Saúde pública

Por que uma crise funerária também é questão de saúde pública?

Com cerca de 3 mil mortes por dia, a pandemia do novo coronavírus pode causar um colapso no sistema funerário do país.

Com cerca de 3 mil mortes por dia, a pandemia do novo coronavírus pode causar um colapso no sistema funerário do país.

 

A pandemia do novo coronavírus, descontrolada no Brasil, sobrecarregou os hospitais, devastou a economia e tende a piorar: há risco de uma crise funerária em todo o país, que passou a marca de 4 mil mortes em um único dia. Diversas cidades já não possuem mais covas para enterrar, com um mínimo de dignidade, as pessoas. Algumas correm para abrir novos espaços, outras “alugam” vagas em cemitérios particulares. Câmaras frias e contêineres foram alocados em hospitais, às pressas, para colocar os corpos, já que os necrotérios não mais suportavam a demanda. Somente em abril, até o dia 12, mais de 33 mil óbitos tinham ocorrido em todo o país, o segundo pior mês desde o início da pandemia. Cerca de 114 pessoas a cada hora.

Por aspectos culturais, boa parte da população brasileira enxerga o rito funerário como parte necessária do encerramento de um ciclo. Há um aspecto de despedida de um ente querido. Com a chegada da covid-19, porém, esse rito precisou ser alterado para evitar aglomerações e exposições dos profissionais dos cemitérios à doença. O luto, então, se tornou um processo mais complicado para algumas pessoas. A possibilidade de uma crise funerária agrava ainda mais a situação.

Além da questão moral, um possível colapso pode acarretar problemas de saúde e ambientais. O primeiro deles é aumentar o risco de transmissão do coronavírus. Apesar de não haver pesquisas que indiquem de forma definitiva quanto tempo o vírus sobrevive em cadáveres, há indícios de que seja superior a uma semana. 

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Mesmo que existam protocolos que devem ser seguidos para prevenir a transmissão da doença, já foram registrados no Brasil casos como aberturas de caixões (que devem permanecer fechados) e má acomodação dos cadáveres (que devem ser colocados em sacos próprios para óbitos, impermeáveis e lacrados). Também há casos em que os funcionários dos cemitérios não receberam ou não estão utilizando os equipamentos de prevenção corretamente.

“O maior problema é a decomposição dos corpos, que produz alguns litros de necrochorume. Tem mais cadáveres, infelizmente, o que pode ser um problema ambiental e de saúde a longo prazo”, afirma o dr. Unaí Tupinambás, médico infectologista, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e membro do Comitê de Enfrentamento à Covid-19 de Belo Horizonte.

Um cadáver demora de seis meses a 2 anos para se decompor. Nesse período, libera entre 30 a 40 litros de necrochorume. Esse líquido é rico em elementos nocivos à saúde, como a putrescina e a cadaverina, e pode atingir o solo e lençóis freáticos que abastecem a região, com auxílio das chuvas. Ele ainda pode proliferar doenças, como a hepatite A e a febre tifoide, e bactérias que causam problemas gastrointestinais, como vômitos e diarreia.

Com a grande quantidade de pessoas sendo enterradas vítimas da covid-19, esse risco de contaminação se torna ainda maior. Pessoas que moram no entorno de cemitérios estão mais vulneráveis, principalmente se na cidade não houver água encanada. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico de 2017, 9,6 milhões de brasileiros não têm acesso à água encanada. 

Existe ainda o risco de faltar profissionais e matéria-prima para a produção de caixões. Por isso, somente abrir mais covas não resolve o colapso funerário.

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Cremar é a solução?

Muitos podem imaginar que a cremação é uma saída para o colapso funerário, mas existem dois problemas principais. A grande maioria das cidades do Brasil não tem crematórios, e as que têm não atendem a demanda gerada com a pandemia. Na cidade de São Paulo, por exemplo, existe apenas um crematório público, que em situações normais possui capacidade de cremar 28 corpos por dia, número muito abaixo dos 219 óbitos que ocorreram no município em 5 de abril. Cada cremação pode levar de 1 a 3 horas.

Essa “solução” também ignoraria a vontade da família que opta pelo sepultamento, por crenças religiosas ou aspectos culturais. “Já não se pode compartilhar o luto, aquele momento com amigos e familiares, agora não vai poder nem enterrar seus entes queridos?”, questiona o dr. Unaí. A Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde não impedem o sepultamento de vítimas de covid-19.

Qual a solução, afinal? Controlar a pandemia. “Se a gente não tiver uma medida mais enérgica, partindo do governo federal, a situação não vai mudar. Um lockdown de 21 dias, por exemplo, funcionaria com um auxílio emergencial adequado junto. Caso contrário, podemos chegar a meados de maio com 500 mil pessoas mortas”, afirma o dr. Unaí.

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Sobre o autor: Rafael Machado

Rafael Machado é jornalista e repórter do Portal Drauzio Varella. Tem interesse nas editorias de saúde pública e direitos humanos.

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