Coronavírus

Devo realizar teste de anticorpos depois de me vacinar?

A resposta é: não. Os testes de anticorpos, além de possuírem limitações, não são adequados para verificar a eficácia das vacinas contra a covid-19.

A resposta é: não. Os testes de anticorpos, além de possuírem limitações, não são adequados para verificar a eficácia das vacinas contra a covid-19.

 

Os testes sorológicos de anticorpos para covid-19 são aqueles que coletam uma amostra de sangue para verificar a produção de anticorpos contra o vírus Sars-CoV-2. O objetivo é diagnosticar se houve infecção ou contato prévio com o vírus. Eles podem ser vendidos em farmácias, onde também são conhecidos como “testes rápidos”, ou realizados em laboratórios.

 

Como funcionam os testes de anticorpos?

De forma geral, esses ensaios medem a presença de dois tipos de anticorpos: o IgM (imunoglobulinas de classe M) e o IgG (imunoglobulinas de classe G). 

O IgM indica infecção recente, isto é, o contato com o vírus aconteceu há poucas semanas (independentemente de ter ficado doente ou não). Já o IgG é de longa duração, portanto, mostra que o contato com o Sars-CoV-2 ocorreu há mais tempo e que a infecção se deu no passado.

 

Quais são as limitações desses testes?

Os testes de farmácia, também chamados de “testes rápidos”, dão respostas ágeis, porém imprecisas. A dra. Natalia Pasternak, microbiologista e presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC), explica que esses ensaios são bastante práticos e muito utilizados em pesquisas populacionais, mas não conseguem dar respostas individuais confiáveis para que as pessoas possam tomar decisões sobre sua vida.

“É um bom teste para estudos epidemiológicos, em que você analisa se uma parcela da população desenvolveu anticorpos contra a doença. No cálculo, você leva em conta a taxa de erro do teste para alcançar um resultado aproximado. Por isso, para estimativas populacionais, é uma ferramenta interessante. Mas, para respostas individuais, não. Ele não vai conseguir detectar anticorpos contra o Sars-CoV-2 todas as vezes em todo mundo. Por ser rápido, perde na precisão”, explica.

Já o teste realizado em laboratório é mais seguro. Além de indicar se há ou não anticorpos no organismo, ele também consegue quantificar os IgG e IgM. No entanto, a dra. Pasternak ressalta que nem mesmo os ensaios de laboratório podem dar uma resposta individual sobre estar protegido ou não contra a covid-19.

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Por que os testes não servem para checar a eficácia da vacina ou a proteção pós-infecção?

Tanto o teste de farmácia quanto o de laboratório são capazes de medir apenas a presença de IgG e IgM. E a nossa resposta imunológica é muito mais complexa do que isso.

“O IgG e o IgM decaem rapidamente no sangue – não apenas no caso do Sars-CoV-2, mas de qualquer vírus. Imagine se, para cada patologia ou vacina com que já tivemos contato na vida, ficassem um monte de anticorpos circulando no sangue. Nosso sangue seria uma ‘sopa de letrinhas’”, ilustra dra. Pasternak. “Então, o que o organismo faz para evitar isso? Produz células de memórias”, continua. 

Uma vez produzidas, as células de memória ficam dormentes, esperando um novo contato com o vírus para liberar mais anticorpos. Elas não são detectáveis nos testes sorológicos, o que não quer dizer que não estejam prontas para defender o organismo quando necessário. 

A situação é parecida no caso de anticorpos contra a proteína S ou da resposta celular de linfócitos T. Ambos são estímulos imunológicos pós-vacinais, os quais também não podem ser verificados por esses testes.

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E os testes de anticorpos neutralizantes?

Diferentemente do IgG e do IgM, os anticorpos neutralizantes são capazes de impedir a ligação do vírus às células, bloqueando sua entrada. 

A quantidade mínima de neutralizantes necessária para se considerar uma pessoa protegida da doença é o que se chama de “correlato de proteção”. No caso da covid-19, esse número ainda não foi estabelecido, já que tal determinação exige a realização de estudos clínicos de fase II e não pode ser baseada apenas em testes comerciais de anticorpos.

“Os anticorpos neutralizantes são importantes e um bom parâmetro para estabelecer o correlato de proteção, mas não são a única resposta imune que mostra se a pessoa está protegida ou não”, lembra dra. Pasternak.

Além disso, a microbiologista alerta que a realização desse tipo de teste é difícil até mesmo para laboratórios de pesquisas. “Eu não sei o quanto a gente pode confiar nesses testes comerciais de anticorpos neutralizantes. Não é um teste trivial e nem deveria ser, porque diz respeito à pesquisa científica”, afirma.

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Como, então, confirmar se a vacina realmente foi aplicada ou se ela está funcionando?

Algumas vacinas estimulam a resposta de anticorpos; outras, a resposta celular. Há, ainda, aquelas que promovem uma resposta mais equilibrada. E todas, independentemente da tecnologia que utilizam, foram testadas, aprovadas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e, portanto, funcionam e são seguras.

“É preciso confiar na ciência. O que diz se uma vacina funciona ou não são os testes clínicos e as agências regulatórias, e não um teste de anticorpos comprado na farmácia”, destaca a microbiologista.

Quanto à prática que ficou conhecida como “vacinas de vento”, o que se pode fazer é pedir para conferir a embalagem da vacina, bem como a aspiração e expiração do líquido na seringa na hora da aplicação da dose. 

Ainda que a possibilidade de ser enganado na hora da vacinação gere nervosismo e apreensão, a dra. Pasternak lembra que casos como esses foram isolados, já que grande parte dos profissionais de saúde no país atua de forma idônea, seguindo os protocolos estabelecidos.

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Fique atento e mantenha os cuidados preventivos

A ideia de que fazer o teste de anticorpos poderia verificar a eficácia da vacina causa ainda mais dúvidas entre os brasileiros, que já sofrem com a imunização a passos lentos. Com mais de cinco meses de vacinação, o país não chegou nem a 15% da população vacinada com a segunda dose.

Ainda assim, é possível encontrar farmácias e laboratórios anunciando testes de anticorpos como “pós-vacinais”, ou seja, para conferir se a vacina “pegou”. Esse tipo de promessa é fraudulenta, já que não indica, necessariamente, se o indivíduo está protegido ou não.

“A pessoa faz o teste, vê o resultado ‘não reagente’ e se sente lesada, querendo receber outra dose ou de outro fabricante. Pior: desacredita nas vacinas como um todo, influenciando amigos e familiares a pensarem da mesma forma. Essa história toda é muito prejudicial para a sociedade em um momento em que a gente precisa de esclarecimento, e não de confusão”, pontua dra. Pasternak.

A própria Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) não recomenda a realização dos testes para verificar a proteção da vacina. Em nota divulgada em março, a associação afirmou que os resultados desses exames não traduzem a imunidade pós-vacinal individual. 

Além de estar atento a testes com promessas enganosas, é importante lembrar que as vacinas disponíveis atualmente protegem contra casos moderados e graves da covid-19. Mesmo quem já recebeu as duas doses, pode ser infectado e transmitir a doença para outras pessoas. Portanto, o ideal é continuar seguindo as medidas de prevenção que já conhecemos: uso de máscara, higienização das mãos com álcool em gel e distanciamento.

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Sobre o autor: Beatriz Zolin

Beatriz Zolin é estudante de Jornalismo e estagiária em Redação no Portal Drauzio Varella. Tem interesse pelas editorias de saúde, política, educação e comportamento.