Toxicologia

Águas de Mariana (MG) oferecem risco de intoxicação por metais pesados



Os efeitos da contaminação da água não serão percebidos agora, mas poderão ser correlacionados mesmo depois de décadas do acidente. Saiba mais.

 

A ruptura das barragens da mineradora Samarco, em Mariana (MG), foi um dos maiores desastres ambientais do Brasil. A lama tóxica chegou ao litoral do Espírito Santo neste fim de semana, causando danos à flora e fauna local. Mas há uma grande preocupação: como fica a qualidade da água nas cidades que são cortadas pelo Rio Doce?

Apesar do suprimento de água de Governador Valadares — cidade que fica a 300 km do município onde as barragens se romperam —  já ter sido parcialmente normalizado, muitos moradores ainda reclamam e questionam sobre os possíveis riscos à saúde. 

Amostras da enxurrada de lama que foram coletadas cerca de 300 km depois do distrito de Bento Rodrigues apontam concentrações muito elevadas de metais como ferro, manganês e alumínio. O Ministério Público Estadual de Minas Gerais emitiu esta semana recomendação para que o Instituto Mineiro de Águas (Igam) divulgue em seu site informações sobre a qualidade da água do Rio Doce. “Mesmo que as concentrações dos metais estejam acima do recomendável, a dose individual letal é diferente dessa dosagem, que estará diluída no curso d’água. Não dá para definir o risco enquanto essa concentração não se estabilizar”, explica Marcus Vinicius Polignano, professor de saúde coletiva da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Polignano salienta ainda que, para que a água de Governador Valadares se torne potável novamente, a central de tratamento está utilizando muitas substâncias químicas, o que faz com que a água tenha cheiro forte de cloro e aspecto amarelado. “Por precaução, se possível, é importante que as pessoas consumam água mineral, até que a chegada de água às torneiras seja completamente normalizada”, destaca.

Silvia Regina Gobbo, professora de ecologia da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) e parecerista pelo Ministério Público no caso Cantareira em São Paulo, também não é muito otimista. Ela explica que há um perigo potencial de expor uma grande quantidade de pessoas de diferentes cidades ao longo da bacia do Rio Doce a um alto risco de doenças neurodegenerativas por conta dos contaminantes, todos considerados neurotóxicos. “Não sei exatamente a população total que hoje utiliza a água contaminada, mas é certo que terão que mudar suas fontes de abastecimento para não se contaminarem. E não se deve evitar somente o consumo de água, mas a ingestão de peixes também”, alerta.

Ela destaca ainda que o alumínio e o manganês não são tóxicos apenas para renais crônicos, mas para qualquer indivíduo. Além disso, o alumínio pode afetar ossos e desregular o sistema reprodutor. “Os efeitos não serão percebidos agora, mas poderão ser correlacionados mesmo depois de décadas do acidente”, destaca a ecóloga.

Outro elemento citado no laudo é o chumbo. Esse merece uma explicação à parte, pois já é um contaminante famoso. “Seus efeitos no nosso organismo incluem desde problemas na biossíntese da hemoglobina, causando anemia, até aumento da pressão arterial, abortos e alterações no sistema nervoso. Mais grave ainda é o fato de que o chumbo pode atingir o feto através da placenta da mãe, podendo causar sérios danos ao sistema nervoso e ao cérebro da criança.”

 

Tipos de intoxicação por metais pesados

 

Há dois tipos de contaminação por metais pesados. A primeira é decorrente de exposição aguda e a segunda, de exposição crônica.

Na verdade, a exposição aguda causa sintomas imediatos que incluem problemas respiratórios, estomacais e mal-estar. A contaminação crônica, cujos efeitos podem aparecer depois de meses ou anos, é ainda mais grave. “Essa é uma contaminação silenciosa. A pessoa ingere pequenas quantidades que vão se acumulando no organismo e causam sintomas tardios. O manganês, por exemplo, em quantidades elevadas na água a ponto de ser inalado pode causar problemas respiratórios graves. Apesar de a pessoa sentir os efeitos imediatamente, a contaminação é silenciosa”, esclarece Silvia.

Sobre o autor: Juliana Conte

Juliana Conte é jornalista, repórter do Portal Drauzio Varella desde 2012. Interessa-se por questões relacionadas a manejo de dores, atividade física e alimentação saudável.

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