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Quando a mulher envelhece: pressão estética e a busca por cirurgias íntimas

As preocupações com o envelhecimento chegam mais cedo para a mulher, o que pode influenciar na procura por cirurgias que rejuvenescem a aparência da região íntima.

As preocupações com o envelhecimento chegam mais cedo para a mulher, o que pode influenciar na procura por cirurgias que rejuvenescem a aparência da região íntima.

 

O Brasil estar entre os primeiros colocados no ranking mundial de cirurgia plástica não é uma surpresa. Em 2018 e 2019, foi o país que mais realizou procedimentos de acordo com a classificação anual feita pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS) – superando, inclusive, os Estados Unidos. O tipo de cirurgia plástica varia de acordo com a faixa etária, e inclui cirurgias que aumentem as mamas, diminuam a circunferência corporal ou até deem um aspecto mais jovem à vagina.

As chamadas cirurgias íntimas femininas são uma das modalidades em ascensão no país. Em 2017, também de acordo com a ISAPS, as brasileiras foram as que mais realizaram a labioplastia, isto é, a redução dos pequenos lábios vaginais. Nos dois anos que se seguiram, a procura por esse procedimento aumentou em 30%.

Nesse mesmo período, dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) mostram que o número de cirurgias entre adultos de 36 a 50 anos cresceu em 35,3%, ultrapassando a faixa mais jovem que vai dos 19 aos 35, com 34,6%.

Isso mostra que, com o envelhecimento, as pessoas e em especial as mulheres estão buscando procedimentos estéticos para conquistar uma aparência mais jovem – inclusive nas áreas mais íntimas do corpo.

 

O que são as cirurgias íntimas femininas?

Existem vários tipos de cirurgias genitais, aplicadas em diferentes partes da vagina: nos pequenos lábios, nos grandes lábios, no púbis ou no clitóris.

A dra. Maria Roberta Martins, membro titular da SBCP e cirurgiã plástica do Hospital Israelita Albert Einstein, explica: “Temos procedimentos que servem para reduzir os grandes lábios quando há muita flacidez ou para enxertar gordura, já que esta tende a ser perdida com o passar do tempo. Há ainda cirurgias para diminuir o tamanho do púbis e do prepúcio do clitóris, se tiver excesso de pele. Mas a mais comum é a que se dá nos pequenos lábios”.

As labioplastias ou ninfoplastias são realizadas em mulheres que sofrem um aumento dos pequenos lábios vaginais. Geralmente, isso acontece de forma congênita ainda na adolescência, devido ao uso de anabolizantes, após uma gestação ou após prática frequente de esportes que causam atrito na região, como ciclismo e hipismo.

“Os pequenos lábios ficam muito grandes e podem atrapalhar as relações sexuais”, conta a especialista. Essa proeminência pode ainda levar ao acúmulo de secreções de urina responsáveis por infecções ou feridas. 

Por vezes, a labioplastia é associada à perineoplastia, com o objetivo de fortalecer os músculos pélvicos em casos de incontinência urinária; à vaginoplastia, que reconstitui a anatomia da região após alterações vaginais causadas por partos traumáticos ou recém-nascidos muito grandes; e ao laser genital, feito principalmente na menopausa, quando há sintomas de atrofia vaginal.

Ainda assim, segundo a dra. Maria Roberta, a maior queixa das mulheres que buscam por esse procedimento é o desconforto estético, que se acentua com as transformações causadas pelo envelhecimento – ressecamento, flacidez e mudanças na espessura genital. Muitas sentem vergonha, por exemplo, da aparência da região ao colocar roupas mais justas, como malhas de ginástica.

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A pressão estética e o envelhecimento feminino

Apesar das cirurgias íntimas femininas serem amplamente realizadas ao redor do mundo, existem alguns fatores que devem ser levados em consideração antes de realizá-las, especialmente quando motivadas por aspectos estéticos.

Daniella Cury, psicóloga especialista em sexualidade e educação pela Universidade de São Paulo e em envelhecimento pelo Hospital das Clínicas, aponta para a angústia gerada pela pressão estética.

“Todos os padrões são construídos socialmente, historicamente e de acordo com o lugar em que a pessoa está. Pouco se fala sobre a vulva, mas a gente sabe que existe um ideal de cor, aspecto e formato que causa enorme sofrimento”, destaca. 

No caso das mulheres, há mais um agravante: a cobrança para que elas disfarcem os efeitos do tempo na aparência. “É como se todos tivessem um ‘prazo de validade’ e o da mulher chegasse mais cedo. Emocionalmente, de uma maneira devastadora”, afirma Daniella.

A psicóloga conta que, em seu consultório, muitas pacientes trazem a preocupação com o envelhecimento de forma precoce, antes que os homens sequer comecem a pensar no assunto. 

“Socialmente falando, a velhice é a perda do lugar social de uma pessoa que antes era economicamente produtiva. Vivemos em uma sociedade em que os homens ainda se beneficiam de maior poder aquisitivo e possibilidades de trabalho. A mulher fica restrita à reprodução. Com o passar do tempo e a diminuição da fertilidade, menor o espaço oferecido a elas”, explica.

Como consequência, estão os efeitos diretos na autoestima que podem, inclusive, resultar em transtornos depressivos ou de distorção de imagem. Essas mulheres enfrentam maior dificuldade em criar laços, viver a própria sexualidade e investir o seu tempo e dinheiro em outras coisas. “As quantias que se gastam na tentativa de ficar jovem são gigantes”, diz a especialista.

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Como lidar com as mudanças na aparência causadas pelo envelhecimento?

De acordo com Daniella, o processo de autoaceitação é contínuo. Para viver e envelhecer em sociedade, é preciso desconstruir valores internos e entender que sempre existirá o impacto do olhar do outro em nossa vida. Ela dá algumas dicas de como tornar essa transição mais leve:

 

  • Conheça a si mesma: O primeiro passo é aceitar o próprio corpo, independentemente do tamanho, forma ou cor. “Isso se aplica a questões de peso, por exemplo, mas também à região íntima”, ressalta a psicóloga. Existem vários meios que podem ajudar nessa hora, como conversar com uma amiga ou buscar ajuda psicológica de um profissional.

 

  • Observe suas próprias características: “Desde criança, as mulheres não são estimuladas a olhar e conhecer a própria vulva. Muitas buscam uma cirurgia íntima sem saber que existe uma enorme diversidade nesse sentido”, explica Daniella. Olhar para a região no espelho, sem roupas, é mais uma forma de autoconhecimento que pode ajudar.

 

  • Busque novos referenciais de beleza: Os algoritmos das redes sociais tendem a mostrar pessoas que se encaixam nos padrões estéticos, promovendo a comparação com modelos inalcançáveis. Mas é possível utilizar essa ferramenta a seu favor, procurando ativamente pessoas com corpos reais e semelhantes ao seu. “Uma das coisas que eu trabalho com as minhas pacientes é isto: ‘Me conta o que é beleza para você. Me mostra alguém que você acha bonito’. A partir daí, trabalhamos juntas para tentar desconstruir alguns valores”, ilustra.

 

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Será que eu quero mesmo uma cirurgia íntima?

Mesmo com os padrões estéticos vaginais muito presentes na sociedade, falar sobre a vulva era considerado um enorme tabu. Hoje, a situação vem mudando. A liberdade sexual conquistada pelas mulheres e a facilidade em acessar informações através da internet contribui para que elas se cuidem mais e procurem meios de se sentirem melhores consigo mesmas.

Mas como saber se esse desejo é motivado por uma vontade própria ou pela pressão para “permanecer” jovem? Tanto a psicóloga Daniella Cury quanto a cirurgiã plástica Maria Roberta Martins recomendam parar e refletir: O que eu considero bonito? Qual é o meu gosto? O que me incomoda? É uma questão de dor ou de aparência? Será é por que meu marido quer que eu faça ou por que eu mesma tenho vontade? 

Se optar pela realização do procedimento, a dica é conversar com quem já o fez, pesquisar profissionais qualificados na área e se informar sobre os riscos e benefícios da cirurgia íntima escolhida.

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Sobre o autor: Beatriz Zolin

Beatriz Zolin é estudante de Jornalismo e estagiária em Redação no Portal Drauzio Varella. Tem interesse pelas editorias de saúde, política, educação e comportamento.

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