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Outras Histórias #31 | Maratona do Rio



As paisagens do Rio de Janeiro causavam ódio e admiração enquanto o dr. Drauzio corria a maratona mais bonita do mundo.

 

 

Esse episódio é um trecho do livro Correr, do dr. Drauzio Varella.
No começo de 2013 eu aceitei o convite de uma amiga para correr a Maratona do Rio de Janeiro, uma prova que eu não tinha participado ainda. No dia que antecedeu a maratona, meu enteado, Gabriel, decidiu nos acompanhar durante os primeiros 21 quilômetros, mesmo estando destreinado. Eu não sei onde estava com a cabeça naquela noite. Minha desatenção foi tanta que eu não cortei as unhas do pé, não separei as roupas para o dia seguinte, como eu sempre faço, e nem fui cedo para a cama.

Às cinco da manhã, quando o despertador tocou, eu desliguei para descansar aqueles 10 minutos fatídicos a mais, né? Às cinco e meia eu acordei com o interfone. O Gabriel estava me esperando num táxi, no horário que havia sido combinado comigo. Fiquei apavorado, comi não sei o quê, voando, vesti o calção, a camiseta com o número e saí com o tênis na mão para calçar no elevador.

Na pressa, eu esqueci o boné, os óculos escuros e não lembrei de proteger os mamilos com esparadrapo que estava ali, no canto da pia do banheiro — é importante proteger os mamilos, porque a camiseta fica raspando e machuca. Como desgraça pouca é contratempo, o trânsito pro Recreio dos Bandeirantes, onde começa a prova, estava infernal.

Às tantas eu pensei que ia perder mesmo a prova; senti ódio de mim mesmo, é um cretino, né? Tamanha responsabilidade, só porque a maratona era no Rio de Janeiro, sei lá, em casa, né… Sei lá o que me deu na cabeça.

Chegamos em cima da hora e fomos colocados à frente por uma gentileza de uma organizadora com o Gabriel, que na época atuava numa novela na TV Globo. Nós ficamos no pelotão de elite, junto com os demais corredores.

Eu achei perigoso, porque assim que fosse dada a partida, o estouro da boiada com aqueles corredores, aquilo ia passar por cima da gente, quando fui pedir que nos deixasse mudar de lugar, já era tarde: a prova estava começando. E aí eu puxei o Gabriel e nós nos encostamos na grade lateral, um atrás do outro, até que aquele pelotão partisse numa velocidade que a gente não teria a menor condição de acompanhar.

Se não tivéssemos tomado esse cuidado, eu acho que eles tinham passado por cima de nós. Passado o susto, a multidão de camisetas coloridas deu uma volta pelas ruas do Recreio e chegou à Avenida Lúcio Costa, que beira o mar, toda a barra ali do Rio de Janeiro. Ao longe, aparecia o morro Dois Irmãos e a Pedra da Gávea, imponentes assim, né, e completamente indiferentes às limitações da condição humana.

Já alto às sete horas da manhã, o sol batia de frente, meu, na cara da gente — que falta fazia o boné e os óculos escuros que o cretino tinha esquecido de pegar. Assim que as montanhas e o mar apareceram, um corredor de camiseta verde-limão me alertou com a isenção habitual dos cariocas ao referir-se à própria cidade. Ele disse assim: “pode se preparar, doutor, você vai correr a maratona mais bonita do mundo.” Os cariocas são modestos assim, né?

A prova segue à beira-mar por muitos quilômetros, com prédios à esquerda, os coqueiros, o oceano à direita e com o azul que se perde no horizonte. E ali no fundo, o Morro Dois Irmãos e a Pedra da Gávea.

Quando completamos 15 quilômetros, aquelas rochas vulcânicas, o Morro e a Pedra, que sempre me encantaram na paisagem da cidade, começaram a me irritar. Tanto esforço naquele sol sádico e as montanhas lá, mastodônticas, impassíveis, só para dar a impressão de que nós estávamos parados.

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No quilômetro 18, o Gabriel me disse “vai embora, eu tô muito cansado”, e eu respondi que não tinha pressa e reduzimos a velocidade. No quilômetro 20 ele lamentou em voz baixa: “que absurdo, não chega nunca!”. O marco do quilômetro 21 foi um alívio para ele, que saiu da pista com ar de felicidade dos tempos de criança; para mim nem tanto, estava apenas na metade do martírio.

Meus mamilos começaram a arder, não estavam protegidos. Aproveitei para pedir um pedaço de esparadrapo no posto de atendimento, providência que foi de pouca valia, porque com o peito molhado de suor, o esparadrapo descolava.

“Seja o que diabo quiser”, pensei naquela hora. Ver a Pedra da Gávea desaparecer por trás dos Dois irmãos foi um alento. Saber que a paisagem mudaria serviu de consolo para enfrentar a Subida do Joá, nem tão íngreme, mas é longa essa subida.

Na descida, junto ao Morro do Vidigal, veio em sentido contrário um grupo de rapazes. Um deles, de bermuda, sem camisa, cordão de ouro no pescoço, uma latinha de cerveja em cada mão, levantou os braços para reclamar num cantado carioca — Moreira da Silva, de samba de breque —: “bonito, vocês aí na moleza da descida, enquanto nós aqui, sofrendo nesse subidão”.

Depois de percorrer 30 quilômetros, a maratona chegou ao Leblon, com o Calçadão lotado de gente em movimento. Na platéia eu ouvi o chamado da minha mulher, e vi que ela estava com a minha nora e o Gabriel, que tinha pegado um táxi no quilômetro 21, e tinha ido encontrar com elas.

Numa hora dessas, um beijo na boca, mesmo de passagem, revitaliza mais que glicose na veia. Aí começa a fase mais dura: você tem que percorrer o Leblon e Ipanema, para então atravessar Copacabana inteira, Botafogo e boa parte do aterro do Flamengo. É preciso ser de ferro para não sentar num daqueles quiosques do calçadão, no meio de gente bonita, pedir um chope bem gelado e mandar a maratona pro inferno, ou para mais longe ainda.

Essa vontade não faltou naquele momento. Já não estava bom ter completado 30 quilômetros? Que motivação nos faz persistir, sem levar em consideração os lamentos do corpo exaurido? O que a gente pretende provar aos outros e a nós mesmos?

As maratonas atraem indivíduos obstinados, que encontram graça em criar desafios. É lógico que o preparo físico adquirido, os benefícios à saúde, a admiração que causam no imaginário alheio a capacidade de correr tanto servem de estímulo, mas constituem motivações secundárias.

Acima de tudo, está o desejo de demonstrarmos a nós mesmos que temos força de vontade, disciplina e destemor para enfrentar os desânimos e as dores que surgirão no percurso à linha de chegada — aprendizado que nos tornará mais resistentes às intempéries impostas pelo destino.

Ao chegar à Praia de Botafogo, com o Pão de Açúcar e os barcos na Enseada — lindo! As minhas pernas já não me pertenciam, meus mamilos deixaram duas rodas concêntricas de sangue na camiseta, as unhas dos pés doíam, o sol ofuscava os olhos, minha careca desprotegida ardia sob aquele bola de fogo que não dava um minuto de trégua, o corpo era um fardo torturante, impermeável à menor sensação de prazer.

A fisionomia de meus companheiros de infortúnio não podia ser mais lamentável. É possível que eles achassem o mesmo da minha — como fui esquecer o esparadrapo e o boné em pleno Rio de Janeiro? E as unhas dos pés, que nunca havia machucado, pela primeira vez ia perdê-los como tantos maratonistas? Nesse estado de espírito, com pesar, notei que a praia de Botafogo fazia uma curva quase sem fim, quase 360 graus — detalhe despercebido para quem passa de carro.

Fiquei com ódio da enseada, dos barquinhos, das velas brancas, do Pão de Açúcar, do sol, do braço suado que resvalou no meu, da areia, dos banhistas embaixo do guarda-sol, dos transeuntes alheios às nossas misérias e do maldito bondinho abarrotado de gente desocupada. Como sair vivo daquela curva assassina? Quando finalmente entramos no Aterro do Flamengo, empurrados pelos espectadores que gritavam palavras animadoras, enxerguei um raio de luz no fim do túnel. A estratégia havia dado certo, apesar dos 33 graus, terminaria a prova num tempo razoável.

Mal cruzei a linha de chegada, fui invadido por uma sensação de paz celestial, senti um “tuuiin” nos ouvidos, igual a barato de droga, mas aí, agora, com vista para o Corcovado e o Cristo Redentor.

Caminhei de volta atrás de um táxi, o Pão de Açúcar continuava lá com o bondinho, a areia, os barcos e os reflexos do sol na água. O rapaz de camiseta verde tinha razão: aquela foi a maratona mais bonita que eu corri.

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Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.