Ômicron: o que já sabemos

OMS identifica uma nova variante de preocupação do Sars-CoV-2, a Ômicron. Veja o que já sabemos a respeito.

Mariana Varella

Mariana Varella é editora-chefe do Portal Drauzio Varella. Jornalista de saúde, é formada em Ciências Sociais e pós-graduanda na Faculdade de Saúde Pública da USP. Interessa-se por saúde pública e saúde da mulher. Prêmio Especialistas Saúde 2021 e Prêmio Einstein Colunista +Admirados da Imprensa de Saúde e Bem-Estar 2021 @marivarella

desenho da variante Ômicron

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Publicado em: 2 de dezembro de 2021

Revisado em: 27 de janeiro de 2022

OMS identifica uma nova variante de preocupação do Sars-CoV-2, a Ômicron. Veja o que já sabemos a respeito.

 

No dia 26/11/21, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou como “variante de preocupação” a nova variante do Sars-Cov-2, vírus causador da covid-19, batizada de Ômicron. Identificada pela primeira vez na África do Sul, a variante acendeu o alerta no mundo, já que os dados preliminares, segundo a OMS, sugerem que ela pode infectar mais rapidamente.

O que chama a atenção é o fato de que a Ômicron tem cerca de 50 mutações, mais de 30 na proteína spike do vírus, estrutura que, grosso modo, conecta o micro-organismo à célula do hospedeiro para assim invadir o organismo e iniciar a infecção. Há suspeitas, ainda em investigação, de que essas mutações fariam com que a variante adentrasse as células ou escapasse dos anticorpos com mais eficiência.

Veja também: Por que a terceira dose da vacina contra a covid-19 é necessária para alguns grupos?

Outro motivo de apreensão é que ainda não se sabe se a Ômicron pode “escapar” das vacinas atuais e, em caso positivo, em qual proporção, mas os laboratórios que produzem os imunizantes já estão se preparando para adaptá-los, caso isso se torne necessário.

“Ainda sabemos muito pouco acerca da nova variante. Ela parece ser mais transmissível, pois se tornou predominante em muito pouco tempo na África do Sul. Mas a ciência tem um tempo, e ainda temos que  esperar para termos mais dados”, explica o dr. Júlio Croda, infectologista, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.

De fato, pesquisadores afirmam que precisaremos de algumas semanas para obtermos mais informações sobre a variante, e a OMS pede cautela aos países.  Contudo, até o momento, não há evidências de que ela cause quadros mais graves da doença. (Veja perguntas e respostas abaixo.)

 

Países com casos identificados

 

Embora a nova variante tenha sido identificada pela primeira vez no continente africano, vários países europeus como Alemanha, Itália, Reino Unido e Holanda já registraram casos da variante. A Holanda, inclusive, informou que dois pacientes que realizaram testes entre os dias 19//11 e 23/11 estavam contaminados com a variante, indício de que a Ômicron já circulava na Europa antes do anúncio da África do Sul.

É essencial acelerar a vacinação no país e fornecer a terceira dose aos mais vulneráveis, para evitarmos que a pandemia se agrave

Nas Américas, Canadá, Estados Unidos e Brasil confirmaram casos da Ômicron esta semana, nenhum grave. No Brasil já são cinco casos identificados, três em São Paulo e assintomáticos: um casal vindo da África do Sul e um homem que chegava da Etiópia. Dois casos foram confirmados no Distrito Federal no dia de hoje (02/12). Todos estavam totalmente vacinados, segundo as autoridades sanitárias locais.

 

Restrições a voos

 

O anúncio da OMS fez com que vários países restringissem voos da África, continente que já sofre com graves problemas socioeconômicos. A União Europeia recomendou que os países membros cancelassem os voos vindos da África do Sul, Botsuana, Essuatíni, Lesoto, Moçambique, Namíbia e Zimbábue. Os Estados Unidos também restringiram os voos desses países.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) também orientou a restrição de voos vindos desses países. O país cancelou voos oriundos ou com passagem pela África do Sul, Botsuana, Essuatíni, Lesoto, Namíbia e Zimbábue. A medida gerou reação de especialistas em saúde pública

“Barreiras em geral não são eficazes. Temos farta literatura a respeito. O foco deve ser na vigilância sanitária: exigir comprovante de vacinação e teste no embarque e no desembarque dos viajantes e, em caso de teste positivo, realizar o isolamento e o rastreamento de contatos do passageiro”, orienta Marcelo Gomes, pesquisador em saúde pública da Fiocruz e coordenador do InfoGripe.

Gomes também lembra que o Sars-CoV-2 chegou ao Brasil vindo da Europa, e não da China, onde surgiu, pois hoje em dia o fluxo aéreo é muito intenso no mundo todo. Ademais, o fato de uma variante ter sido identificada em determinado país não significa que ela tenha se originado lá. Nem todos os países têm a mesma capacidade de vigilância genômica, que sequencia os vírus e rastreia o surgimento de variantes.

O dr. Croda concorda que haja outros mecanismos mais eficientes para controlar a disseminação da variante do que fechar fronteiras. “Exigir vacinação de viajantes, realizar testagem e, se necessário, isolamento do passageiro por 10 dias são medidas mais eficazes de controle de transmissão”, afirma.

Além disso, os pesquisadores alertam para o risco de desestímulo à vigilância genômica. “Se há uma situação internacional na qual toda vez que eu identificar uma nova variante de preocupação, meu país vai enfrentar práticas de retaliação, melhor não fazer vigilância nenhuma”, conclui Gomes.

 

Disparidade vacinal

 

Em entrevista à BBC,  Ayoade Olatunbosun-Alakija, porta-voz da Aliança Africana para a Distribuição de Vacinas, alertou para a necessidade de o mundo se preocupar com a equidade vacinal. Sem que todos estejam vacinados, não haverá controle da pandemia, afirmou Alakija. Para ela e muitos pesquisadores, é necessária uma campanha global de vacinação.

A OMS também vem reforçando a importância de o mundo enfrentar a pandemia de modo coordenado, e tem cobrado que países desenvolvidos colaborem com a distribuição de vacinas para regiões mais pobres.

Enquanto países desenvolvidos como Itália, Espanha, Bélgica e Portugal já vacinaram mais de 70% da população, países da região da África subsaariana como Moçambique (11,9%) Angola (8,4%), Benin (2,5%) e Congo (2,3%) têm taxas baixíssimas de cobertura vacinal.  (dados: Our World in Data)

 

Principais dúvidas

 

A nova variante causa sintomas mais graves?

Até o momento, não há evidências de que a Ômicron cause doença mais grave. Dados preliminares sugerem taxas crescentes de hospitalizações na África do Sul, mas como apenas pouco mais de 24% da população do país estão vacinadas, não se sabe se o aumento de internações está relacionado à nova variante.

 

A Ômicron é mais transmissível?

De acordo com a OMS, há alguma evidência de que a variante possa infectar com mais rapidez. Segundo o dr. Croda, como ela se tornou predominante na África do Sul em pouco tempo, ela deve ser mais transmissível, mas são necessários mais estudos epidemiológicos para termos certeza.

 

Qual a eficácia das vacinas contra a Ômicron?

A OMS está trabalhando junto aos laboratórios e técnicos para determinar se os imunizantes atuais sofrerão alguma queda de proteção. No entanto, as vacinas devem continuar protegendo contra hospitalizações e óbitos.

 

Quem já teve covid-19 pode ser reinfectado pela Ômicron?

Ainda não há dados consolidados a respeito, mas segundo a OMS, pode haver um risco aumentado de reinfecção com a Ômicron, em relação a outras variantes de preocupação.

 

Os testes são eficientes para detectar a infecção pela Ômicron?

Os testes de PCR são eficazes para detectar a infecção pela variante.

 

As medidas de prevenção continuam valendo?

Segundo a OMS e os especialistas, as medidas como vacinação, uso de máscara e distanciamento social continuam protegendo contra a infecção por todas as variantes do Sars-CoV-2.

 

Importância da vacinação

 

Croda chama a atenção para a importância da vacinação. No Brasil, há uma grande disparidade na cobertura vacinal. Enquanto estados do Sudeste e do Sul já têm cerca de 80% da população vacinada, alguns estados da região Norte, como Roraima e Amapá, têm menos de 60%. A diferença se torna maior ainda se compararmos municípios de regiões diferentes.

“É essencial acelerar a vacinação no país e fornecer a terceira dose aos mais vulneráveis, para evitarmos que a pandemia se agrave”, conclui o dr. Croda.

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