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Estresse extremo e esquizofrenia

Estresse extremo e esquizofrenia

Seria possível que o estresse extremo causasse esquizofrenia? Embora não se saiba qual a resposta correta, a ciência acredita que essa relação não seja verdadeira.

 

O parananense Rodrigo Gularte passou seus últimos dez anos de vida com a sombra da morte à espreita. Preso na Indonésia em 2004 por tentar entrar no país com seis quilos de cocaína, a partir de 2005 ele viveu todos os seus dias em uma cela entre a perspectiva de ser executado e a esperança de ser perdoado.

Em março e abril de 2015, com a aproximação da data de execução, noticiários passaram a cobrir o caso mais de perto. Recursos jurídicos e cartas oficiais do governo brasileiro pedindo clemência iam esgotando as alternativas do brasileiro. Entre as tentativas de livrá-lo da pena, começaram a surgir relatos de que Rodrigo estaria delirante.

 

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Segundo a BBC Brasil, familiares que o visitaram diziam que ele ouvia “vozes de satélites”. O jornal Washington Post afirmava que ele acreditava ter havido uma reunião internacional de promotores para discutir a pena de morte na Indonésia. Na semana da execução, um correspondente internacional da TV Globo informava a continuação do delírio: para Rodrigo, a reunião havia decidido pela extinção da pena capital, portanto, logo ele seria libertado.

Em 2014, o brasileiro foi diagnosticado com esquizofrenia paranoide e transtorno bipolar. Cogitou-se que tal estado psiquiátrico na verdade estivesse sendo encenado como uma manobra da defesa, já que a legislação indonésia proíbe a execução de um preso sem o controle de suas faculdades mentais. Por outro lado, é fácil imaginar que uma situação como a vivida pelo brasileiro possa de fato provocar alguma desordem psicológica. Mas é possível que a circunstância de estresse extremo tenha causado as doenças, e que elas não ocorreriam sem esse componente?

 

O peso da genética

 

Dificilmente. Não se sabe a causa exata da esquizofrenia, mas são conhecidos alguns fatores que influenciam o seu aparecimento.“O estresse por si só não é capaz de provocar esquizofrenia. Não temos acesso detalhado ao diagnóstico nem ao histórico desse caso específico, mas pressupondo que ele não tivesse a doença antes, é pouco provável que tivesse desenvolvido lá”, afirma o dr. Mario Louzã, coordenador do Programa de Esquizofrenia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de SP. Em geral, o transtorno que o estresse causa é o chamado “pós-traumático”, caracterizado por insônia, sonhos e flashbacks, entre outros sintomas.

Segundo o psiquiatra, há alguns fatores de risco ambientais para o desenvolvimento de esquizofrenia. “A predisposição genética é um fator importante, assim como problemas durante a gestação, parto ou nos primeiros anos de vida. Quanto a fatores ambientais, o uso de drogas na adolescência, viver em zona urbana e até ser migrante contribui para o quadro”, explica Louzã. O peso da genética, entretanto, é o maior. “Sabemos que traumas são fatores de risco bem documentados. No entanto, a compreensão que prevalece é que somente indivíduos que apresentam predisposição genética desenvolvem a doença. De fato, sabemos que muitos indivíduos sofrem eventos traumáticos diariamente e apenas uma minoria desenvolverá esquizofrenia”, afirma o dr. Ary Gadelha, coordenador do Proesq (Programa de Esquizofrenia da Universidade Federal de São Paulo).

Rodrigo sofreu alguns desses fatores. Segundo informações que familiares deram à BBC Brasil e ao jornal britânico The Guardian, ele teve uma infância normal, mas aos 13 anos começou a mudar, piorando quando os pais se divorciaram. Aos 16, o brasileiro passou pelo primeiro de dois tratamentos para o uso de drogas, época em que a família começou a notar traços de bipolaridade.

Ter os dois problemas – esquizofrenia e bipolaridade –, entretanto, não é possível. “São quadros com caraterísticas, curso e evolução diferentes. O que pode acontecer é um tipo de transtorno classificado como esquizoafetivo, em que a pessoa desenvolve sintomas tanto da esquizofrenia como do transtorno bipolar”, explica o dr. Alfredo Maluf, coordenador do Serviço de Psiquiatria do Hospital Albert Einstein.

A psiquiatria, em especial, é uma especialidade médica que lida frequentemente com investigações desafiadoras. Não pode contar com parâmetros fisiológicos, como aqueles que guiam a identificação precisa de uma úlcera ou até um câncer. Suas pistas são muito mais movediças e nebulosas, já que alguns sintomas são comuns a diversas patologias, e diferenças sutis levam o diagnóstico para diferentes direções. “É relativamente comum haver dificuldade em diferenciar os dois transtornos, pois ambos podem cursar com sintomas psicóticos. Nesses casos a distinção é feita de forma mais precisa observando-se a evolução dos casos, como o tipo de sintomas predominantes, grau de prejuízo funcional/ocupacional etc. Assim, alguns pacientes podem ser diagnosticados num primeiro momento como portadores de TB, e depois fica evidente que se trata, na verdade, de um caso de esquizofrenia”, esclarece o dr. Gadelha.

 

Características

 

A época que os familiares apontam como o início de “mudanças” mais proeminentes corresponde ao que se observa comumente em esquizofrenia. É considerada uma doença do fim da adolescência e início da idade adulta, geralmente com evolução lenta e gradual. “São indivíduos que sofrem de isolamento, são retraídos, expressam suas emoções de forma empobrecida. Ao longo do tempo o quadro evolui, com surtos agudos, insônia e ansiedade, até que surjam todos os sintomas, que permanecerão pela vida toda para a imensa maioria”, afirma o dr. Louzã.

Algumas notícias mais detalhadas continham a informação de que a esquizofrenia de Rodrigo era do subtipo paranoide. Em 2013, porém, a edição 5 do DSM (Classificação Americana para Transtornos Mentais) acabou com a divisão em subtipos, considerando que eles não refletiam diferenças quanto ao curso da enfermidade nem quanto à resposta ao tratamento.

De toda forma, o subtipo paranoide compreendia cerca de 90% dos pacientes com esquizofrenia, e era fortemente marcado pelos sintomas chamados “positivos”. Esses englobam as manifestações mais conhecidas pelos leigos: os delírios, alucinações, impulsos de agressividade, pensamentos e discursos desorganizados. A denominação “positivo” trabalha com a ideia de que elementos são “acrescentados” à função psíquica e emocional do paciente, em oposição aos sintomas “negativos”, caracterizados pelo que pode ser encarado como uma deficiência nesse mesmo campo (apatia, indiferença ou até perdas motoras).

Entre os sintomas positivos, está um bastante conhecido e que foi observado em Rodrigo: os delírios persecutórios. Conforme relatou ao The Guardian Charlie Burrows, padre que acompanhou Rodrigo em seus últimos dias, quando era retirado de sua cela o brasileiro perguntou se havia um “sniper” (franco-atirador, um profissional especializado em acertar alvos a longa distância) posicionado para alvejá-lo, e se atirariam nele no carro durante o trajeto que o levaria ao local de execução.

 

Preconceito

 

Não existem estatísticas confiáveis sobre quantas pessoas sofrem de esquizofrenia no Brasil. “A prevalência no mundo é em torno de 0,3 a 0,7%, e estamos nessa faixa”, afirma o dr. Maluf. Assim, estima-se que componham no país uma população de seis a 14 milhões de indivíduos.

O tratamento é eminentemente medicamentoso. O uso de antipsicóticos atua em duas frentes, tanto controlando os quadros agudos (surtos) como protegendo contra novas crises. “Acompanha-se monitorando e adequando a medicação conforme a necessidade. Geralmente a pessoa fica estabilizada, e às vezes podem permanecer alguns sintomas do tipo negativo como residuais”, diz o dr. Louzã.

Além do tratamento contínuo e rigoroso, pacientes têm que lidar com outro problema, esse fora de seu controle. Infelizmente, a doença só aparece na mídia em casos que envolvem algum aspecto violento, mesmo antes de confirmação de qualquer diagnóstico. Foi assim com os assassinatos do cineasta Eduardo Coutinho, em 2014, e do cartunista Glauco e seu filho, em 2010. Ao abordar essa questão com os médicos consultados para esta matéria, o estrago que a associação provoca nos pacientes foi confirmado por todos.

O dr. Louzã trouxe o problema ao ser perguntado sobre o que ele considerava importante e que não havia sido tratado até ali, ou que não costumava ver em matérias sobre o assunto. “Apenas colocar a doença como uma possibilidade em casos como esse já é estigmatizante. Esses pacientes já têm muitos problemas. Para quem está em tratamento, a doença passa a ter um peso ainda maior. Temos que ter muito cuidado para que isso não se generalize.”

Além de medo, o desconhecimento também motiva a crença de que o diagnosticado é simplesmente uma causa perdida. “O estigma precisa ser trabalhado na sociedade, uma vez que existem formas mais brandas da doença. Além disso, uma pessoa diagnosticada precocemente e tratada adequadamente pode se beneficiar muito”, afirma o dr. Maluf.

Episódios que envolvem homicídios causam comoção enorme, e mencionar a doença unicamente nesses casos acabou criando a concepção equivocada de que esquizofrenia é irremediavelmente relacionada a violência. “A maior parte dos pacientes não costuma ser agressiva. Tenho pacientes que trabalham, são casados, são artistas, e infelizmente essa realidade não aparece, diz o dr. Gadelha.

Sobre o autor: Luiz Fujita Jr

Luiz Fujita Jr é jornalista, editor do Portal Drauzio Varella e criador do podcast Entrementes, sobre saúde mental. @luizfujitajr