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Por que começar a usar o preservativo feminino (interno)?

A popularização do preservativo interno ou, como é mais conhecido, da camisinha feminina pode ser um passo importante em direção à autonomia de mulheres.

A popularização do preservativo interno ou, como é mais conhecido, da camisinha feminina pode ser um passo importante em direção à autonomia de mulheres.

 

O preservativo feminino, também chamado de preservativo interno ou camisinha vaginal, é um contraceptivo de barreira, ou seja, impede a entrada dos espermatozoides no útero. Inserido na vagina em até 8 horas antes da relação sexual, ele protege contra infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), como HPV, sífilis e HIV, além de gravidez indesejada.

Esse tipo de preservativo surgiu na década de 1980 e está disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2000. Mas, em comparação com a famosa camisinha masculina (ou preservativo externo), não é tão fácil encontrá-lo. Muitos desconhecem as vantagens e até mesmo a existência desse método.

“O preservativo para o pênis é muito mais simples de achar, geralmente por preços mais acessíveis. Isso tem a ver com as campanhas nacionais de conscientização (em sua maioria, voltadas para esse modelo específico), preconceito e falta de informação por parte de homens e mulheres”, explica a dra. Marcelle Thimoti, médica ginecologista e obstetra do Grupo Elas.

 

Mas o que é o preservativo feminino (interno)?

 

Feito de látex, nitrilo ou poliuretano, a camisinha feminina tem em torno de 15 centímetros de comprimento e dois anéis flexíveis em suas extremidades: um fechado, que deve ser introduzido na vagina, e outro aberto na parte de fora que impede que ele seja empurrado para dentro.

No caso dos preservativos de materiais que não sejam o látex (material que costuma estar associado a alergias), os lubrificantes à base de água ou óleo são úteis na hora do sexo para reduzir o atrito entre os genitais. A substância pode ser utilizada:

  • Na própria camisinha;
  • Na vagina;
  • Ou nos brinquedos sexuais (que, como ressalta a dra. Marcelle, também exigem o uso de proteção, principalmente se forem compartilhados entre os parceiros).

Importante destacar que o preservativo interno não pode ser usado junto com a camisinha masculina, já que os riscos de ambos rasgarem ou escorregarem é maior.

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Como colocar a camisinha feminina?

 

A colocação do preservativo feminino (interno) pode ser difícil nas primeiras tentativas. Mas, com a prática, fica mais fácil pegar o jeito. Acompanhe o passo a passo:

  1. Abra a embalagem cuidadosamente, sem usar os dentes ou tesouras, porque isso pode furar ou rasgar a camisinha;
  2. Segure o preservativo com o anel maior (aberto) virado para baixo;
  3. Segure o anel menor com os dedos polegar e indicador, apertando a argola no meio;
  4. Escolha uma posição confortável para introduzir o preservativo (pode ser agachada ou com uma das pernas dobradas);
  5. Insira o anel menor no interior da vagina, com a ajuda do dedo indicador;
  6. Uma vez dentro do canal vaginal, coloque o dedo indicador por dentro da abertura do preservativo e empurre até que apenas o anel maior esteja para fora.

 

Como retirar a camisinha feminina?

 

  1. De preferência, esteja na posição deitada;
  2. Segure e rode o anel maior que está para fora da vagina, tomando cuidado para que as secreções não vazem;
  3. Puxe para fora delicadamente, como se fosse um absorvente interno;
  4. Dê um nó e jogue no lixo.

 

Vantagens do preservativo 

 

Pode ser colocado antes da relação sexual

Diferentemente do preservativo para o pênis, a camisinha vaginal é mais resistente e menos sensível ao calor. “Além disso, enquanto a uretra do homem está contida dentro do pênis, a da mulher independe do canal vaginal. Então, o preservativo pode ficar lá sem interferir na hora de fazer xixi”, explica a ginecologista.

A camisinha pode ser colocada na vagina até 8 horas antes do sexo, mas a dica é inseri-la até 20 minutos antes para que os anéis fiquem bem firmes nas paredes vaginais.

Essa vantagem é muito importante para o ritmo da relação, já que parar no início do ato sexual para abrir e colocar a camisinha no pênis é um dos motivos que podem cortar o clima e desmotivar o casal a usar o preservativo.

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O risco de sair é menor

“Na hora de retirar o pênis ou quando a ereção termina, o preservativo peniano pode acabar ficando preso dentro da vagina e expondo a pessoa a doenças e à gestação indesejada. Com o preservativo feminino, as chances disso acontecer são bem menores”, destaca a dra. Marcelle.

 

Mais seguro contra ISTs

Outro benefício é a maior segurança contra infecções sexualmente transmissíveis. “Como o anel externo envolve uma porção da vulva, a área protegida do contato com secreções que podem transmitir doenças é maior”, afirma a ginecologista.

No entanto, é importante alertar que a camisinha deve ser utilizada até mesmo durante o sexo oral, já que algumas ISTs são transmissíveis pelo simples contato da boca com a pele. É o caso da sífilis, gonorreia, herpes, HPV, entre outras.

“Nesse sentido, muitas pessoas fazem o uso errado do preservativo masculino ao colocá-lo depois do início do coito, quando a relação está próxima do clímax. Mesmo sem penetração, ambos já foram expostos ao risco de infecção”, explica a dra. Marcelle. 

 

Mais prazer para todos os envolvidos

Ainda que a satisfação sexual esteja bastante relacionada à intimidade e à confiança entre os parceiros, um estudo inglês publicado na revista “Reproductive Health Matters (RHM)” mostrou que o sexo com camisinha vaginal pode ser mais prazeroso. Isso porque o anel externo do preservativo pode fornecer um estímulo adicional ao clitóris, bem como um estímulo interno durante a penetração profunda. Além disso, o pênis fica mais livre, sem a sensação de “aperto” que algumas camisinhas masculinas (externas) podem proporcionar. 

“Tem também a questão do lubrificante. Se o preservativo externo não estiver bem lubrificado, pode machucar a vagina. O interno não: a própria pessoa fica responsável pela lubrificação antes do pênis entrar. O atrito vai ser menor e a sensação, mais agradável”, pontua a dra. Marcelle.

 

Não precisa ser retirado logo depois da ejaculação

Enquanto a camisinha externa precisa ser retirada logo após a ejaculação, a camisinha vaginal não. No entanto, o melhor a fazer é tirar o preservativo antes de se levantar, já que se a outra pessoa tiver ejaculado a substância pode vazar quando a mulher ficar de pé. “Quando vaza, existe a chance do contato da secreção com a vulva, podendo resultar em IST ou até mesmo em uma gravidez não planejada”, alerta a médica. 

 

Também pode ser usado no sexo anal e oral

Mesmo que não seja tão comum, é possível adaptar o preservativo feminino (interno) para o sexo anal e oral, ampliando sua funcionalidade para além do vaginal.

No sexo oral, a ginecologista lembra de outro método que vem se popularizando nos últimos anos: o dental dam. “É um material bem fininho, igual ao de preservativo, que se usa muito em consultórios de dentista. O diferencial é que não diminui a sensibilidade do contato e, no Brasil, já pode ser encontrado em sex shops ou lojas de produtos odontológicos”, conta.

Veja também: Câncer de garganta e sexo oral | Drauzio News #32

 

Desvantagens do preservativo

 

Barulhos desagradáveis

Essa é uma das principais reclamações de quem já testou o preservativo feminino. De vez em quando, essas camisinhas podem fazer sons esquisitos e inesperados durante o sexo, causando constrangimento. No entanto, uma boa lubrificação é capaz de resolver o problema.

 

Mais caro e difícil de encontrar

Enquanto o pacote com seis unidades de camisinhas masculinas costuma custar por volta de R$15, a unidade da camisinha feminina varia entre R $10 a R $12. Os primeiros podem ser encontrados em farmácias, postos de saúde e locais de distribuição, já os preservativos femininos são mais comuns em sex shops, centros de saúde reprodutiva, varejistas online e também nas farmácias.

“Ainda que ambos sejam distribuídos de forma gratuita pelo SUS, no dia a dia dos postos de saúde é muito mais complicado você achar o preservativo interno”, explica a ginecologista.

 

Mais autonomia e independência para quem usa

Além de todas as questões citadas, o principal diferencial do preservativo feminino é que a própria pessoa que o utiliza pode definir a sua prevenção, sem depender das vontades do parceiro.

“Se a pessoa com quem você se relaciona não quer usar a camisinha externa, você vai concordar e se sujeitar aos riscos?”, questiona a dra. Marcelle. “Atualmente buscamos tanto a independência feminina, mas muitas mulheres acabam se expondo pela decisão de seus parceiros”, continua.

Em 2017, por exemplo, um homem na Suíça foi condenado a 1 ano de prisão por tirar a camisinha sem que a mulher com quem ele transava soubesse. A prática se espalhou por outros países e ficou conhecida como “stealthing” ou “dissimulação”. No Brasil, a ação é considerada crime de violação sexual por meio de fraude, segundo o artigo 215 do Código Penal, mas são vários os relatos de mulheres que passaram por situações parecidas.

“O preservativo feminino é justamente uma opção para driblar todas as desculpas e ameaças, porque coloca a própria pessoa no comando da sua proteção na vida sexual. Inclusive, quando há acordos durante a relação, a experiência costuma dar mais prazer”, destaca a dra. Marcelle. 

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O futuro da camisinha feminina no Brasil

 

O Brasil é o país que mais compra preservativos internos no mundo. Um estudo da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) mostrou que esse modelo de camisinha foi o insumo cuja disponibilidade mais aumentou entre 2012 e 2018 em Unidades Básicas de Saúde (UBS) de todo o território que aderiram ao Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ-AB), principalmente nos municípios com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

No entanto, o desconhecimento faz com que a procura por preservativos femininos ainda seja muito baixa.

“Atualmente estamos vendo outras formas de prevenção sendo amplamente divulgadas, em especial pela população LGBTQIA+. Mas o Brasil ainda é muito machista. O acesso e a conscientização sobre a camisinha vaginal tem que ser facilitados, porque muitas pessoas não procuram por vergonha, por causa da educação sexual que não tiveram nas escolas”, afirma a dra. Marcelle.

Por enquanto, as iniciativas públicas nesse sentido são raras, concentradas no período do Carnaval. “As poucas pessoas que buscam o preservativo feminino o fazem pela curiosidade. Infelizmente, não vejo nenhum incentivo no sentido de realmente popularizar essa camisinha que pode ser tão útil a tantas pessoas”, lamenta a ginecologista.

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Sobre o autor: Beatriz Zolin

Beatriz Zolin é estudante de Jornalismo e estagiária em Redação no Portal Drauzio Varella. Tem interesse pelas editorias de saúde, política, educação e comportamento.

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