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Saúde da mulher: os riscos do excesso de exames

O excesso de exames pode levar a intervenções desnecessárias e não garante a saúde da paciente. Leia na coluna de Mariana Varella

médico lê exames de paciente em consultório

No Dia Mundia da Segurança ao Paciente (17/9), a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) lançou um alerta importante: o excesso de exames e intervenções pode causar mais danos que benefícios à saúde das mulheres.

O alerta é importante, já que muitos ginecologistas costumam pedir exames em excesso, principalmente porque esses médicos, por acompanharem as pacientes com frequência, acabam avaliando, também, problemas de saúde de outras áreas.

Contudo, quando os exames são feitos de forma aleatória, sem um direcionamento clínico que faça sentido, há risco de encontrar alterações que não tenham importância do ponto de vista médico. Esse tipo de achado é chamado de incidental, e pode levar a biópsias, procedimentos e, em alguns casos, cirurgias desnecessárias em mulheres assintomáticas e com baixo risco. Isso sem falar na ansiedade que um exame alterado gera na paciente.

Veja também: Excesso de exames

“Um exemplo bastante didático é o rastreamento do câncer de ovário em mulheres assintomáticas e de risco habitual durante exames de check-up. De acordo com estudos, o uso rotineiro de CA-125 — exame de sangue utilizado para rastrear tumor em contextos diagnósticos específicos ou acompanhar doenças já conhecidas — e ultrassonografia transvaginal não demonstrou redução da mortalidade e pode produzir falsos positivos. O CA-125, por exemplo, pode estar aumentado em várias situações benignas. Quando solicitado sem necessidade, um resultado discretamente alterado pode assustar uma mulher saudável e desencadear ultrassonografias repetidas, ressonância, consultas especializadas e até procedimentos invasivos”, explica Marta Curado Carvalho Franco Finotti, ginecologista e membro da Comissão de Ética da Febrasgo.

 

Exames e intervenções desnecessários

De fato, mulheres assintomáticas e sem histórico familiar de câncer de ovário não devem fazer rastreio da doença, como ultrassons transvaginais e dosagem do CA-125.

Outro exemplo são os painéis hormonais. A dosagem de hormônios sem considerar sintomas, idade, contexto clínico e outros fatores não é recomendada, pois esses exames não têm relevância clínica.

Na obstetrícia esse tema é ainda mais complicado, pois a gestação é um período delicado para a mulher, que pode se sentir receosa quanto à gravidez e pressionar o médico para realizar exames, na esperança de que eles lhe tragam segurança.

Ultrassonografias muito frequentes, cardiotocografias (exame que registra em tempo real a frequência cardíaca do feto, seus movimentos e as contrações uterinas) e outros exames sem indicações clínicas específicas podem motivar intervenções nocivas e ansiedade na gestante e seus familiares.

De acordo com Finotti, na obstetrícia a segurança da paciente é ainda mais importante, pois as intervenções devem ser muito bem pensadas para não colocar a gestante e o feto em risco.

Medicalização desnecessária, amniotomia (rompimento artificial da bolsa amniótica feito por um profissional de saúde), indução do trabalho de parto sem indicação muito bem estabeelecida, cesariana sem indicação cínica, episiotomia de rotina e monitorização fetal constante são exemplos de intervenções que podem ocorrer de forma desnecessária.

“Isso não significa demonizar as intervenções. Muito pelo contrário: quando corretamente indicadas, muitas delas são fundamentais e salvam a vida da mãe e do bebê. O ponto é abandonar a lógica da intervenção de rotina e adotar a lógica da intervenção por indicação”, reforça a médica.

Em um artigo do ano passado, o oncologista Drauzio Varella escreveu: “Pedir excesso de exames não qualifica o profissional bem preparado, muito pelo contrário. Ao ver uma dessas listas intermináveis, fico com a impressão de que o médico não faz ideia do que procura”.

 

Prevenção nem sempre significa excesso de exames

Há a falsa ideia, em especial na medicina privada, de que realizar exames faz parte da prevenção. No entanto, há cada vez mais evidências científicas de que o excesso de exames não é sinônimo de saúde e ainda pode ser iatrogênico (quando uma intervenção em saúde causa um efeito adverso ou dano à saúde).

“Todo mundo já ouviu de um amigo sedentário que fuma, bebe e come exageradamente: ‘Fui ao médico, fiz todos os exames, estou ótimo’. Tive um velho professor que costumava advertir: ‘Cuidado, cansei de ver gente à beira da morte com exames impecáveis'”, disse Varella.

É preciso selecionar os exames e intervenções que de fato beneficiam a mulher, considerando idade, sintomas, história pessoal e familiar e fatores de risco. Isso não significa falta de assistência, ao contrário, mas pensar em um cuidado individualizado que de fato beneficie a paciente.

“Segurança da paciente também é protegê-la do excesso. Nem todo exame precisa ser feito, e nem toda intervenção possível é necessária. A melhor medicina é aquela que oferece o máximo benefício com o mínimo de dano”, explica Finotti.

É preciso lembrar, ainda de acordo com a ginecologista da Febrasgo, que a segurança da paciente não implica apenas evitar doenças e complicações, mas evitar exames, medicamentos, procedimentos e custos desnecessários.

 

Custos elevados

Além disso, solicitar exames e intervenções que não sejam de fato recomendados acarreta custos para os sistemas de saúde público e privado. No SUS, esses gastos significam menos recursos para o tratamento de doenças e menos investimento em prevenção.

Já na rede privada, embora a paciente possa pensar que o seguro saúde cobre os custos, procedimentos excessivos levam ao aumento dos preços dos planos.

No fim, exames sem indicação não são úteis nem para os pacientes, nem para os médicos e tampouco para os sistemas de saúde.

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