Como fica o corpo após a gestação? – Saúde Sem Tabu #21

Você sabe o que acontece com o corpo da gestante depois que o bebê nasce? Descubra neste episódio do Saúde Sem Tabu.

Mariana Varella

Mariana Varella é editora-chefe do Portal Drauzio Varella. Jornalista de saúde, é formada em Ciências Sociais e pós-graduanda na Faculdade de Saúde Pública da USP. Interessa-se por saúde pública e saúde da mulher. Prêmio Especialistas Saúde 2021 e Prêmio Einstein Colunista +Admirados da Imprensa de Saúde e Bem-Estar 2021 @marivarella

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Publicado em: 28 de junho de 2022

Revisado em: 12 de agosto de 2022

Você sabe o que acontece com o corpo da gestante depois que o bebê nasce? Descubra neste episódio do Saúde Sem Tabu.

 

 

 

O pós-parto é um período de grandes transformações na vida da gestante. Isso porque, além de preparar a casa para os cuidados necessários com o bebê, ela ainda passa por uma reorganização emocional e psiquíca para dar conta de tudo o que está por vir. E não podemos esquecer das mudanças físicas, que afetam o corpo da mulher. Entre elas, estão a alteração na produção de hormônios, a diminuição do tamanho do útero e o aumento dos seios.
Para conversar mais sobre essas transformações e os seus impactos no dia a dia, Mariana Varella recebe a dra. Nathalie Raibolt, ginecologista especialista em doenças do colo do útero e sexualidade. Acompanhe.

Olá, eu sou Mariana Varella, editora-chefe do Portal Drauzio Varella, e tá começando agora mais um episódio do podcast Saúde Sem Tabu, que conta com o apoio da Tena, marca líder mundial em produtos para incontinência urinária. Este é o 21º episódio do nosso programa e aqui é um espaço pra discutir temas de saúde que são cercados de preconceitos e, por isso, costumam ser pouco ou mal abordados pela mídia e pelos próprios médicos. Seja bem-vindo.

Quando nasce um bebê, já sabemos que o recém-nascido precisa de atenção total pra crescer com saúde. Mas o que acontece com o corpo de quem gestou por nove meses, depois de todas as transformações vividas ao longo da gravidez? O pós-parto é um momento de profunda reorganização física, emocional e psíquica. Além dos cuidados com a casa e com a rotina, pra receberem um novo integrante da família, o corpo também precisa se preparar. A produção de hormônios se altera, o útero diminui, os seios aumentam, entre outras mudanças. Esse período é chamado de puerpério, e a gente convidou a doutora Nathalie Raibolt, ginecologista, especialista em doenças do colo do útero e sexualidade, pra falar mais sobre o tema.

 

Mariana Varella: Bem-vinda, doutora Nathalie.

Dra. Nathalie Raibolt: Olá, bem-vinda, muito bom estar participando aqui pra gente falar de mais esse desafio que as mulheres passam ao longo da vida e que é uma fase muito importante, que precisa ser compreendida pra ser vivida com mais tranquilidade, né, Mariana. 

 

Mariana: Sem dúvida, sem dúvida. Agora, pra gente começar, eu queria que você definisse pra gente qual o período do puerpério, né, quanto tempo após o nascimento a gente pode ainda dizer que a mulher tá no puerpério.

Dra. Nathalie: O período de puerpério é considerado nos primeiros 42 dias depois do parto, que é quando a gente observa as mudanças mais importantes nesse processo. A gente sabe que as mudanças vão continuar acontecendo, mas nesses 42 dias é que são as mudanças iniciais e mais impactantes pro corpo, né, e pra saúde da mulher, onde a gente também vai ver algumas intercorrências ainda secundárias ao parto, né, acontecendo tardiamente, muitas vezes, nesse período.

 

Mariana: E quais são as principais mudanças que ocorrem do ponto de vista fisiológico, né, logo após a gestação?

Dra. Nathalie: Nesse período, a gente vai ver uma mudança muito importante, que é no padrão circulatório do corpo, porque a placenta, ela é um órgão cheio de vasos, ela é um órgão da circulação materna e, quando a gente retira a placenta, muda tudo, né. Então, pode mudar o padrão da pressão, é muito comum a gente observar o inchaço nas pernas, que é secundário à retirada da placenta e a todas as mudanças que vão vir como consequência da retirada da placenta. A gente vai ver a produção de leite se ajustar nesses primeiros 42 dias, então, ainda é comum a gente ter intercorrências na mama, mastites, fissuras, porque o leite ainda não tá ajustado, né, a produção do leite não tá ajustada às necessidades do bebê. A gente vai ver consequências importantes da mudança hormonal súbita, queda dos cabelos, que pode acontecer um pouquinho depois, mas já pode começar no puerpério, um ressecamento vaginal muito importante, chegando a ficar parecido com o ressecamento que a gente observa na menopausa. Entre outras mudanças, eu acho que essas são as principais.

 

Mariana: Pensando um pouquinho, né, do ponto de vista ginecológico mesmo, como é a recuperação, que as mulheres se preocupam muito, né, com a recuperação da vagina, do útero e do assoalho pélvico, né. Quase ninguém fala, por exemplo, que é comum que ocorram sangramentos, escapes de urina nessa fase. Enfim, queria saber um pouquinho mais como fica a saúde ginecológica no puerpério.

Dra. Nathalie: Ela é bem diferente das outras fases da vida da mulher, né. Então, a vagina, como eu já adiantei, ela tem um ressecamento muito importante pela queda do estrogênio. Então, a placenta, ela é produtora de estrogênio e progesterona e, quando a gente retira… Além disso, ela vai começar a produzir em alta quantidade a prolactina, que é um outro hormônio, que induz à lactação e que leva a uma diminuição do efeito do estrogênio, né. A gente vai ter o ressecamento vaginal secundário a isso. Esse ressecamento pode dar ardência, pode dar infecções, como candidíase, dificulta muito o retorno da vida sexual com penetração por causa da mudança desse tecido. A gente também vai ter perda urinária não só em mulheres que passaram por parto normal, mas também mulheres que passaram por cesarianas, porque o assoalho pélvico, como você falou, é uma musculatura que fica sobrecarregada pelo peso do bebê, então, é comum que essa fragilidade aconteça, que uma distensão desse músculo aconteça, que ele não funcione em toda a sua capacidade nos primeiros meses depois da gestação. E a gente espera que essas mudanças se recuperem ao longo do tempo, aí, em seis meses a um ano, né. Então, a incontinência urinária, que pode acontecer de forma fisiológica depois da gestação, a gente espera que retorne, né, que se recupere em seis meses, e as mudanças vaginais podem se manter, né, o ressecamento pode se manter durante toda a amamentação por causa da produção da prolactina, mas que a gente espera uma piora, aí, no primeiro ano, e isso é muito individual, né. Tem mulheres que têm uma percepção muito grande do ressecamento por causa dos receptores de estrogênio, ou seja, a vagina é sensível a essa produção de forma diferente entre cada mulher, né. Então, algumas mulheres vão sentir muito ressecamento porque têm esse receptor mais sensível, né, então, acaba mudando demais a vagina, né. Mas, aí, ao longo do primeiro ano, dos primeiros seis meses, a gente já observa uma recuperação.

 

Mariana: Outra coisa que a gente escuta muito, né, das mulheres é que, logo depois do parto, começa o incômodo nas mamas, né, é muito difícil pra algumas mulheres esse comecinho de amamentação. Explica pra gente como é que se dá esse começo, o que que acontece nas mamas, por que que é difícil esse comecinho pra algumas mulheres.

Dra. Nathalie: É, esse começo é bem desafiador, principalmente porque há uma expectativa muito grande de que a amamentação seja instintiva e fluida, né, e a amamentação é um aprendizado tanto pra mãe quanto pro bebê. Existem mamas diferentes, de diferentes formatos, hoje a gente tem muitas mulheres que já fizeram cirurgias plásticas, que muitas vezes ficam com a mama mais distendida, mais difícil do bebê colocar a boquinha, mas também é muito individual. Então, a amamentação, ela nos primeiros dias, ela é muito desproporcional à necessidade do neném. Então, vai ter mulheres que vão sentir que produzem mais leite, né, do que o bebê precisa e outras mulheres que vão sentir que o leite tá sendo produzido em menor quantidade do que o bebê precisa, né, mas isso a gente observa pelo desenvolvimento do bebê, essa quantidade, né, essa adequação do leite, pelo desenvolvimento do bebê. Agora, no terceiro dia, a gente tem um fenômeno que é a apojatura, que é o inchaço, né, quando a mama se enche mesmo, quando a gente chama da descida do leite, né, mas é uma produção maior do leite, logo depois do parto, em que a mama vai realmente ficar muito inchada, pode acontecer febre, né, a mulher pode sentir mal-estar, como se estivesse resfriada, assim, mal-estar físico, né, e isso tende a melhorar em 24 horas. E, além disso, a gente também tem a sensibilidade do mamilo, né, da papila mamária, que é uma pele muito delicada, é uma pele muito sensível, né, eu costumo comparar à mucosa da boca, que é uma mucosa também muito fina, e, sob o atrito do sugar do bebê, aquela pele pode romper e ela precisa criar uma resistência até que ela fique preparada para tolerar uma amamentação mais prolongada. Então, é normal que a mulher sinta aquele incômodo numa fase inicial até que essa pele se adapte, né.

 

Mariana: É um período muito difícil mesmo pra muitas mulheres, né?

Dra. Nathalie: Muito difícil. Eu acho importante saber pedir ajuda nesse momento, né, porque a mulher, às vezes, ela fica achando que ela tem que saber e ela fica se frustrando. E, não, a gente vê, aí, eu tenho muitas colegas obstetras que passaram por dificuldades na amamentação, mesmo tendo estudado, mesmo sendo especialistas. Então, a gente precisa, é uma fase, é um momento, aí, da vida que a gente precisa de ajuda.

 

Mariana: É, sem dúvida. Você falou um pouquinho da saída da placenta, né. Eu acho curioso porque pouca gente sabe, né, que a saída da placenta pode ter efeitos também, né. A gente acha que saiu a placenta, tudo bem, a gente não precisa mais dela naquele momento e acabou, mas não é bem assim, né, doutora? Assim, existem efeitos hormonais, o que que acontece com a saída da placenta?

Dra. Nathalie: Sim, são esses efeitos que a gente já começou a falar. A placenta, ela, além de ser um órgão vascular, né, de ser uma rede de vasos, ali, que muda completamente o batimento cardíaco da mulher, a quantidade de sangue que ela tem no corpo, a pressão arterial, isso tudo vai mudar pela presença ou ausência da placenta, né. E, além disso, ela é produtora de estrogênio, ela é produtora de progesterona. Então, a gente vai ter uma mudança súbita na produção, na quantidade circulante desses hormônios, né, e essa placenta, quando sai, ela vai dar esses efeitos hormonais também, que a gente já falou anteriormente, né, em relação à vagina, em relação à mama, em relação à perda urinária, isso tudo. 

 

Mariana: Outra coisa, a gente fala bastante de inchaço durante a gravidez, né, é uma queixa muito comum entre as mulheres, e algumas se surpreendem ao perceberem que… algumas falam, por exemplo: “Não fiquei inchada durante a gravidez, mas eu inchei muito no puerpério”. E a gente não fala muito sobre isso. Por que que a mulher incha no puerpério, que que acontece e tem alguma forma de ajudar nesse inchaço, nesse edema?

Dra. Nathalie: Esse inchaço é pela saída da placenta, e a gente também vai observar no dia da apojadura especialmente, por essa mudança que a apojadura gera, né, essa descida do leite, que vai exigir uma produção hormonal maior, a gente vê também um inchaço das pernas, né. Então, eu até aviso quando eu vou dar alta: “Olha, sua perna vai inchar no terceiro dia, quando sua mama inchar, a sua perna também vai inchar e não tem o que fazer, não tem como evitar, né”. Porque, às vezes, é: “Nossa, eu tô muito inchada, que que aconteceu, o que que eu fiz, botei a perna pra baixo, fiquei muito tempo deitada, fiquei muito tempo em pé, não dormi direito?” Não, aquele inchaço, ele é esperado porque ele tem relação com os hormônios que estão sendo produzidos na apojadura e ele tende a melhorar sozinho. O que melhora, né, o desconforto de uma perna muito inchada é colocar ela elevada, né, pra esse líquido não se acumular ainda mais e retornar, na medida do possível, né, em direção ao coração, porque esse líquido precisa entrar no vaso e voltar pro coração, mas não tem muito como evitar esse edema, né, é compreender que ele faz parte do processo. E, sim, algumas mulheres vão experimentar um edema pior, outras vão experimentar menos edema.

 

Mariana: Outra coisa que eu ouço muitas mulheres falando também é que elas não sabiam que o sangramento ia durar muitos dias, né. Algumas mulheres ficam, aí, com o sangramento por mais de um mês. Isso tem a ver com a diminuição do útero? Eu queria que você falasse um pouquinho como ocorre essa diminuição do útero, quanto tempo demora pro útero voltar ao tamanho de antes da gravidez.

Dra. Nathalie: É, ele vai voltar nesse período do puerpério, 42 dias, ele vai contraindo, né. Então, o útero, ele é um órgão muscular, contrátil, como os outros músculos do nosso corpo, ele tem uma capacidade de reduzir de tamanho e é por isso que ele expulsa o bebê, e toda vez que a mulher amamenta ela produz a ocitocina, que é um hormônio da amamentação pra ejetar o leite e que faz com que o útero contraia. Então, ao longo do tempo, esse útero vai voltando, diminuindo o seu tamanho, contraindo, eliminando o líquido que tava todo acumulado lá dentro, o sangue que tava acumulado lá dentro, aos poucos ele vai retornando pra dentro da cavidade pélvica, que a gente chama, que é pra trás desse osso que a gente tem aqui embaixo, que é o púbis, então, o útero fica escondido atrás do púbis e, depois desse período de 42 dias, ele vai retornando para lá lentamente, até que depois, né, no decorrer dessas seis semanas, a gente vai observar ele praticamente com o tamanho normal. O esperado é que ele tenha um tamanho normal, a não ser em gestações gemelares, gestações em que o útero precisou atingir um tamanho maior, né. E, durante essa redução, é comum que esse sangramento aconteça, que é o sangramento de onde a placenta estava inserida, né, no útero, e ele tende a durar, aí, um mês mesmo, né, com uma redução bem significativa no primeiro e no segundo dias e, ao longo desse um mês, a gente também vai ver que ele vai ficando cada vez mais fluido, cada vez mais rosado, né, com mais quantidade de líquido e menos de sangue, né. É um sangramento um pouco diferente do que a gente experimenta nos outros momentos da vida, né, na menstruação.

 

Mariana: E esse processo pode causar alguma dor, algum tipo de cólica?

Dra. Nathalie: Sim, a contração uterina durante esses primeiros dias na amamentação pode levar à cólica. É comum que a mulher sinta, durante as primeiras sugadas do bebê, esse útero contrair, essa sensação de cólica simultânea, né. É normal que aconteça alguma cólica no processo de redução do tamanho do útero, sim.

 

Mariana: Outra queixa muito comum é privação de sono, né, doutora, é uma realidade pra quem tem filho recém-nascido, e a gente sabe que também é essencial a gente ter algumas horas de descanso, até pro corpo se recuperar de todo esse processo, né, que tá acontecendo. Tem algum conselho pras mulheres conseguirem dormir um pouquinho mais.

Dra. Nathalie: É, conselho é uma coisa que a gente não dá pra mulheres no puerpério. Não, brincadeiras à parte, né, essa é uma fase da vida, como a gente falou, muito desafiadora porque exige muito fisicamente da mulher. E o fato dela não conseguir dormir gera um desgaste emocional muito grande numa mulher que já está numa situação emocional atípica, né, porque não é sempre que ela tem que cuidar de um recém-nascido, que é extremamente dependente, e muitas vezes numa rotina de vida completamente diferente da usual. Então, é uma exigência emocional muito grande, e o sono piora, né, o padrão de sono ruim piora muito essa situação emocional, essa dificuldade que a gente tem pra viver essa fase, esse momento da nossa vida, né. Mas não tem como a gente interferir muito porque isso vai depender da necessidade do bebê. O que eu costumo reforçar pra elas é, primeiro, saber pedir ajuda, como a gente já falou, que a gente precisa de ajuda nessa fase, né, deixar as pessoas nos ajudarem. Muitas vezes, a gente observa que mães ficam muito preocupadas com o pai, que não sabe fazer direito, que não sabe cuidar tão bem, que vai deixar de fazer daquela maneira certinha, mas a gente precisa que eles participem, né, e precisa que quem tá ali em casa, convivendo, né, faça parte disso, até pra que ela consiga minimamente se recuperar. E o que eu costumo dizer é: o bebê dormiu, dorme, porque você está numa rotina, né, num ciclo diurno muito diferente das outras pessoas e diferente do resto da sua vida, né, mas você tem que realmente tentar recuperar um pouquinho a energia, porque faz diferença, né. A mãe, ela é cansada, ela é esgotada em relação à energia física, né, porque é muita demanda.

 

Mariana: É, tem que delegar aquelas funções que você pode delegar pra você poder se dedicar às que você não pode, né. E eu costumo dizer que as mulheres que contam com essa rede de apoio, né, com os parceiros, com a família, enfim, como elas puderem se ajudar, né, a obter ajuda, elas conseguem descansar melhor e isso faz com que elas sejam mães melhores, né, porque é importante esse período de descanso, né, é uma fase que a gente não pensa muito na gente, né, a gente que é mãe, mas é importante porque você fica uma mãe melhor, né, se você descansa.

Dra. Nathalie: É, descanso, alimentação, a hidratação. Nesse momento, às vezes, a gente não se preocupa muito com a água, mas pra quem está amamentando, ela faz toda a diferença, e a gente sabe que uma desidratação também gera dor de cabeça, né, outros sintomas físicos e, às vezes, a gente não percebe, né. A produção de leite, ela exige muito, né, fisicamente, então, é um consumo de vitaminas, é um consumo de líquido absurdo, né, aquele leite é quase todo água, né. Então, você precisa realmente ingerir, né, uma quantidade maior do que você tá dando, né, naquele leite. É importante observar a urina, né, se a mulher tá urinando adequadamente, se parece uma urina muito concentrada, porque isso vai dizer sobre a hidratação, né. Mas, então, tentar aí se munir de todos os recursos possíveis pra passar por isso de uma forma mais confortável, né, porque realmente vai ser desafiador, né, não tem como a gente poupar isso muitos das mulheres.

 

Mariana: É, agora falando um pouquinho sobre a parte de saúde mental, né. A gente sabe que essas alterações hormonais e também as mudanças no cotidiano, o fato de você ter que cuidar 24 horas por dia praticamente de um recém-nascido, podem trazer algumas alterações emocionais mesmo, né. Então, algumas mulheres reclamam falta de atenção, né, a memória fica prejudicada. E eu queria falar um pouquinho mais sobre essas alterações emocionais, por que que elas ocorrem, se é normal ocorrerem, enfim?

Dra. Nathalie: É, esse momento, ele é um gatilho pra muitas coisas, né. Então, podem acontecer sintomas emocionais, que são primários, que a gente chama, né, então, são sintomas decorrentes do puerpério, né, que estão acontecendo somente por causa do puerpério, né, por causa daquela condição física da mulher e emocional também, e existem também sintomas emocionais que vão acontecer engatilhados, né, ou disparados por esse momento de maior fragilidade, de maior demanda, de menor energia física. Então, duas coisas que podem acontecer: mulheres que já têm uma tendência a apresentar algum sintoma de saúde mental, como a depressão, por exemplo, mulheres que já tiveram depressão, que tratam depressão, têm maior risco de desenvolver uma depressão pós-parto, né, exatamente por causa de todos os fatores ambientais e físicos que vão estar acontecendo ali e é muito importante que… a gente vê mais sintomas relacionados à depressão mesmo, né, ou depressão, ou menos grave do que a depressão, que é o blues puerperal, né, um sintoma de humor deprimido, mais frequente nesses primeiros dias, aí, depois do parto, que não chega a caracterizar um quadro de depressão, mas que leva a um desgaste muito grande, a um questionamento sobre si mesma, né, e isso é muito complicado, uma dúvida sobre o amor em relação ao filho, né. São pensamentos muito conflitantes, assim, muito causadores de conflito mesmo, né, internos, porque você espera viver aquele momento como uma fantasia, um sonho realizado e na prática você não consegue ter energia pra isso, né. 

É importante que essas mulheres saibam que, pra quem tem depressão, pra quem estava em tratamento da depressão, é importante continuar esse tratamento depois do parto, de acordo com a recomendação médica, muitas vezes, a gente faz modificações da medicação, mas é um momento em que isso pode acontecer, né. E isso não tem nenhum prejuízo pro bebê, né, o tratamento de depressão, de acordo com a orientação médica, traz menos prejuízos pro bebê do que uma mulher que não tem capacidade emocional de cuidar pelos sintomas depressivos, né, que a gente sabe que a depressão, por exemplo, vai tirar muito do seu movimento, da sua vontade de fazer as coisas, e naquele momento o bebê precisa muito que a mulher esteja disponível. Então, são realmente apresentações de doenças mentais que acontecem nessa fase, que podem até ser graves, né. Em alguns casos, a gente também tem a psicose puerperal, né, que são alucinações que podem acontecer depois do parto e que podem ser muito graves e demandar, muitas vezes, até internação da mulher, né, e é importante que essa rede de apoio também esteja ali consciente dessa possibilidade, disponível pra ajudar essa mulher a tentar fazer os ajustes necessários quando isso acontecer. 

 

Mariana: Agora, como você mesma falou, doutora, esse período, né, por ser um período de adaptação física, emocional, enfim, é comum que algumas mulheres ou quase todas, vai, tenham sintomas como melancolia, ansiedade, né, um aumento da frequência de choro. Como saber se isso tudo tá dentro do esperado e vai passar naturalmente, conforme o corpo vai se adaptando e a mulher vai se adaptando à nova vida, ou que, aí, pode ser sinal de algo mais grave, em que ela precisa buscar ajuda especializada? Como ela faz pra identificar?

Dra. Nathalie: É, eu acho que o sofrimento que tá causando pra ela, né, a angústia que ela sente é que é o principal a ser avaliado pra buscar ajuda médica. E é importante a gente lembrar que nenhum médico, um bom médico, não vai fazer um tratamento desnecessário. Então, o que eu costumo fazer no meu consultório é encaminhar para uma avaliação. Nenhum psiquiatra vai chegar lá e vai querer que você tenha uma doença, ele vai te dizer se tá tudo bem, se é dentro do esperado ou não. Mas o que a gente pode destacar aqui, pra mulher começar a perceber, é o quanto que isso impacta, né, na rotina de cuidados com o bebê e na rotina de cuidados com ela mesma, né. Então, quando é o impacto em que ela não consegue cuidar do bebê, ela não consegue dormir, né, muitas vezes, uma ansiedade, né, uma angústia tão grande que, nem quando tá tudo calmo e o bebê tá dormindo e tá todo mundo dormindo, é hora de dormir, ela consegue dormir porque a cabeça tá ligada, né. Então, quanto que isso impacta no cuidado do bebê e se ela passa por isso a maior parte do tempo, né, se não tem nenhum momento de alívio durante o dia dela, durante a rotina dela, é motivo pra ela procurar ajuda do especialista, né, e se ela realmente não vê esse estado de humor deprimido melhorar, né, porque, às vezes, na vida dessa puérpera,  o humor é comum que ele oscile, né, ao mesmo tempo que ela sente, né, essa tristeza, essa angústia, essa melancolia muito grande. É importante a gente lembrar também que, durante o processo do puerpério, tá acontecendo um luto, que é um luto não reconhecido, né, porque ela tá se despedindo de uma vida que ela teve, principalmente, se é o primeiro filho, né, e, quando a gente não reconhece que a mulher tá passando por isso, tende a ser pior ainda. Então, deixar que ela fique triste, deixar que ela lamente muitas coisas, que ela fale sobre isso, que ela fale que não quer cuidar do bebê, né, porque vai ter momentos assim. Agora, isso, se está sendo linear, né, ela não consegue, não passa por outros momentos em que ela se sinta satisfeita em nenhum momento do dia, provavelmente, ela tá passando, aí, por um quadro de saúde mental mais grave e, aí, precisa de uma avaliação.

 

Mariana: Eu achei muito interessante, você falou do luto, né, você tá se despedindo de quem você já foi, né, como uma mulher independente, que tinha que cuidar só de você. De repente, você agora mudou, né, uma mudança muito marcante, e eu acho que essas fantasias que a gente tem desde criança, né, de que a maternidade é uma coisa só bonita, só fácil, que acontece naturalmente pra todas as mulheres, de uma forma tranquila, né, sempre, faz a gente se sentir egoísta, sentir que a gente, né, tá se cobrando um monte de coisas. Então, acho importante dizer isso, é normal também a gente se sentir angustiada, se sentir triste, ter sentimentos conflitantes nesse momento, né.

Dra. Nathalie: Isso, e a gente está numa cultura atual, em que o nosso momento histórico é um momento em que a gente tá trabalhando, né, a gente tem uma vida social, a gente tem uma vida profissional, né, a geração anterior, isso era menos frequente, né. Claro que existiam mulheres que trabalhavam, mas não era tão frequente quanto agora. Então, a gente constrói muito a vida baseada na nossa carreira e, aí, naquele momento em que você se torna mãe, você precisa olhar para outro lado da sua vida e você percebe que muita coisa que você fazia antes, ou nem percebe, mas você não consegue mais se ver naquela mesma situação que você se via antes, é uma situação muito nova mesmo. Eu digo que a maternidade, ela é todos os clichês que te falam, né, que é a melhor coisa do mundo, que dá muito trabalho, que é um amor incalculável e que você também fica muito cansada, fica muito exausta, tudo o que é clichê da maternidade é real. Então, você vai passar por essa experiência de uma transformação muito importante em uma cultura em que a gente se prepara pra outras conquistas na vida também, né. Então, você fica ali: “Como que eu vou?” Então, a gente ainda não sabe na verdade, né. Eu acho que a nossa geração, a minha geração, aí, dos 40 a 50, foi a primeira geração em que realmente a gente estava inserido no mercado de trabalho em maior quantidade, que a gente tá descobrindo ainda como viver a maternidade de uma forma leve, como trabalhar também de uma forma leve, a gente ainda tá nesse processo de descobrir qual é a melhor maneira de viver a maternidade.

 

Mariana: Agora, falando um pouquinho da vida sexual, né, é comum que o desejo sexual diminua nessa fase, até porque, né, a gente tá passando por todas essas adaptações. Queria saber se isso realmente é comum, por que que isso acontece e quanto tempo demora pra mulher voltar a recuperar o desejo, a libido, se isso tem um prazo? Você falou também que as primeiras relações podem ser dolorosas, né, pelas próprias mudanças hormonais, e é mais um fator de cobrança, né, que as mulheres acabam se cobrando pra voltar a ter vida sexual plena. Queria que você falasse um pouquinho sobre isso.

Dra. Nathalie: A gente, aí, vai pruma outra área, que tem algumas especificidades, né, porque a sexualidade, ela sofre interferência não só da sua condição física, biológica, né, diferente de outras situações médicas em que a gente consegue prever melhor o que vai acontecer. Mas, pra sexualidade, é justamente a sua autoestima, sua condição mental, como você se sente em relação a você mesma, como você se sente no mundo, se a sua função no mundo está adequada pra você, como tá a sua relação, qual é a sua relação com o prazer, isso tudo vai impactar no seu comportamento sexual, na sua libido. E, aí, quando chega um bebê, a gente tem mudanças biológicas, mudanças sociais, mudanças no seu relacionamento, mudanças no seu reconhecimento, né, você já não sabe muito bem quem você é. Então, é impossível, é muito pouco provável não sofrer nenhum impacto na sua libido e que você não passe, aí, por um período de adaptação também da sua vida sexual, né. Em relação ao corpo, a fase do puerpério, ali por volta dos 40, 42 dias, é o pior momento do ressecamento vaginal e, aí, a recomendação que a gente faz é, pra mulheres que querem retornar à vida sexual e já estão liberadas pelo médico, né, que usem muito lubrificante, mesmo que sempre tenham sido lubrificadas, nunca tenham precisado disso, não sabem nem como usar. Esse é o momento que você vai precisar pra evitar desconforto, pra evitar fissuras, né, que podem acontecer nesse momento. Então, enquanto tem amamentação, tem produção de prolactina, que é um inibidor do efeito do estrogênio e também diminui o efeito da testosterona no desejo, né, nos pensamentos em relação ao sexo, percepção da vontade, né, de satisfação sexual. Então, tem essa parte biológica, que vai estar aí e você vai ter que nadar contra a corrente, né, e tem o lado social, relacional e psicológico, que vão ser esses três aspectos, que vai depender, né, como é que vão estar atuando pra cada mulher.

Então, como a mulher vivia a sexualidade antes, também pode ajudar ou atrapalhar a recuperar essa vida sexual e a libido. Então, quando a mulher coloca o sexo e o desejo e a satisfação como algo que melhora a vida dela, que traz prazer e que a ajuda em momentos difíceis, ela provavelmente vai conseguir recuperar mais rápido, né, e quando ela também tá sendo muito bem acolhida pela parceria, né, pelo parceiro, pelo pai, ou pela parceira, né, isso pode ajudar com que ela retorne. E, quando ela não tem esse olhar pro sexo como algo que é pra ela, que é pra ela se sentir bem, que é pro seu próprio prazer, que é pra ela conseguir ter uma vida mais agradável, aí, é mais difícil retornar, porque, se aquilo é um esforço, né, se ela tá entregando pro parceiro só um sexo que ela entrega pro parceiro pra que ela mantenha um casamento, aí, vai ser bem mais difícil, porque ela já vai estar entregando muito prum filho, já vai estar se desafiando a viver dias muito cansada, muito exausta, e o cansaço físico também interfere. Então, eu considero, aí, que esse momento, principalmente pra quem é casada, né, que é um momento de você manter laços afetivos e se preocupar menos com o sexo no formato que a gente tá acostumado a conversar, que é penetrativo, que tem orgasmo, né. Então, é olhar mais pro afeto, pro contato físico, pro carinho, pra sensação de conexão que você tem com quem tá com você, né, é manter isso e se preocupar menos com penetração, com o sexo no padrão ali de atividade que a gente tá acostumada a reconhecer como o que vale, como o que é o de verdade, né. A gente vai precisar ampliar um pouquinho esse entendimento.

 

Mariana: Claro, tem que respeitar o próprio tempo também, né, não é igual pra todo mundo, enfim.

Dra. Nathalie: Isso, não, não é igual e é desafiador mesmo, né. Não é o melhor momento da sua vida pra você ter prazer sexual, definitivamente.

 

Mariana: Claro, pra finalizar, doutora Nathalie, eu queria que você falasse suas considerações pra quem está passando por essa fase, e, não sei, se a gente esqueceu alguma mudança importante que as mulheres devem prestar atenção também, se quiser ressaltar alguma coisa, alguma recomendação, enfim.

Dra. Nathalie: Eu vou reforçar aqui o que a gente já falou, mas mais objetivamente, que é o autocuidado, né: tenha tempo pra você, deixe o bebê com alguém no momento que você sabe que dá, que é possível, peça ajuda pra você ter um tempo para se sentir você mesma, né. Então, faça alguma coisa que você goste de fazer quando for possível. Se você gosta de fazer um exercício, se você tem um hobby, não abra mão de todo o seu tempo, né, disponível pra só cuidar do bebê ou só fazer por alguém, só fazer pelo marido, só cuidar da casa, porque isso no longo prazo vai te deixar menos disposta e vai acabar diminuindo muito o seu prazer de cuidar do seu bebê, né, de ficar com o bebê. Então, é importante a gente valorizar, eu acho que também a gente não foi educada pra isso, né, valorizar o autocuidado, valorizar que pra você cuidar, né… botar sua máscara de oxigênio pra depois cuidar do outro, né. Então, se oxigene, dá uma volta, dá uma caminhada, vai conversar com as suas amigas, conversar com outras pessoas também. As mães perdem muito a vida social, né, às vezes, só fica naquela rotina repetitiva. Então, liga pras suas amigas, chama elas, desce um pouquinho pra dar uma volta ali, onde você tem espaço pra andar, pra conversar um pouquinho com alguém. Às vezes, é dez minutos do seu dia, meia hora do seu dia, que seu bebê não vai sentir e pra você vai ser tão revigorante, né. Então, olhe pra você, não deixe de se cuidar, não deixe de lembrar que você é importante nesse processo, que você é a líder desse processo, né, porque esse é um momento muito da mãe, né, em que a mãe é a líder. O filho vai estar ali dependente, o parceiro vai ser a rede de apoio, mas ela é que tá ali na frente, né, ela que vai estar comandando todo esse processo, né, todo mundo vai estar ali muito a depender do estado dela. Então, é importante também reduzir a autocobrança e se cuidar.

 

Mariana: Bom, lembrando que esse podcast, o Saúde Sem Tabu, tem o apoio da Tena, marca líder mundial em produtos pra incontinência urinária, doutora Nathalie, queria agradecer, muito obrigada pela sua participação.

Dra. Nathalie: Eu que agradeço, foi um prazer estar aqui, trazer informação é tão importante, né, e informação de qualidade. Agradeço muito poder participar aqui com vocês do podcast. 

 

Muito obrigada. Como conversamos, o puerpério pode ser um momento desafiador, né, cercado de incertezas, transformações intensas, né, do ponto de vista físico, psicológico, enfim. É normal a gente se sentir sozinha no pós-parto, então, é importante também se cercar de sua rede de apoio, familiares, amigos, parceiro, e, se tiver qualquer coisa que esteja atrapalhando muito a sua vida, pedir ajuda médica.

Conteúdo desenvolvido em parceria com a marca TENA https://www.tena.com.br

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