Câncer de cólon e reto em jovens

A incidência de câncer de cólon e reto cresceu muito entre as pessoas entre 20 e 40 anos. Os principais sintomas da doença são a presença de sangue vivo nas fezes e desconforto abdominal. Leia no artigo do dr. Drauzio.

close em mão de médico apontando boneco com interior de corpo humano. aumentam casos de câncer colorretal em jovens

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Publicado em: 17/04/2023

Revisado em: 17/04/2023

Diante do aumento de casos de câncer colorretal em jovens, faz sentido iniciarmos o screening por colonoscopia a partir dos 45 anos, como preconizam as diretrizes americanas atuais. Leia no artigo do dr. Drauzio.

 

 

Câncer de cólon e reto era doença de mulheres e homens com mais de 50 anos, quando me especializei em oncologia, no início dos anos 1970.

A partir da década de 1990, no entanto, a incidência na faixa dos 20 aos 49 anos começou a aumentar 2% a 4% ao ano, em diversos países. Em pessoas com menos de 30 anos, o aumento foi ainda mais expressivo. Enquanto a mortalidade acima dos 50 anos vem diminuindo graças ao emprego da colonoscopia como método de screening, nos mais jovens ocorre o contrário. Nos Estados Unidos, os Centers for Diseases Control (CDC) calculam que, em 2030, essa será a principal causa de morte por câncer na população dos 20 aos 40 anos.

Veja também: Câncer de intestino aumenta entre mais jovens

Os sintomas mais comuns são presença de sangue vivo nas fezes, desconforto abdominal e alternância de episódios de obstipação com outros de diarreia. Não é raro pacientes conviverem com essas queixas por meses sem valorizá-las.

Atribuir o sangramento a hemorroidas é muito comum. A mensagem: “nem tudo o que sangra pelo reto é hemorroida”, deve ser repetida à exaustão.

Esse atraso combinado ao retardo da indicação de colonoscopia em gente tão jovem leva a diagnósticos tardios, feitos quando já existem metástases em órgãos internos. Nos casos avançados, quando comparamos pacientes jovens com os mais velhos, o fato daqueles suportarem doses mais altas de quimioterapia e terem melhores condições de saúde não lhes assegura sobrevida mais longa.

Essa constatação sugere que seus tumores sejam mais agressivos.

Alguns estudos demonstraram que certas mutações genéticas associadas ao aumento do risco desse e de outros tipos de câncer (como as que ocorrem na síndrome de Lynch) têm ocorrido com maior frequência nas últimas décadas, nas gerações mais novas. O que estaria acontecendo?

A interação de fatores ambientais com os genes é a explicação mais aceita. A epidemia de obesidade entre adolescentes e adultos, condições como a síndrome metabólica (obesidade, hipertensão, diabetes e colesterol elevado, entre outros agravos), o sedentarismo prolongado, características cada vez mais frequentes na faixa etária dos 20 aos 49 anos, são os mais importantes.

Pacientes com hipertensão, diabetes tipo 2, colesterol elevado e hiperglicemia correm risco mais alto. O aumento da prevalência dessas condições abaixo dos 50 anos eleva o risco nesse grupo.

Dieta rica em bebidas açucaradas, carne vermelha, carnes processadas (como os embutidos) também está implicada. A mudança do padrão alimentar coloca em risco países de renda média e até os mais pobres, com menos acesso a frutas e legumes e maior consumo de alimentos ultraprocessados mais baratos e práticos no dia a dia.

Estudos epidemiológicos levantam a hipótese de que outros fatores ambientais possam ter influência: aumento do uso de antibióticos que modificam a composição da flora intestinal, a maior presença de toxinas em contato com a mucosa intestinal e até o número atual de cesarianas, cirurgias nas quais o recém-nascido deixa de receber o estímulo imunológico provocado pelas bactérias presentes no canal de parto.

Embora os fatores que aumentam o risco do carcinoma colorretal de instalação antes dos 50 anos (precoce) ou acima dessa idade (tardios) sejam os mesmos (obesidade, síndrome metabólica, sedentarismo, hipertensão, diabetes tipo 2, etc.), há diferenças na localização anatômica entre os dois grupos. Por exemplo: nos mais jovens, os tumores surgem com maior frequência do lado esquerdo do cólon, são diagnosticados em fases mais avançadas (consequência da realização de colonoscopias preventivas nos mais velhos), apresentam tumores com mutações genéticas que lhes conferem maior agressividade e têm histórico de outros casos na família.

A epidemiologia do câncer se modifica com a passagem do tempo: câncer de pulmão era doença rara no século 19 (antes do cigarro), câncer de estômago tinha prevalência elevada nos Estados Unidos no início do século 20, agora assistimos ao aumento dos casos de câncer de mama e do carcinoma colorretal em pessoas com menos de 50 anos.

As medidas preventivas precisam acompanhar essas mudanças. Faz sentido iniciarmos o screening por colonoscopia em mulheres e homens a partir dos 45 anos, como preconizam as diretrizes americanas atuais.

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