Outras Histórias #48 | Na traseira do caminhão

Na tentativa fracassada de "chocar" a caminhonete do vizinho, dr. Drauzio aprendeu: menino que cumpre a palavra merece respeito.

Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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Publicado em: 25 de abril de 2022

Revisado em: 24 de maio de 2022

Na tentativa fracassada de “chocar” a caminhonete do vizinho, dr. Drauzio aprendeu: menino que cumpre a palavra merece respeito.

 

 

 

Em uma das histórias do livro infantil Nas ruas do Brás (2000), dr. Drauzio conta de quando virou moda “chocar” caminhão durante sua infância. A brincadeira consistia em se pendurar na traseira do veículo e pular quando ele chegasse na esquina. Certa vez, o pai o viu fazendo isso e o colocou de castigo – um domingo inteiro na cama, de pijama.

Apesar dos avisos, Drauzio continuou. Decidiu, então, se pendurar na caminhonete do Seu Germano, um vizinho do qual todos os meninos da rua tinham medo. Mas, na hora de pular, faltou coragem e ele seguiu agarrado na traseira do veículo pelas ruas de São Paulo. Ouça neste episódio.

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Na traseira do caminhão – essa história se passou na minha infância, acho que eu tinha uns sete anos, oito, e eu coloquei no meu livro infantil “Nas ruas do Brás”.

Quando eu tinha sete anos, virou moda na rua que eu morava chocar caminhão, pendurar-se na traseira do veículo e saltar na virada da esquina. Uma vez choquei um caminhão de lixo e, quando pulei na frente de casa, meu pai, que chegava do trabalho, tava parado no portão com cara de quem não gostou da gracinha. Recebi o mais detestável dos castigos: domingo inteiro de pijama na cama.

Cabeça dura, repeti a façanha outras vezes, até que decidi chocar a caminhonete do Seu Germano, o alemão da fábrica em frente da minha casa, só pra me exibir pros meninos que morriam de medo dele. Sentei na calçada ao lado da caminhonete. Dois operários puseram umas caixas na carroceria. Seu Germano, saindo para o almoço, deu a partida, eu pendurado atrás. Infelizmente, na esquina, em vez de diminuir a velocidade, ele acelerou, e me faltou coragem pra pular.

Fomos na direção do Largo Santo Antônio, cada vez mais depressa, eu com os ossos batendo na lataria, morto de medo de cair. Ao chegar no largo, duas senhoras me viram naquela velocidade e gritaram pra parar. Seu Germano nem ouviu. Com os braços cansados, fiz um esforço pra saltar pra dentro da carroceria, mas a caminhonete pulava feito cavalo bravo nos paralelepípedos da rua, e eu não consegui. Tentei de novo e não deu. Mais uma vez, pior ainda. Então eu fiquei apavorado, achei que ia morrer e que meu pai ia ficar muito triste porque ele sempre dizia: “Deus me livre perder um de vocês”.

Talvez o medo da morte tenha me dado força na quarta tentativa. Esfolei a canela inteira, mas consegui passar a perna e impulsionar o corpo pra dentro. Caí no meio das caixas, com o coração disparado, e chorei. Quando a caminhonete parou na porta do seu Germano, achei melhor ficar quietinho entre as caixas até ele voltar para fábrica depois do almoço. Também não deu certo. Ele resolveu descarregar a caminhonete e me encontrou escondido no meio das caixas. Tomou um susto tão grande que até pulou pra trás. “Menino dos infernos, como você veio parar aqui?” Expliquei que só queria chocar até a esquina, mas a velocidade tinha sido tanta…

Ele ficou enfezado e disse que ia contar pro meu pai. Pedi pra não fazer isso porque eu ia apanhar, mas ele não se importou, falou que era merecido até. Mostrei as pernas esfoladas, ele não se comoveu. Por fim, contei dos domingos de castigo na cama. Nesse momento, brilhou um instante de compaixão no olhar dele. “Seu pai deixa você de pijama deitado o domingo inteiro?” “Só quando eu desobedeço muito.” “Tá louco, teu pai é severo como o meu na Alemanha!” Entre na caminhonete que eu te levo de volta.

No caminho, ele me deu conselhos e me contou do pai. Achei que os castigos do pai dele eram muito piores. O meu nunca tinha me trancado no guarda-roupa a noite inteira. Seu Germano concordou em manter segredo desde que eu prometesse nunca mais chocar veículo nenhum.

Desde então, apesar do jeito bravo, ele ficou meu amigo. Quando me encontrava, às vezes, dizia: “não vai esquecer, menino que cumpre a palavra merece respeito”.

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