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Entrementes #28 | Casais em quarentena



Isolamento pode trazer questões mal resolvidas e gerar novos atritos em casais em quarentena. Ouça neste podcast orientações para esta situação.

 

Nem sempre ter uma companhia durante a quarentena é positivo. Diferentes cenários podem fazer com que passar por essa pandemia de covid-19 com um companheiro ou companheira desperte sentimentos negativos. Conversamos novamente com o psicólogo Oswaldo Rodrigues Junior, terapeuta sexual do Instituto Paulista de Sexualidade, sobre possíveis gatilhos de conflitos nessa situação e como atuar nessas situações.

Veja também: O dr. Oswaldo falou também no episódio sobre saúde mental de pessoas trans. Ouça aqui

 

 

Edição: Estalo Podcasts

 

Ouça pelo YouTube:

 

Luiz Fujita Jr. — Olá, eu sou o Luiz Fujita. Sejam bem-vindos a mais [um episódio do] Entrementes, nosso podcast sobre saúde mental. Hoje a gente vai continuar com nossos conteúdos relacionados a este período de isolamento, por conta da pandemia do novo coronavírus; e se muitos sentimentos negativos podem surgir para pessoas que vão se isolar sozinhas, a gente podia imaginar que esse risco seria menor — ou que esses sentimentos seriam brandos — em quem mora com um companheiro ou com uma companheira. No entanto, não necessariamente acontece dessa forma.

Morar com alguém, neste momento, pode ter o lado positivo dessa companhia, [porque] a pessoa não está completamente sozinha, mas a convivência permanente também pode se revelar uma possível fonte de conflitos e [de] algumas outras angústias que, pelo menos sozinho, não aconteceriam.

Sobre este assunto a gente vai falar com o psicólogo Oswaldo Rodrigues Jr., terapeuta sexual do Instituto Paulista de Sexualidade (InPaSex), que já esteve com a gente no episódio 24 — que foi sobre saúde mental da população trans. Obrigado por aceitar nosso convite mais uma vez, doutor Oswaldo.

Doutor Oswaldo — Eu que agradeço, Luiz. É uma satisfação poder estar discutindo coisas importantes para a vida e a saúde mental das pessoas.

 

Doutor Oswaldo, como falei na introdução, quem está isolado sozinho às vezes até pensa “pô, se eu morasse com alguém, pelo menos estaria melhor”. O que é que pode estar errado neste pensamento? O que é que numa de vida em casal pode dar errado num momento em que vão precisar ficar isolados, sozinhos?

Primeiro tenho que pensar [sobre] quem são os casais, [pois] na verdade, existem casais que estão circunstancialmente juntos e ainda não têm um projeto de vida que faça com que eles também aprendam ou tenham mais disponibilidade de suportar frustrações com relação a determinados eventos.

Suportar frustrações significa [situações tal como] “poxa, ela não lava a louça; eu olho a pia à noite, e antes de dormir a pia está lotada de louças”. Este tipo de coisa parece estar acontecendo mais frequentemente, ou [são] as pessoas que [ainda] não se envolveram num projeto de futuro, num projeto de vida que diga “olha, estamos juntos, agora é um caminho juntos. Vamos nos ajudar, vamos nos dar apoio para caminharmos nessa vida”. Isso sempre acontece, e como [eu] disse, às vezes as pessoas vão começar a olhar pequenas coisas [do tipo] “ah, olha só, ele fuma e deixa o cigarro aqui em cima da mesa… Está vendo? Já queimou a mesa”; pequenas coisas começam a importunar, porque elas são repetidas.

 

Mesmo que elas já acontecessem desde antes [deste período de quarentena]?

Elas já aconteciam desde antes [este período de quarentena]. Porém, muitas vezes essas pessoas desenvolvem mecanismos individuais, de saírem do ambiente da casa, por exemplo, e irem para algum lugar, [para] saírem dessa sensação de incômodo. Então, há muita gente que não aprende a lidar com frustrações, e também não desenvolve mecanismos adequados para poder — além de suportar frustrações — aliviar tensões.

Imagine o casal dentro de casa. Eles realmente se propuseram a fazer o isolamento físico do resto do mundo e vão conviver mais horas juntos. Esse período pode ser extremamente complicado para essas pessoas, mas isso é diferente para aqueles casais que já se perceberam com um caminho definido, [do] tipo “nós estamos juntos, nós nos sentimos bem, um dá apoio para o outro… Que maravilha”, porque esses casais estão começando a perceber como se complementam.

Por exemplo, muitos — conheço pessoas assim — negociaram as férias antecipadas com a empregada, então ela não veio [ao lar do casal] fazer limpeza, não faz a comida e o casal está tendo que se livrar de todas as tarefas do cotidiano e perceber [que] “nossa, [como] a empregada faz falta, porque ela leva bastante tempo para manter a casa arrumada”. [É] claro que este casal trabalhava fora e não percebia o quanto a casa precisava ser arrumada. Dessa forma, em uma semana, se este casal tem o mínimo de atenção, de comunicação assertiva e efetiva e um se incomoda com o outro — no bom sentido; ou seja, um olha o outro de maneira adequada —, [eles] vão perceber que precisam se alternar na solução de problemas do cotidiano — inclusive lavar a louça que fica em cima da pia.

 

Sim… Doutor Oswaldo, como o senhor trabalha — imagino — bastante com casais,  [e] a gente ainda está num período de início deste isolamento — [embora] muita gente ainda não esteja fazendo —, já chegaram até você demandas, coisas cuja origem é justamente por estar convivendo [juntos por] mais tempo?

Exatamente assim, não, mesmo porque nós temos umas três semanas de um isolamento razoável para uma quantidade de pessoas. Mas, as pessoas que eu atendo em casais já estavam em psicoterapia antes, [e] elas começaram a me mostrar esses mecanismos.

Porém, se eu atendo pessoas que já buscaram a terapia de casal exatamente para ficar juntos, essa é uma coisa interessante [a observar, considerar]. Essas pessoas estão fazendo esforços, deveriam estar fazendo esforços para resolver esses pequenos problemas — e estão. E estão solucionando coisas do cotidiano, [se] alternando para limpar coisas aqui e ali, cuidando de filhos, alguns até mesmo estão começando a fazer movimentos que faltavam antes… [Se] existiam mais tarefas sociais e familiares, eles não conseguiam, por exemplo, ter horários deles, [e daí a gente pode pensar] “poxa, inint [00:05:22], o tempo todo…”, sim, mas [ter um] horário para eles significa deixar o filho dormindo. Aliás, [estes casais] começaram a colocar os filhos para dormir mais cedo — isso é fantástico, [pois este] era sempre um dos grandes problemas — e passaram a ter um horário que seja [por exemplo] para assistir a série na TV, os dois juntos, mas [a] terem a mesma vivência juntos.

Daí passaram para a segunda etapa: começaram a perceber [que] “poxa, nós poderíamos fazer aquele encontro que estávamos planejando uma vez por semana. Podemos fazer mais vezes, afinal de contas nós temos tempo e disponibilidade agora”, [e caso se perguntem] “poxa, é mesmo. Mas a gente não vai enjoar?”, [já concluem] “não, a gente pode fazer diferente; podemos fazer uma coisa num dia, outra coisa noutro dia, isso sem sair de casa”.

Agora, você me pergunta: nessas três semanas, será que esses outros casais já começaram a brigar mais? Veja, se eles já brigavam antes por qualquer coisa, obviamente na primeira semana [de isolamento social, convivendo mais tempo juntos] já estão brigando, reclamando porque “jogou cinza [de cigarro] no tapete”, “entrou [em casa] com o pé sujo”, “você não ajuda na casa…”; essas discussões vão acontecer mais facilmente.

No entanto, essas pessoas provavelmente se suportariam por mais vários meses antes de pensarem que precisam de ajuda — e este é um problema do casal. Os casais que anteriormente já tinham o costume de discutir, brigar, reclamar um do outro, certamente fazem isso como uma maneira de manter as coisas como estão. Ou seja, ao reclamar eu me alivio; [e] aliviando a tensão posso reclamar de novo amanhã e depois de amanhã.

Ainda não apareceram casais, em poucas três semanas, que precisem de um acompanhamento psicoterapêutico por questões de casal, porque provavelmente eles já estão acostumados a manter alívios variados para lidar com as coisas. Porém, mais provavelmente as discussões começam a ser mais importantes ou mais duras. Aqueles pequenos episódios, as pequenas coisas vão acontecer num maior número de vezes a cada dia — e todos os dias.

Se eu imaginar que daqui a pouco as roupas limpas deixam de existir — porque eles já usaram todas as que tinham no guarda-roupa —, já penso: “bom, se os dois trabalham fora de casa, quem é que lava a roupa do casal? Quem é que cuida de várias coisas que passaram a se acumular na casa?”. Veja que na nossa cultura ainda é comum os homens entenderem que isso é trabalho da mulher, e não um trabalho a ser dividido. Antes, eu usei um verbo que muitos casais usam, e muitas mulheres, por dizer assim, ingenuamente usam: “ah, mas ele ajuda em casa”. Se eles trabalham fora de casa, como assim ele ajuda? Isso é até absurdo.

 

Como se não fizesse parte da responsabilidade [dele] naturalmente, não é?

Eu fiquei imaginando, Luiz, assim: “somos solteiros, moramos sozinhos”… Num apartamento sozinho, a gente cuida de tudo mesmo; tenho que lavar minha roupa, tenho que levar para a lavanderia… “Ah, não, eu peço comida pronta [ao invés de cozinhar]… mas [ainda assim] eu tenho que tirar o lixo”… Bom, sou eu quem tem que fazer [as tarefas domésticas].

[E pode-se considerar] “eu posso contratar uma empregada”… Porém, nesses momentos deste isolamento físico — necessário para lidarmos um pouco com a pandemia —, fiquei pensando se seria uma boa ideia a gente ter uma pessoa que sai por aí todos os dias, anda por um monte de lugares e chega à nossa casa e coloca a mão na nossa comida, na nossa roupa, no nosso travesseiro e deixa a possibilidade de uma contaminação muito fácil.

Eu tenho percebido [que] várias pessoas… Na verdade, acho [que] atualmente não tenho um paciente que não tenha dado férias especiais para suas empregadas; literalmente [disseram] “está aqui o seu salário do mês. Daqui a um mês nós conversamos” [e] mantém contato, porque é o risco maior [caso mantenha o serviço de uma pessoa que circula por aí e então vem para a sua casa]. A pessoa [que mora/vive] sozinha já aprendeu a lidar com uma série de coisas, então ela não vai usar o argumento “ai, preciso de ajuda aqui”, não, “preciso de alguém que faça”, porque se nós fazemos, nós fazemos. [Mas] se são duas pessoas, isso [essa percepção quanto à tarefa] vai depender da história do gênero.

É mais provável que nós tenhamos jovens casados ou associados a mulheres que vão considerar que a mulher é quem cuida disso; é o homem que chega em casa, coloca os pés para cima e pronto, acabou. E hoje eu percebo que vários casais estão desenvolvendo alguns mecanismos de interação. Óbvio que alguns pacientes meus, homens, continuam podendo trabalhar de casa, então estes fazem um acordo.

[Por exemplo,] estava me lembrando de um paciente que tem um filho pequeno, [e] faz três semanas que a babá está morando na casa dele, para cuidar do filho [dele]; a mulher está cuidando da casa e ele está trabalhando. E veja que é assim: fazendo home-office sentado no quarto o dia inteiro — [visto que] ele não tem, vamos dizer, um escritório privativo no apartamento —, eles estão organizados, cada um com a sua tarefa; dividiram tarefas, porque ele continua trabalhando para sustentar a família.

Está bom. E se os dois trabalhassem fora de casa e resolvessem “vamos assumir que nós não vamos sair de casa nesses tempos… Então, como é que a gente vai fazer? Um fica na sala e [o] outro fica na cozinha? Como é que é? Quem é que faz a comida? Porque tem horários que a gente vai ter que ter um revezamento especial”.

Se os casais conseguem conversar sobre essas coisas e um considerar que o outro também tem direitos e necessidades que precisam ser satisfeitas, nós começamos uma renegociação de contrato que provavelmente já estava deduzido num casal: que cada um suportava a frustração de não ter o almoço pronto ao meio-dia — [afinal] ela também estava trabalhando —; os dois vão se encontrar na cozinha e fazem o almoço conjunto — claro que vão precisar [de] mais tempo que 20 minutos só para comer; vão precisar de duas horas para fazer a comida e almoçar.

[Devido a] esses acordos — [e] se existiam acordos anteriores com divisão de tarefas conforme o gênero —, provavelmente nós vamos ter algumas discussões acontecendo nessas próximas semanas, porque elas vão “inint” [00:10:55]… Veja, mais provavelmente as pessoas estão pedindo comida fora, fazendo refeições mais ou menos; não estão fazendo uma refeição mais variada, com tudo que seja necessário.

E tenho percebido que uma das reclamações dos produtores do cinturão verde do hortifrutigranjeiro aqui de São Paulo é exatamente a diminuição da venda de verduras. Então, nós estamos consumindo menos verduras e fazendo refeições de emergência. De novo, pensei: está bom, daqui a pouco o casal vai começar a reclamar que “nossa, nós não estamos nem fazendo o almoço direito”. Está bom, [mas] de quem é a culpa?

Se o casal tem na estrutura deles o mecanismo em que ele ou ela coloca sempre a culpa no outro, nós vamos começar a ter um aumento nas brigas — e essa escalada vai ser extremamente prejudicial. [E será] diferente, por exemplo, de um casal que já tinha — mesmo que fosse um acordo tácito e não um acordo verbalizado — de que “olha, cada um faz uma parte dos cuidados da casa e nós continuamos arrumando-a”…

 

Doutor Oswaldo, essa escalada [de] que o senhor falou era justamente o que eu ia perguntar em seguida. Esses problemas cotidianos — vamos chamar assim — que podem dar origem a um outro tipo de problema podem escalar para onde? Para onde isso vai se nada for feito?

Então, eu já estou pressupondo uma questão que se torna complicada, porque se este casal… ele ou ela, [mas] mais provavelmente ele se sinta o dono do lugar, da circunstância. Isso implica que se ele é o dono, ele vai pôr a culpa nela, [e]  se ele for colocar a culpa nela a escalada é de agredir verbalmente e, daqui a pouco, pode partir para uma agressão física; porque agredir verbalmente de vez em quando é uma coisa, se convive 100% do tempo, a agressão verbal provavelmente vai acontecer de uma maneira muito rápida. Nós podemos ter agressões que são circunstâncias que as pessoas nem percebem ser agressões — são agressões veladas —, inclusive falas culturais aceitas.

 

Pode dar um exemplo?

As pessoas dizem que é brincadeira, tipo: “lugar de mulher é na cozinha”, “vai pilotar o fogão”… Nessas circunstâncias, com ansiedades aumentando, essas piadinhas vão aparecer com mais frequência. Se os dois se colocam nessa posição — um faz a piadinha e o outro ri e vai pilotar o fogão mesmo —, o dia em que não pilotar o fogão porque está deprimida — ou deprimido —, pela circunstância, vai começar a haver uma agressão que não é mais velada; não é mais por meio da piadinha.

Porque na nossa cultura parece [que] virou meio [que] costume justificar as coisas erradas com “ah, você não entendeu? Era uma piada. Eu só estava brincando…”. Nós vamos partir para uma agressão verbal [e] começar a perceber que as pessoas vão começar a se xingar — se xingar no sentido de “vamos usar palavras que caracterizam uma coisa negativa”. [Daí você pode se perguntar:] “poxa, mas sempre vai ser assim?” Isso é o mais comum. E a interface começa a ser mais complicada quando, por exemplo, esse casal realmente tem uma certa consciência de que não precisa sair ali fora ou pode sair ali fora [da casa/do apartamento/do lar] e [chega a um consenso] tal como “vamos fazer um pedido no supermercado para entregar aqui… A gente pede para a padaria entregar aqui… [Para] o restaurante entregar aqui”, porque esse isolamento [social] vai começar a produzir uma circunstância de uma dependência desse mundo externo.

Algumas pessoas vão lidar com essa dependência do mundo externo de tal forma: “bom, estou pagando o serviço dessa pessoa, ela me traz [o que eu pedir] e eu vou manter a minha saúde”. Mas, é mais provável que nós comecemos a ver que algumas pessoas se sintam tão agradecidas àquela que está prestando o serviço, que passe a pensar “nossa, eu tenho que fazer uma coisa a mais para essa pessoa [que me entrega as coisas que peço]”.

Bom, mas isso soa para mim como aquela história de “estou confinado, meu contato com o mundo de fora, até a minha subsistência depende de alguma outra pessoa” e começo a ver essa outra pessoa — que é o representante do meu confinamento — como sendo a minha salvação; e eu provavelmente vou brigar com quem? Com quem está ao meu lado, não com a pessoa da minha salvação. Eu vou agradecer o cara do delivery, mas vou olhar para o meu lado e ver a competição para comer a pizza, então vou brigar com a pessoa que está ao meu lado.

 

E é um tipo de mecanismo que acho que pode soar um pouco, para quem ouve, exagerado, mas tanto para a Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto a Justiça do Rio [de Janeiro], logo no início da pandemia, já registraram e alertaram sobre o aumento de casos de violência doméstica — acho que não só verbal neste caso, quando chega ao ponto de a Justiça [entrar na história, se manifestar sobre]. Imagino que seja uma violência física mesmo, não é? Não é exagero.

Isso. Nós estamos falando só no bate-boca, na brincadeira que as pessoas dizem que fazem. [E] sim, quando chega a [ser] uma questão de justiça, é porque a pessoa já chamou a polícia.

Também temos que ponderar uma coisa: é mais provável que as pessoas — uma boa parte das mulheres — já tenha se acostumado com a ideia de que “olha, se bater em mim eu vou para a polícia”. Ou seja, já sentiu que tem uma possibilidade de não dar continuidade para essa violência. Então, o aumento desses registros não quer dizer que tenha aumentado simplesmente a violência. Acho que a violência vai aumentar ainda mais do que [os números que estamos vendo nesses dias]… não era tanto há poucos dias… nós ainda estamos com umas três semanas [de isolamento social] e mais provavelmente nós estejamos começando a ter aquele mecanismo do tipo “nossa, eu vou dar graças a Deus, porque o motoboy veio trazer a pizza para mim, senão eu não ia comer pizza nunca mais”. Mas, [se] a gente sempre pediu pizza, qual é a dificuldade? Provavelmente eles [os motoboys] estão ganhando mais hoje do que ganhavam há um mês, porque tem mais [entregas para fazer]. [Dessa forma,] se eu começar a achar que esse mecanismo que me coloca com o mundo externo [é] a salvação da minha pessoa, de novo, eu olho para o meu lado e tem uma competição aqui. Ou seja, o salvador é aquele que me traz meu alimento, não essa pessoa com quem eu tenho que dividir a comida. Eu posso começar a trabalhar com a pessoa do meu lado como sendo minha inimiga(o).

Por isso deve haver uma escalada, e essa escalada vai subir até onde? E não é para todo mundo, torno a dizer, porque se um casal tem mecanismos de entrosamento, onde eles sabem suportar a frustração por perderem ou não terem determinadas condições, eles não vão brigar um contra o outro. Mas o que nós vamos perceber é que uma boa base das pessoas já está firmada num esquema de vida onde, por questões de diferença de gênero, a mulher, por exemplo, por pressuposição tem que limpar a casa. O que é isso? Aí pensava “se eu morasse sozinho, quem limparia a casa?”, mas você também podia me lembrar que uma boa parte dos homens na nossa cultura literalmente só sai de casa para casar, e quem cuidava dele [do homem] antes era a mãe.

Eu me lembro de um casal na minha frente, os dois com uma graduação, escolaridade alta, com padrão de vida alto. Os dois se casaram ali perto dos 30 anos de idade, estavam ali na minha frente fazia, assim, uns seis meses do [momento do] casamento, mas eles tinham uma série de discussões. No entanto, ela usou um argumento que [me] chamou atenção, e ele olhou para mim assim [e disse]: “mas eu não estou entendendo. Qual é a reclamação dela?”, [que] virou para mim e contou “ele toma banho e joga a toalha em cima da cama; depois, nós vamos deitar na cama [e] ela [está] toda úmida, porque a toalha molhada ficou em cima da cama”; ele olhou para mim assim [como quem diz] “não estou entendendo. Eu sempre fiz isso a minha vida toda”, aí ela virou para ele [e disse] assim “é, mas a sua mãe ia buscar [a toalha]”, [e] ele falou assim “não, a minha mãe não; era a empregada”. Ou seja… E [ele fez] uma cara de inocente, [de] ingênuo [ao relatar isso]…

 

Sim… De fato não via problema nenhum nisso…

Você percebeu que nós podemos estar tendo discussões de uma maneira extremamente pesada por coisas estupidamente simples?

 

Sim. E nesse caso, doutor Oswaldo, eu vejo que há uma inclinação de que, embora seja uma responsabilidade dividida neste momento — como casal —, você acha que é uma situação em que deve pesar mais esse fator cultural para o homem ter uma responsabilidade maior como possível causador de conflitos?

Eu diria que o homem se torna mais responsável nesta hora por uma razão: porque ele recebeu, inclusive da família de origem, a compreensão de que ele tem mais direito.

Veja, a maior parte de nós já passou por isso. Eu [por exemplo] já morava fora da casa dos meus pais e me lembro que, visitando a minha família, de repente percebi, na hora da refeição, minha mãe dizendo [que] primeiro o meu pai tinha que pegar a carne, depois eu tinha o direito de pegar em segundo lugar. Eu olhei tipo “gente, onde eu estou?”, mas quando nós recebemos o direito de alguma coisa boa [aí falamos/pensamos/concluímos] “nossa”, então, mas é exatamente [isso,]… Naquele momento [em que recebemos algo com vantagem] a gente nem contesta.

Daí fiquei observando, observei que minha mãe foi a última a pegar a carne, então pensei “gente, ela me deu o direito de escolher. Puxa, devo agradecer”. Que ótimo, mas “ah, este é um padrão”. Toma cuidado, porque provavelmente eu vou repetir este padrão, e essas são ações involuntárias — e às vezes ingênuas —, porque como eu disse esse sujeito [o paciente que ele citou mais acima] assim, de maneira ingênua, na minha frente, olhando para mim como que [dizendo] “mas o que [foi] que aconteceu de errado?”, e a mulher — os dois de mesma hierarquia profissional e social — estava reclamando porque, caramba, ela trabalhava da mesma forma que ele — os dois trabalhavam 12 horas por dia fora de casa —, espera aí, vamos negociar.

Só que eles não sabiam fazer isso — nunca tinham feito. A negociação sobre como conduzir a vida a dois, onde os dois têm os mesmos direitos [e] então deveres divididos. Daí pensava de novo: este homem, se sentindo como quem tem o direito de fazer essas coisas, será que ele quer perder esse direito? A maior parte dos homens vai se olhar no espelho e dizer assim “espera aí, eu tenho esse direito e não vou querer perder isso; eu não vou perder isso, então, se eu não vou perder, tenho que obrigar a outra pessoa a fazer”.

No entanto, se nós pensarmos em mulheres educadas, com curso universitário, uma boa parte já teve toda uma discussão na universidade sobre, [numa linha de raciocínio tal como:] “espera aí, direitos humanos, direitos iguais; nós queremos uma divisão do trabalho que seja equilibrada, e não um trabalhar mais que o outro para ambos terem a mesma coisa”.

 

Doutor Oswaldo, e num casal homoafetivo, o que é que pode surgir? Que daí a gente imagina que a questão do gênero esteja um pouco menos presente.

Pois é, mas às vezes não está, porque afinal de contas em casais homoafetivos culturalmente uma boa parte se associa aos gêneros tradicionais. Ou seja, emula papéis dos gêneros tradicionais.

Tanto [é] que tradicionalmente nós sempre tivemos a compreensão de uma mulher lésbica como se fosse mais masculina, ou de um [homem] homossexual ser mais feminino. Alguns homossexuais femininos se chamam na primeira pessoa enquanto feminino; e as lésbicas também se referem com graus masculinizados.

Daí pensei “como é que essas pessoas se relacionam num casal homoafetivo?” Talvez estejam repetindo esses mesmos papéis… Talvez estejam repetindo os mesmos papéis, com as mesmas dores e com as mesmas dificuldades que casais heteroafetivos, [mas] com um prejuízo extra — afinal de contas, nem vão ser percebidos pelos outros com essa capacidade ou dificuldade, em síntese eles não vivem uma diferença de gênero. Só que o gênero é uma configuração psicossocial não-biológica, então não é uma questão de como nasceram genitalmente, mas como se construíram em termos de identidade social.

Assim sendo, é possível que mesmo num casal homoafetivo nós tenhamos essas discussões. E mais: ainda pode haver uma situação extra, ou seja, aquela circunstância de uma homofobia introjetada, resumidamente [porque] “bom, eu tenho que fazer o papel de mulher no casal, porque eu tenho que fazer o papel de mulher”. Quer dizer, [a pessoa] nem se reconhece como homossexual. Se reconhece como um papel rebaixado, por se sentir parecido com outro gênero.

 

Que é visto geralmente como subalterno, não é?

Isso.

 

Doutor Oswaldo, saindo um pouco do plano dessa questão que tem um pézinho mais na divisão de tarefas [para] uma coisa mais da vida doméstica, existe algo mais profundo que a gente pode dizer, ou alguma coisa mais sentimental que pode surgir nessa situação de confinamento?

Todos nós, durante os nossos primeiros 15~20 anos de vida, aprendemos a padronizar os mecanismos de interação social, interação com outros humanos,  inclusive a termos respostas emocionais padronizadas. Ou seja, frente a determinadas situações eu ajo com determinadas emoções ou grupos emocionais. É mais provável que nós tenhamos avanços de situações extremadas nas condições de confinamento, porque nós não vamos ter o resto do mundo para eliminar ou diminuir as nossas tensões.

Então, é mais possível que eu — vamos dizer assim — mostre meu lado pior quanto mais as minhas emoções ficarem complicadas de eu sentir ou controlar. Veja, se eu aprendi que para resolver um problema eu tenho que gritar, falar alto ou xingar outra pessoa, eu vou começar a fazer isso com mais frequência para me defender, para conseguir ter as minhas coisas. Este mecanismo é complicado, porque eu não tenho o mundo externo, as outras pessoas para servirem de mediadores e me impedirem de exacerbar.

Quando estamos num ambiente de trabalho [e] trabalhamos com mais quatro, cinco ou seis pessoas nós nos cuidamos, nós não vamos nos deixar elevar emoções negativas ou manifestações emocionais complicadas. Se eu “inint” [00:23:18] só com a outra pessoa, daqui a pouco eu vou começar a ter piripaque, daqui a pouco eu vou estar chutando o chão; eu vou colocar a culpa na outra pessoa, afinal de contas não tem [mais] ninguém do meu lado. Isso já acontece — e eu já percebo nas discussões de casal — mesmo quando não existe essa situação de confinamento.

Afinal de contas, quando os dois se encontram em casa, à noite, só estão os dois lá. Então, o outro vai ser sempre o anteparo para as minhas emoções negativas e a minha forma inadequada de expressar emoções. Dessa forma, nessas épocas, é provável que isso apareça com mais facilidade do que em outras épocas onde o mundo externo, as outras pessoas começam a mediar e a me mostrar que eu não posso fazer isso, não posso ser desse jeito, e eu vou começar a ter esses mecanismos modificados.

 

E alguém que tenha esse tipo de comportamento mais automático nesse sentido, o que é que a pessoa pode fazer? Imagino [que] o ideal seria ela frequentar e se engajar numa psicoterapia também, mas existe [algo] que ela, refletindo com ela mesma, pode fazer para deixar essa vida mais saudável?

Essa é uma condição extremamente complicada, porque essas pessoas — você usou até um termo [adequado] — automaticamente agem assim. Ao agirem assim, automaticamente também compreendem que isso é o natural. Ou seja, “inint” [00:24:23] é assim que acontece. E isso se torna um problema duplo, porque ela [a pessoa] se olha no espelho e não diz para si mesmo que isso é um problema; e se a outra pessoa diz que é um problema, [ela responde/reage da seguinte forma:] “que isso. Somos duas pessoas, eu não acho que é um problema, [mas] você acha que é um problema, [então] eu sou mais eu. Isso não é um problema, não. Isso é normal”, esse é o mais comum. Por isso que eu falava da escalada, [de] um aumento das pressões, aumento de expressões negativas.

Não vai ser fácil a pessoa se autodiagnosticar, se autorreconhecer, se autoperceber ou dar o braço a torcer que “realmente eu estou causando alguma coisa negativa” — óbvio que ela continua jogando a culpa no outro. “Puxa, ela percebeu. Caramba, olha, estou fazendo burrada”, “estou maltratando outra pessoa”… Veja, a primeira coisa [é que] seria o mínimo dizer para a outra pessoa “olha, desculpa, eu falei de uma maneira ruim. Eu te tratei mal, eu xinguei, falei palavrão… Eu peço desculpa. Me avisa quando você perceber que eu estou de novo iniciando esse tom negativo”, entendeu? [É] o mínimo que a pessoa poderia fazer.

Se você me perguntar “mas isso vai acontecer?” eu vou dizer [que] provavelmente não. Infelizmente, provavelmente não. Então, como que a gente pode ir para uma próxima etapa? Olha, com as pessoas usando os mecanismos de comunicação virtual — estão usando as chamadas de vídeo por todos os aplicativos possíveis — e muitas vezes fazendo isso com grupos de família ou grupos de amigos, é mais comum pessoas descobrindo que podem conversar com os amigos sem sair de casa — dialogar com amigos que moram a cinco mil quilômetros de distância e [com quem] não papeavam [antes] porque moram em países diferentes… Whatever [tanto faz, em português].

Agora vamos pensar assim: o casal está em casa e estão conversando por meio de um vídeo com um grupo de amigos? Está. De repente, eles podem, na frente do grupo de amigos, falar mal um do outro ou “afetar” [00:26:04] um ao outro e algum amigo dizer assim “nossa, não fala assim com ela”. Esse seria o momento de nós permitirmos o mundo interferir. E é possível que o mundo interfira, sim, porque amigos [que são] amigos mesmo se sentem no direito de avisar esse tipo de coisa. E quando acontece, vale a pena se questionar “opa, tem gente percebendo que eu estou fazendo uma coisa ruim. Opa, agora eu tenho um sinal vermelho aqui, deixa eu ver o que eu posso fazer”. Fazer o quê? Tentar se consertar? Como eu disse, no mínimo pedir desculpa em público. Se eu xinguei minha parceria em público, tenho que pedir desculpa em público; e talvez, na sequência, pedir “olha, gente, se eu fizer de novo, me avisa, porque eu não fiz de propósito. Caramba, eu tenho que aprender a como lidar e como controlar esse automatismo”. Está bom…

[Por exemplo, digamos que a situação seja a seguinte:] “eu não consigo, continuo não conseguindo, as pessoas continuam me dizendo…”, veja, os atendimentos psicológicos psicoterapêuticos por meio desses mecanismos virtuais, desses aplicativos com chamada de vídeo têm acontecido nessa época de isolamento. Eu estou atendendo todos os meus pacientes por chamadas de vídeo. Funciona? Funciona e parece que está todo mundo bem organizado e satisfeito, podendo também não correr riscos andando lá fora.

Afinal, para vir ao meu consultório, ele [o paciente] teria de andar por um monte de lugares, andar na rua etc; [e] não seria só ele, eu também seria um possível alvo de problemas — ainda mais eu, que já passei dos 60 [anos]; dizem que [com esta idade] é população de risco.

Mas, de novo, se passo a perceber que automaticamente eu reajo de maneira a agredir a pessoa com quem estou convivendo e eu não sei sair disso, [a orientação é:] comece a procurar ajuda, mas peça ajuda urgente, porque provavelmente nós vamos aumentar essa tensão nessas próximas semanas. E, ainda assim, não é simplesmente um isolamento; é um isolamento para evitação de alguma coisa que a gente nem sabe como vai ser.

Nós nem sabemos como é que isso vai nos afetar ou afetar familiares e amigos. “Nós somos ponderável” [27:49:00], nós temos uma circunstância não previsível — e isso aumenta o grau de angústia e o grau de depressão. É provável que nessas próximas semanas as pessoas comecem a aumentar — eu falei de um grau depressivo, não precisamos nem entrar numa depressão maior —, mas certamente estamos em circunstâncias depressivas e com circunstâncias ansiógenas; e nós vamos sentir essas emoções negativas com mais facilidade do que aparecia antes.

 

Doutor, e quando entra um filho (ou filhos) nesse cotidiano? O que é que muda?

O que eu tenho percebido, principalmente com casais em atendimento de psicoterapia, é que muitos homens que antes nem tinham aquela atividade de participar da vida dos filhos passaram a ter uma participação maior. Afinal, os filhos não estão indo para a escola, então eles têm que brincar em casa; [portanto,] este pai começou a ter mais contato com eles [as crianças].

Bom, os que eu estou atendendo estão muito satisfeitos com isso. Eu fico imaginando como é que eles vão fazer depois que voltarem aos seus trabalhos regulares, quando só vão ver os filhos, quem sabe, no fim de semana, porque à noite os filhos já estão dormindo — chegam em casa tarde ou coisa parecida.

Então, percebo que esses pais estão tirando proveito dessa circunstância com um convívio que eles não tinham, não conheciam. [E] se nós falarmos de mulheres que ficavam em casa tomando conta das crianças, elas também estão conhecendo outra coisa. Ou seja, enquanto o homem está cuidando [ou] está brincando com o filho — ou os filhos —, ela está fazendo qualquer outra coisa; às vezes, até se divertindo, vendo TV, conversando com amigas. Também fico imaginando como é que eles vão renegociar o relacionamento de casal e renegociar como é que lidam com a família.

Inclusive percebi [que] se forem filhos menores, está sendo mais fácil de o casal colocar o filho para dormir, porque sempre o casal usava um argumento — e já vi casais usarem esse argumento de maneira ruim para criança, um recém-nascido [por exemplo] —: “hum, é que nós queremos que o nosso filho fique com a gente enquanto casal, [que] divida mais tempo com a gente. Então, a gente deixa ele dormir à meia-noite, porque aí ele fica conosco entre 21h00-00h00, na cama”. E eu perguntei assim: “seu filho tem que idade?”, [e o casal respondeu] “seis meses”, [então perguntei] “vocês contaram isso para o pediatra? Porque provavelmente o pediatra vai achar ruim; estão impedindo a criança de dormir”.

Mas, nesta situação, em que os dois começam a ficar em casa, [a] fazer home-office, o que é que apareceu de novidade? R: Eles passam o dia inteiro em casa; estão trabalhando na sala, no quarto, na mesa — não sei das quantas —, mas o filho está ali, conversam aqui, brincam acolá… Tem mais contato, passa a dar 20h00 e, por exemplo, [notam e estabelecem que] “está na hora de dormir” e colocam a criança para dormir — e [consequentemente] o casal começa a ter tempo de casal.

É como se a gente voltasse para a época dos nossos avós, em que, talvez, colocar as crianças para dormir às 20h00 fosse exatamente isso: “olha, já tivemos a vida conjunta de família aqui, agora as crianças vão dormir e o casal vai ter a vida de casal”. Percebo que assim, um grupo de casais está desenvolvendo uma nova forma de lidar com os filhos — e que provavelmente [isso] vai ser bom para as crianças e excelente para os casais.

Estou notando também que é mais possível que nós tenhamos casais com filhos que se sintam tão mal com essa situação, que eles não estão tolerando não terem os mecanismos de alívio de tensão do cotidiano. Por quê? Porque este homem ou esta mulher, se trabalhavam fora, voltavam para casa [e] queriam fazer alguma coisa para descansar. Ou, antes de chegar em casa, passavam em algum lugar — na verdade, essa é a deixa do happy hour [na tradução, hora feliz, ou seja, hora de descontração no pós-expediente de trabalho]; apesar de não ser tão comum com as proibições de bebida, mas, de toda maneira, era a ideia.

Este casal, se não sabe controlar os filhos — porque é o outro mecanismo —… Se eu não sei controlar uma criança, eu vou sofrer com essa criança ao meu lado — [aliás,] vou sofrer bastante com essa criança. E como é que eu lido com isso? Eu vou ficar nervoso, essa criança também vai ficar nervosa, se esta criança ficar nervosa ela vai ficar mais irritada, [consequentemente] eu vou ficar mais irritado e, daqui a pouco, nós temos um adulto batendo numa criança porque, afinal de contas, não sabe lidar com birra de criança — [e] o adulto tem birra também.

Mas, de alguma forma, eu estou esperançoso que os casais encontrem o que estes meus pacientes estão encontrando. Também é uma amostragem que tem uma circunstância diferente. Afinal de contas, semana após semana, nós estamos discutindo exatamente o que cada um faz, o que cada um quer fazer, como é que organizam uma coisa de maneira racional para aprenderem a controlar emoções negativas importantes e não deixar essas emoções negativas aumentarem. Então, essa amostra que eu ouço já é uma amostra diferenciada, que possivelmente esteja mudando de comportamento porque já tinha a proposta de mudá-lo de maneira mais proveitosa.

 

Sim, porque eu imagino que também haja a possibilidade do filho ser, digamos, o destinatário também de emoções ruins…

Daqui a pouco nós temos um adulto batendo numa criança e, ainda assim, este sujeito vai pedir apoio logístico para a parceria dele, porque “olha, ele me tirou do sério… não dava, eu não aguentei; eu tinha que bater mesmo”. Quer dizer, nós começamos outros mecanismos que podem se manter depois deste período de quarentena de uma maneira negativa. Mas, ainda existe [esperança, possibilidade de mudar]… Você sabe, eu sou um otimista contumaz; eu ainda creio na espécie humana.

 

Essa visão vai ser boa para finalizar, pois eu ia [te] pedir: você consegue sintetizar todo esse contexto que a gente colocou aqui em uma recomendação, em uma forma que as pessoas possam internalizar algo e agir de maneira que seja saudável para este período que a gente vai passar como casal [em quarentena]?

Eu diria que cada um de nós, individualmente, tem uma função, uma tarefa. [Então, a recomendação seria] se perguntar sempre ao final do dia se conseguiu viver uma vida boa ou [se] só vivemos a vida que merece ser vivida.

Nós sempre vamos viver a vida que merece ser vivida, mas nós podemos influenciar esse merecimento de uma maneira positiva. Se eu me questionar todos os dias, antes de dormir, assim, como que “caramba, eu estou conseguindo fazer aquilo que eu queria? Ah, estou, ótimo” e [se, no caso, a resposta for] “não estou”, o que é que eu posso fazer de melhor no próximo dia? Como é que eu passo a me questionar e não viver com aquela ideia de que eu estou sempre certo? [Porque] nós nunca estamos sempre certos.

Vamos lembrar que fazer birra ou demonstrar agressão não significa ser mais apto a sobreviver. O mais apto a sobreviver é aquele que sabe se adequar às novidades. O que faz birra, o que impõe força ou impõe agressão provavelmente é o primeiro a deixar de existir. Então, a adaptação é uma coisa importante.

Se nós conseguirmos [ter uma comparação quanto ao nosso humor e comportamento], conversando conosco assim: “será que estou me adaptando bem?” [ou] uma pergunta [mais] simples: “comparado com a semana passada, será que eu estou ficando mais triste? Estou ficando mais nervoso?”; se a resposta for positiva para uma dessas ideias — ficarmos tristes ou ficarmos nervosos — é provável que nós estejamos pensando e fazendo um monte de coisas erradas.

Veja, como é que eu faço para que neste ambiente [em] que eu passei a viver restrito eu comece a ter mais satisfação comigo? [E] se eu tiver satisfação comigo, como é que tiro proveito disso para dividir essa satisfação com outras pessoas, com a pessoa com quem eu convivo? Talvez aí eu tenha uma “fórmula” — pelo menos é uma equação que tende a nos levar para a satisfação de coisas, diferente de termos uma equação de “não, eu tenho certeza que eu estou certo” ou “olha, eu não preciso de ninguém [para] me provar que eu estou errado”. Quer dizer, o questionamento é individual.

Temos bastante atenção no que a outra pessoa nos conta, porque a outra pessoa nos olha; a outra pessoa é um espelho. A outra pessoa, agindo como um espelho, pode me mostrar que eu estou ficando nervoso demais, que estou ranzinza demais, estou exagerando nas minhas expressões emocionais.

 

E precisa também estar aberto a assimilar isso como uma verdade, não é?

Pois é. Então, por isso o questionamento interno é mais importante e vem primeiro. Depois vem o mundo, para saber se o mundo está dizendo alguma coisa assim. E essas são coisas complicadas mesmo, porque afinal de contas, se eu partir do princípio que eu tenho mais direito que os outros, não vou ouvir o outro nunca.

Se eu tenho uma autocompreensão de que eu preciso, primeiro, me questionar se eu estou fazendo as coisas certas sempre — não é só hoje; [mas] é hoje, amanhã, depois de amanhã, no mês que vem, no ano que vem… —, para entender se eu estou fazendo mesmo, eu começo a ter algo para dividir de uma maneira positiva. E aí nós começamos a poder ouvir a outra pessoa e, ouvindo a outra pessoa, [começar] até [a] mudar a nossa forma de ser, a nossa forma de fazer as coisas — e mudar é importante. Nessas situações de crise, somente a mudança permite que nós tenhamos uma sobrevivência — individual, emocional e a nossa sobrevivência social.

Com esse isolamento físico nós queremos uma sobrevivência física, mas a minha preocupação é que as nossas emoções tragam algum bem-estar para nós. Assim, nós precisamos cuidar desse aspecto profissional — e [consequentemente] vamos nos reinventar. Torno a dizer: eu não sou otimista. Eu entendo que podemos sair dessas circunstâncias de crise com novas possibilidades de fazer coisas diferentes e aprender outras maneiras de nos relacionarmos interpessoalmente — seja num relacionamento afetivo próximo, seja num relacionamento familiar ou social. Vou torcer para que muitos de nós aprendamos isso.

 

Legal. Obrigado, doutor Oswaldo. Obrigado pela participação mais uma vez, espero que ainda possa participar outras [vezes], porque como a gente viu, nunca sabemos o que vai acontecer e a gente sempre precisa da ajuda dos profissionais da sua área.

Obrigado, Luiz. Espero que os casais tentem buscar aquilo que seja melhor para eles e, na verdade, não o que seja melhor apenas para eles, [mas também] para os filhos, os familiares, para os amigos, porque se nós pudermos dividir o que nós temos de bom, tenho certeza que vamos ser mais felizes. Afinal de contas, dividir o que a gente tem de bom é muito melhor.

 

Legal. Muito obrigado, doutor Oswaldo. Até a próxima. Muito obrigado por terem ouvido mais este episódio do Entrementes, [e] se tiverem dúvidas ou sugestões que tenham a ver com a parte de saúde mental, tentem mandar nas nossas redes sociais. A gente está tentando concentrar no Twitter do Portal Drauzio Varella, com #coberturaDV — DV de Drauzio Varella. Obrigado e até próxima.

Sobre o autor: Luiz Fujita Jr

Luiz Fujita Jr é jornalista, editor do Portal Drauzio Varella e criador do podcast Entrementes, sobre saúde mental. @luizfujitajr

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