Toxicologia

Butantan alerta sobre os riscos da “vacina do sapo”



Instituto alerta sobre os riscos da “vacina do sapo”, técnica que promete força, resistência e até mesmo a cura de diversas doenças, entre elas câncer e depressão.

 

O Instituto Butantan, um dos maiores centros de pesquisa biomédica do mundo, alerta sobre os riscos da “vacina do sapo”, técnica que promete força, resistência e até mesmo a cura de diversas doenças, entre elas câncer e depressão, pela injeção de veneno da perereca-verde Phyllomedusa bicolor, popularmente conhecida como kambô.

O biólogo Carlos Jared, diretor do Laboratório de Biologia Celular do instituto, ressalta que ainda é muito prematuro falar sobre os benefícios da “vacina do sapo”. “Só temos 30 anos de estudos sobre os efeitos dos veneno dos anfíbios. Se comparado com as pesquisas do veneno de cobras, por exemplo, que vem sendo estudado desde o século XVII, ainda estamos só no começo. Nunca houve uma ação de saúde pública direta para estudá-lo. Seria importante coletar o veneno bruto do animal, passá-lo por um processo de separação química, isolar cada substância e estudá-las separadamente para, assim, afirmarmos veementemente sua eficácia. Mas para isso é preciso tempo, já que o processo é longo e trabalhoso.”

Embora cause sintomas incômodos, a ingestão do veneno vem atraindo cada vez mais adeptos devido à reação momentânea de bem-estar que provoca. A sensação é reflexo da presença comprovada de opioides produzidos pelas glândulas do animal. Esse grupo de fármaco natural atua em alguns receptores neurais amenizando a dor. Entretanto, uma série de outros componentes também faz parte do veneno, sendo que a maioria tem função desconhecida pela ciência. Algumas substâncias presentes na glândula podem causar vômitos, diarreia, taquicardia, sudorese e alterações de pressão, entre outros sintomas.

 

Vômito é “arma” contra predadores

 

Há quem acredite que o vômito é importante para purificar o corpo, mas o diretor explica que a reação, bastante comum, é uma “arma” do anfíbio contra o seu predador. “Os venenos dos anfíbios, que ficam localizados sob a pele do animal, são passivos, liberados apenas por pressão do predador. É preciso que o predador ingira o animal para que o veneno seja expelido, diferentemente das cobras, que envenenam com a mordida. Caso o sapo seja engolido, a função do veneno é provocar vômito para que ele seja regurgitado. Se esses efeitos já são intensos pelo contato com a mucosa da boca, quando colocados em contato direto com a corrente sanguínea são muito mais fortes e aparecem em questão de segundos.”

Para a aplicação da “vacina do sapo” são feitos de 7 a 9 orifícios no braço (em caso dos homens) ou na perna (em mulheres) com um pedaço de madeira quente. A secreção venenosa extraída da pele do sapo é inserida diretamente abaixo da pele com um canivete.

Jared reforça que a técnica da “vacina do sapo” não é recomendada por especialistas nem reconhecida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Embora possa existir uma mística, um glamour por ser um tratamento natural, ela causa efeitos desagradáveis, provocados por substâncias conhecidas. Fora isso, existem vários outros elementos nesse ‘caldeirão’ que não sabemos o que são nem o que podem provocar.”

A “vacina do sapo” é bastante utilizada pelos índios da Amazônia brasileira e peruana em rituais antes da caça. O intuito é aproveitar a sensação de bem-estar provocada após os efeitos colaterais. “A técnica é bastante interessante dentro do contexto da cultura indígena. Mas os índios, além de terem outros costumes, possuem mais resistência aos efeitos colaterais do que nós, que não estamos  acostumados com a substância”, alerta o biólogo.

Sobre o autor: Tainah Medeiros

Tainah Medeiros é jornalista com foco em saúde, atuou como repórter de 2011 a 2016 no Portal Drauzio Varella. Hoje, é a responsável pelas Redes Sociais do dr. Draw. <três

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