Embora fatores psíquicos possam estar envolvidos, é sabido por que esse problema ocorre. Leia artigo do dr. Drauzio sobre causas da dismenorreia.

 

Cólicas, irritação, mal-estar e sensação de desconforto no baixo ventre nos dias que antecedem a menstruação, não são poucas as mulheres a reclamar desses incômodos que entram em regressão já no primeiro dia de sangramento menstrual.

Mas, há aquelas que apresentam cólicas fortes acompanhadas de náuseas, enxaqueca, dificuldades respiratórias, fadiga, irritabilidade e depressão psicológica que se instalam dias antes e invadem o período menstrual: são as portadoras do distúrbio conhecido como dismenorreia, termo derivado do grego, que significa menstruação difícil.

No passado, a dismenorreia era interpretada como inerente à condição feminina; distúrbio causado por “desequilíbrios psicológicos característicos do sexo frágil”, a ser abordado no campo da psiquiatria. Tal visão preconceituosa fez surgirem tantas teorias para explicar a dismenorreia, que essa condição se tornou conhecida como “a doença das teorias”.

Hoje, sabemos que, embora fatores psíquicos possam estar envolvidos na sua origem – como em qualquer enfermidade causadora de sintomas subjetivos como cansaço, dores e indisposição –, a doença tem causas bem definidas, quadro clínico sugestivo e tratamento adequado.

As dismenorreias são divididas em dois grupos: primárias ou essenciais e secundárias.

 

1 – Dismenorreia essencial ou primária

 

Constitui a maioria dos casos. São classificadas como primárias, quando os sintomas estão relacionados com o próprio útero durante os eventos que antecedem a menstruação. Nelas, não há interferência de outras enfermidades, ginecológicas ou não.

As dismenorreias primárias, caracteristicamente, ocorrem em mulheres que ovulam.

 

2 – Dismenorreia extrínseca ou secundária

 

Quando os sintomas surgem como consequência de um distúrbio ginecológico extrínseco. São exemplos de causas extrínsecas:

2.1 – Miomas que modificam a forma do útero de modo a interferir com as contrações ou exercer efeito compressivo sobre as estruturas vizinhas, provocando dores no baixo ventre que, geralmente, se irradiam para a raiz das coxas e para a região lombar;

2.2 – Endometriose: enfermidade causada por proliferação de células do endométrio (camada que reveste a parte interna do útero) na cavidade abdominal e em outras localizações anômalas ao redor do aparelho ginecológico que, em geral, se manifesta na fase reprodutiva com quadro de dores nos 5 a 7 dias que antecedem o período menstrual e à qual pode ser atribuída a dificuldade para engravidar;

A cólica é o sintoma dominante. Costuma instalar-se na véspera ou algumas horas antes da menstruação e crescer de intensidade no dia que se segue. Pode estar localizada na parte inferior do abdômen ou ser difusa, semelhante à dos movimentos intestinais.

2.3 – Doença inflamatória pélvica, causada por processos inflamatórios/infecciosos que podem acometer qualquer porção do aparelho ginecológico, causando dor no baixo ventre, corrimento vaginal, mal-estar geral e, eventualmente, febre;

2.4 – Tumores pélvicos que comprimem o útero;

2.5 – Malformações uterinas que interferem com o mecanismo de contração do órgão;

2.6 – Estenose cervical, processo em que ocorre oclusão parcial do canal situado no colo do útero, dificultando o escoamento do sangue menstrual e provocando dor em cólica.

 

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Causas

 

Nas dismenorreias secundárias, a causa é extrínseca e passível de identificação por meio das técnicas de diagnóstico clássicas: toque vaginal, ultrassonografia, tomografia computadorizada, videolaparoscopia etc.

Nas primárias, como não são encontradas doenças que justifiquem os sintomas, tradicionalmente as causas eram atribuídas a “fatores psicossomáticos”.

Embora seja impossível afastar interferências emocionais em qualquer quadro de dor, atualmente sabemos que as dismenorreias primárias estão associadas à produção anômala de prostaglandinas no interior do útero.

As prostaglandinas são substâncias produzidas na membrana que reveste a parte interna do útero (endométrio), envolvidas no processo de contração das fibras musculares uterinas e oclusão dos vasos sanguíneos que irrigam o endométrio.

Quando produzidas em quantidades inadequadas, podem provocar cólicas uterinas e contração dos vasos sanguíneos, prejudicando a oxigenação dos tecidos e acentuando a dor.

 

Sintomas

 

A cólica é o sintoma dominante. Costuma instalar-se na véspera ou algumas horas antes da menstruação e crescer de intensidade no dia que se segue. Pode estar localizada na parte inferior do abdômen ou ser difusa, semelhante à dos movimentos intestinais.

Do baixo ventre, as cólicas se irradiam para a raiz das coxas e para a região lombar, de modo a confundir-se com as dores na coluna. Em cerca de metade dos casos, a dor vem acompanhada de outras queixas: cefaleia (que pode ser persistente e do tipo enxaqueca), náuseas, vômitos, diarreia, irritabilidade, depressão psicológica, fadiga, dificuldade de convívio social. Fatores emocionais podem intensificar o quadro.

 

Diagnóstico

 

O diagnóstico de dismenorreia primária é de exclusão, isto é, só pode ser feito quando causas extrínsecas foram afastadas. De modo geral, quando a mulher se queixa de que os sintomas surgiram na adolescência, quando começou a menstruar, é mais provável que se trate de dismenorreia primária. A instalação tardia do quadro sugere a presença de fatores secundários que exigem esclarecimento obtido por meio de exames complementares.

Em caso de dúvida, o médico pode empregar o “teste da pílula” descrito pelo professor S. Piato: prescrever anticoncepcional oral nos mesmos esquemas empregados para contracepção. Como a pílula impede a ovulação e a dismenorreia primária praticamente só ocorre em mulheres que ovulam, as dores devem diminuir ou desaparecer. Caso contrário, a suspeita recai sobre a presença de fatores extrínsecos.

 

Dismenorreia e DIU

 

O dispositivo intrauterino (DIU) é um dos métodos anticoncepcionais mais utilizados. O DIU previne a fertilização do óvulo através de múltiplas ações locais, uma das quais envolve aumento da liberação de prostaglandinas, mediadores envolvidos no mecanismo de instalação da dismenorreia.

Embora seja um método seguro de contracepção, a presença do DIU pode facilitar sangramentos uterinos irregulares e dores no final do ciclo menstrual semelhantes às dos casos de dismenorreia.

 

Tratamentos

 

1) Medidas gerais:

1.1 – Evitar vida sedentária: exercícios aeróbicos moderados que provocam liberação de endorfinas podem trazer sensação de bem estar, de autoconfiança, e aumentar a resistência à dor;

1.2 – Calor local: a aplicação de bolsa de água quente na região abdominal acometida pelas dores, medida adotada desde os tempos de nossas avós, é sempre indicada;

1.3 – Dieta: alimentos gordurosos que retardam o trânsito intestinal e alimentos que provocam fermentação devem ser evitados, especialmente nos períodos pré-menstruais. A dieta deve ser rica em frutas e em vegetais com fibras para assegurar trânsito intestinal adequado;

1.4 – Hidratação: a ingestão de quantidades insuficientes de água pode causar ressecamento do bolo fecal e obstipação, que contribui para agravar quadros de dismenorreia.

2) Tratamento cirúrgico

A cirurgia pode ser necessária nos casos de dismenorreia extrínseca (presença de grandes miomas, de tumores malignos ou de focos de endometriose) ou nas pacientes em que o tratamento conservador não foi eficaz para controle dos sintomas ou do sangramento uterino.

3) Tratamento medicamentoso

3.1 – Anticoncepcionais: como os hormônios contidos nos anticoncepcionais provocam atrofia do endométrio, local de produção de prostaglandinas, a pílula está indicada nos casos de dismenorreia primária em mulheres com vida sexual ativa que não desejam engravidar.

3.2 – Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs/coxibes): os AINEs/coxibes representaram uma revolução no tratamento das dismenorreias. Uma análise conjunta (metanálise) de diversos estudos publicados recentemente mostrou que o emprego de AINEs/coxibes provoca alívio dos sintomas em cerca de 90% das pacientes tratadas.O uso de AINES nos casos de dismenorreia tem ainda uma vantagem para algumas mulheres, porque diminuem o fluxo de sangramento durante a menstruação.

O uso de anti-inflamatórios não deve ser indiscriminado: é necessário acompanhamento médico.