O transplante de fezes pode ser útil quando antibióticos não são suficientes para combater infecções no trato intestinal.

 

Quando falamos em transplantes, logo vêm à mente os mais comuns, como de órgãos (coração, pulmões, rins) ou de tecidos (córnea e medula óssea). Se contarmos que também existe transplante de fezes, muitas pessoas ficarão no mínimo surpresas. Por mais estranho que pareça, bactérias contidas nas fezes podem ser importantes para tratar pacientes com doenças no trato intestinal.

Diversos tipos de bactérias, tanto benéficas como patógenas, vivem naturalmente no nosso intestino desde o primeiro ano de vida. O problema ocorre quando algum desequilíbrio provoca a reprodução de bactérias Clostridium difficile, capazes de ocasionar infecções e afetar o bom funcionamento do trato intestinal. Fatores como o uso exagerado de antibióticos e deficiência do sistema imunológico podem contribuir para esse desarranjo.




 

Veja também: Funcionamento dos intestinos

 

Se não houver tratamento o quanto antes, as toxinas das Clostridium difficile podem causar inflamação no intestino grosso (colite). O paciente costuma apresentar sintomas como diarreia, fezes com sangue e febre. Em casos raros, a bactéria pode causar infecção no revestimento das paredes do abdômen (peritonite), sepse e perfuração do cólon. O risco de efeitos mais graves é maior em pessoas com imunodeficiência, idosos e pessoas com doenças crônicas ou degenerativas que podem influenciar a imunidade ou modificar o processo de absorção intestinal.




Para conter a infecção, a primeira tentativa usualmente é o uso de antibióticos. Quando eles não são suficientes, pode ser indicado o transplante de microbiota fecal. Introduz-se no intestino do paciente uma solução de fezes doadas que contêm bactérias, fungos, arqueias (micro-organismos morfologicamente semelhantes às bactérias) e vírus que irão colonizar o intestino do receptor. Todos esses agentes vão ocupar o espaço e irão competir por nutrientes, o que consequentemente acaba por controlar a proliferação do Clostridium difficile. Após o transplante, a microbiota do intestino se reorganiza e a flora se reequilibra”, explica o dr. Ricardo Correa Barbuti, gastroenterologista e diretor da Federação Brasileira de Gastroenterologia.

O primeiro transplante de fezes no Brasil ocorreu no final de 2014. Segundo o dr. Eduardo Guimarães Hourneaux de Moura, membro da Comissão Científica da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva, o número tende a aumentar a cada ano, conforme mais estudos relacionados ao tema são realizados. “O consenso europeu de transplante de microbiota intestinal afirma que esse procedimento está indicado e comprovado para pacientes com infecção recorrente por Clostridium difficileEstudos recentes mostraram benefício do transplante em pacientes com doença inflamatória intestinal e síndrome metabólica, necessitando, contudo, de mais evidências”, explica.

Apesar de ser uma técnica recente, o transplante pode ser realizado pelo SUS ou convênio, mas ainda não existe uma tabela de preços específica para o procedimento. O custo irá depender do laboratório que processa as fezes, dos honorários médicos e do hospital.

 




Como é feito o transplante?

 

Todo o processo dura cerca de 15 a 30 minutos e requer algumas etapas prévias, a saber:

 

1. Verificação das fezes doadas




O doador precisa preencher alguns pré-requisitos. Primeiro, faz-se uma investigação do seu histórico de doenças. O doador deve estar livre de infecções como HIV, hepatites B e C (virais), além de doenças infecto-parasitárias como malária, giardíase, entre outras. Avalia-se também se o mesmo tem doenças gastrointestinais, metabólicas e neurológicas e, por fim, se utilizou antibióticos, probióticos ou quimioterápicos nos últimos três meses.

 

2. Processamento das fezes  

Após serem aprovadas, as fezes do doador são recolhidas no hospital em um frasco limpo, sem contato com o vaso sanitário, e processadas por um laboratório habilitado. No transplante utilizam-se cerca de 100 a 200 g de fezes, que são misturadas com soro fisiológico para se obter um total de 250 ml de solução. Esta é, então, filtrada para remoção de partículas grosseiras (principalmente fibras alimentares). No Brasil, alguns centros contam com banco de fezes, mas na maioria das vezes as doações são realizadas conforme a demanda.




 

3. Inserção das fezes no intestino do receptor 

Antes do transplante, o paciente fica em jejum de alimentos que não produzam fezes com fibras e proteínas por seis horas. Ele recebe sedação venosa para ficar inconsciente durante o procedimento. É realizada uma lavagem intestinal por meio de laxante.

A inserção das solução de fezes com soro pode ser feita de duas maneiras: pela boca (a mais moderna) ou pelo ânus. Quando é feita pela boca, introduz um aparelho de endoscopia ou colonoscopia infantil pela cavidade oral do paciente até o jejuno, parte superior do intestino delgado. A outra maneira é pelo ânus, utilizando um aparelho de colonoscopia padrão que libera a solução no intestino grosso.




Após o transplante, os cuidados são semelhantes aos de um exame de endoscopia ou colonoscopia. O paciente deve permanecer monitorado até se recuperar da sedação e recebe alta no mesmo dia. No período imediatamente posterior, não é permitida a realização de atividades que exijam atenção, como dirigir, daí a necessidade de o paciente estar acompanhado.

 

Saúde gastrointestinal

 

Em casos de diarreia, é importante investigar a possibilidade de infecção pela bactéria Clostridium difficile. Um exame de fezes pode detectar a presença do micro-organismo e um exame de sangue pode verificar a existência da toxina associada a ele. Ambos os exames são importantes para orientar o tratamento.




Também é importante fazer o exame de colonoscopia, que permite analisar esôfago, estômago e duodeno e detectar precocemente câncer no trato digestivo e sinais de uma série de doenças. Homens e mulheres são recomendados a fazer esse exame a partir dos 50 anos. Se houver histórico de câncer de intestino na família, mais cedo, por volta dos 40 anos. Mas se for um parente de primeiro grau (ex: pai ou mãe) que já teve algum tipo de câncer no intestino, o exame deve ser feito dez anos antes da data de diagnóstico do câncer nesse parente. Pessoas que sofrem de doenças inflamatórias intestinais (doença de Crohnretocolite ulcerativa e outras) devem submeter-se ao exame com maior frequência, conforme a orientação médica.