Dor associada ao câncer: é possível controlá-la?

Saber identificar e classificar a dor é o primeiro passo para que ela não se torne crônica

Juliana Conte

Juliana Conte é jornalista, repórter do Portal Drauzio Varella desde 2012. Interessa-se por questões relacionadas a manejo de dores, atividade física e alimentação saudável.

A dor em paciente oncológico tem inúmeras facetas. Saber identificá-la e classificá-la é o primeiro passo.

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Publicado em: 3 de agosto de 2022

Revisado em: 4 de agosto de 2022

Saber identificar e classificar a dor é o primeiro passo para que ela não se torne crônica

 

Em algum momento do tratamento oncológico ou após seu término, o paciente vai sentir dor. Isso é um fato. Tipo e localização do tumor, estágio (com o crescimento do tumor, há uma distensão de estruturas do organismo e o risco de dor aumenta), além da classificação da dor daquele paciente são fatores determinantes para traçar um plano de contenção de danos e minimizar as intercorrências hospitalares que podem ocorrer no meio do caminho. 

Por isso não se fala mais dor oncológica e sim dor associada ao câncer, porque além do tumor, a dor pode ser proveniente da quimioterapia, da radioterapia, de uma metástase. Pacientes acamados por muito tempo podem ter escaras (úlceras de pressão) ou dores neuropáticas. Sem contar que os pacientes oncológicos podem ter outros problemas pré-existentes como osteoartrose, dor na coluna, etc.  

 

A dor é subtratada no Brasil

 

Acontece que a dor associada ao câncer ainda é subtratada no país. Falta de médicos especializados para prescrever medicamentos opioides, centros de referência, acesso aos medicamentos, burocracias governamentais para prescrição dos fármacos, e até mesmo receio do paciente, que fica com medo de desenvolver dependência química, são os principais entraves. 

“Se não for um hospital de referência em tratamento de câncer, o pior lugar para um paciente ir é ao pronto-socorro. Porque ele vai chegar lá com uma dor excruciante, o médico de plantão não vai ter muitas informações sobre o caso dele e vai receitar um tramadol, por exemplo, sendo que em casa aquele paciente já está fazendo uso de morfina, que é 10 vezes mais forte”, explica Raoni Imada Tibiriçá, médico algologista (especialista em dor).

Segundo o especialista, nós temos um arsenal medicamentoso imenso para tratar pacientes com dor, mas antes de tudo é preciso aprender a identificá-la para entender sua progressão e diminuir o risco de cronificá-la. Dessa maneira, elas são classificadas seguindo uma escala numérica: dor leve (1 a 3), moderada (4 a 6) ou intensa (7 a 10).

A própria OMS, desde a década de 1990, instituiu uma escala de dor para prescrição de medicamentos. 

 

“Para tratar a dor, é necessário que o médico identifique as suas características. Assim, ele pode solicitar ao paciente que descreva o tipo: se está em forma de pontadas, queimação, latejante. O principal tratamento é a administração de analgésicos, opioides, antidepressivos, além de medicamentos adjuvantes. Quanto ao receio de causar dependência, isso não irá acontecer se for bem administrada pelo médico. O medicamento precisa ser forte, porque a dor é forte”, explica Tibiriçá. 

Entretanto, ainda segundo o médico, a jornada do paciente com dor é ficar indo de “postinho em postinho”, sem conseguir uma solução para essa dor, havendo uma piora da qualidade de vida e progressão do tratamento oncológico. 

“Se esse paciente está há mais de cinco dias com uma dor insuportável, eu preciso de 45 a 90 dias para conseguir estabilizá-lo. A dor vira doença”, reforça Raoni. 

Aliás, não é qualquer médico que consegue prescrever medicamentos opioides. No estado de São Paulo, por exemplo, ele precisa ir até a Secretaria de Saúde, preencher uma série de formulários, aguardar pela validação e então receber os talões amarelos. 

“Não estou dizendo que essa burocracia não é necessária, pois é preciso um controle para soltar esses medicamentos. Mas acredito que precisaria ter mais programas de educação médica para saber como prescrever e a hora de encaminhar o paciente para um especialista”, diz ele. 

 

Ouça também o podcast: Por que Dói? | Câncer

 

O tratamento é caro

 

No Brasil, nós temos grandes centros de tratamentos oncológicos, entretanto, grande parte deles estão concentrados na região Sul e Sudeste, enquanto a região Norte e Nordeste do país sofre com a ausência de hospitais de referência e médicos que saibam prescrever opioides. 

“Se o paciente consegue se tratar no Icesp [Instituto do Câncer do Estado de São Paulo], ele vai ter acesso a um dos melhores tratamentos oncológicos do mundo, em um hospital totalmente público. Mas não é uma realidade para todos, claro”, diz Raoni. 

No caso dos pacientes que têm plano de saúde, alguns tratamentos medicamentosos para dor oncológica podem ser custeados pelo plano. Para isso, o hospital ou clínica deve, juntamente com o paciente, entrar em contato com a seguradora para solicitar o custeio. Isso pode acontecer por meio da entrega direta da medicação ou reembolso. 

“É um tratamento caro. Um adesivo de fentanil custa cerca de R$ 1.200 por mês. Adesivo de morfina, aproximadamente R$ 300 por semana. É complicado, por isso, muitos pacientes, acabam tomando doses menores para poder bancar o tratamento”, finaliza o médico. 

 

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