Obesidade desencadeia processos inflamatórios e prejudica controle da asma grave de várias formas. Exercícios, alimentação equilibrada e suporte psicológico são essenciais.

 

Sempre ouvimos falar da obesidade como fator de risco para diversos problemas cardiovasculares, mas o que muita gente não sabe é que ela também pode estar relacionada à asma. Existem dois casos possíveis: o paciente que já é obeso e desenvolve um quadro de asma e o paciente que tem asma e depois se torna obeso (geralmente por conta da doença respiratória). Nos Estados Unidos, por exemplo, cerca de 60% dos pacientes com asma grave estão com sobrepeso ou obesidade. 

É muito comum que pacientes com asma grave se tornem obesos porque, como eles não respondem ao tratamento convencional, precisam tomar grandes quantidades de corticoide oral, uma classe de medicamentos eficaz, mas que pode causar aumento de peso. Pessoas que tomam doses médias ou altas de corticoides começam a ganhar peso em poucos dias. Além disso, para evitar possíveis crises durante a atividade física, boa parte desses pacientes se torna inativa. O assunto foi debatido durante o XII Congresso Brasileiro de Asma, em João Pessoa (PB), em agosto de 2019.

 

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Excesso de peso favorece crises de asma

 

A obesidade pode ser tanto um fator de risco para o desenvolvimento da asma grave como um agravante da doença, por vários motivos. Quando o paciente ganha peso, a gordura abdominal produz mediadores inflamatórios muito agressivos que favorecem a broncoconstrição (estreitamento das vias aéreas por inflamação e contração da musculatura) que causa a crise. 

Vale lembrar que a asma é uma doença crônica, e seu tratamento é feito com medicamentos de ação anti-inflamatória. Nesse contexto, o sobrepeso e a obesidade acabam atuando como inimigos, justamente por desencadearem mais inflamação, o que pode reduzir a resposta do paciente ao tratamento.

 

Vídeo: Especialista responde dúvidas sobre asma

 

O excesso de peso também pode prejudicar o funcionamento dos pulmões, pois limita a expansão dos órgãos e, consequentemente, a capacidade respiratória do paciente. É como se o paciente tivesse um peso comprimindo os pulmões, o que não é nada bom para alguém que sofre de asma grave. 

 

Suporte psicológico pode ser necessário

 

De acordo com o dr. Roberto Stirbulov, pneumologista e professor adjunto da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, a boa notícia é que, eliminando apenas 5% do peso, o paciente já consegue ter melhora do quadro clínico. O que dificulta o emagrecimento é que muitas vezes o asmático se torna depressivo, pois a asma não controlada impede a realização de atividades prazerosas e prejudica muito a qualidade de vida.

 

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Por isso, é fundamental levar em consideração todos os aspectos que envolvem a doença, incluindo o impacto psicológico. “Tenho uma filha com asma grave e ela já ficou três anos sem ir à escola por conta do esforço. São pacientes que faltam muito no trabalho ou na escola, que deixam de sair com os amigos porque vai ter fumaça de cigarro ou que ficam em casa porque está frio. É interessante ter um acompanhamento psicológico, pois é muito grande o peso de ser um paciente crônico e perder alguns prazeres”, diz Raissa Cipriano, presidente da Associação Brasileira de Pacientes com Asma Grave (Asbag). 

Obter o controle da doença é a única forma de retomar as atividades do dia a dia normalmente. “Quando a gente começa a ter consciência de que é uma doença grave, mas que tem tratamento, passamos a ter outra visão. Com trabalho contínuo, a gente consegue ter qualidade de vida”, completa Raissa. 

 

Sintomas e gatilhos da asma grave

 

Na asma grave, o paciente tem sintomas e precisa de internação com muito mais frequência que aqueles com asma leve ou moderada. O pulmão tem hipersensibilidade e os sintomas (dificuldade para respirar, tosse seca, chiado e dor no peito) são mais intensos. Mesmo assim, a adesão ao tratamento ainda é uma barreira, muito por conta da falta de informação e de consciência entre os pacientes de que se trata de uma doença crônica, ou seja, o tratamento precisa ser contínuo, e não apenas quando ocorrem crises. 

Frio, alergias, poluição, poeira, ácaros e fumaça de cigarro são alguns dos gatilhos comuns que ajudam a desencadear as crises. Vale lembrar que o tabagismo passivo faz tão mal para o paciente com asma quanto o ativo; portanto, a recomendação é ficar longe dos cigarros. “Os fatores externos, não temos como controlar, mas dentro de casa, sim. Principalmente à noite, passamos muito tempo em contato com travesseiro, colchão etc. Então, é preciso ter cuidados como fazer a troca de roupa de cama com frequência”, explica Raissa. 

 

Vídeo: Dr. Drauzio dá dicas para conviver com a asma

 

Tratamento da asma em pacientes obesos

 

É preciso tratar a asma grave em todas as pontas. Além do tratamento medicamentoso, geralmente feito com corticoides e broncodilatadores, o paciente que tem sobrepeso ou obesidade precisa reduzir o peso fazendo dieta, atividades físicas ou, em casos mais extremos, cirurgia bariátrica. Uma alimentação equilibrada aliada à prática regular de exercícios sem dúvida proporciona resultado muito melhor no controle da doença. 

 

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Hoje, existem medicamentos imunobiológicos que podem ser grandes aliados no tratamento da asma grave. Além de agir no controle da doença, eles melhoram a resposta ao corticoide inalatório e reduzem a quantidade necessária de corticoide oral, o que acaba auxiliando na perda de peso. Contudo, segundo informações da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), o tratamento com imunobiológicos ainda é complexo, de alto custo e não é fornecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

 

* A repórter viajou a convite da GSK.