Doenças e sintomas

Síndrome do coração partido (cardiomiopatia de Takotsubo)

desenho do coracao destacado dentro do torax

Síndrome do coração partido é uma doença que afeta o músculo cardíaco cuja principal característica é a disfunção súbita do ventrículo esquerdo.

 

Síndrome do coração partido, cardiomiopatia de Takotsubo ou, ainda, cardiomiopatia induzida por estresse são os nomes pelos quais é conhecida uma doença do músculo cardíaco cuja principal característica é a disfunção súbita, mas transitória, do ventrículo esquerdo. Essa alteração usualmente é desencadeada por situações de estresse agudo emocional ou físico, seja a morte de uma pessoa querida, a perda do emprego, o rompimento de um relacionamento afetivo, um acidente automobilístico com graves consequências, crises de asma. Até saber que acertou os seis números da Mega-Sena em dia de prêmio acumulado, assistir à vitória da seleção de futebol ou receber uma promoção inesperada pode também funcionar como fatores de risco para a manifestação da síndrome.

De maneira geral, situações que despertam forte emoção provocam aumento na produção de adrenalina e de outros hormônios do estresse pelas glândulas adrenais.  Essa descarga de adrenalina na corrente sanguínea determina um estreitamento temporário nas artérias que irrigam o coração e interfere no funcionamento do músculo cardíaco. Como resposta, o organismo pode produzir sintomas semelhantes aos do infarto agudo do miocárdio em pessoas predispostas, mas sem nenhum sinal de doenças obstrutivas nas coronárias.

Para mascarar ainda mais o quadro, o episódio vem acompanhado por alterações registradas no eletrocardiograma e pela elevação discreta dos níveis de troponina no sangue, uma enzima indicativa de lesão ou insuficiência do músculo cardíaco, que ocorre tanto na cardiomiopatia por estresse como nos ataques cardíacos.

Grosso modo, o que acontece na síndrome do coração partido é um descompasso temporário no funcionamento do músculo cardíaco. Enquanto as outras partes do ventrículo funcionam normalmente, ou apresentam contrações mais rápidas e descontroladas, o ápice e o centro do ventrículo esquerdo sofrem uma espécie de paralisia transitória durante a sístole, distúrbio que o deixa sem força suficiente para impulsionar o sangue para o resto do corpo através da válvula da aorta. O acúmulo de sangue dentro do ventrículo esquerdo lhe confere o formato abaulado típico da enfermidade.

 

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Em 1990, pela primeira vez, médicos japoneses identificaram as características da cardiomiopatia induzida por estresse e estabeleceram uma analogia entre a imagem do coração partido e a de uma armadilha em forma de vaso de fundo arredondado e pescoço estreito, utilizada para capturar polvos no Japão. Daí vem o nome cardiomiopatia de takotsubo (tako = polvo + tsubo = vaso, pote) pelo qual a doença também é conhecida.

Em geral, a síndrome do coração partido dura de sete a 30 dias, tem evolução benigna e prognóstico favorável, já que não deixa marcas permanentes no coração. Raros são os casos em que a doença pode levar o paciente a óbito.

 

Causas

 

Ainda não foi determinada a causa específica da síndrome do coração partido, mas já se sabe que, por volta de 80% dos casos, ela pode ser desencadeada por acontecimentos estressantes que promovem descarga de hormônios de estresse, especialmente da adrenalina, na corrente sanguínea.

No entanto, ainda não é possível determinar o mecanismo que induz o aparecimento dos sintomas em aproximadamente 1/3 dos episódios.

Estudos hemodinâmicos deixam claro, porém, que a causa do distúrbio não está no bloqueio das artérias coronárias por um coágulo de sangue ou ateroma, mas, sim, no mau funcionamento do ápice e da região central do ventrículo esquerdo, condição que pode levar à insuficiência cardíaca temporária e simular o infarto agudo do miocárdio.

Um grupo de pesquisadores italianos conseguiu identificar o mecanismo fisiopatológico da doença. Eles partiram da hipótese de que a descarga de adrenalina produz espasmo dos pequenos vasos coronarianos, fenômeno que não é perceptível na coronariografia, mas compromete a microcirculação, impedindo que as células musculares do coração exerçam suas funções adequadamente. Eles conseguiram também demonstrar que, na maior parte dos casos, passada a fase aguda, a disfunção microvascular regride, o coração retoma os batimentos normais e os sintomas desaparecem.

 

Fatores de risco

 

A cardiomiopatia induzida por estresse pode afetar pessoas de qualquer idade. Em 90% dos casos, porém, a enfermidade atinge mais as mulheres, acima dos 50 anos, que estão atravessando o período da pós-menopausa. Estudiosos no assunto acreditam que elas se tornam mais vulneráveis à medida que ocorre queda na produção de estrogênio, o hormônio feminino que, entre outras funções, protege o endotélio, a camada interna dos vasos.

Idosos e portadores de transtornos neurológicos (traumatismo craniano, epilepsia) ou psiquiátricos (crises de ansiedade e depressão) integram também o grupo de risco.

 

 Sintomas

 

Os sintomas da síndrome do coração partido são praticamente os mesmos que ocorrem na vigência do infarto agudo do miocárdio:

  • Dor no peito;
  • Falta de ar;
  • Cansaço extremo;
  • Sudorese abundante;
  • Angina;
  • Arritmia;
  • Desmaios;
  • Hipotensão.

Vale registrar que, em grande parte dos casos, esses sintomas costumam desaparecer espontaneamente, isto é, sem tratamento.

No entanto, é preciso estar atento a possíveis complicações da doença, como a insuficiência cardíaca grave, o edema pulmonar e o choque cardiogênico (o coração perde a capacidade de bombear o sangue na quantidade necessária para nutrir os órgãos), que exigem atendimento imediato em ambiente hospitalar.

 

Diagnóstico

 

O diagnóstico da síndrome do coração partido considera os dados obtidos no exame físico e no levantamento da história do paciente, assim como o resultado de exames laboratoriais de sangue, uma vez que a presença de certas enzimas na corrente sanguínea pode sugerir doença cardíaca.

Vencida essa primeira fase, exames não invasivos, como o eletrocardiograma e o ecocardiograma, raios X de tórax, ressonância magnética e o angiograma coronariano são úteis para fechar o diagnóstico, uma vez que ajudam a identificar a existência ou não de irregularidades na estrutura e funcionamento do coração.

 

Tratamento

 

Não existe tratamento específico para a síndrome do coração partido. Mesmo assim, ele pode ser útil para reduzir o esforço do coração durante o processo de recuperação e evitar novas crises.

Os medicamentos utilizados nessa fase permanecem praticamente os mesmos indicados nos casos de insuficiência cardíaca grave associada ao infarto do miocárdio. São exemplos dessas drogas os inibidores ECA para controle da pressão arterial, os betabloqueadores para diminuir a frequência cardíaca, os diuréticos para reduzir a concentração de líquidos no organismo e os remédios para alívio do estresse.

Técnicas de relaxamento e meditação também podem trazer alguns benefícios, já que trata-se de uma cardiomiopatia induzida por estresse.

 

Recomendações

 

Não existe nenhuma fórmula eficaz para prevenir a síndrome do coração partido, mas é fundamental estar sempre alerta a fim de identificar os agentes estressores que podem provocar danos no organismo. Nesse sentido, a prática regular de exercícios físicos já demonstrou sua eficácia no controle do estresse que sobrecarrega o coração.

Segundo matéria publicada pelo HCor (Hospital do Coração), “exercícios físicos como a corrida ou uma simples caminhada têm efeito benéfico e muito positivo para combater o estresse emocional e físico”. O HCor alerta também sobre importância dos esportes no combate à síndrome do coração partido, uma vez que representam a oportunidade de desenvolver a sociabilidade e reduzir o isolamento social como forma de controlar as emoções envolvidas nas doenças do coração.

 

Observação importante

 

Não atribua exclusivamente ao estresse ou às condições adversas que atravessa no momento, sintomas como dor no peito, falta de ar, cansaço extremo e batimentos cardíacos irregulares. Procure atendimento médico sem perda de tempo para avaliar as condições cardiovasculares e receber o tratamento indicado, se necessário.

Sobre o autor: Maria Helena Varella Bruna

Maria Helena Varella Bruna é redatora e revisora, trabalha desde o início do Site Drauzio Varella, ainda nos anos 1990. Escreve sobre doenças e sintomas, além de atualizar os conteúdos do Portal conforme as constantes novidades do universo de ciência e saúde.

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