Com a chegada do verão, o consumo de bebidas alcoólicas cresce exponencialmente, desde uma caipirinha para embalar um almoço de família ou uma cerveja gelada com os amigos. Mesmo que o consumo seja moderado, é preciso estar atento aos efeitos do álcool. Será que ele “some” rápido do corpo? Para quem vai dirigir, pequenas doses podem ser detectadas no bafômetro horas depois?
Para começar, é preciso entender como funciona nosso metabolismo e por quanto tempo o álcool permanece no organismo. O álcool é absorvido rapidamente pelo estômago e intestino, mas a maior parte da metabolização ocorre no fígado. Primeiro, entra em ação a álcool desidrogenase (ADH), enzima crucial no metabolismo do álcool. “Ela vai quebrar o etanol em acetaldeído, que vai ser justamente o vilão, o cara da ressaca”, explica Marlone Cunha, hepatologista e assistente doutor do Serviço de Gastroenterologia e da Unidade de Transplante Hepático do Hospital de Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (HC/Unicamp).
Depois, o acetaldeído é metabolizado pela aldeído desidrogenase (ALDH), que o converte em acetato, uma substância menos tóxica e que mais adiante será transformada em água e gás carbônico, embora parte do metabolismo siga outras vias menores do organismo.
Em quanto tempo o álcool é eliminado?
Uma dúvida recorrente é: quanto tempo leva para o fígado metabolizar o álcool? A resposta não é exata e varia bastante entre indivíduos. “A gente costuma dizer que o fígado metaboliza uma dose padrão — cerca de 15 gramas de etanol — a cada duas horas, mas ela varia entre as pessoas por diversos fatores”, explica o médico.
Embora essa seja uma referência útil, a literatura científica costuma apontar uma média de eliminação de aproximadamente 8 a 12 gramas de álcool por hora. Esse valor também não é fixo e depende de fatores como genética (variantes de ADH/ALDH alteram a velocidade), idade (metabolismo mais lento em idosos), sexo (mulheres costumam metabolizar mais devagar por menor atividade de ADH no estômago e menor proporção de água corporal) e funcionamento do fígado (doenças hepáticas como hepatite, fibrose e cirrose reduzem muito sua capacidade).
“Uma mesma dose vai ter efeitos distintos, porque cada pessoa tem condições diferentes. Se há ou não o uso concomitante de alguma outra medicação, por exemplo. Mas, em média, uma dose padrão leva cerca de duas a três horas para ser eliminada do corpo.”
É importante ressaltar, porém, que essa estimativa se refere à metabolização geral, e não necessariamente à detecção em exames. Assim, mesmo pequenas quantidades de álcool, como aquela dose de caipirinha no almoço, podem ser identificadas por exames diferentes durante várias horas.
O pico de concentração de álcool no sangue pode ocorrer entre 30 e 90 minutos após o primeiro gole. Já o tempo de detecção varia de acordo com o tipo de teste: no bafômetro, normalmente por poucas horas; no sangue, entre 6 e 12 horas; na urina, entre 12 e 48 horas; e em exames que detectam subprodutos como o etilglucuronídeo (EtG), pode chegar a até 72 horas. Ou seja: pense bem antes de beber, especialmente se vai dirigir, porque a eliminação do álcool não é imediata.
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Alimentação prévia e hidratação ajudam
“A gente sempre ouve falar que não se pode beber de barriga vazia, certo? E é verdade. Com o estômago vazio, há maior contato do álcool com a mucosa gástrica, o que acelera a absorção. Já com o estômago cheio, o processo é mais lento e o álcool será absorvido em um ritmo muito mais devagar”, explica o especialista.
Outra recomendação comum também é válida: beber bastante água. Manter-se hidratado ajuda a reduzir sintomas e favorece a eliminação de toxinas. Porém, isso não acelera a metabolização do álcool, que segue limitada pela capacidade fisiológica do fígado.
Agora, se você bebeu um pouco mais e quer eliminar o álcool rapidamente, saiba que água, café ou banho frio não resolvem. “Não há o que acelere a eliminação. Se você precisa estar sóbrio em algumas horas, o correto é não consumir bebida alcóolica”, enfatiza Marlone. “Beber água pode ajudar a diminuir a desidratação e, consequentemente, menor ressaca. Café ou banho frio só vão deixar você mais alerta. O fígado vai seguir fazendo seu trabalho e enviar algo mais, como o café, por exemplo, é apenas trabalho dobrado para ele metabolizar”, completa ele, usando de uma metáfora para reforçar que nenhum desses métodos acelera o processo de eliminação.
Se beber, não dirija
No caso de motoristas, no Brasil, a Lei Seca adota tolerância zero ao álcool ao dirigir, com uma margem técnica no bafômetro: até 0,04 mg/L é considerado livre de penalidades (por ser a margem de erro do aparelho). De 0,05 mg/L a 0,33 mg/L é infração gravíssima (multa e suspensão da CNH), e acima de 0,34 mg/L configura crime de trânsito (Art. 306 do CTB), com detenção e multa.
Tão importante quanto a lei é falar sobre os efeitos imediatos do álcool: diminuição dos reflexos, redução da atenção, prejuízo dos movimentos, alteração da capacidade de julgamento, visão periférica comprometida, aumento do tempo de reação e piora da coordenação motora fina, entre outras alterações.
“Isso começa com quantidades pequenas e fica mais intenso conforme aumenta o consumo. Quando falamos em álcool, devemos dissociá-lo do bafômetro, para não parecer como uma justificativa para driblá-lo. Precisamos entender que o bafômetro é um aliado, especialmente no processo de detecção, já que a consciência de cada pessoa não é suficiente para diminuir acidentes de trânsito relacionados ao álcool”, diz o hepatologista.
Ele reforça que qualquer quantidade de álcool é lesiva para o fígado e não existe um valor de consumo seguro, em todos os sentidos. “A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que, tanto para o homem, quanto para a mulher, não há dose segura de álcool.”
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