Sexualidade

Homens trans: como é o acesso aos serviços ginecológicos no Brasil?

Medo, dor e constrangimento marcam a experiência de homens trans com a assistência ginecológica no Brasil.

Medo, dor e constrangimento marcam a experiência de homens trans com a assistência ginecológica no Brasil.

 

“Quando você virar mocinha, as coisas serão diferentes.” Era o que Nathan Victoriano costumava ouvir quando dizia, aos 11 anos, que não se identificava com as meninas de sua idade.

À época, a informação sobre transexualidade era escassa e distante, inclusive dentro da própria comunidade LGBTQIA+. Aos 15 anos, Nathan, sempre muito comunicativo, fez amizade com pessoas da sigla, mas logo foi rotulado como lésbica – o que aceitou, por ser mais fácil de explicar. No fundo, ele sabia que essa não era a resposta.

Um pouco mais velho, perto dos 20 anos, ele falou pela primeira vez sobre a transexualidade em sua vida. A partir daí, a ideia não saiu mais da cabeça e ele buscou, em meio a todas as adversidades (ele é negro, pobre e morador da periferia carioca), recursos para realizar a sua transição.

Na tentativa de iniciar o processo, Nathan foi ao Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE), pioneiro no tratamento por hormonização. Lá, ele começou a perceber o despreparo dos profissionais para lidar com homens trans (pessoas que não reconhecem o gênero atribuído ao nascer e reivindicam o gênero masculino) e pessoas transmasculinas (aqueles que não se encaixam nem no gênero de nascimento, nem na binaridade de gêneros). 

O atendimento ginecológico, por exemplo, não tinha um dia específico para esses pacientes, o que os obrigava a ficar na sala da espera sob olhares desconfiados de mulheres cisgênero (isto é, aquelas que se identificam com o gênero atribuído ao nascer). Na primeira consulta de Nathan, a médica logo o informou, erroneamente, que ele não precisaria de acompanhamento durante a transição. Para evitar passar novamente por situações constrangedoras, ele assim o fez.

 

À própria sorte

 

A longa espera no IEDE levou Nathan a procurar atendimento em outro estado, em uma UBS de São Paulo, onde havia a distribuição gratuita de hormônios menos nocivos ao organismo. “Achei pessoas na minha trajetória que me ajudaram e, inclusive, fizeram além de seu trabalho por mim. O sistema não me ajudou, mas as pessoas, sim”, conta. Apesar disso, ele foi vítima de gordofobia por médicos do Sistema Único de Saúde (SUS) e desistiu de tentar as cirurgias de mastectomia masculinizadora (retirada da glândula mamária feminina) pela rede pública, recorrendo ao sistema particular.

Durante a recuperação da operação, no entanto, Nathan começou a ter cólicas fortes e percebeu uma hemorragia. Ele correu para a emergência médica ginecológica do SUS, não conseguiu atendimento pela retificação de nome e gênero, e novamente teve de buscar outros caminhos. 

Desde 2006, a Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde garante aos pacientes da rede pública o direito ao uso do nome social em qualquer tipo de serviço, não apenas naqueles voltados para travestis e transexuais. Em 2009, através da Portaria n° 1.820, a adoção do nome social e o reconhecimento da identidade de gênero foram garantidos a essa população no cartão do SUS e nos prontuários de atendimento. Dessa forma, é assegurado por lei o respeito ao nome de preferência e identidade de gênero do indivíduo, certificando o atendimento livre de discriminações nos serviços de saúde.

No entanto, são vários os relatos de travestis e transexuais que sofrem preconceito e passam por constrangimentos ao buscarem assistência médica, desde terem o nome social ou pronomes requeridos ignorados até serem impedidos de realizar o atendimento. Nessas situações, o recomendado é fazer uma denúncia aos órgãos responsáveis através de boletim de ocorrência.

Veja também: Preconceito e falta de acesso a banheiros aumentam o risco de infecção urinária em pessoas trans

Dentro do sistema, o preconceito continua

 

Quando Nathan finalmente fez o exame, por meio do convênio particular da empresa em que trabalhava, descobriu que o seu útero estava aproximadamente seis vezes maior que o normal. Os médicos deram duas opções: ou retirava apenas o útero (histerectomia parcial) e corria o risco de ter outros problemas futuramente, ou retirava também os ovários e as trompas (histerectomia total). Em ambos os casos, Nathan não poderia mais ter um filho biológico, a não ser que congelasse os óvulos antes da cirurgia. Essa possibilidade, porém, não foi apresentada a ele. “Eu tive que escolher naquela hora. Não pude me preparar, parar para pensar: ‘Não, calma aí, eu quero congelar meus óvulos’. Não me deram essa opção. Tiraram a paternidade de mim por falta de apoio e suporte”, desabafa. 

A histerectomia em si foi outro episódio traumático: a cirurgia foi encaminhada pela ginecologista do setor privado para uma maternidade pública que se recusou a realizar o procedimento. Ele teve de recorrer à assistência social para conseguir ser internado e poder ser acompanhado por sua esposa. 

Uma vez admitido no hospital, foram várias as transfobias sofridas: mesmo isolado do restante das pacientes, as pessoas fingiam ter errado de sala apenas para observá-lo. “A partir do momento que eu sou um homem com útero e preciso fazer uma cirurgia, é o meu direito estar naquele espaço”, destaca.

O reflexo do descaso profissional na saúde de pessoas trans

 

Para Nathan, a ausência de um acompanhamento ginecológico ao longo do processo de transição foi um dos motivos para que sua saúde se deteriorasse a esse ponto. No atendimento a homens transexuais e pessoas transmaculinas, ele destaca a falta de informação sobre os corpos e as relações transexuais, do respeito ao nome social desde o primeiro contato com o paciente e da empatia por parte dos profissionais envolvidos na assistência. Em sua opinião, além de todos os problemas citados, a mudança nesse cenário se depara com uma questão primordial:

“Como a gente faz para não perder o apoio do SUS, mas, ao mesmo tempo, acabar com essa patologização sobre a transexualidade? Nós não somos doentes, somos seres humanos. Só nos dão o mínimo, porque está escrito que temos que ter acompanhamento multidisciplinar, que existe o processo transexualizador e que precisamos fazer cirurgias. Enquanto o sistema nos vê como pessoas doentes, eles têm que nos dar algum suporte. E quando eles não nos verem mais dessa forma? Ficaremos abandonados?”.

A dra. Olívia Oléa, médica ginecologista e obstetra especialista em sexualidade humana, conta que esse problema vem desde muito cedo, com a formação dos profissionais de saúde. Durante a faculdade e a residência, a médica aprendeu pouquíssimo sobre o atendimento ao público LGBTQIA+ e nada sobre homens trans ou pessoas transmasculinas.

O seu contato com esses pacientes se deu através do voluntariado de um ano no Núcleo de Estudos, Pesquisa, Extensão e Assistência à Pessoa Trans Professor Roberto Farina (Núcleo TransUnifesp), já que não havia cursos específicos voltados para o tema. Hoje, ela atua em clínica privada e afirma que basicamente tudo o que aprendeu foi através da atuação na prática e discussões transdisciplinares.

“O problema começa com a dificuldade de acesso. Nem todas as cidades brasileiras têm uma UBS com ginecologista ou médico de família. Além disso, existe essa falta de capacitação e preparo durante a faculdade de Medicina e a residência médica. E, infelizmente, o terceiro entrave acaba mesmo sendo o preconceito dos profissionais”, explica.

Somados, esses impasses tiram pacientes transexuais e transmasculinos do sistema de saúde pública, o que pode acarretar em problemas não apenas relacionados ao processo transexualizador, mas a vários outros aspectos. 

“Se você busca um serviço e recebe preconceito, você não volta mais. Se você é trans e ouve outra pessoa trans que você conhece dizer que passou por isso, você nem vai. Então, essas pessoas ficam à margem”, afirma a especialista.

Veja também: Ideologia de gênero | Artigo

 

Atendimento ginecológico humanizado

 

É por isso que, em seus atendimentos diários, a dra. Olívia já prepara o ambiente para ser o mais acolhedor possível. Na primeira consulta, por exemplo, é comum não realizar nenhum tipo de exame, focando em estabelecer um canal de segurança e confiança mútua.

“No geral, são pessoas jovens e muito saudáveis. As queixas são mais relacionadas a pouca familiaridade com a vagina, então o acompanhamento ginecológico é igual ao de uma mulher cis. Quando elas buscam a nossa ajuda? Quando têm queixas menstruais, hormonais ou genitais, para fazer o Papanicolaou se sexualmente ativas ou para verificar a saúde das mamas. Homens trans (exceto aqueles que já realizaram cirurgias) têm mamas, útero, vagina e vulva. Então, o diagnóstico é exatamente igual”, explica.

No entanto, para esses pacientes, questões como menstruação e futuro reprodutivo são mais delicadas. Nesses casos, a dra. Olívia busca sempre conversa para entender as expectativas daquela pessoa, explicar todas as alternativas possíveis e chegar à melhor conclusão.

O enfermeiro Miguel Cleto, 27 anos, foi o primeiro paciente do Núcleo TransUnifesp e um dos que passaram pela assistência da dra. Olívia. Diferentemente de Nathan, ele inicialmente buscou atendimento na rede privada, através de convênio médico. O endocrinologista o redirecionou para outro colega, pois não sabia como conduzir o caso; e o psiquiatra o encarou como um quadro reversível, tentando convencê-lo do contrário. Por medo de ter experiências semelhantes no ginecologista, ele optou por não procurar um profissional da área – e assim, passaram-se anos.

Quando conheceu o trabalho do Núcleo, Miguel passou por uma assistência multidisciplinar, que incluía ginecologia. “Foi muito importante ter esse apoio durante o processo transexualizador. Você tem o atendimento de uma pessoa que está preparada para atender um homem transexual, que vai nos chamar pelo pronome correto, que vai tentar usar uma forma mais delicada de abordar um assunto que, para mim, é desconfortável”, comenta.

Devido a um câncer benigno, Miguel também teve de passar pela histerectomia total, retirando útero, ovário e trompas para evitar o crescimento da neoplasia. Nesse momento, o apoio do Núcleo fez toda a diferença. Alinhados com a equipe de Genética da Unifesp, eles conseguiram congelar os óvulos de Miguel para uma possível fecundação futura.

 

Saúde mental em primeiro lugar

 

“Houve todo um cuidado psicológico comigo. Eles tiveram toda a cautela de resolver o problema ginecológico cuidando do aspecto emocional. O atendimento não é só fisiológico. As pessoas LGBTQIA+, querendo ou não, já são rejeitadas pela sociedade e pela família. A assistência humanizada faz toda a diferença”, destaca Miguel.

Um estudo de 2016 publicado no The Lancet mostrou que adoecimentos mentais, como depressão, ansiedade e pensamentos suicidas são mais comuns na população transexual quando comparada à cisgênero, muito em função da transfobia sofrida diariamente. Um dossiê mais recente, organizado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (ANTRA) e pelo Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE), indica ainda que muitos adolescentes trans são expulsos de casa aos 13 anos de idade e, em média, apenas 0,02% frequentam universidades. Além disso, o Brasil é o país que mais mata pessoas trans – só em 2019, foram 124 assassinatos, além de 11 notificações de agressões por dia. 

O cuidado com a saúde mental, portanto, é ainda mais importante, levando em consideração o abandono de pessoas trans na saúde pública. O processo transexualizador, por exemplo, é lento e burocrático. Hoje, no SUS, homens transexuais e pessoas transmasculinas só podem realizar cirurgias de transição a partir de 21 anos de idade e depois de 2 anos sendo acompanhados por equipe multiprofissional. Por outro lado, uma resolução de 2020 do Conselho Federal de Medicina (CFM) admitiu a possibilidade de realização aos 18 anos, após um ano de acompanhamento, e início de terapias hormonais a partir dos 16 anos. 

Ainda assim, segundo a dra. Olivia, a espera para atendimento na rede pública é de 2 a 3 anos, e mais 5 para de fato conseguir iniciar o tratamento. Atualmente no Brasil, apenas cinco hospitais realizam cirurgia genital pelo SUS, sendo a maioria no Sudeste:

  • Hospital das Clínicas de Porto Alegre (RS)
  • HC da Universidade Federal de Goiás (GO)
  • HC da Universidade Federal de Pernambuco (PE)
  • HC da Universidade de São Paulo (SP)
  • Hospital Universitário Pedro Ernesto (RJ)

Para ampliar esse atendimento, a especialista retoma a importância da capacitação profissional: “Ainda que a passos lentos, estamos avançando. Em cidades do interior, existem muitos profissionais interessados na assistência LGBTQIA+. As pessoas me procuram querendo saber onde eu aprendi o que sei até hoje. Precisamos de iniciativas na educação, desde a graduação em Medicina até a reeducação de profissionais já atuantes. A gente não pode supor que todo médico vá ter uma fagulha de querer atender esses públicos. O que a gente precisa é de um ensino sistematizado para o atendimento”.

Enquanto isso não acontece, a dica da dra. Olívia para homens transexuais e pessoas transmasculinas é inteirar-se das organizações online de pessoas LGBTQIA+, as quais podem indicar médicos ginecologistas e de outras especialidades com experiência nesse atendimento – garantindo, assim, o respeito e a qualidade dignas de qualquer paciente.

Veja também: Cuidados ginecológicos para pessoas LGBTQIA +

Sobre o autor: Beatriz Zolin

Beatriz Zolin é estudante de Jornalismo e estagiária em Redação no Portal Drauzio Varella. Tem interesse pelas editorias de saúde, política, educação e comportamento.

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