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Riscos à saúde não acabam após a ocorrência de um desastre natural | Coluna

Vista aérea de inundação na cidade chinesa de Changsha.

Eventos como ciclones e terremotos causam mortes no momento da ocorrência, mas o risco de epidemias após desastres naturais é alto e exige medidas públicas.

 

Os desastres naturais matam de repente e aos poucos. Primeiro, o fenômeno em si: terremotos, tsunamis, ciclones e outras manifestações da natureza que mobilizam grande quantidade de energia mecânica, concentrada, em relativamente pouco tempo. A destruição inicial muda a estrutura física do local e, independentemente da organização que existia até então, todos os seres vivos que ali viviam sofrem as consequências. Os desastres causam perdas materiais, humanas, animais e ambientais, gerando prejuízos sociais e econômicos.

Quanto piores as condições de vida do lugar, maiores as possibilidades de outras consequências acontecerem. As epidemias de doenças infecciosas são um exemplo. Na tabela abaixo podemos ver algumas consequências de eventos que são comuns no Brasil (adaptado de Boletim Epidemiológico/Ministério da Saúde/Vol. 49, Número 10, Março 2018).

 

Tabela de risco de consequências após desastres naturais.
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Observamos que o maior risco de doenças transmissíveis existe igualmente em qualquer dos tipos de desastre. No início de março de 2019, o ciclone Idai atingiu Moçambique de maneira implacável. Sua passagem provocou alagamentos e causou a morte de mais de 700 pessoas. A péssima infraestrutura de saneamento associada ao alagamento permitiu que fezes humanas se misturassem à água e a bactéria que causa cólera ganhou terreno.

 

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A cólera é causada por uma bactéria chamada Vibrio cholerae, que provoca desidratação por diarreias e vômitos. Com a perda de sais minerais, a pessoa pode apresentar desde câimbras, até arritmias fatais. Cerca de duas semanas depois da passagem do ciclone, mais de 500 casos de cólera já foram identificados e uma pessoa morreu por causa da doença. O grande deslocamento de pessoas em locais sem condições de higiene básicas deve piorar esse quadro.

Países ricos também podem sofrer com desastres naturais. Em 11 de março de 2011, o Japão foi atingido por um tsunami na região de Tohoku. Isso ocorreu em consequência de um terremoto extremamente forte que teve o epicentro a mais de 100 quilômetros de distância da costa. Os reatores da usina nuclear de Fukushima foram desligados automaticamente por causa do tremor da terra e, assim, o sistema de refrigeração também. A inundação causada pelo tsunami impediu que os geradores de reserva fossem ativados e o superaquecimento fez o núcleo dos reatores derreterem, liberando radiação.Acostumados a terremotos e tsunamis, os japoneses foram rapidamente evacuados por conta dos desastres naturais. A evacuação que ocorreu em resposta ao desastre nuclear, entretanto, foi considerada inadequada e ineficiente. Mais de 18.500 pessoas morreram em consequência do chamado desastre triplo (terremoto, tsunami e acidente nuclear).

O International Disaster Database estima que entre 1995 e 2015 houve mais de 6.400 desastres relacionados ao clima e mais de 600 mil pessoas morreram em consequência direta ou indireta desses eventos.

O Brasil também sofre com desastres naturais. O rompimento de barragens em Mariana e Brumadinho são exemplos recentes. É fundamental que a sociedade e as autoridades tenham planos para emergências em tais casos. Mais importante ainda é minimizar potenciais danos pela aplicação de políticas públicas que contemplem pessoas que vivem em áreas mais vulneráveis.

Sobre o autor: Carlos Jardim

Carlos Jardim é médico pneumologista, atua em hospitais públicos e privados em assistência, ensino e pesquisa.