Psiquiatria

Como proteger sua saúde mental contra o discurso de ódio na internet

Entenda por que as redes sociais podem ser um ambiente tão tóxico e saiba como evitar que os discursos de ódio no online afetem o seu emocional.

Entenda por que as redes sociais podem ser um ambiente tão tóxico e saiba como evitar que os discursos de ódio no online afetem o seu emocional.

 

Muito antes da pandemia, já existia a previsão de que em algum momento viveríamos 100% do tempo online. O avanço de novas tecnologias, como o serviço de internet 5G, possibilitaria essa transição de forma gradual, para que aprendêssemos a utilizar o digital a nosso favor.

Mas, com o isolamento social, estar online virou quase que uma regra. No Brasil, o tempo de uso de redes sociais como WhatsApp, Facebook e Instagram cresceu 40%, de acordo com uma pesquisa da consultoria Kantar. A aproximação com o universo online foi rápida e intensa, em detrimento das poucas atividades possíveis na vida “offline”.

“Se a gente não consegue ficar off, obtemos mais reforços dentro da internet. Antes, nossas opiniões sobre nós mesmos eram baseadas em amigos, familiares e pessoas do nosso convívio. Hoje, esse retorno vem das redes sociais: são os likes e a repercussão das postagens”, pontua Andréa Jotta, psicóloga do Janus – Laboratório de Estudos de Psicologia e Tecnologias da Informação e Comunicação da PUC-SP.

É nesse momento, em que as relações na internet começam a ter um peso maior na vida das pessoas, que surgem os discursos de ódio, o cyberbullying e os ataques virtuais. Ou seja, práticas que incitam a intolerância e o desprezo ao outro.

 

De onde vem o discurso de ódio?

A psicóloga explica que, desde que os celulares possibilitaram o acesso à internet em qualquer hora ou lugar, o modo como nos relacionamos com as redes sociais mudou. “Se você estiver estressado ou de saco cheio e navegar pela internet, ela vai lhe mostrar estímulos capazes de repercutir esse sentimento”, explica. 

Isso porque os algoritmos, isto é, uma ferramenta de programação utilizada para selecionar os conteúdos mais relevantes oferecidos aos usuários, devolvem exatamente os assuntos, reações e interesses que mais chamam a atenção de cada pessoa. 

“Se você parar para olhar a flor, ele vai lhe devolver flor. Se você parar para olhar algo ruim, ele vai lhe devolver algo ruim. O algoritmo não tem bom senso, o que ele quer é você ali por mais tempo. São as suas escolhas que voltam de forma ampliadíssima”, ilustra a psicóloga.

Além disso, se uma pessoa estiver irritada e decidir dar vazão à raiva através do discurso de ódio na internet, ela não terá a noção da consequência imediata. É diferente de uma discussão frente a frente, em que vemos o efeito de cada palavra na reação do outro.

“Na internet, esse freio não existe. Não tem o outro chorando na sua frente, o freio precisa ser interno. É preciso parar e pensar: por que eu estou fazendo isso? O que esse conteúdo está estimulando em mim? Quem sou eu no meio dessa multidão? Será que essa é mesmo minha opinião? Será que se essa pessoa estivesse na minha frente, eu falaria tudo isso para ela?”, afirma Andréa.

A cantora Luísa Sonza, alvo de constantes ataques após a separação do humorista Whindersson Nunes, chegou a publicar um vídeo em seu Instagram em que chorava e pedia para que as pessoas parassem de culpá-la pela morte do filho recém-nascido do ex-marido com a então noiva Maria Lina Deggan. As críticas, no entanto, continuaram, e Luísa teve de se ausentar das redes sociais por um tempo para cuidar da própria saúde mental. Segundo a cantora, ela desenvolveu depressão, pânico e ansiedade.

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Como o discurso de ódio impacta a saúde mental?

No caso das pessoas que recebem essas ofensas, a psicóloga explica que o processo é como o do bullying que acontece dentro das escolas. A vítima se sente merecedora dos xingamentos, incapaz de reagir. E a não interferência daqueles que veem toda a situação acontecendo e apenas continuam rolando a tela é um incentivo a mais para o linchamento. 

Além de Luísa Sonza, a influenciadora Gkay também desabafou em seu perfil após várias críticas à sua aparência física. “Antes eu me achava bem bonita, mas depois de ler tanto que eu era feia, horrorosa, etc., hoje eu me acho um monstro”, relatou.

Com crianças e adolescentes é ainda pior, já que eles ainda estão em fase de formação. São eles, inclusive, o público que mais frequenta as redes sociais em ascensão, como o TikTok (aplicativo de vídeos curtos famoso por adotar um algoritmo extremamente ágil e eficaz).

“Os jovens dependem muito do mundo para dizer quem eles são. As outras pessoas é que dão o parâmetro dos comportamentos e do que eles acham sobre si mesmos. Essa geração em especial já nasceu com a internet, então, desde pequenos, são automaticamente mais sensíveis e suscetíveis a uma multiplicidade de críticas”, destaca.

Para tentar perceber o momento em que o discurso de ódio começa a afetar a própria saúde mental ou a das crianças, alguns sinais podem ser úteis: 

  • Ficar ansioso quando não está conectado;
  • Sentir que está perdendo algo quando está offline;
  • Não achar graça nas atividades fora da internet;
  • Chorar, sentir um “nó no estômago” ou ter a sensação de sofrimento enquanto navega pelas redes sociais;
  • Perceber que está perdendo ocasiões importantes na vida para ficar na internet, como reuniões e tempo com a família;
  • Não conseguir mais realizar tarefas que antes eram normais e corriqueiras;
  • Relatar pensamentos ruins, depressivos ou até suicidas.

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E então, o que fazer?

Segundo Andréa, a primeira coisa é reconhecer que, durante a pandemia, nós imergimos completamente no universo virtual. Agora, vamos precisar buscar prazer fora dele.

“Eu diria que o melhor para todos é sair da internet pelo maior tempo possível. Nós fomos hiperestimulados pelo online, pela facilidade de ter tudo a um toque. Precisamos desenvolver os outros sentidos, olhar para fora novamente”, ressalta.

Como as saídas ainda estão limitadas em boa parte do Brasil devido à pandemia da covid-19, a psicóloga sugere passeios breves à padaria, aos vizinhos ou com o cachorro, sem levar o celular. “Aposto que quando você chegar, nada de importante vai ter acontecido nas redes sociais”, brinca.

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Crianças e adolescentes na internet: é preciso acompanhar

Em relação às crianças e aos adolescentes, a situação exige mais cuidados. A psicóloga alerta que deixar a criança brincar no celular um dia ou outro tudo bem, mas isso não pode ser frequente. Além disso, não é recomendável deixá-la com o aparelho à noite ou durante as refeições. 

Já os adolescentes exigem mais paciência e diálogo. Atualmente, toda a vida social do jovem está na internet, por isso é impossível tirá-lo completamente do digital. A dica, então, é fazer combinados, estimulando-o a realizar outras atividades.

“Chama ele para cozinhar com você ou te ajudar a regar as plantas. Convide-o para coisas divertidas de vez em quando. Vá trabalhando isso de uma forma amigável, mas afastando-o das redes sociais”, explica.

Bom lembrar que, do ponto de vista neurológico, nós só conseguimos maturar a qualidade do tempo que passamos na internet após os 24 anos. Por mais que os adolescentes possam parecer bastante responsáveis, até lá, eles não são capazes de perceber sozinhos que estão exagerando no uso das redes sociais.

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Sobre o autor: Beatriz Zolin

Beatriz Zolin é estudante de Jornalismo e estagiária em Redação no Portal Drauzio Varella. Tem interesse pelas editorias de saúde, política, educação e comportamento.