OMS lança diretrizes para orientar pais e cuidadores quanto ao uso de aparelhos digitais como celulares e tablets por crianças.

 

 

Especialistas em desenvolvimento infantil têm chamado a atenção para o uso excessivo de aparelhos digitais como celulares, tablets e videogames por crianças e adolescentes.

Como essas tecnologias são novas, ainda não existem pesquisas de longo prazo que meçam o impacto do uso de aparelhos digitais em crianças, mas estudos já indicam que o uso excessivo desses dispositivos têm causado prejuízos no desenvolvimento cognitivo e social e até no peso de crianças e adolescentes.

 

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Em 24 de abril deste ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou novas diretrizes para orientar pais e cuidadores de crianças menores de 5 anos quanto ao uso de aparelhos digitais, atividade física e horas de sono. Para a OMS:

  • Crianças menores de 1 ano não devem ser expostas a telas. Nunca. Elas não devem passar mais de  1 hora restritas a carrinhos ou cadeirões e devem dormir de 14 a 17 horas (entre 0-3 meses) e entre 12 a 16 horas (4-11 meses), incluindo sonecas.
  • Crianças de 1-2 anos: O uso de aparelhos eletrônicos e digitais não é recomendado. Nessa fase, elas devem passar 180 minutos por dia realizando atividades físicas e não exceder mais de 1 hora diária restritas a cadeirões e similares. Devem dormir de 11-14 horas.
  • Crianças de 2-4 anos: Não devem exceder 1 hora diante das telas e devem passar 180 minutos diários em atividades físicas. Devem passar no máximo 1 hora restritas a cadeirões e smilares e dormir de 10-13 horas por dia.

A organização também preparou dicas para os pais:

  • Se puder, não use celulares na frente de crianças menores de 5 anos. Procure realizar atividades divertidas com elas, como pintar e cantar e dê-lhes atenção integral.
  • Priorize a criança quando estiver passando tempo com ela. As ligações, as redes sociais e a leitura podem esperar.
  • Não tenha medo de dizer “não”. Nunca é tarde para mudar maus hábitos em relação ao uso de telas. Diante da negativa, é normal  que crianças reajam com choro e manha. Mantenha-se firme.
  • Se tiver que falar ao telefone, procure usar um aparelho fixo; assim, a criança se sentirá menos tentada a brincar com ele depois.

Essas diretrizes são mais rígidas do que as lançadas pela Academia Americana de Pediatria com base em um estudo de 2016 e que estipula que crianças entre 18-24 meses podem assistir a programas educativos, mas devem priorizar atividades longe das telas. Entre 2-5 anos, a Academia recomenda no máximo 1 hora em frente a telas por dia, com programas educativos.

“A qualidade e o contexto pesam na seleção do que nossos filhos devem entrar em contato. Os jogos online ou vídeos podem ser muito ricos se possuírem uma estética interessante, ou se o conteúdo possuir boas informações, desafios e/ou interações criativas. Há programas que ajudam a promover a criatividade e o uso de ferramentas que podem ser importantes para o futuro”, afirma Tania Terpins, psicoterapeuta daseinsanalista e educadora infantil.

 

Orientações para pais de crianças maiores de 6 anos quanto ao uso de aparelhos digitais

 

No entanto, a principal dificuldade dos pais e cuidadores é restringir o uso de aparelhos digitais para crianças maiores de 6 anos. Nessa fase, elas já têm mais autonomia e muitas são donas de aparelhos, o que as torna mais propensas a usá-los por longos períodos. “Alguns aspectos [do uso] são preocupantes, como o fato de não se pausar jogos online, ou dos vídeos continuarem em sequência automática, podendo ser vistos por longos períodos de tempo. O tempo de uso, por exemplo, pode preencher horas a fio, comprometendo o sono, estudos ou interações pessoais presenciais (muito mais ricas que as restritas ao mundo virtual). Para uma criança ou adolescente em vida escolar, a perda de sono interfere diretamente no seu desempenho cognitivo e nas atividades interacionais”, revela Tania.

A recomendação da Academia Americana de Pediatria para crianças maiores e adolescentes é que pais busquem equilibrar o tempo de uso desses aparelhos com outras atividades mais saudáveis. Eles devem colocar limites para que a experiência na internet seja positiva e não ocupe o espaço de atividades físicas e interações pessoais presenciais, que são essenciais nessa fase. Veja as diretrizes da Academia:

  • Para crianças a partir dos 6 anos: Estabeleça limites de tempo de uso e os tipos de mídia que elas podem usar. Garanta que o uso não atrapalhará o sono adequado, as atividades físicas e outros comportamentos essenciais à saúde.
  • Estabeleça momentos em que todos devem desligar os aparelhos, como a hora das refeições ou enquanto estiver dirigindo. Também é importante determinar locais em que o uso é proibido, como o quarto.
  • Converse sempre sobre cidadania e segurança, incluindo como tratar as pessoas com respeito na internet e fora dela.

As orientações acima são semelhantes às da Sociedade Brasileira de Pediatria, que recomenda que crianças menores de 2 anos sejam desencorajadas a usar dispositivos digitais, que pais limitem o uso de mídias a 1 hora por dia para crianças de 2 a 5 anos e que o acesso à internet de crianças e jovens maiores de 10 anos também seja monitorado, dada à vulnerabilidade dessa faixa etária à violência virtual.

A SBP também aconselha que as crianças não usem aparelhos, incluindo televisão, no quarto, para evitar o isolamento, e que sejam incitadas a realizar atividades físicas que estimulem a interação social.

Se é verdade que as tecnologias são parte da rotina diária do mundo moderno e que não é possível criarmos as crianças à margem dessa realidade, também é fato que devemos protegê-las dos possíveis danos que seu uso excessivo pode trazer.