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Outras Histórias #30 | Cidade maravilhosa



Cartão-postal do Brasil mundo afora, o Rio de Janeiro tinha tudo para ser a cidade maravilhosa, não fosse a violência urbana e o descaso dos políticos e das autoridades.

 

 

 

Parado no trânsito, voltando de um dia intenso de gravações sob o sol forte do Rio de Janeiro, dr. Drauzio saiu de seu estado de mau humor ao ver uma reunião de pessoas cantando e dançando em um botequim. A vontade de descer do táxi foi grande, mas ele desistiu no último instante.

Além do arrependimento de não ter se juntado aqueles que festejavam, a cena o fez pensar em como a “cidade maravilhosa”, símbolo brasileiro e cheia de encantos, tornou-se um lugar marcado por uma guerra civil fruto da violência urbana. Ouça sua reflexão neste episódio do Outras Histórias.

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Veja também: Violência urbana e saúde pública | Entrevista

O Rio de Janeiro continua um cenário de encantos mil, mas está distante da “cidade maravilhosa”.

Olá, sou Dráuzio Varella e aqui você vai ouvir outras histórias.

Uma vez eu gravei um programa de TV, lá no Rio, em locações que me obrigaram a circular pelo centro da cidade, entre casarões coloniais e becos do início do século XX, ainda preservados nessa região central.

Nos espaços entre eles, de repente você vê uma montanha. O sol não dava um minuto de trégua, parecia um crematório e nós gravamos até tarde, até umas sete horas da noite, sem parar para comer nada, né, e eu tinha acordado às cinco da manhã em São Paulo.

E aí quando entrei no carro que me levaria de volta para o aeroporto, estava cansado, com fome e sede, e com aquela sensação pegajosa no corpo, que parecia que tinham derramado um garrafão de cola.

Na frente do Cemitério São Batista, que fica em Botafogo, o trânsito ficou congestionado. O motorista ficou impaciente, mas eu não, eu enfrentei aquela adversidade com resignação paulistana.

E aí num dado momento eu comecei a ouvir um batuque, que vinha do fim da rua — a rua do cemitério. Quando a gente foi se aproximando devagarinho, porque o trânsito estava parado, eu pude ver que ele se originava num botequim, abarrotado de negros e brancos, que pulavam e batiam nos surdos e tamborins com a energia do herói que cumpre a derradeira missão da existência.

Mulheres de calça agarrada e ombros de fora cantavam com os braços pra cima e requebravam na calçada. A alegria que vinha do bar deu um coice no meu mau humor. Tive ímpeto de descer do carro, pedir uma cerveja com um sanduíche rico em colesterol e chegar perto da folia. A tentação foi tão forte, que eu cheguei a levar a mão à maçaneta da porta para descer, mas fraquejei.

Se arrependimento matasse, esse que vos fala neste momento teria ido a óbito dentro do avião que ficou parado na pista por mais de uma hora, esperando que abrisse o tempo no aeroporto de Congonhas — que tinha sido fechado pela chuva.

Que cidade é o Rio de Janeiro! Como pode chegar ao estado de guerra civil em que vive hoje? É inacreditável como aceitamos que nossa cidade símbolo fosse empobrecida e humilhada sem esboçar nenhuma reação coletiva, a não ser aplaudir invasões militares em favelas. Quando nós falamos do Brasil no exterior, os estrangeiros dizem “ôh! Brazil? Pelé! Café!” e invariavelmente “Rio de Janeiro”.

O Cristo Redentor e o Pão de Açúcar são cartões postais tão reconhecidos como a Torre Eiffel, o Big Ben, o Coliseu ou as Pirâmides do Egito. Pensa bem, olha, quantos milhões de dólares um país precisaria investir em publicidade para tornar uma de suas praias famosas, como Copacabana ou Ipanema, reconhecidas no mundo inteiro?!

Não fosse a violência urbana — que é uma doença contagiosa —, haveria no mundo um lugar com mais atrativos? Que fortuna o país amealharia com a invasão dos que sonham em conhecer o Rio de Janeiro? Não é possível que nada possa ser feito para retirá-la da situação em que se encontra.

É vergonhoso saber que o tráfico e as milícias arregimentaram menores num sistema de trabalho que é anterior à promulgação da Lei Áurea. Não é possível que a gente aceite isso sem poder oferecer a essas crianças e adolescentes uma opção mais digna.

Qual é a solução? Eu não sei, mas deve haver alguma ou muitas desde que exista o quê? Vontade política. Por exemplo, sei lá, incentivos fiscais tão generosos quanto sejam necessários pra que empresas ávidas de mão de obra se interessem em montar unidades nas áreas carentes; melhorar as condições das escolas; criar programas federais e estaduais para investir em infraestrutura e treinamento de pessoal; prestigiar e moralizar a polícia, mas dar atenção especial ao ensino, aos postos de saúde e mais que tudo, levar planejamento familiar aos mais pobres.

Porque vamo convir, né, que esse número absurdo de adolescentes que dão à luz filhos que não terão condições de serem educados por elas, como é que vamos fazer? Como é que vamos ter recursos para tantas escolas, hospitais, moradias e cadeias para os malcomportados?

Eu tenho consciência de que o desabafo pode parecer quixotesco, né, mas não consigo me conformar com o fato de que um país onde o cidadão é obrigado a recolher impostos abusivos, como o nosso, esteja condenado a ver  passivamente a sua ex-capital cair nas mãos da malandragem, da bandidagem.

Olha, Berlim, Hiroshima e outras cidades que os bombardeios transformaram em entulho foram reconstruídas em pouco anos. Hoje é possível você andar com segurança em ruas que no passado eram muito perigosas, não aqui, mas em Nova Iorque ou Chicago. Por que não surge um programa ou sequer uma ideia decente para reduzir a violência urbana entre nós?

O Rio é a nossa cidade mais conhecida no mundo. Ela é como a bandeira brasileira: um símbolo ligado à identidade do país. O drama que aflige o Rio de Janeiro não é problema exclusivo dos cariocas, ele diz respeito a todos nós e exige uma mobilização nacional.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.