Cada vez mais crianças e adolescentes utilizam aparelhos digitais como tablets e celulares. No entanto, o uso excessivo de celulares por crianças pode trazer consequências para o desenvolvimento cognitivo e social e para a saúde. 

 

O som de risadas e vozes toma o ambiente. Enquanto adultos conversam, as crianças olham a tela do celular. Algumas recebem comida na boca de mães zelosas sem sequer prestar atenção ao que ingerem, como pequenos robôs.

A cena ocorreu em um domingo à tarde, em uma conhecida cantina de São Paulo, mas poderia ter acontecido em uma casa qualquer, na praça de alimentação de um shopping ou na sala de espera de um dentista. Com frequência cada vez maior, crianças e adolescentes utilizam celulares e tablets quase em tempo integral.

 

Veja também: Recomendações da OMS para o uso de aparelhos digitais por crianças

 

A vida agitada dos grandes centros urbanos certamente colabora para que adultos agradeçam os minutos de paz de que conseguem desfrutar quando crianças ficam entretidas com jogos e vídeos. Afinal, ter tempo para fazer uma refeição com calma, ler uma revista ou mesmo checar as próprias redes sociais enquanto os filhos se distraem em silêncio não é algo desprezível. Quem pode julgar o pai que consegue fazer o filho comer toda a comida sem espernear e reclamar do brócolis? Ou a mãe que por fim responde os emails do trabalho em casa, depois de um dia exaustivo, enquanto os filhos param de brigar para assistir ao novo vídeo do youtuber preferido?

Se as novas tecnologias trouxeram algum alento para pais e cuidadores e ampliou o acesso à informação, é fato que também mudaram a rotina de muitas famílias. Muitas vezes, para pior. Crianças que antes corriam pela casa, bagunçavam o quarto, pintavam as paredes, provocavam os irmãos e enchiam os pais de perguntas agora passam horas sentadas, quietas, voltadas para telas luminosas.

Como essas tecnologias são novas, ainda não existem pesquisas de longo prazo que meçam o impacto do uso de aparelhos digitais em crianças, mas estudos já indicam que o uso excessivo desses dispositivos têm causado prejuízos no desenvolvimento cognitivo e social e até no peso de crianças e adolescentes.

Surgidos nos anos 1990 e popularizados na primeira década de 2000, os smartphones já fazem parte da rotina de 92% dos brasileiros, segundo pesquisa da Deloitte divulgada no segundo semestre de 2018. Um estudo apresentado no início de 2018 pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) estimava que até maio daquele ano haveria 174 milhões de computadores, entre computadores de mesa, notebooks e tablets, no país.

Para Tania Terpins, psicoterapeuta daseinsanalista e educadora infantil, durante a primeira infância, período que vai do nascimento até os 6 anos de idade, a criança é apresentada às interações sociais mais primordiais. Nessa fase, ela conhece o mundo por meio de estímulos sensoriais como cheiro, contato visual e troca de afeto. ”A superexposição a telas restringe as possibilidades interacionais das crianças pequenas. A experiência da tela na primeira infância é, em sua grande maioria, solitária, sedentária e passiva.”

Ainda segundo a psicoterapeuta, para desenvolver a capacidade de agir sobre o mundo a criança deve ser convidada a transformar o real por meio de atividades criativas. Os jogos e vídeos disponíveis na internet são, em geral, tarefas dirigidas que restringem as respostas imaginativas, muito distantes das brincadeiras infantis de faz de conta ou das interações sociais que estimulam a interação com a realidade mais concreta.

 

Uso excessivo de aparelhos pode prejudicar o desenvolvimento cognitivo

 

Em outubro de 2018, a revista The Lancet Child & Adolescent Health” publicou um estudo em que pesquisadores avaliaram os hábitos de uso de dispositivos digitais de 4.500 crianças americanas de 8 a 11 anos de idade. Apenas 37% das crianças do estudo respeitaram o limite estabelecido de 2 horas de uso diárias. Crianças que seguiram o tempo de tela recomendado apresentaram melhor desempenho cognitivo.

Os pesquisadores  também avaliaram outras variáveis, como horas de sono e de atividade física, e não estabeleceu relação de causa entre tempo de tela e cognição, mas revelou que excesso de tempo de uso de aparelhos e horas insuficientes de sono podem comprometer o desenvolvimento cognitivo.

Se o estudo não é suficiente para comprovar que o excesso de tempo em frente às telas pode isoladamente comprometer o desenvolvimento cognitivo de crianças, certamente seus achados acendem um alerta vermelho para pais e educadores.

Outros estudos já mostraram que adolescentes têm dormido pouco porque ficam conectados até tarde. Dormir menos de 9 horas durante essa fase da vida pode comprometer o desempenho escolar e provocar problemas de comportamento, como mudanças repentinas de humor, e agravar sintomas de depressão.

 

Uso de aparelhos eletrônicos favorece sedentarismo e obesidade

 

A Associação Americana do Coração (AHA, sigla em inglês) lançou no segundo semestre de 2018 um estudo que revelou outra faceta do uso exagerado de aparelhos digitais: a obesidade. Segundo os pesquisadores, embora o hábito de assistir à televisão tenha diminuído nos últimos anos, as crianças e adolescentes passam muito tempo em frente a telas de dispositivos eletrônicos.

Os pesquisadores afirmam que o tempo gasto com atividade sedentárias tende a aumentar com a idade e a ser maior entre meninas do que entre meninos. Crianças em idade escolar passam, em média e de acordo com o estudo, 8 horas de seu tempo acordadas em atividades sedentárias, a maioria envolvendo aparelhos digitais.

 

Veja também: Artigo do dr. Drauzio sobre crianças obesas e sedentárias

 

O tempo gasto com esses dispositivos aumenta na pré-adolescência e se torna ainda maior na adolescência. Estudos citados pela associação americana mostram que muitos jovens passam mais de 4 horas diárias conectados.

Para a AHA, não é coincidência que sejamos mais sedentários e também passemos mais tempo diante de aparelhos digitais na fase anterior à vida adulta. Embora haja outros fatores envolvidos na obesidade na infância e principalmente na adolescência, é fato que reduzir o tempo gasto com essas atividades ajuda a diminuir o sedentarismo. A entidade americana revela que iniciativas nesse sentido são mais bem-sucedidas  quando a família e a escola se envolvem, promovendo atividades que exijam algum esforço físico e restringindo o tempo e o local de uso de aparelhos digitais.

Se não podemos impedir que crianças e jovens tenham acesso a novas tecnologias, é importante que adultos as orientem para que seu uso não as prejudique nem comprometa sua saúde e segurança.