Como é a alimentação de pacientes com câncer de cabeça e pescoço

O risco de o paciente em tratamento apresentar problemas com a alimentação é três vezes maior do que o observado em portadores de outras doenças.

Juliana Conte

Juliana Conte é jornalista, repórter do Portal Drauzio Varella desde 2012. Interessa-se por questões relacionadas a manejo de dores, atividade física e alimentação saudável.

O risco de o paciente em tratamento apresentar problemas com a alimentação é três vezes maior do que o observado em portadores de outras doenças.

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Publicado em: 2 de junho de 2022

Revisado em: 2 de junho de 2022

O risco de o paciente em tratamento apresentar problemas com a alimentação é três vezes maior do que o observado em portadores de outras doenças.

 

Quando falamos da questão nutricional do paciente oncológico, o câncer de cabeça e pescoço é um dos mais desafiadores, devido aos efeitos colaterais do tratamento, que afeta principalmente a região da boca e dificulta drasticamente o ato de comer. 

Como consequência desses efeitos, o paciente perde peso e massa muscular, o que afeta a qualidade de vida e a adesão ao tratamento. Quando essa perda de peso não é controlada, pode levar a um quadro de desnutrição, uma complicação responsável por 20% a 40% das causas de óbito dos portadores de câncer em geral.

 

Por que paciente oncológico perde peso?

O organismo dos pacientes com câncer na fase de tratamento apresenta uma demanda maior do gasto calórico, fazendo com que o metabolismo utilize como fonte de energia a massa muscular. De maneira geral, o corpo do paciente “compete” por nutrientes com o tumor. 

“Isso quer dizer que cerca de 80% dos pacientes perdem peso de forma importante durante o tratamento, algo entre 6 e 10 quilos. Por isso a importância da avaliação nutricional antes de iniciar a terapia, para que possamos preparar o paciente”, explica Thais Miola, coordenadora da Residência Multiprofissional em Nutrição e supervisora de Nutrição do A. C. Camargo Cancer Center.

Veja também: Tabagismo, álcool e infecção por HPV são fatores de risco para câncer de cabeça e pescoço

 

Lidando com os efeitos colaterais mais comuns 

A radioterapia e a cirurgia são dois dos principais tratamentos do câncer de cabeça e pescoço. Entretanto, alguns efeitos colaterais podem ser esperados: boca seca, alteração de paladar, feridas na boca, dor para engolir e dificuldade para deglutir. 

“O grande problema é que, na maioria das vezes, esses sintomas acontecem simultaneamente. E, no caso das feridas na boca, elas podem ocorrer logo no início, mas a cicatrização só vai ocorrer duas semanas após o término do tratamento”, comenta Miola. 

Para lidar com os efeitos colaterais e a perda de peso, são indicados suplementos nutricionais proteicos que possuem um alto valor calórico e podem ser adicionados à refeição na forma líquida ou em pó, batidos com alguma fruta.

“Quando há o surgimento de feridas na boca decorrentes da radiação, nós propomos que o paciente altere a consistência dos alimentos, de sólidos para pastosos, optando por purês, cremes, mingaus e sempre em temperatura ambiente. Também é necessário evitar alimentos ácidos, como laranja ou limão, pois isso só vai piorar os sintomas”, sugere a especialista. 

 

Alteração no paladar

Também são bastante comuns queixas de alteração no paladar e sensação de gosto metálico na boca, principalmente se o paciente estiver passando por sessões de quimioterapia

Nesses casos, a nutricionista sugere a troca dos talheres de inox pelos de plástico, para evitar contato do metal dentro da boca. 

Carnes ensopadas, massas, vegetais e outras preparações que contenham bastante molho e temperos naturais para acentuar o sabor dos alimentos também ajudam a estimular o apetite. 

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Boca seca

É fundamental que o paciente sempre leve consigo uma garrafinha de água para umedecer a boca. Preparar gelinhos de suco também é uma boa pedida, pois, além de evitarem a desidratação, ajudam na formação de saliva. 

“Precisamos de saliva para a formação do bolo alimentar, que facilita a deglutição. Além disso, a falta de saliva pode levar à rouquidão e até promove cáries, uma vez que não está mais disponível para limpar as partículas de alimentos nos dentes”, diz ela. 

Náuseas

Para lidar com a sensação de enjoos e náuseas a recomendação é fracionar as refeições e diminuir o espaço entre elas (a cada 1h30, por exemplo). 

Evite também ficar próximo do local de preparo dos alimentos, se não estiver cozinhando. Caso precise cozinhar e o cheiro ficar muito desconfortável, utilize máscara e deixe o local bem ventilado para dissipação do aroma. 

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Casos graves

Quando a alimentação oral fica prejudicada por conta da progressão dos sintomas e do difícil manejo dos efeitos colaterais, a recomendação é promover a nutrição por sonda (um tubo fino é inserido no nariz ou outras vias, levando o alimento suplementado em seu estado líquido até o estômago). 

A sonda, normalmente, pode ser utilizada depois da cirurgia, até a fase da cicatrização, quando o paciente retoma, aos poucos, a alimentação oral. 

 

Manter-se ativo

É muito importante tentar manter-se ativo no período de tratamento, pois, além da alimentação, o exercício físico também é um forte aliado na manutenção da massa magra. 

“A perda de peso ocorre muito rápido nesses pacientes. E, quando eles perdem, acabam perdendo tudo: gordura, músculos, massa óssea. Um quadro de desnutrição demora, no mínimo, três meses para conseguir reverter. Por isso a importância da equipe multidisciplinar, do trabalho do fisioterapeuta na reabilitação, para que esse paciente consiga aguentar todo o tratamento”, ressalta Thais. 

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