Pensar na saúde dos migrantes é fundamental para a saúde pública do país de chegada.

 

Todos um dia fomos migrantes. Nossos antepassados mais remotos deixaram a África central e povoaram todos os continentes. Após o domínio de técnicas de cultivo da terra, os primeiros homens abandonaram o nomadismo e passaram a estabelecer comunidades que ocupavam uma região de maneira mais estável, com menos deslocamentos. Mesmo assim, em diversos momentos da história houve grande deslocamento humano, seja pela busca de melhores condições climáticas, por força de desastres naturais ou necessidades econômicas.

Desde o século 16, com as grandes navegações, vimos grandes ondas migratórias levarem indivíduos de um continente a outro, às vezes em quantidades até então inimagináveis. No século 21, os deslocamentos causados por questões políticas e sociais estão em destaque, seja pelo drama humano ou pelas implicações práticas que impõem tanto no país de origem como no de destino.

 

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O número de migrantes triplicou desde os anos 1970: estima-se que em 2017 houve 258 milhões de migrantes no mundo. Desse total, quase 80 milhões são migrantes forçados – aqueles que migraram contra sua vontade. Esse último grupo costuma deixar áreas vulneráveis com condições sanitárias no mínimo insuficientes.

No caminho ao destino que promete melhores condições, estão sujeitos a um grande número de perigos à saúde, especialmente aqueles ligados às doenças infecciosas e transmissíveis, por falta de rede de esgoto, vacinação inadequada (ou inexistente), ausência de medicina preventiva, além do risco de infecções sexualmente transmissíveis por violência sexual. Frequentemente, antes de chegarem ao destino final, muitos migrantes são acolhidos em campos de refugiados, sem instalações adequadas para receber tamanho número de pessoas. Como se não bastassem os perigos físicos, há ainda a ansiedade, depressão e fadiga crônica que são agravadas pelo medo de deportação, estigma e diferenças culturais. Muitas vezes, mesmo o destino final é precário e representa ao migrante somente uma forma de se manter vivo. Veja o caso dos rohingya, que deixam Mianmar, onde são perseguidos e executados, e chegam a Bangladesh, país que sofre com falta de infraestrutura básica.

Todos os profissionais de saúde e autoridades governamentais devem estar atentos a esses dados. A migração é uma questão atual e relevante, com números cada vez maiores de cidadãos se deslocando em busca de condições mínimas de vida. Cada país precisa atuar de forma a proteger tanto a população que chega como a sua própria população, visto que grande parte das enfermidades de alto risco nesses grupos é transmissível. No Canadá, por exemplo, todos aqueles sem informação vacinal recebem a tríplice viral (que protege contra sarampo, caxumba e rubéola). Na Itália, além dessa, recebem também as vacinas de difteria, tétano e coqueluche.

Não devemos esquecer que um dia todos fomos migrantes. Acolher e cuidar de seres humanos em condições tão extremas é urgente e necessário.