Entrevistas

DrauzioCast #155 | Hepatite causada por suplementos e chás



Na busca por soluções fáceis, o uso de suplementos e chás sem acompanhamento médico pode provocar graves problemas de saúde, como a hepatite.

 

 

 

 

Na busca de um corpo considerado ideal, muitas pessoas acabam comprando e consumindo suplementos e chás que apregoam ser milagrosos. Elas acreditam que isso vai lhes dar mais saúde e uma vida mais longa. Mas nem sempre sabem ou conhecem os efeitos nocivos que esses produtos podem causar. A gente tem que entender que não é porque um produto é natural, que ele pode ser consumido como se fosse água, sem nenhuma indicação ou controle. 

O Brasil é hoje um dos países que mais consomem suplementos alimentares no mundo. E muita gente faz uso dessa suplementação sem nenhum tipo de orientação por um profissional competente ou médico que conheça a área. Na maioria das vezes, compram por indicação de um conhecido: um amigo ou um colega de academia.

Para entender qual é a indicação médica dos suplementos e quais as consequências desse uso indiscriminado, nós recebemos no DrauzioCast um amigo pessoal, o dr. Raymundo Paraná, que é médico hepatologista e professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Dr. Raymundo é conhecido e respeitado pelos colegas como um dos maiores hepatologistas do Brasil que, além do conhecimento teórico, tem uma uma atividade muito importante de educação e de disseminação dos conhecimentos relacionados aos problemas do fígado. 

 

Dr. Drauzio Varella: Raymundo, seja bem-vindo. Eu queria que você começasse explicando para que servem esses suplementos alimentares e em que condições eles podem ser indicados. 

Dr. Raymundo Paraná: Olá Dráuzio, olá a todos! Inicialmente, é preciso definir o que é um suplemento alimentar: uma necessidade além da necessidade fisiológica de um indivíduo. 

Então, existem os indicados para pacientes que estão em estado crítico ou pacientes que estão em fase de convalescência na recuperação de alguma doença mais grave. Esses são os suplementos que se usa com base hospitalar, acompanhados por um nutrólogo (que é aquele indivíduo que tem uma residência médica em Nutrologia, geralmente um cirurgião ou um endocrinologista, que complementa a sua formação com um ou dois anos mais de um programa estruturado de residência médica em Nutrologia). Esse indivíduo atua em ambiente hospitalar na recuperação dos pacientes e, junto com a nutricionista, pode manter essa orientação para o paciente ambulatorial ou para o paciente que está em casa nessas situações que eu mencionei. 

A outra situação é o fitness, a procura do corpo perfeito ou a ideação de que os suplementos melhoram a nossa performance imunológica e combatem algumas doenças. E aí, entram os suplementos alimentares vendidos enlatados (suplementos proteicos e outros); entram também uma série de ervas e de composições, que às vezes têm misturas de mais de 30, 40 ervas; chás, que são os insumos vegetais que fazem parte dos nossos complementos; e até mesmo as vitaminas, em um programa que é chamado por alguns de megavitamina. 

Esses são absolutamente fúteis, na maioria das vezes. Esses suplementos são indicados para atletas de alta performance, sobretudo os proteicos, mas mediante uma observação e orientação técnica muito precisa. Não para o indivíduo normal, sadio, que busca melhora do corpo e do funcionamento do seu sistema imunológico. Nesse caso específico, eu diria que é uma indicação fútil e meramente comercial. 

 

Drauzio: Tem gente que toma 10, 15 comprimidos de vitaminas por dia. É lógico que se você está diante de uma pessoa de idade, com dificuldade de alimentação, eventualmente você tem que fazer a reposição das vitaminas mais importantes. Mas uma pessoa comum, como você, como eu e como tantos outros que estão andando pela rua nesse momento, há alguma indicação de tomar vitaminas? 

Dr. Raymundo Paraná: Não, nenhuma, Drauzio. O organismo humano, o Homo sapiens, existe entre 300 e 600 mil anos e ele vem evoluindo darwinianamente em ambientes muito hostis no passado, para adquirir os nossos alimentos em uma dieta onívora – tudo que a gente precisa de uma maneira muito fisiológica e bem balanceada. 

O que se vê hoje, essa febre por suplemento, tem uma explicação. Chama-se comércio, interesse comercial. Então, não há necessidade. É um absurdo a ideia de que você usar vitaminas previne doenças. Não, não só não previne, como causa. 

Vou citar um exemplo aqui: a vitamina A em excesso causa cirrose hepática. Talvez algo muito pior do que a falta da vitamina A, que causa alguns problemas populares, problemas na pele. Algumas vitaminas do complexo B causam agressão hepática também. A vitamina E pode causar discrasia sanguínea e, se utilizada em longo prazo, pode aumentar risco de AVC hemorrágico. Com a vitamina C, que é a mais consumida em altas doses, o organismo acidifica a urina. Por quê? Porque joga fora aquilo que não vai absorver. Normalmente na nossa dieta já tem a quantidade de vitamina C normal, porque se não tivesse, nós desenvolveríamos o escorbuto, como ocorria na época das Grandes Navegações. 

São pequenas as quantidades diárias que nós necessitamos, geralmente das frutas cítricas, que suprem as necessidades fisiológicas. Esse excesso não serve pra nada. Embora hoje se discuta que o excesso de vitamina C aumenta a sobrecarga de ferro, porque, de uma maneira indireta, acaba aumentando a absorção do ferro. O ferro que a gente ingere é o férrico. Ele se transforma em ferroso, porque o ácido clorídrico do estômago joga um hidrogênio para modificá-lo e ele, então, é absorvido na primeira porção do intestino (duodeno). Quando você oferta muito ácido para ele, no caso do ácido ascórbico, aumenta a absorção de ferro. O efeito disso durante muito tempo pode ser sobrecarga de ferro secundária ao fígado.

Ou seja, há uma série de danos que podem ser causados pelo excesso de vitamina. Particularmente hoje, merece ser falado sobre a vitamina D. Já vi pacientes com nefrocalcinose, ou seja, a calcificação do rim por excesso. Em função de indicações modistas, dissociadas da ciência, absolutamente irresponsáveis, que jogam o nível sérico da vitamina D, que deve estar em torno de 20 a 25, para 150 a 200.

Veja também: Excesso de vitaminas | Entrevista

 

Drauzio: E nós temos ainda a situação dos suplementos herbais que dão uma sensação de que: “Não, tudo bem, são só ervas naturais. Mal não vai me fazer”. 

Dr. Raymundo Paraná: Essa é uma situação muito do momento. Na verdade, a gente começou a viver isso com a internet, mas ela se agravou depois das redes sociais. As notícias, hoje, se disseminam muito rápido através da internet, mais rapidamente ainda através das redes sociais. Tornou-se fácil criar factóides, e por isso as fake news existem. Porque elas contaminam rapidamente as pessoas. Paralelamente, o excesso de informação tornou as pessoas descuidadas com a qualidade e a profundidade da fonte. Então, o que você inventa acaba ganhando rapidamente o mercado. E isso se converte em que? Em ganho financeiro para alguém. 

A todo momento,. surgem novos suplementos herbários, com a promessa de que vai melhorar a performance imunológica, vai evitar que o indivíduo contraia doenças, vai diminuir o risco de câncer, vai melhorar a saúde, vai modular o corpo, vai queimar gordura… As propostas são as mais variadas possíveis. E sempre, obviamente, o que permeia essas prescrições é a orientação de que “o que é natural não faz mal”. Essa ideação contamina muito facilmente a nossa população, até porque a gente tem que contextualizar o Brasil em sua história. 

Um sistema único de saúde nos chegou, de fato, com o SUS, Drauzio. Antes do SUS, para onde iam os brasileiros que não tinham esse acesso (ou seja, a maioria absoluta da população)? Iam para as Santas Casas, para os hospitais universitários, para a Irmã Dulce aqui na Bahia. Tinham o diagnóstico, mas sequer tinham uma terapêutica ou assistência farmacêutica. Essas pessoas viviam de quê? Da orientação dos tratamentos tradicionais: do Preto Velho da Senzala, com sua tradição africana; da Velha Rezadeira Cabocla, que até hoje tem aqui no interior do Nordeste e passava as folhas, rezava as pessoas com galho de arruda para tirar as más energias que causavam uma doença. Enfim… Era muito popular. 

Nossos avós sempre falavam: “Se tiver uma gripe, toma um cházinho de limão. Chá de limão vai curar a sua gripe”. Ora, todo mundo cura da gripe, né? 99,9%. Se você tomar o chá de limão, você achou que curou por causa do chá de limão, mas a história natural da doença é a cura. “Ah, se tiver diarreia, toma um chá de araçá”. Pô, 95% das diarreias infecciosas curam espontaneamente em 72 horas. Se tomar o chá de araçá, obviamente, você valoriza o papel dele na cura. 

Isso tudo ocorria até 30, 40 anos. Essa abordagem que é feita nas redes sociais é, culturalmente, muito bem aceita em nossa sociedade. Então, hoje isso é explorado de maneira muito intensa por pessoas que se beneficiam comercialmente da venda e da prescrição desses produtos. 

Eu geralmente digo aos meus pacientes quando eles chegam no consultório e me perguntam: “Eu posso tomar isso, doutor?”: “Olha, isso é muito bom para quem prescreve, para quem vende, mas não é bom para quem compra”. Sempre digo isso. 

 

Drauzio: Na medicina alopática, nós temos medicamentos que têm toxicidade hepática. E a gente, quando prescreve, faz controles periódicos das provas de função hepática. Mas muitos pacientes que estão tomando um medicamento qualquer, tomam suplementos sem contar para o médico. Qual é o risco? 

Dr. Raymundo Paraná: São vários os riscos. Primeiro, é aquilo que eu lhe falei: a ideação. Eu já vi um pouco de tudo, viu, Drauzio? Eu já vi o paciente não falar, porque ele tem essa ideação de que aquilo é normal. Até porque na família, a avó ou o avô que foram longevos, usavam chás e nunca lhes causou mal. A segunda questão é que o próprio prescritor pede para o paciente não revelar. Isso é criminoso. Ele pede, induz o paciente de que, se revelar, o médico que pratica a medicina científica “não saberá nada disso” ou será “preconceituoso”. É assim que eles falam. Eles levam  o paciente a causar mal a si próprio e ainda provocar um possível erro médico.

Vou contar algumas situações. Eu atendi uma senhorinha uma vez. Na verdade, eu fui chamado, porque era uma senhorinha suíça que veio visitar o filho e teve uma hemorragia na mama. Ficou um hematoma imenso na mama e ninguém sabia o porquê. Eu falo francês e ela também. Eles não conseguiram se comunicar no Pronto Atendimento, então me chamaram e eu fui intermediar. 

Ela fazia uso de um cumarino (uma medicação para afinar o sangue, um anticoagulante), porque tinha uma lesão valvular. Mas ela estava muito bem orientada quanto ao uso. De qualquer maneira, o que a gente pensa em uma situação como essa? A senhorinha errou a dose. Então, pedimos um exame de controle, que é o tempo de protrombina. Não tinha dúvidas de que ela errou a dose. Perguntei, sucessivamente, se ela tinha usado alguma coisa a mais. Falou que não. Até que a companheira dela chegou e eu fiz a pergunta novamente. Ela falou: “Ao chegar no Brasil, indicaram chá de boldo para ela. Tem 15 dias que está tomando chá de boldo”. 

Eu fui à literatura e descobri que a boldina do Chile, que é um dos componentes do chá de boldo, compete no sítio de ligação à proteína chamada albumina. Toda droga se liga a uma proteína para ser carregada no organismo. Esse sítio de ligação específico liga o cumarínico e a boldina também. Então, uma compete e desloca a outra, aumentando a biodisponibilidade da droga. Então, o que acontece? É como se estivesse tomando droga demais, quando estava tomando a dose certa. Suspendemos o chá de boldo e a senhorinha melhorou progressivamente. 

E tem muitas outras. Tem a erva cavalinha, que é muito utilizada e tem imensas interações; a erva de St. John ou São João; a kava-kava com alprazolam; um chá de alho com cumarino e com anticonvulsivantes.

Isso não é observado. Quem prescreve o medicamento alopático costuma não perguntar, não inquirir o paciente e a família sobre o uso desse suplemento. E quem toma, costuma omitir. Então, a combinação desses dois fatores é estrondosa do ponto de vista negativo. Eu tenho vários e vários exemplos disso. Passaria aqui o dia contando a você o que eu já vi. 

Veja também: O perigo dos suplementos alimentares | Drauzio News #29

 

Drauzio: Raymundo, fala um pouquinho dos esteróides anabolizantes, esse das academias. 

Dr. Raymundo Paraná: Esse é um grande problema. Você estava falando logo no início a questão do indivíduo tomar essas medicações sem orientação médica. Isso é criminoso, é absurdo para quem vende e para quem sugestiona a utilização. Mas eu acho mais grave ainda quando esse indivíduo vem com uma prescrição. Porque eu acho, Drauzio, que não é permitido ao médico a ignorância. O vizinho pode ser, o primo pode ser, o tio pode ser, mas o médico não. Se o médico prescreveu (e ele tem esse poder na mão), ele está assumindo a responsabilidade pelo que fez. 

Então, quando o indivíduo chega usando esses medicamentos (e agora o modismo é usar as duas coisas: todos os suplementos e mais um anabólico, um anabolizante), é algo que revolta qualquer médico que tenha a sua atuação em preceitos éticos. É um absurdo, mas é feito cada vez mais frequentemente. 

Os anabolizantes têm um efeito muito rápido na mobilização de gordura. Eles realmente dão adição ao paciente. Todo paciente busca o que é mágico: todo mundo busca uma pílula, uma injeção, que o faça emagrecer, ganhar massa muscular e perder massa gorda sem precisar mudar hábitos comportamentais. É desejo de todos e as pessoas aderem com facilidade. E esses profissionais são treinados em persuadir os pacientes, induzi-los a ideação de que estão precisando de suplementação hormonal. E esses indivíduos acabam pagando um preço caro.

Eu vou citar alguns aqui. Fora do fígado: os anabolizantes diminuem o HDL e o colesterol. Portanto, com o tempo, aumenta o risco de doenças cardiovasculares. O anabolizante age no músculo esquelético e cardíaco, causando hipertrofia. Na medida em que faz isso, muda a fisiologia. E o músculo cardíaco, particularmente, pode crescer acima da capacidade de crescimento do seu suprimento sanguíneo. Isso aumenta riscos de arritmia, infarto, mortalidade, e por aí vai. Morte súbita ocorre mais frequentemente nesses pacientes. Os anabolizantes induzem ainda à vasoplegia e alguns deles em combinação levam a um fenômeno chamado fibrinólise crônica, aumentando o risco de AVC hemorrágico. 

 

Drauzio: O que é vasoplegia? Explica o que é.

Dr. Raymundo Paraná: Os nossos vasos têm um mecanismo de defesa para pequenos sangramentos que é a contração. Na hora em que surge um pequeno sangramento, ele contrai para conter, forma um “tampãozinho” com uma célula que a gente tem chamado de plaqueta, para evitar que aquele sangramento aumente.

Quando o indivíduo toma esse medicamento, o vaso perde a capacidade de se contrair e perde esse mecanismo, importante na contenção dos pequenos sangramentos que possam ocorrer. Daí o risco de AVC hemorrágico ser superior nos indivíduos que usam esses medicamentos. Tive um paciente há pouco tempo, 30 anos, com AVC hemorrágico, depois de 8 semanas de uso de anabolizantes e perda de 18kg. Aos 30 anos, sequelado. Também poderia passar o dia contando outros casos. 

Mas vamos adiante. Há alteração de função renal, porque a hipertensão arterial também se instala nesses pacientes. No quesito fígado, as alterações são imensas. Eles podem causar a esteatose hepática (gordura do fígado), uma lesão chamada doença vascular do fígado e a colestase (dificuldade na excreção e exportação de bile do fígado). Essas alterações em curto prazo são, muitas vezes, irreversíveis. Em longo prazo, podem causar os chamados adenomas do fígado, tumores benignos. No homem, por causa de uma mutação chamada betacatenina, essas lesões são consideradas cancerígenas. Quando ocorrem, precisam ser retiradas, já que correm o risco de transformação maligna de um desfecho desfavorável. Isso pode ocorrer décadas depois do uso. 

 

Drauzio: Paraná, por que o fígado é um dos órgãos que mais sofre com essa toxicidade dos suplementos, dos anabolizantes, etc? 

Dr. Raymundo Paraná: A maioria dos medicamentos e suplementos passam pelo fígado, o qual tem mecanismos extremamente sofisticados de depuração, fatoração, acetilação, micronização. E cada um de nós tem um uso diferente desses depuradores. Por isso a toxicidade tem algo individual. Uma droga que eu tome, uma droga que o Drauzio tome – ele vai metabolizar de uma forma, eu vou metabolizar de outra. Eu posso formar um metabólico secundário, metabolizar aquela droga mais lentamente do que o Drauzio e ter mais risco de toxicidade, enquanto ele tem mais resistência. Mas o inverso pode ocorrer. Ou seja, há sempre um risco de toxicidade em qualquer agente externo que nós utilizemos. Pode ser mínimo, mas existe. Não há droga, nem suplemento, nem chá que seja completamente inócuo. 

Por isso que toda prescrição médica é baseada em risco e benefício. Eu tenho que ter absoluta certeza de que eu tenho mais chances de dar benefícios do que riscos ao meu paciente. 

Quando a medicação passa no fígado, ela sofre esse processo de metabolização e pode gerar algum metabólico (molécula intermediária) que faça mal. Nesse processo, também podem surgir as chamadas interações medicamentosas, as quais podem ocorrer entre drogas e outras drogas ou entre drogas e fitoterápicos. E pode haver uma modificação nesse processo de metabolização, causando danos ao fígado. 

Então, qual é o mecanismo que a gente tem para conhecer isso? Ter estudos de fase 3, os estudos de registro exigidos pelas agências do FDA, MDA, Anvisa. São estudos multicêntricos, grandes, onde você avalia a eficácia, mas também avalia o risco. E o risco significa efeito adverso. Quando você usa suplementos, você não tem esse regulatório. Não tem informação científica e não sabe quais são as possíveis interações ou mecanismos de metabolização. E, pior ainda, um único suplemento desses por ter 50 princípios ativos diferentes. No chá de uma planta qualquer, pode ter mais de 50 princípios ativos. Qual deles está funcionando? Qual foi a dose que você preparou com aquele chá? Qual seria a dose ideal? Quantas vezes por dia? Não tem essa informação.

Vou só citar um exemplo: o chá verde. É uma medicação bastante utilizada no Brasil como fitoterápica e faz parte dos chamados termogênicos. Chá verde é milenar. É utilizado no Magrebe, no norte da África, é utilizado no Oriente há muito tempo. Um talinho de chá verde, água a 70%: todo mundo toma. É como o café deles. Não faz mal a ninguém. 

Mas aqui no Brasil resolveram colocar o chá verde encapsulado, com as folhas e o talo. E o chá verde tem um princípio ativo chamado catequina. No fígado, ela causa lesão grave, sobretudo em mulheres. No chá verde, a catequina é ínfima, insuficiente, se você toma ele como chá. Mas quando você coloca em uma cápsula, pode concentrá-la de 500 a 1000 vezes. O fígado não terá condições de metabolizá-la, a catequina vai sobrar e vai causar agressão. Esse é só um exemplo, entre tantos outros.

Veja também: Funções do fígado | Entrevista

 

Drauzio: Você me disse uma vez que mais da metade dos transplantes hepáticos realizados no Brasil por toxicidade medicamentosa aconteciam não por remédios alopáticos, mas por esses produtos assim chamados naturais. Isso ainda vale?

Dr. Raymundo Paraná: Nós fizemos um estudo justamente por causa dessa preocupação. Um estudo multicêntrico, envolvendo oito centros. Recebeu recursos de uma fundação estrangeira, foi capitaneado pelo nosso grupo, mas envolveu oito centros do Sudeste, do Sul e do Nordeste. E é curioso isso. Na verdade, a primeira causa de transplante hepático por hepatite fulminante (que é uma forma muito grave de hepatite onde existe uma destruição aguda no fígado), era um fígado normal e ele parou de funcionar, porque foi agudamente agredido. Nós todos pensávamos que iríamos encontrar a primeira causa de hepatite viral – como é na Argentina; a hepatite B, como é em algumas regiões da África; a hepatite E. Mas não, a gente encontrou aqui toxicidade. 

Na toxicidade, mais ou menos 33% eram causadas por drogas alopáticas, sobretudo, anti-inflamatórios, usados por automedicação seguido de alguns antibióticos (os tubérculos táticos). São drogas que a gente sabe que podem causar, por isso a gente monitora o paciente quando prescreve. Mas, a maioria, mais de 50% dos nossos pacientes não tinham uma causa definida da agressão hepática. Desses pacientes, infere-se que a imensa maioria tenha sido pela utilização desses compostos. Porque o paciente quando chega ao hospital, está obnubilado, ele perde a função hepática e entra em estado de confusão mental. A família, às vezes, não sabe. E como tudo é muito urgente, não há tempo de inquirir os familiares, de ter um registro correto no prontuário. 

Em alguns casos, onde a gente pôde fazer isso, a gente encontrou. E vou citar aqui o que achamos: mãe-boa (tem uma paciente transplantada que está viva até hoje, prescrita por um médico); e Bidens pilosa, conhecida no Brasil por vários nomes, como picão preto, carrapicho e fedegoso. Em cada região, ela tem um nome diferente, mas é muito prescrita e utilizada – inclusive, para os males do fígado. Encontramos também o óleo de cártamo (ácido linoleico), que é muito prescrito para performance atlética como se fosse uma fonte energética, proibida em alguns países; e a spirulina, também já proibida em algumas nações porque causa dano hepático. 

Então, eu não tenho uma prova cabal de que esses casos, que são considerados idiopáticos, criptogênicos ou sem uma causa, sejam por esses suplementos, mas muito provavelmente são. Porque se investigou todas as outras causas de agressão aguda ao fígado e a resposta não foi encontrada. 

 

Drauzio: Raymundo, muito obrigado por todos esses esclarecimentos. Um prazer ter você aqui conosco, viu? 

Dr. Raymundo Paraná: Drauzio, é sempre um prazer conversar com você. Esse canal presta um serviço social fantástico à população. Eu acho que esses canais é o que eu chamo de “resistência” precisam existir. É a única maneira que nós temos para enfrentar as fake news em saúde, que eu acho que hoje é um dos maiores males que nós temos na saúde pública no nosso país e em outros países também. 

 

No nosso portal,  estão mais de 100 episódios do DrauzioCast, que versam sobre os mais variados temas. E agora, em 2021, nós temos várias entrevistas interessantes e importantes como essa do dr. Raymundo Paraná. Conheça também os nossos outros Por Que Dói?, Saúde Sem Tabu e Outras Histórias. Todos disponíveis nos principais agregadores.

 

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Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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