Na segunda metade do século passado, surgiram os hebiatras, especialistas no tratamento dos adolescentes que, do ponto de vista biológico e psicológico, atravessam uma fase do desenvolvimento marcada por mudanças.

 

* Edição revista e atualizada.

 

Houve época em que os médicos tratavam da família inteira, da avó hipertensa, com reumatismo e diabetes, ao bebezinho nascido prematuro. Foi só pouco antes da metade do século XX que apareceram os primeiros pediatras, especialistas em tratar especificamente de crianças. Até então, elas eram consideradas adultos em miniatura, sem necessidades nem características próprias.

 

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O avanço da medicina, resultado do maior conhecimento das doenças, suas causas, sintomas, vias de transmissão, e das novas conquistas terapêuticas, induziu os médicos a se especializarem cada vez mais. Assim, na segunda metade do século passado, surgiram os hebiatras, especialistas no tratamento dos adolescentes que, do ponto de vista biológico e psicológico, atravessam uma fase do desenvolvimento marcada por muitas e rápidas mudanças e requerem atenção especial.

 

HEBIATRIA

 

Drauzio – Qual é a origem da palavra hebiatria?

Mauricio de Souza Lima – Hebiatria é uma palavra de origem grega que significa medicina da juventude. Traz consigo uma referência a Hebe, a deusa grega da juventude, filha de Zeus e de Hera. No Brasil, embora a especialidade exista há mais de 30 anos, poucos a conhecem.

Para receber o título de hebiatra, o médico precisa fazer dois anos de especialização em pediatria e mais dois de especialização em medicina do adolescente.

 

Drauzio – O que diferencia a medicina aplicada à adolescência, da pediatria e da medicina com enfoque na vida adulta?

Maurício de Souza Lima – A adolescência é uma fase peculiar da vida. Nenhuma outra é tão marcada por mudanças físicas e questões relacionadas ao desenvolvimento psicossocial como essa, que vai do fim da infância até a entrada no mundo adulto, ou seja, dos 10 aos 20 anos de idade, segundo a Organização Mundial da Saúde.

O médico hebiatra é um clínico-geral especializado em adolescentes. Cuida do desenvolvimento físico, tratando e prevenindo doenças do jovem nessa faixa de idade. Verifica se está crescendo adequadamente, ou não, e prescreve as vacinas que precisam ser ministradas na adolescência. Todo mundo se lembra das vacinas que devem ser tomadas na infância. Já as da adolescência, muitas vezes, ficam relegadas a um segundo plano.

É função também do hebiatra estar atento ao desenvolvimento psicossocial no que diz respeito ao convívio social, como a interação com o grupo de amigos, a experimentação de drogas, o início da sexualidade.

 

PRINCIPAIS DÚVIDAS

 

Drauzio De acordo com sua experiência, o que leva o adolescente a procurar um médico?

Maurício de Souza Lima – Com grande frequência, são as preocupações com o corpo. Por exemplo: uma situação comum nessa fase é a do garoto de 13 anos, o mais baixinho da classe, que quer saber se há algo errado com ele e se poderia tomar hormônios para crescer mais depressa. Para esses, vou logo adiantando que são raras as pessoas que precisam de hormônios para crescer e que sua indicação depende de mapear o desenvolvimento da puberdade, o que tem de ser feito com muito critério.

As dúvidas relacionadas com a sexualidade são outro motivo que leva o adolescente ao hebiatra, em geral, por indicação de um amigo da mesma idade. Às vezes, uma experiência homossexual nessa fase angústia muito o jovem, embora não queira dizer que sua orientação sexual vá seguir por esse caminho.

Já atendi também muitos adolescentes angustiados porque eram BV, na linguagem deles boca virgem, isto é, nunca tinham beijado, ou BVL, boca virgem de língua. Esses são termos que aprendi recentemente, como aprendi que BL quer dizer boca livre e se aplica à festa em que as bocas estão todas à disposição de quem quiser beijá-las. No meu tempo, boca livre era um tipo de festa em que se podia comer e beber à vontade e sem pagar.  Esse exemplo mostra que é preciso estar atento para entender o linguajar do adolescente.

Há, ainda, o adolescente que nos procura porque experimentou uma droga e quer saber se está viciado e ficou dependente. Atualmente, está crescendo o consumo do ecstasy, que eles chamam de “bala”.

Tem ficado evidente nos últimos anos que o mundo do século 21 gira rápido e que determinadas situações estão ocorrendo cada vez mais cedo. Aquilo que na década de 1980, um jovem com 15, 16 anos estava começando a fazer, hoje os jovens fazem aos 13 anos.

 

Drauzio – O problema é que os adultos se chocam com essa precocidade do desenvolvimento…

Maurício de Souza Lima – Exatamente. Muitos pais acham que é cedo para conversar com o filho de doze anos sobre sexo e drogas. O problema é que o mundo de hoje favorece o contato com esses assuntos. A televisão, as bancas de jornal, o cinema, a internet, tudo facilita que esse contato ocorra mais cedo. Nossa obrigação é informar, embora possa parecer uma intervenção precoce, porque as coisas acontecem e não dá para fechar os olhos. Não dá para esperar que o filho tenha 15 ou 16 anos, porque aí pode ser tarde demais.

É preciso antecipar o momento da conversa para que os adolescentes possam a aprender a pensar antes de agir, uma vez que eles normalmente agem sem pensar.

 

FORMAS DE PENSAR

 

Drauzio – Quais são as linhas-mestras do pensamento do adolescente?

Maurício de Souza Lima – Em geral, o adolescente tem um falso sentimento de onipotência – acha que pode tudo – e de onisciência – acha que sabe tudo. Na verdade, acreditam que nada de errado lhes pode acontecer. Quem vai engravidar é sempre a filha da vizinha, porque não sabe fazer as coisas direito. Ele usa drogas, mas isso não tem importância, porque para quando quiser. Esse tipo de pensamento mágico acaba, muitas vezes, expondo os adolescentes a situações de risco, principalmente quando querem destacar-se perante o grupo de amigos.

Se o pai diz: “Olhe, leve o guarda-chuva, porque vai chover” ou “Ponha um agasalho, que está frio”, ele imediatamente retruca que não quer “pagar mico” diante dos colegas. Atitudes como essa podem tornar, muitas vezes, o relacionamento do dia a dia mais difícil.
Questionar tudo, querer saber os porquês também são características comuns da forma de pensar dos adolescentes. Muitos os consideram pessoas difíceis nessa fase, dizem que são “aborrecentes”. Acho um erro chamá-los assim, porque é um mau começo para estabelecer contato proveitoso com eles.

 

Drauzio – Quais os principais assuntos que devem ser discutidos com os adolescentes?

Maurício de Souza Lima – Acho fundamental discutir com o adolescente todas as questões que fazem parte do seu cotidiano, a fim de que disponha das informações necessárias para pensar antes de agir. Só assim, diante de uma situação nova, ele não será apanhado de surpresa. Muitos já me disseram textualmente: “Sabe, na hora eu lembrei da consulta ou do que meu pai e minha mãe falam e achei melhor não fazer aquilo”.

Os pais imaginam que os filhos não prestam atenção em suas palavras, não lhes dão ouvidos. Não é verdade. A família é o principal fator de proteção nessa fase. Quanto mais diálogo houver, quanto mais os pais conhecerem o filho, os amigos do filho e quanto mais souberem o que ele está fazendo, melhor será o resultado.

Isso não quer dizer que devam ficar as 24 horas do dia atrás do filho. Não seria saudável nem para os pais nem para o adolescente. Mas, é sempre importante participar do seu mundo e criar momentos mágicos na relação que favoreçam o diálogo. A cena da novela, a notícia do jornal, um comentário do amigo podem ser o pretexto oportuno para os pais expressarem sua opinião. É de extrema importância os filhos saberem que podem conversar com os pais e ouvirem sua opinião sobre determinados assuntos. Infelizmente, na correria do mundo de hoje, esse contato está desaparecendo e os jovens ficam sem modelos. Por isso, buscam na internet ou com os amigos, que às vezes sabem tão pouco como eles, as respostas para questões fundamentais, básicas da vida.

 

INICIAÇÃO SEXUAL

 

Drauzio – As duas questões que mais angustiam pais e mães de adolescentes é a iniciação sexual e o uso de drogas ilícitas. Existe idade que a medicina estabeleça como ideal para o início da vida sexual?

Maurício de Souza Lima – Especialmente hoje, é muito difícil dizer qual seria o momento adequado para a iniciação sexual.  Em 1900, a primeira menstruação ocorria, em média, aos 16 anos. Atualmente, ocorre aos 12 anos, e não se pode esquecer de que ela é um efeito tardio na escala do desenvolvimento feminino.

Nas meninas, o primeiro sinal da entrada na puberdade é o crescimento das mamas, do broto mamário, que acontece dois anos, dois anos e meio antes da menarca. Por isso, existem meninas que aos doze anos já menstruaram, têm corpo e estatura de mulher adulta e existem aquelas que ainda não atingiram a puberdade e têm corpo infantil.

Com os meninos, a mesma coisa, embora entrem na puberdade um pouco mais tarde que as meninas. Elas amadurecem mais cedo física e emocionalmente. É comum uma garota de 12 anos, no sexto ano, interessar-se por um garoto do 8º , com 14, 15 anos, enquanto seu colega da mesma idade ainda está brincando de empurra-empurra com os companheiros na hora do recreio.

Portanto, é muito difícil apontar uma idade cronológica ideal para o início da vida sexual. O mais acertado é verificar o estágio de maturação sexual do adolescente para determinar se está apto ou não para esse tipo de experiência.

Muitos meninos com 14 anos angustiam-se muito e querem saber se podem fazer alguma coisa para acelerar o processo de desenvolvimento, porque ainda têm corpo, rosto de criança, estatura inferior à de outros meninos da mesma idade, nunca beijaram uma garota e não são convidados para as festas.

Atualmente, o que se constata é que a iniciação sexual começa cada vez mais cedo e de forma pouco responsável. Como isso acarreta muitos transtornos para os jovens, é importante dar-lhes todos os instrumentos para que saibam lidar com a situação (que pode ser o primeiro beijo ou a primeira relação sexual propriamente dita) mais respaldados e com mais responsabilidade.

 

Drauzio – Como o hebiatra aborda as questões relacionadas com a sexualidade dos adolescentes?

Maurício de Souza Lima – Ao discutir as questões relacionadas com a sexualidade, o primeiro objetivo do médico de adolescentes é que tenham uma vida sexual sadia. Por exemplo, camisinhas todos conhecem e sabem que devem usar em todas as relações sexuais, independentemente de o jovem achar que aquela pessoa é o homem ou a mulher de sua vida e que vão casar-se um dia. No entanto, eles usam a camisinha nos primeiros 15, 20 dias de namoro, mas depois abandonam porque estão apaixonados, e eles se apaixonam com muita facilidade nessa fase da vida.

Não se pode ignorar que muitas meninas engravidam aos 13, 14 anos. Embora um pré-natal bem feito possa ajudá-las a ter uma gestação e um parto mais seguro, o que observo no ambulatório do Hospital das Clínicas (SP) para filhos de mães adolescentes é que, na maioria das vezes, essa gravidez representa a interrupção de um projeto de suas vidas.

 

Drauzio – Você disse que a iniciação sexual de alguns adolescentes pode ser por uma experiência homossexual passageira.

Maurício de Souza Lima – Eu a coloco como uma experimentação da sexualidade, não como uma orientação definida da sexualidade. Sempre que toco nesse assunto, acho imprescindível deixar bem claro que ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. Por isso, o correto é falar em orientação sexual e não opção sexual.

Na adolescência, às vezes, podem ocorrer experimentações homossexuais. Esse tema vem sendo muito discutido na mídia e toda a vez que volta à pauta, numa novela ou em revistas, alguns adolescentes me procuram para saber se são homossexuais, uma vez que já rolou um beijo ou a menina já trocou carinhos com uma amiga, por exemplo.

Em relação aos pais, apesar de a homossexualidade estar sendo encarada com mais naturalidade, haja vista a parada gay na Avenida Paulista, existe um preconceito muito grande. Basicamente, eles não querem que os filhos sofram e ficam desesperados quando sabem que os filhos se envolveram numa experiência desse tipo. Na maioria dos casos, porém, foi mesmo só uma experimentação passageira para matar a curiosidade e tanto os pais quanto os filhos ficam aliviados quando sabem disso. No entanto, em alguns jovens, a orientação homossexual pode prevalecer.

 

Drauzio – Que tipo de orientação você dá aos pais nessas circunstâncias?

Mauricio de Souza Lima – O interessante é que a primeira pergunta dos pais é sempre “Onde foi que eu errei?”, porque se sentem tomados por um sentimento de culpa muito grande. Normalmente, quando se trata de um menino, a mãe culpa o pai por ter sido ausente, por não ter levado o filho ao jogo de futebol. Quando é uma menina, ela acha que não ficou atenta aos sinais que a filha vinha dando ao longo dos anos. De qualquer modo, o que os pais mais temem é o sofrimento que a orientação homossexual possa trazer para seus filhos.

Eu procuro tranquilizá-los. Eles fizeram o que acreditavam ser o melhor para os filhos e a questão precisa ser analisada sob vários aspectos, inclusive sob o prisma da experimentação passageira. Depois converso com os adolescentes que obedecem ao mesmo padrão de curiosidade e, percebo, estarem meio perdidos, pois a mídia aborda a homossexualidade, muitas vezes, de forma rápida e superficial. Aliás, a velocidade é outra característica do mundo de hoje.

Algumas meninas já me disseram que tinham ficado com vários meninos, até que tiveram vontade de beijar a amiga. Eu lhes explico que essa necessariamente não vai ser sua orientação definitiva. Tempos depois, elas voltam e eu lhes pergunto sobre a amiga. “Ah, isso é coisa do passado. Agora estou namorando o Fulano de Tal”.

 

USO DE DROGAS

 

Drauzio – De certa forma, a orientação sexual e o uso de drogas têm uma coisa em comum. A mãe encontra um baseado na gaveta do criado-mudo do filho e acha que ele caiu no mundo das drogas.

Maurício de Souza Lima – Elas se desesperam, embora seja possível que o filho tenha só experimentado a droga por curiosidade. Mesmo assim, não se pode deixar de monitorar esse jovem. Se experimentou a droga numa viagem ou numa festa e nunca mais usou, matou a curiosidade e pronto. Agora, se experimenta toda a semana, é um usuário. É preciso pontuar essas referências até para que os adolescentes se sintam mais respaldados.

 

Drauzio – Existe grande diferença entre fumar maconha uma vez por semana e cheirar cocaína ou fumar crack.

Maurício de Souza Lima – Os efeitos da cocaína e do crack são mais devastadores, mas é importante lembrar também do ecstasy, a balinha que a moçada usa nas festas. O maior problema é a ação farmacológica dessa droga no organismo. A pessoa toma um comprimido e, durante seis horas, experimenta uma sensação agradável. Depois, para garantir esse efeito de seis horas, precisa tomar dois ou três comprimidos de uma só vez. Essa resistência que pode ser provocada por vários medicamentos, com o ecstasy, ocorre mais depressa.

O problema é que muitos adolescentes acham que, por ser chamado também de bala, ele é uma droga inofensiva – “Não, doutor, cocaína e maconha eu não uso. Eu tomo ecstasy que é menos perigoso”. Engano. O ecstasy é uma droga que pode provocar muitos danos, muitos prejuízos ao sistema nervoso.

 

Drauzio – Que dica você dá aos pais para desconfiarem de que o adolescente está usando drogas.

Maurício de Souza Lima – Os pais precisam conhecer o filho. O primeiro sintoma de que algo de errado está acontecendo é o prejuízo nas atividades cotidianas, as alterações na rotina de vida.  Se o pai percebe que o filho está apresentando baixo rendimento escolar, desinteressou-se pelas atividades esportivas que praticava diariamente, precisa investigar por quê. Sem dúvida nenhuma, a droga pode ser a responsável por essa mudança de comportamento.

Outro aspecto importante na relação pai-filho é os pais poderem expor suas preocupações para os filhos e demarcar os limites com honestidade. Quando o adolescente pergunta por que não pode chegar da balada mais tarde como o amigo, o pai deve falar com clareza: “Olhe, você deve chegar a tal hora, porque fico muito preocupado com a sua segurança”. É diferente do que acontecia no tempo do meu avô. Bastava um olhar para o filho saber como se portar. Não havia explicações, nem elas eram necessárias.

 

Site: www.medicohebiatra.com.br