Gagueira é um distúrbio neurobiológico da fluência da fala, que tem sua origem, provavelmente, no funcionamento inadequado dos núcleos de base, aglomerados de células nervosas envolvidos no controle da motricidade. Cabe aos núcleos de base estabelecer a intercomunicação entre diferentes áreas do cérebro, o que permite a execução de atos motores complexos. Quando essas estruturas não funcionam adequadamente, entre outros problemas, podem interferir na sequência motora da automatização da fala, ocasionando os alongamentos, bloqueios e repetições da fala próprios da gagueira.

Portanto, gagueira é uma disfunção da fala de origem psicomotora, que se caracteriza por repetição de sons e sílabas ou por paradas involuntárias, que comprometem a fluência e a comunicação verbal.

Na verdade, a pessoa gaga sabe perfeitamente o que quer dizer, mas não consegue ajustar o tempo e a duração dos sons. Isso faz com que repita ou prolongue a emissão de uma consoante, de uma vogal ou de uma sílaba, ou, então, que interrompa a fala diante de um som que considera de risco para articular sem tropeços. Nesses momentos, muitas vezes, ao perceber que vai gaguejar, a pessoa consegue substituir essa palavra por um sinônimo que não apresenta a mesma dificuldade de pronúncia.

O curioso é que pessoas com gagueira podem ser fluentes quando cantam, declamam um poema, repetem a fala de uma personagem no teatro, ou imitam um sotaque. Isso acontece, porque a região do cérebro estimulada na fala não espontânea, o hemisfério direito, é diferente da região responsável pela falta de sincronia que aparece na fala espontânea, ou seja, o hemisfério esquerdo.

Gagueira é um transtorno que afeta especialmente as crianças, antes dos 6 anos de idade, na proporção de três meninos para cada menina.

Causas

Gagueira é um distúrbio multifatorial, que se manifesta na infância e pode persistir na vida adulta. Segundo a fonoaudióloga Fernanda Limongi, três fatores estão envolvidos no aparecimento e manutenção da gagueira. São eles: os fatores predisponentes de origem genética (alguns genes já foram identificados ou neurológica (AVC, traumas), os fatores precipitantes predominantemente ambientais e os fatores perpetuantes, incluindo sentimentos como o medo e a ansiedade diante de situações que pressupõem a comunicação oral.

Certos sentimentos – medo, ansiedade, insegurança, timidez, vergonha – podem piorar a gagueira em razão da resposta defensiva de congelamento ou freezing que provocam. Essa resposta ocorre quando, na dúvida sobre que rumo tomar diante de uma situação de perigo, o organismo reduz drasticamente a atividade, o que resulta na diminuição dos batimentos cardíacos, da pressão arterial e dos movimentos para a produção da fala.

Importante destacar, portanto, que fatores psicológicos não causam gagueira, mas podem agravá-la nas pessoas geneticamente predispostas. “Todo sofrimento psicológico associado à gagueira é posterior à manifestação do transtorno. O gago não é gago porque é inseguro: ele fica inseguro porque é gago”, como bem descreveu Dafne Rossi, uma visitante do site do dr. Drauzio.

Sintomas

São considerados sinais e sintomas da gagueira:

* Repetição ou prolongamento de sons e sílabas;

* Dificuldade para iniciar uma palavra ou frase;

* Bloqueio de sons;

* Uso de interjeições para fazer a conexão entre as palavras, como “um”, “am”,”então”, “assim”, “aaah”, “né”;

* Simplificação de frases;

* Ansiedade, tensão muscular e estresse quando a pessoa se sente pressionada para falar ou ler um texto em público, sensações que não se manifestam quando sussurram, falam sozinhas, com um bebê ou com o animal de estimação;

* Afastamento do grupo social na escola, no clube, na rua em que mora;

* Baixa autoestima.

Observação importante:

As dificuldades da fala espontânea próprias da gagueira podem vir acompanhadas de movimentos corporais que visam facilitar a emissão dos sons ou sílabas bloqueados. Por exemplo: rapidez no piscar dos olhos, tremores dos lábios e da mandíbula, tiques faciais, movimentos bruscos da cabeça.

Diagnóstico

Ninguém é fluente o tempo todo. Em alguns momentos da vida e sob determinadas condições, qualquer pessoa pode apresentar certo grau de gagueira, mas ninguém dá atenção ao fato. Com as crianças pode acontecer a mesma coisa. Elas gaguejam quando ainda não desenvolveram a linguagem nem as habilidades da fala para expressar suas ideias e sentimentos. Por isso, apresentar alguns episódios de gagueira na infância pode não passar de um evento que faz parte da aquisição normal da linguagem.

De qualquer forma, ainda não foi estabelecido um protocolo padrão para o diagnóstico da gagueira, que deve ser realizado por fonoaudiólogo(a) especialista na área da fluência. Em geral, o fator decisivo para fechar o diagnóstico é a criança demonstrar que, há  seis meses ou mais, está consciente da própria dificuldade e luta para falar. Para tanto, a avaliação considera os sintomas (número de rupturas da fala durante um período pré-estabelecido de tempo que levam ao comprometimento da comunicação verbal, por exemplo) em diferentes contextos e situações.

Além desses dados, o diagnóstico da gagueira leva em conta o histórico pessoal e familiar do portador do transtorno.

Tratamento

O diagnóstico precoce e o início imediato do tratamento sob a orientação de um fonoaudiólogo são medidas fundamentais para evitar que a gagueira se torne crônica. O objetivo é ajudar o portador do transtorno a melhorar a fluência do discurso e a capacidade de comunicação.

A seleção das técnicas terapêuticas deve levar em consideração a idade e as características do distúrbio de cada paciente. Basicamente, ela inclui a aprendizagem motora de estratégias a serem usadas durante a fala, como falar mais devagar, utilizar as pausas silenciosas com maior frequência e controlar a tensão muscular por meio de exercícios específicos.

O tratamento da gagueira envolve, ainda, a participação dos pais e de outros adultos que interagem com a criança no dia a dia. Basicamente, consiste em ser um bom ouvinte, ou seja, é preciso escutar o que a criança tem a dizer, sem apressá-la nem tentar adivinhar a palavra que lhe falta para completar o pensamento. Sempre é bom lembrar que a criança não gagueja porque quer ou para chamar a atenção. Gagueja porque não consegue ser fluente.

A psicoterapia é outro recurso a ser considerado no tratamento da gagueira, uma vez que pode ajudar a pessoa que gagueja a reconhecer e a lidar com sensações como o estresse, ansiedade, medo e baixa autoestima, que podem piorar o prognóstico do transtorno.

Vários medicamentos já foram testados para o tratamento da gagueira. Nenhum demonstrou ser eficaz o bastante para a remissão do quadro.

 

Recomendações

* Não se acanhe nem deixe de expressar o que pensa ou o que sente só porque você gagueja;

* Procure valer-se dos artifícios que ajudam a diminuir os sintomas da gagueira;

* Use interjeições, substitua as palavras que de antemão sabe que tem dificuldade para pronunciar por outra equivalente, construa frases mais simples e menos elaboradas;

* Leve a sério o tratamento. Não deixe de comparecer às sessões de fonoaudiologia nem as que visam ao atendimento psicológico.

 

Fontes

  • Site Drauzio Varella/ entrevistas
  • Fernanda Limongi Papaterra – Gagueira
  • Rejane Rubino – Problemas da fala nas criança
  • Mayo Clinic – Diseases and Symptoms “Stuttering/Stammering”
  •  Instituto Brasileiro de Fluência (IBF) – “Gagueira levada a sério”
  • – 25 mitos sobre gagueira
  •  Sandra Merlo – Caracterização da Gagueira