Algumas pessoas consideram um sintoma normal da velhice, mas mesmo pequenos tremores merecem atenção.

 

A doença de Parkinson foi descrita ainda no início do século 19, e mesmo após décadas, o único sintoma associado à doença pela maioria das pessoas é o tremor. Esse é de fato o sinal mais evidente, mas não é o único. Um dos mais marcantes e abrangentes é o que se denomina “acinesia”, palavra de origem grega que significa ausência ou pobreza de movimentos físicos. “Por um distúrbio bioquímico, no parkinsoniano alguns circuitos motores passam a trabalhar de forma mais lenta e não conseguem acompanhar o ritmo normal da pessoa. Pacientes com Parkinson perdem a amplitude do movimento, a extensão de cada gesto. Isso vale também para a escrita”, explica, em entrevista ao Portal Drauzio Varella, o dr. João Carlos Papaterra Limongi, neurologista e professor da Faculdade de Medicina da USP.

 

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Essa diminuição da amplitude dos movimentos pode se exteriorizar de diversas formas. Na escrita, pode haver diminuição do tamanho da letra (micrografia). Ao caminhar, um braço pode balançar menos que o outro, ou uma perna dar um passo mais curto que a outra. “Isso também faz parte do quadro, mas à medida que o processo progride, os dois passos ficam igualmente pequenos. Além disso, à medida que os passos vão ficando mais curtos e menores, o paciente curva a cabeça e o tronco e joga o corpo para a frente. Essa flexão excessiva acaba gerando deslocamento do centro de gravidade e desequilíbrio. Por conta disso, as quedas são frequentes”, afirma o neurologista. A lentificação pode abranger também o raciocínio, o que faz com que o paciente sofra impactos na vida intelectual e social.

A incidência da doença de Parkinson é maior após os 55 anos, o que se torna um problema que merece atenção em um país como o Brasil, cuja população de idosos é cada vez maior. Durante muito tempo, não havia qualquer tratamento para a progressão da doença. Conforme se descobriu que havia uma relação da enfermidade com a falta do neurotransmissor dopamina, as pesquisas foram direcionadas para a reposição dessa substância. De fato, foi possível obter melhora na qualidade de vida, mas somente na fase inicial da doença, já que quanto mais as células envolvidas na produção de dopamina se degeneram, mais difícil se torna repô-la.

Atualmente […] os pacientes são tratados e podem permanecer dez, 15, 20 anos com a doença controlada, levando vida social ativa e alguns mantendo até a atividade profissional.

A abordagem atual, então, é procurar evitar que as células dopaminérgicas se degenerem, ou pelo menos diminuir o ritmo da degeneração. Muitas drogas são estudadas no momento para tentar cumprir esse papel neuroprotetor e há esperança de que se chegue a uma forma de controlar a doença, mas até o momento não se obteve confirmação científica a respeito.

Como a progressão da doença leva à rigidez muscular, antigamente chegava o inevitável momento em que o paciente precisava usar cadeira de rodas. “Atualmente, isso não mais acontece porque os pacientes são tratados e podem permanecer dez, quinze, vinte anos com a doença controlada, levando vida social ativa e alguns mantendo até a atividade profissional. Além disso, a sobrevida dos parkinsonianos aumentou muito e está se aproximando do índice de sobrevida das pessoas sem a doença”, esclarece o dr. Papaterra.

Atualmente, a recomendação é, além de seguir o tratamento medicamentoso com disciplina, manter atividade física e intelectual. Nos casos de doença mais avançada, que restringe movimentos, é possível realizar exercícios específicos por meio de fisioterapia. É importante reforçar que reconhecer sintomas o quanto antes é fundamental para manter a qualidade de vida. Especialmente na faixa etária mais acometida, fique atento mesmo a pequenos sinais, como ligeiros tremores e pequenas diferenças na marcha ao andar.