Após dias de consumo elevado de álcool, pouco sono e longos períodos de esforço físico, comuns durante o Carnaval, por exemplo, o organismo entra em um estado de sobrecarga. A “ressaca de Carnaval” tende a ser mais intensa justamente pela combinação entre bebida alcoólica, desidratação e desgaste físico acumulado.
Segundo Paulo Zogaib, médico do esporte do Núcleo de Medicina do Esporte do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, esse tipo de ressaca não se resume apenas ao álcool ingerido. “A ressaca de Carnaval é um pouco diferente de uma ressaca, vamos dizer, ‘normal’. O que eu quero dizer é que é provável que uma pessoa no Carnaval tenha ficado fazendo exercício o tempo inteiro, bebendo e pulando. A ressaca, de forma geral, se traduz por uma sobrecarga no fígado e muito provavelmente por uma desidratação.”
De acordo com ele, essa sobrecarga reduz a capacidade do organismo de metabolizar o álcool consumido. Além disso, o efeito do álcool sobre o sistema nervoso central também ajuda a explicar os sintomas mais comuns da ressaca. “Por isso, a moleza, o cansaço, a sonolência, porque o álcool é um depressor do sistema nervoso central”, diz o especialista.
Embora muitas pessoas associem o álcool a uma sensação inicial de euforia, Zogaib ressalta que o mecanismo é outro. “As pessoas pensam que é um estimulante, porque a pessoa fica alegre, mas, na verdade, ele é um depressor. Ele deprime as nossas limitações, então ele perde um pouco o senso crítico por essa depressão do sistema nervoso central.”
Em doses elevadas, esse efeito pode ser grave. “Quanto mais álcool, maior a depressão, até que tem aqueles casos em que o indivíduo entra em coma alcoólico, exatamente por causa dessa depressão severa do sistema nervoso central”, completa.
Veja também: Por quanto tempo o álcool fica no corpo? Entenda como o organismo metaboliza e elimina a bebida
Exercício e ressaca: mitos, riscos e o que funciona
Na tentativa de “compensar” os excessos, muitas pessoas recorrem ao exercício físico intenso no dia seguinte, mas a estratégia não é recomendada, já que treinos pesados podem agravar ainda mais o quadro.
“Caso faça uma atividade muito severa, há uma nova sobrecarga do organismo, sobrecarregando novamente o fígado. Muito provavelmente também ocorrerá desidratação, o que piora o quadro que já tinha se instalado antes”, explica o médico.
Karina Hatano, médica do esporte do Hospital Israelista Albert Einstein, também na capital paulista, reforça ainda que a ideia de eliminar o álcool pelo suor não tem base científica. “Isso é um mito. O álcool não é eliminado pelo suor de forma relevante. A maioria do álcool é metabolizada pelo fígado, em uma velocidade relativamente fixa, que o exercício não acelera. Na prática, a pessoa só perde mais líquido, piorando ainda mais a desidratação.”
Além da desidratação, os riscos incluem alterações metabólicas e cardiovasculares. “Treinar intensamente de ressaca aumenta o risco de vários problemas. O principal é a desidratação associada à queda da pressão arterial, que pode causar tontura, mal-estar e até desmaios”, alerta ela.
Isso não significa que toda atividade física esteja proibida. A diferença entre exercícios leves e intensos é fundamental. “Exercícios leves, como uma caminhada, mobilidade ou alongamentos suaves, podem até ajudar na circulação, no humor e na sensação geral de bem-estar, desde que a pessoa esteja hidratada e se sentindo minimamente bem.”
Quando o assunto é recuperação, a recomendação é clara: o foco deve ser descanso, hidratação e alimentação leve, aponta Zogaib. “A recuperação requer um descanso, alimentação leve, um capricho na hidratação. Dê preferência para frutas, saladas, legumes, comidas que não sejam pesadas”, afirma.
Mas não há soluções rápidas. Para Hatano, o tempo de recuperação é essencial. “O que mais ajuda é o básico bem-feito: hidratação adequada, reposição de eletrólitos, alimentação leve com carboidratos para normalizar a glicose e descanso. O tempo ainda é o principal fator: o organismo precisa metabolizar o álcool e se reorganizar”, finaliza a médica.




