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Por que algumas pessoas não conseguem evacuar fora de casa?

Sem diagnóstico oficial, a dificuldade de evacuar fora de um ambiente considerado seguro, geralmente a própria casa, é chamada de parcoprese e está associada à ansiedade social

Ir para o trabalho, viajar ou participar de um evento social. Para a maioria das pessoas, nenhuma dessas situações desperta a preocupação de precisar usar o banheiro. Mas para quem convive com dificuldade de evacuar fora de casa, a rotina muitas vezes é organizada silenciosamente em torno desse medo.

Hábitos como adiar a vontade de ir ao banheiro, evitar certos alimentos antes de sair, recusar convites sem explicar o motivo real por medo de precisar evacuar: esse comportamento é chamado de parcoprese, também conhecida popularmente como “intestino tímido”.

“O termo descreve a dificuldade ou incapacidade de evacuar quando outras pessoas estão presentes ou próximas, por preocupação com constrangimento, julgamento social ou falta de privacidade”, explica Tomas Navarro, coordenador do Núcleo de Gastroenterologia e Hepatologia do Centro Especializado em Aparelho Digestivo do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo (SP). 

Segundo ele, a condição está associada à ansiedade social e pode até coexistir com a parurese, dificuldade semelhante relacionada a urinar fora de casa ou em ambientes que a pessoa não considera seguros.

Apesar do nome técnico, a produção científica sobre o tema segue escassa. Um dos poucos estudos específicos sobre o assunto é brasileiro, um relato de caso publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria em 2011. Passados mais de dez anos, o tema segue pouco explorado tanto no país quanto no exterior, e boa parte dos trabalhos disponíveis trata a parcoprese em conjunto com a parurese.



Medo de evacuar leva a um círculo vicioso

Do ponto de vista físico, segurar repetidamente a vontade de evacuar tende a ressecar as fezes e reduzir a sensibilidade do reto, o que dificulta ainda mais a percepção desse estímulo. “Forma-se um círculo vicioso, a pessoa adia a evacuação, as fezes endurecem, evacuar se torna mais difícil ou doloroso e ela tende a segurar novamente”, resume Navarro.

Mas o gatilho para esse ciclo costuma ser emocional. “Quando o cérebro interpreta uma situação como uma ameaça, o corpo entra em um estado de alerta que reduz o movimento do intestino e contrai o esfíncter. Parte dessa contração é automática, mas há também uma parte voluntária: a pessoa ansiosa contrai ativamente essa musculatura de forma consciente, tentando evitar a evacuação na presença de outros”, descreve Lucas Gandarela, psiquiatra e pesquisador do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (IPq/HCFMUSP).

O quadro passa a exigir atenção clínica quando compromete decisões do cotidiano, como aceitar um emprego, viajar ou sair com amigos, por medo de precisar usar um banheiro compartilhado. Navarro complementa que o mesmo alerta vale quando a supressão repetida do reflexo evacuatório já provoca constipação, dor abdominal ou outros sintomas digestivos.

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A ciência reconhece a ponte entre mente e intestino

O elo entre fatores emocionais e o funcionamento intestinal é reconhecido pela gastroenterologia por meio do chamado eixo cérebro-intestino. “Ansiedade, estresse e medo de julgamento podem tanto precipitar quanto perpetuar dificuldades defecatórias”, afirma Navarro, citando uma revisão científica que associa quadros de ansiedade a um risco mais que duas vezes maior de síndrome do intestino irritável.

No campo psiquiátrico, essa proximidade também aparece no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), ao citar o medo de urinar em banheiros públicos (parurese) como manifestação da ansiedade social. “Por semelhança, a parcoprese seria uma manifestação do transtorno de ansiedade social”, afirma Gandarela. 

Ele pondera, porém, que estudos com a parurese mostram que a maioria dos pacientes não preenche todos os critérios diagnósticos do transtorno, o que sugere que a classificação mais adequada seria a de fobia específica.



Sinais de alerta e impacto na qualidade de vida

Antes de associar o problema à ansiedade, é preciso descartar causas orgânicas. Navarro cita sinais que pedem investigação imediata, como sangramento nas fezes, perda de peso sem explicação, anemia e histórico familiar de câncer colorretal

“Um dos fatores que costumam ajudar a pensar em um quadro de origem psicogênica é o fato de o indivíduo não ter dificuldade de defecar em ambientes que julgue seguros, como sua casa ou banheiro vazio ou fechado”, completa Gandarela. 

Quando não tratado, o quadro pode causar sintomas físicos, como palpitações e tremores, antes de compromissos como viagens, trabalho presencial ou encontros sociais, que muitas vezes são recusados. “Quanto mais intensos os sintomas, maior tende a ser o impacto na qualidade de vida”, destaca Navarro, que aponta a vergonha como o principal motivo para o atraso na busca por ajuda.

Para Gandarela, um dos mitos mais comuns é achar que se trata de uma ‘mania’ ou exagero de higiene. “O importante é saber que o medo ou vergonha de defecar em locais públicos é um comportamento ou sintoma, não necessariamente um transtorno psiquiátrico. Ele pode ser um transtorno quando gera sofrimento e a pessoa deixa de fazer coisas importantes para ela, atrapalhando sua vida social e ocupacional”, ressalta o psiquiatra.

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Mudanças na rotina e tratamento

Os primeiros passos recomendados por Navarro envolvem aumentar aos poucos o consumo de fibras, manter uma boa hidratação e não ignorar a vontade de evacuar, reservando um tempo para ir ao banheiro pela manhã ou após as refeições. 

“Também não é necessário evacuar todos os dias. Mais importante do que a frequência isolada é observar a presença de esforço, dor, fezes endurecidas ou sensação de evacuação incompleta”, diz o médico.

Segundo Gandarela, o tratamento de escolha para o quadro hoje é a terapia cognitiva-comportamental. “Um profissional capacitado ajuda o paciente a avaliar seus pensamentos associados ao julgamento alheio e programa, de forma colaborativa, a exposição gradual a esses contextos temidos”, explica.

Medicamentos só entram em cena quando há um transtorno de ansiedade associado.

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