde que são cercados de preconceitos, e por isso costumam ser pouco ou mal abordados pela mídia e pelos próprios profissionais de saúde. Seja bem-vindo.

Se tem algo que é cercado de tabu é a saúde ginecológica, principalmente quando envolve a sexualidade. Embora tenhamos avançado muito nesse tema nas últimas décadas, questões como as infecções sexualmente transmissíveis, as ISTs, comportamento sexual da mulher e problemas ginecológicos ainda não são tratados com a naturalidade necessária.

Como reconhecer uma IST? Como procurar um médico pra diagnosticar uma IST sem ter medo de julgamento? Dá pra falar de saúde ginecológica sem morrer de vergonha? Dá.

 

E pra mostrar que esse assunto precisa ser discutido com tranquilidade, com base em evidências e tirando a moral de lado, eu trouxe aqui a ginecologista Juliany Nascimento Silva, que também administra o perfil ‘Ginecologista Sincera’ no Instagram. Bem-vinda, Juliany.

Juliany Nascimento Silva — Obrigado, é uma honra participar do Portal do Drauzio. Eu, sempre quando eu vou explicar alguma coisa [pro] paciente eu digo “olha, eu vou ‘drauziovarellar’ esse assunto, né, pra ficar claro”.  Eu digo “ó, vamos fazer uma ‘drauziovarellagem’”, porque acho que ninguém, como ele, explica. 

 

Que bacana. Juliany, eu queria começar falando de secreção vaginal fisiológica, né. A gente sabe que todas as mulheres apresentam, né, uma secreção vaginal, que é normal e que ela varia durante o ciclo, certo? Como a gente avalia se essa secreção é normal ou não? 

Eu até brinco com as mulheres no consultório, que eu digo que mulher nunca está feliz, né? Elas ficam de dois anos antes de menstruar — que é quando começa, né, a produção de estrogênio, né, gradativamente antes de menstruar; tanto que por isso que prolifera a mama — até a menopausa, ela fica reclamando que ela está úmida… “ah, porque eu tenho corrimento, eu tenho corrimento”… Aí depois ela vem da menopausa e reclama “ah, eu tô seca, eu tô seca”… mulher, decide, está seca ou está molhada?! 

Então, assim, durante o período reprodutivo da mulher, o hormônio dito feminino, que é o estrogênio, vai atuar na parede vaginal e vai produzir um secreções, né, tanto da parede vaginal, quanto do colo do útero — que é o muco cervical. E como é que vai ser essa secreção? Essa secreção geralmente é esbranquiçada, às vezes ela pode ser — dependendo da fase do ciclo, né —, quanto mais estrogênio, mais líquida e gelatinosa ela pode ser — na ovulação mesmo, por dois dias ela fica bem pegajosa, como uma clara de ovo —, e ela tem ou nenhum odor, ou o odor levemente adocicado, principalmente na primeira fase do ciclo, e um pouco mais ácido perto da menstruação, e ele é meio assim, farelento. Ele fica na calcinha como se fosse uma pastinha, e é interessante que ele corrói o forro e tem mulher que fica super preocupada, e na verdade é por causa da acidez.

Se for parar para estudar e pensar na anatomia da mulher, a mulher tem a barriga aberta, porque está lá a vagina, útero, tuba, a cavidade peritoneal, lá tá o fígado,  tá o intestino, os órgãos intestinais, tudo com contato com o meio externo. Então, a vagina, na verdade, ela é autolimpante, ele tem esse fluxo pra baixo, pra escorrer qualquer tipo de patógeno, né, de agressão que possa subir via pênis, dedo, DIU, cenoura  — cada um com a sua criatividade… ou, às vezes, até pela própria presença do ânus, né, que está ali do lado. Então, a secreção vaginal, ela tem essa importância tão grande e tanto tabu ainda ao redor dela, né. Se parar pra conhecer a anatomia e todas as funções dela, tanto pra proteção, quanto também pra facilitar a fecundação, eu acho que toda mulher ia honrar aquela secreção e a importância que ela tem. 

 

É, outra questão que é tabu também, que ainda preocupa muitas mulheres, é a questão do odor. Acho que muitas mulheres não tem parâmetro pra comparar, né, fica sem saber se o odor delas é normal, excessivo… Como ela pode avaliar o próprio odor nesse sentido?

É muito comum vir paciente pra mim com queixa de corrimento de repetição, eu examino, está normal; eu peço exame de secreção, está normal; e o problema é que ela está confundindo o odor da virilha com o odor da vagina. Eu até falo para ela: se chegar no verão, tu colocar uma blusa de lycra, de manga comprida, uma jaqueta jeans sem usar desodorante, tua axila não vai dar cheiro? Então, a tua virilha também vai dar.

Então, o certo, se quiser saber se o odor é da virilha ou se é da vagina, é depois do banho, com a mão bem limpa, de preferência unha cortada, colocar o dedo lá dentro da vagina, e quando tirar, sentir o cheiro que vem na ponta do dedo, que daí vem o cheiro da secreção mesmo. Se aquele cheiro da secreção realmente estiver desagradável, é hora de procurar ajuda médica, porque realmente deve ter uma infecção. 

Mas, se o odor vier leve, um pouquinho mais assim, ácido ou um cheirinho adocicado, essa secreção tá normal. Aí tem que melhorar a respiração, digamos assim, da região da virilha, né. Usar roupa mais folgada, evitar lycra, secar com secador de cabelo depois do banho, né — que tiver condições —, às vezes usar hidróxido magnésio, que é um antiácido, mas que é excelente para neutralizar o odor do suor — mas, é essa diferença.

 

A gente falou da secreção vaginal e também do odor fisiológicos, né. Como identificar a suspeita de que algo não vai bem? Como a mulher pode saber “poxa, eu acho que tem algo errado”?

Primeiro, pra ela saber que tem algo errado, é muito importante que ela se conheça, né, que ela se observe, preste atenção, acompanhe a sua secreção vaginal mês a mês, pra ver as variações que são naturais. 

Mas o que que assim, é clássico? Muda a cor… Cor mais amarelada, cor rosa ou acastanhada, que faça pensar em sangramento, ou esverdeada, com certeza não é normal. Se tiver coceira, ardência, dor na relação, vermelhidão, inchaço também deve ter algum tipo de infecção. Se tiver junto com o corrimento, né, mais purulento, febre, dor em baixo ventre, tem que ser procurado o quanto antes, porque pode ser uma infecção não só da vagina como uma infecção do útero, e o odor também. Se o odor ficar, né, tem mais famoso cheiro de peixe podre, mas algumas bactérias dão um cheiro de ovo podre. Isso com certeza não é normal e deve procurar ajuda. 

 

A gente falou desses problemas todos, mas eu queria que você falasse um pouquinho, porque a gente tem ideia de que as infecções são sexualmente transmissíveis, e nem todas infecções são sexualmente transmissíveis, né. Eu queria que você falasse das diferentes e quais são as infecções mais frequentes na mulher (sexualmente transmissíveis ou não)?

Ah, eu acho que o grande carro chefe da ‘gineca’ ainda é a candidíase, né? O nosso ganha pão diário é a candidíase. Mais de 75% das mulheres vão ter pelo menos um episódio de candidíase ao longo da vida, né, e é interessante essa pergunta, porque qualquer infecção vaginal em mulher sexualmente ativa, pra algumas é o primeiro sinal que acende: ela vai pro Google, ou já acha que está com câncer ou que está com gonorréia — é o clássico. 

Por outro lado, tem outros que tem corrimento e acha que é impossível ser uma infecção sexualmente transmissível porque está num relacionamento em tese monogâmico, então a gente tem os dois perfis extremos, que acabam não procurando ajuda no momento certo, ou se automedicando, enfim… 

Mas, então, acho que é candidíase é muito comum; vaginose bacteriana, que é aquele corrimento que tem o famoso cheirinho de peixe… também são infecções comuns e elas não são consideradas infecção sexualmente transmissíveis, porque pessoas sem atividade sexual podem ter. Por exemplo, candidíase não é raro em criança, né, e a vaginose pode ter também numa paciente que está sexualmente inativa há muito tempo só por uma desregulação ali, uma alteração da microbiota vaginal, mas elas também estão associadas a alguns comportamentos sexuais. Por exemplo, em lésbicas, a vaginose bacteriana costuma ter de 25 a 50% de correlação entre as parceiras, então apesar de não serem consideradas IST, elas podem estar relacionadas ao comportamento sexual.

Outra infecção muito comum também é a tricomoníase, que é um protozoário que faz, além de ter o cheiro mais desagradável até do que a vaginose, ele costuma dar bastante coceira, irritação, pode dar dor para urinar e imitar uma infecção urinária. Também muito comum, principalmente em pacientes mais jovens, é a clamídia, né, clamídia e gonorréia, mas a clamídia é mais comum.

E o problema da clamídia, da gonorréia, é que além da infecção vaginal, ela pode causar infecção uterina, não só na tuba, no colo — que é cervicite —, mas a endometrite do endométrio, né, dentro do útero e ainda na tuba, então isso tudo pode levar à infertilidade, é uma causa até comum de infertilidade, né. Além de ser causa na gestação de trabalho de parto prematuro.

Também a gonorréia está voltando com força, está super na moda, e daí tem as outras que não dão tantos sintomas genitais, que é como a sifílis, também geralmente como a lesão não dói, acaba passando batido; tem também muito HPV, demais, mas que está associada à verruga genital e câncer de colo do útero, canal anal… é, nossa, tanta coisa, né?!

 

Pois é, e dessas que você comentou mais frequentes, quais que são sexualmente transmissíveis só para a gente discernir aqui? 

Clamídia, gonorréia, e sífilis são puramente… A tricomoníase, ela também é considerada uma IST, mas existe a possibilidade pequena de ser transmitida, por exemplo, numa toalha molhada, num biquíni molhado, numa banheira… mas é raro. Maior transmissão mesmo comum é sexualmente transmissível mesmo.

 

Agora, [a] candidíase, não. Isso é uma coisa que as pessoas confundem muito, né? Candidíase eles acham que é sexualmente transmissível e não é, né.

Ah, já vi casal, mulher querer se separar por causa de uma candidíase. Confunde muitos… 

 

Você comentou por cima só, mas existem ISTs que elas causam sintomas diferentes, não só alteração do corrimento, né, da secreção vaginal, mas causam outros sintomas que às vezes a mulher nem relaciona que aquilo pode ser uma IST, né?

Sim, o mais comum é dor pélvica crônica mesmo, ou aguda, enfim, a dor em baixo ventre, a dor no pé da barriga. Se tiver corrimento com esse tipo de dor, não dá pra deixar passar. O problema é que, às vezes, a dor é tão sutil, é um incômodo, e daí ela fica postergando, vai melhorar, melhorar… De fato, acaba melhorando, mas ficam as sequelas daquela infecção, né?!

 

E ela nem percebe, né, que é uma infecção?

Nem percebe.

 

E quais são os exames que devem fazer parte da rotina do cuidado da saúde da mulher e quem deve realizá-los? Serve pra todas as mulheres ou isso varia? 

Mantendo primeiro no tema sobre  IST, apesar das infecções terem uma prevalência muito alta, né, o rastreamento dele, assim, pra todo mundo, de todas as ISTs, é praticamente inviável, né, o sistema de saúde de qualquer país não suportaria. 

Daí, a recomendação é fazer a clamídia todo ano, pra mulheres abaixo de 25 anos que sejam sexualmente ativas; pra parceria, né, mesmo pra quem tem relação fixo, o ideal seria todo ano fazer HIV, hepatite B e C e sífilis — lembrando que a gente está em surto de sífilis desde 2011, o gráfico, ainda hoje estava olhando, é pavoroso; ainda comentei com amigo meu que em 2013 eu ficava apavorada, e eu não sabia de nada, deve estar três vezes mais do que tinha 2013 —; agora, de rotina de saúde mesmo, né, o que que tem que ser feito? O preventivo. 

Toda mulher entre 25 e 64 anos que teve ou tem atividade sexual — e lembrando que lésbicas não são virgens, elas têm atividades sexuais; se tiver qualquer tipo de atividade penetrativa, ela deve fazer o preventivo —, a periodicidade do preventivo vai depender de acordo com fatores de risco — algumas mulheres vão ter que fazer todo ano, outras vão poder fazer de três em três anos depois de dois exames negativos —, e ele, só para frisar, eu acho importante, que o preventivo pode ser feito com um médico, seja ele generalista ou ginecologista, e com um enfermeiro, que é uma coisa que muita mulher ainda tem resistência, ficou a ideia de que tem que ir no ginecologista todo ano [e] isso não é verdade; a rotina de saúde da mulher pode ser feita com tanta qualidade com ginecologista, quanto com enfermeira no posto de saúde. E o outro exame também, que daí já é um pouco mais controverso, é a questão da monografia, né?! 

Pelo Ministério da saúde, é pra fazer entre 50 e 69 anos, a cada dois anos; pela Sociedade Brasileira de Mastologia e pela Federação Brasileira de Ginecologia Obstetrícia, tem que ser feito anualmente, a partir dos 40. Mas, hoje em dia, o que se sabe é que a decisão deve ser individualizada, mulher a mulher, de acordo com o que é prioridade pra ela, porque quanto mais exame mais cedo, mais a chance de um falso positivo gerar biópsia, gerar procedimento desnecessário. Por outro lado, se fizer o rastreamento também pode conseguir pegar, né, um nódulo um pouco menor. Então, isso deve ser discutido com um profissional de saúde que tiver acompanhando, seja médico ou enfermeiro.

 

A gente vê ainda, Juliany, que as pessoas associam muito IST a um número de parceiros ainda, né? Isso faz com que as mulheres tenham vergonha de buscar atendimento médico de saúde, por medo do julgamento moral. Faz sentido a gente relacionar IST a número de parceiros e ainda falar em grupo de risco?

É que assim, ó, só pra contextualizar quem estiver escutando a gente, antigamente, lá no começo da epidemia de aids, se colocou esse conceito de grupo de risco, né. Ah, então existe o grupo usuário de droga; profissional do sexo; e homem que transa com homem. Aí eles viram que começou gente que não estava nesse grupo a pegar infecção, aí começaram “não… comportamento de risco”. Hoje em dia, a gente já sabe que não, já tem um outro conceito de vulnerabilidade, algumas pessoas vão ser mais vulneráveis ou não. 

A maioria das ISTs realmente tem associação com o número de parceiros, porque quanto mais tu se expõem a um evento, maior a chance dele acontecer. Porém, o que o pessoal não entende é que ter um único parceiro não exclui tu de ter uma IST, porque ele pode ser teu único parceiro, mas não necessariamente tu és o único parceiro dele — e é isso que o pessoal ainda tem uma crença, né.

Eu até brinco com as mulheres: se tem pesquisa que mostra que 50% dos homens traem e 100% das mulheres acham que não são traídas, têm 50% que tá equivocada, né. É uma moeda: cara ou coroa, né. Então não dá pra partir, né, deixar tua saúde na mão de outra pessoa assim, desse jeito, né.

 

Claro.

Quando vem mulheres, às vezes, quando é difícil explicar esse conceito, eu uso um exemplo assim, ó: tu farias um empréstimo de 50 mil reais no nome e daria o dinheiro pro teu namorado? Faria empréstimo pra ele no teu nome? “Ai, eu não faria”, ué, mas tu transa sem camisinha. Sua saúde vale menos que 50 mil reais?

Tem que fazer testagem, no mínimo, quando começa o relacionamento e opta por abandonar a camisinha — no mínimo —, e o ideal, além desse basal, é fazer todo ano e ainda assim vigiar o corpo, todos aqueles sinais que a gente já comentou, porque se tiver alguma alteração, IST tem que ser levado como diagnóstico diferencial, né, tem que ser investigado.

 

E você não acha, Juliany, que também tem um pouco [de] não sei se ignorância ou se medo dos próprios profissionais de saúde, por exemplo, em relação a mulher que está casada há muito tempo ou que não tem cara entre aspas, né, de que sai com outros homens, enfim, você não acha que tem um pouco de preconceito e isso faz com que alguns médicos deixem de pedir exames, por exemplo, pra mulher grávida ou pra mulher que está casada há muitos anos, ou para mulheres mais velhas, já presumindo que elas têm uma vida sexual mais tradicional, e que por isso elas não estão expostas a ISTs e outros problemas ginecológicos?

Ginecologistas são criados na mesma sociedade que elas, então alguns, a despeito de todas as evidências científicas, realmente vão reproduzir esse tipo de comportamento, né? Eu, inclusive, uma vez atendi uma médica, com exame… ela tinha dor pra urinar, eu coloquei clamídia, junto não lembro se foi clamídia ou mais séria, veio positivo, e ela, médica, falou que aquele exame, que era um PCR, estava errado, porque ela confiava no marido. Uma médica, então, assim, é muito difícil ainda essa questão da infidelidade, né, de falar sobre a possibilidade de uma traição no relacionamento de longo prazo, né. Isso aí abala as estruturas da família tradicional brasileira. 

 

Pois é.

Então, ainda é muito difícil. Então, tem profissional que tem dificuldade de pensar nisso? Tem, mas também pra gente é difícil de pedir. Eu já tive uma gestante que se recusou a fazer pré-natal comigo, ela pediu pra ser encaminhada a um hospital que era quase 50 km de distância da onde ela morava, porque eu disse que além de fazer exame de sorologia dela — HIV e sífilis — na gestação, eu precisava fazer do marido. 

Porque não tem sentido ficar fazendo da gestante de três em três meses, se a probabilidade dela pegar é dele, tem que testar o parceiro. Ela fez o dela, mas ela se recusou a fazer o dele e achou que era um absurdo eu desconfiar dele. Quer dizer, dela eu podia desconfiar, mas dele, não.

 

Pois é, né? A gente tem visto até HIV crescendo agora em pessoas com mais de 60 anos, muito porque a vida sexual das pessoas continua depois de 60 anos, né, mas ninguém pensa…

Com viagra mais ainda, né?

 

…É, e as pessoas não pensam que podem pegar HIV, né, e é uma geração que não sofreu tanto, apesar de que associa ainda HIV muito com determinados comportamentos. Bom a gente pediu pro pessoal da nossa comunidade do YouTube trazer algumas dúvidas sobre saúde ginecológica. Olha que legal, a Shirlene Soares disse: “minha pergunta é: é normal a candidíase na mulher se repetir por várias vezes? Isso pode trazer outros problemas mais graves?” Quer dizer, candidíase é um assunto super recorrente aqui.

É o carro-chefe da ginecologia. Então, mais de quatro episódios por ano já é considerado uma candidíase recorrente, tá. E daí pode ser por alguma coisa do sistema imunológico dela, pode, mas pode ser também alguma coisa em relação a hábitos de vida, né, uma alimentação inadequada, excesso de estresse… Às vezes também é em relação ao ato sexual, algumas mulheres melhoram só do parceiro começar a usar camisinha, mas o ideal é que se ela está tendo, ela procure o quanto antes um ginecologista porque é muito desconfortável. 

 

É…

Candidíase, assim, impacta a qualidade de vida demais. 

 

Tem algumas infecções que podem atingir o trato urinário também, né, Juliany? E que cause, por exemplo, infecção ou incontinência urinária, e isso também é muito pouco falado, né? A gente associa muito com corrimento, mas com essa parte urinária também é do trato geniturinário, não é isso?

A-hã, é muito perto, né, a saída da uretra é tão perto, que tem mulher que tem dificuldade de enxergar que são três buracos: ânus, vagina e uretra. Tanto a irritação da vulva… Suponhamos assim, ó, por exemplo, uma mulher está com uma irritação por excesso de higiene, porque é a doida do sabonete líquido, porque pega sabão em barra e esfrega como se estivesse lavando a calçada. 

Ela vai poder ter uma infecção urinária só pelo fato daquela região ali, da uretra, estar sendo lesionada, mas tricomoníase, a gonococo, né, da gonorréia e a clamídia, elas podem causar uretrite e levar sintoma igual de infecção urinária e podem abrir porta para uma infecção urinária mesmo, uma infecção mesmo de bexiga, e às vezes que pode ascender e até pacificar uma infecção renal. 

Então, realmente, dor, foi lá e transou e imediatamente começou com dor na relação? Provavelmente foi do trauma. Passou alguns dias, começou com a dor que não aconteceu? Pode fazer exame, que pode ser uma IST. 

 

Tá, o André Corrêa quer fazer uma pergunta que é bem interessante e fazem direto aqui pra gente: antes se dizia DST, né, doença sexualmente transmissível, agora é IST (infecção sexualmente transmissível), por que que mudou? E qual a diferença entre infecção e doença? 

Então, essa nomenclatura mudou em 2016, primeiro pra tirar o estigma de doença, né, eu estar doente… Nem todo portador de alguma infecção vai ter sintoma. Pelo contrário, a maioria das mulheres são assintomáticas. 

Então, quando muda pra chamar de infecção, é mais fácil pra pessoas que está totalmente assintomática entender que ela tem algo, porque ela não está doente. E também, assim, ela tem uma infecção… Ninguém, quando, por exemplo, pegou gripe [diz] “ai, eu estou com uma doença do nariz”, né, ninguém fala isso, ué, “eu tô com uma infecção respiratória”. 

Então, é uma coisa que a gente precisa para ontem: normalizar as infecções genitais como uma infecção de ouvido. Ninguém chega arrasado, escondendo, “ai, só vou me abrir com a minha melhor amiga, que eu peguei um pneumococo, nossa, peguei um pneumococo…”, ninguém faz isso, mas se pega uma clamídia, meu deus, a pessoa guarda a sete chaves e morre de vergonha de falar que pegou, mas é uma infecção, é uma bactéria, só mudou o sítio. 

Por que que a gente tem que ter tanto tabu em relação à atividade sexual, né? A gente tem sete bilhões de pessoas, a minoria vem de fertilização, então a gente sabe que as pessoas transam, né, e mesmo assim ainda tem tanto tabu em cima. Então, essa mudança de termo veio para tentar suavizar um pouco o tabu que existe sobre essas infecções.

 

E essa relação com a culpa, né? Porque parece que você fez uma coisa horrível, né? E não é uma coisa que todo mundo faz…

E daí tu foi castigado…

 

É, exatamente…

A infecção veio pra te castigar. É uma consequência.

 

E isso dificulta acesso a serviço de saúde, a tratamento, a tudo, né, porque a pessoa esconde.

Demais… Olha, ano passado eu atendi uma menina, adolescente, 16 anos, com uma verruguinha, sabe? Tipo, ai, super normal em adolescente. A menina estava com ideação suicida, por causa de algo que provavelmente ela vai se curar, tratando ou não, é só fortalecer o sistema imunológico, porque tende a desaparecer sozinho e que provavelmente nunca mais vai incomodá-la na vida, e a menina tava pensando em suicídio. Pra ver a quantidade de tabu que tem sobre infecção genital. 

 

É um horror. A Isela Gomes quer saber: é possível pegar herpes através do batom? Já ouvi falar isso, mas não sei se é mito. Aí acho que é legal falar dessa coisa do herpes (o herpes genital, o herpes labial), enfim.

Então, tanto o genital, quanto o labial são causados pelo herpes, o vírus da herpes simples, né, que é diferente do varicela, que é o da catapora.

E é legal ela fazer essa pergunta, porque é uma coisa que tem muitas pessoas que não sabem: que o herpes na boca pode passar no genital, e às vezes a pessoa está com lesão na boca e faz sexo oral. Então, assim lembrando que se tiver lesão, tanto genital, quanto oral, é importante evitar contato.

Agora, pegar de batom, de copo, a probabilidade é praticamente nula, teria que ser muito rápido, porque só de entrar em contato com o ar, o vírus já deve… ele já geralmente é inativado, então, pelo batom, nossa, ela ia ter que fazer assim, né, nela mesma e na amiga, assim, quase se beijando pra conseguir. É muito pouco provável que aconteça.

 

Pra gente terminar, eu queria falar um pouquinho de higiene. O excesso de higiene pode ser prejudicial também, tanto quanto a falta de higiene ou não?

Muito mais, né, eu atendo muito mais mulheres com lesão por excesso de higiene, do que por falta. Aliás, eu acho que eu nunca atendi nenhuma mulher por falta de higiene que eu dissesse “olha, amiga, você precisa se lavar assim ou assado”. Agora, eu tenho pacientes com feridas que mimetizam, assim, chega a ser parecido com uma cândida super agressiva, faz exame e ela não tem nada. Ela está literalmente arrebentada de tanto se esfregar. 

Eu até brinco que a natureza não colocou sebo, gordura ali, de graça, né. É uma área sujeita a umidade, então ela precisa ficar com uma certa impermeabilização. Então, não é para tirar totalmente a gordura dali, né, não é para ficar esfregando o sabonete. E outra coisa, todos esses produtos com perfume são péssimos pra’quele lugar, não é um pra estar perfumado,  né.

Se for parar pra ver a mucosa ali daquela região, não é muito diferente da boca, ninguém vai botar perfume na boca, no nariz, nos olhos, ninguém vai pingar nada no olho. Então, água ou sabãozinho neutro, a base de glicerina, mas para lavar a virilha, os grandes lábios, ótimo. Não precisa ficar se esfregando.

 

E ducha vaginal não precisa também, né?

Ai, só de tu falar me dá até um ‘siricotico’, me dá três tipos de ruim, sabe? Tu pegar um sistema que nasceu para ser perfeito, né, como eu falei lá no começo, autolimpante o fluxo, e tu jogar um monte de bactéria de água encanada, que só deus sabe se não tem barata boiando na caixa d’água… Meu deus do céu, chega me dá um nervoso. 

Não, mulheres, nunca façam ducha vaginal, nunca — a não ser, claro, prescrita pelo médico ou pelo enfermeiro, porque realmente tem, por exemplo, a vaginite citolítica, que é um excesso de acidez, às vezes a gente faz uma ducha com bicarbonato controlado, em pouca quantidade, em dias específicos, e só assim que melhora. Mas, fazer ducha como uma desculpa de higiene pra algo que não está sujo, é só pra levar contaminação. 

 

Agora infelizmente a gente está acabando, Juliany, e eu queria que você deixasse aqui suas recomendações pras mulheres, pra que elas possam cuidar da saúde ginecológica com mais autonomia e menos preconceito.

Então, se conheçam, sabe? Se toquem, observe a secreção, coloca no dedo durante o ciclo. Existe alguns sites também que colocam a secreção, que colocam fotos, mas, assim, estudem sobre a sua anatomia, fisiologia, entenda o ciclo menstrual, caso não uso anticoncepcional hormonal, pra se conhecer, porque a partir do momento que se conhece, tu vai perceber quando algo mudar, quando tem algo diferente que vai precisar de uma ajuda, né. 

E diminuir o preconceito é isso: é entender que sexo faz parte da vida, né, se for ver todos seres vivos, o que têm em comum? Alimentação, excreção, respiração e reprodução, então isso é parte de nós, né. O sexo é parte da vida tanto quanto comer, e então, entender que é normal, e se tiver uma infecção, tá tudo bem, faz parte. Quem tá na chuva, é pra se molhar; é tratar, cuidar pra não acontecer de novo e segue a vida.

 

Obrigada, Juliany, super obrigada pela sua participação. Foi um prazer conversar com você esse tema tão… daria pra ficar falando aqui duas horas sobre isso, que tem tanta falta de informação, mas super obrigada mesmo pela sua participação. 

Eu que agradeço muito, muito, muito o convite. Estou bem, bem feliz de participar. 

 

Conteúdo desenvolvido em parceria com a marca TENA: https://www.tena.com.br

Veja também: Educação sexual ajuda a diminuir vulnerabilidades das mulheres | Coluna

Sobre o autor: Mariana Varella

Mariana Varella é editora-chefe do Portal Drauzio Varella. Jornalista de saúde, é formada em Ciências Sociais e pós-graduanda na Faculdade de Saúde Pública da USP. Interessa-se por saúde pública e saúde da mulher. Prêmio Especialistas Saúde 2021 e Prêmio Einstein Colunista +Admirados da Imprensa de Saúde e Bem-Estar 2021 @marivarella

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