Enxaqueca | Entrevista

A enxaqueca pode estar associada a diversas causas e seu diagnóstico nem sempre é fácil. Saiba mais sobre as características desse problema na entrevista abaixo.

Dr. Mario Fernando Prieto Peres, médico neurologista, faz parte do corpo clínico do Hospital Albert Einstein e é professor de Neurologia na Faculdade de Medicina do ABC de São Paulo. Dra. Márcia Liu, médica oftalmologista, participa da entrevista como paciente portadora de enxaqueca. postou em Entrevistas

homem no trabalho, com mão na têmpora em sinal de enxaqueca

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Publicado em: 25 de junho de 2012

Revisado em: 11 de agosto de 2020

A enxaqueca pode estar associada a diversas causas e seu diagnóstico nem sempre é fácil. Saiba mais sobre as características desse problema na entrevista abaixo.

 

Dor de cabeça, ou cefaleia, é um sintoma frequente, de intensidade variável, associada a causas diversas e nem sempre de fácil diagnóstico.  Quando não está correlacionada com uma doença, como sinusite, fibromialgia, gripes e resfriados, aneurismas, ou mesmo com a tensão pré-menstrual, é denominada cefaleia primária e classificada em três tipos diferentes: cefaleia tensional, cefaleia em salvas e enxaqueca.

Na cefaleia tensional, a dor é de intensidade leve ou moderada e não impede que a pessoa exerça suas atividades rotineiras. Na cefaleia em salvas, ela é pulsátil, muito forte, e manifesta-se em crises, de uma a oito por dia.

 

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Já a da enxaqueca costuma ser unilateral, latejante, de intensidade de média a forte, e piora com a movimentação. Provocada por um distúrbio neurovascular crônico, é uma dor incapacitante que obriga o paciente a recolher-se num quarto escuro em virtude da hiper-sensibilidade à luz e aos ruídos.

A medicina moderna tenta determinar as causas da enxaqueca. Já se sabe que a associação de tratamentos medicamentosos e não medicamentosos pode ser bastante eficaz para o controle das crises.

 

CARACTERÍSTICAS DA ENXAQUECA

 

Drauzio – O que difere a enxaqueca das dores de cabeça mais comuns?

Mario Peres – Cefaleia é um termo médico que significa dor de cabeça. Enxaqueca, um dos tipos de cefaleia, é uma doença neurológica, com base biológica, multifatorial, de predisposição genética. Nos quadros graves, é importante definir as causas principais, os fatores desencadeantes e o tipo de predisposição genética.

 

Drauzio – Márcia, dr. Mário disse que enxaqueca é uma doença crônica. Há quanto tempo você sofre de enxaqueca?

Márcia Liu – Há muitos anos. Para ter uma ideia, tenho 49 anos e tive a primeira crise aos 7 anos. De lá para cá, elas se repetiram praticamente todos os meses.

 

Drauzio – Você poderia descrever  sua primeira crise?

Márcia Liu – Gravei bem como foi, porque era a festa de 15 anos do meu irmão mais velho. Tudo começou com um distúrbio visual. A visão ficou turva, embaçada. Esse foi um sintoma transitório seguido, imediatamente após, pela dor de cabeça.

 

Drauzio – Que características tinha essa dor?

Márcia Liu – É uma dor latejante localizada bem atrás do olho. É também uma dor progressiva, que vai ficando cada vez mais forte, muitas vezes acompanhada de náuseas e vômitos.

 

Drauzio – Vomitar alivia a dor de cabeça? 

Márcia Liu – Só depois do vômito, a dor de cabeça começa a diminuir de intensidade.

 

Drauzio – Quanto tempo leva entre enxergar embaçado e a dor aparecer?
Márcia Liu
 – Em geral, de 20 minutos a meia hora.

 

Drauzio – A crise de dor de cabeça forte dura quanto tempo?

Márcia Liu – Dura horas, muitas vezes, de duas a três horas. Nesse período, o jeito é ficar num quarto escuro, porque a luz incomoda demais e você não tolera sons fortes.

 

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DOENÇA MULTIFATORIAL

 

Drauzio – Márcia falou em dor latejante atrás do olho, portanto uma dor unilateral, acompanhada de náuseas, fotofobia a intolerância a ruídos mais altos. A enxaqueca pode provocar outros sintomas?  

Mário Peres – A descrição da Márcia é muito boa. Ela mencionou primeiro o que chamamos de aura, um sintoma visual que precede ou pode acompanhar a enxaqueca, com duração média de 20, 30 minutos. Sua principal característica é o embaçamento da visão, mas podem também aparecer pontos luminosos ou pontos escuros, manchas ou linhas em zigue-zague. A seguir, vem a fase da dor, normalmente pulsátil, mais de um lado da cabeça, embora possa manifestar-se dos dois lados, no mínimo de moderada intensidade, uma dor que incomoda de fato.

Outros sintomas, como o enjoo forte, o incômodo com luz e barulho e a irritabilidade são provocados pela hiper-excitabilidade cortical. Ou seja, as células do córtex cerebral  ficam hiper-excitadas, disparam. Por isso, a luz, o barulho, os cheiros incomodam e a pessoa fica irritada, de pavio curto.

Sempre é bom lembrar que o córtex cerebral, ou massa cinzenta, é a camada superficial dos dois hemisférios cerebrais, constituída por células nervosas que comandam os movimentos ou recebem as informações dos sentidos.

 

Drauzio – Por que o vômito ajuda a aliviar a dor?

Mário Peres  – Por causa do envolvimento de núcleos no tronco cerebral, uma região do cérebro constituída por uma série de estruturas responsáveis pela manutenção da vida. Esses núcleos celulares que mantêm o pulso, a pressão arterial e a respiração, assim como controlam o vômito, são acionados durante a crise de enxaqueca.
No quadro clássico da doença, esse sistema fica acometido; entretanto, há pessoas que não apresentam náuseas e vômitos associados às crises.

É bom lembrar também que a cafeína não está só no café, mas no chocolate, na coca-cola, no chá preto. Admite-se que 200 mg de cafeína, ou seja, o equivalente a três cafés expressos ou a quatro latinhas de coca-cola, seja o bastante para provocar uma crise de enxaqueca.

Drauzio – A aura também está sempre presente?

Mário Peres – A aura está presente em 15% a 25% dos casos. Admite-se que o fenômeno de hiper-excitabilidade cortical possa ocorrer sem o distúrbio visual. Entretanto, pessoas que têm enxaqueca com aura correm risco de três a quatro vezes maior para doenças cerebrovasculares, isto é, para isquemias e derrames cerebrais. Só para dar um exemplo, o risco de isquemia e derrame cerebral aumenta 18 vezes na jovem com enxaqueca com aura que fuma e toma pílula anticoncepcional.

 

Drauzio – Gostaria de que você repetisse essa informação.

Mário Peres – Enxaqueca, cigarro e anticoncepcional juntos aumentam 18 vezes o risco de acidentes vasculares cerebrais.

 

Drauzio – Mulheres com enxaqueca, portanto, não devem tomar pílula anticoncepcional?

Mário Peres – O fato de ter enxaqueca não impede que a mulher tome pílulas anticoncepcionais. Como há relatos de mulheres que melhoram da enxaqueca com o uso da pílula e relatos de mulheres que pioram, ela não é proibida nem indicada para o tratamento da enxaqueca.

Portanto, a pílula em si, isoladamente, não é um fator de risco. O problema aparece quando se somam os três fatores: enxaqueca, tabagismo e pílula.

 

Drauzio – Existem outras condições especificamente relacionadas com a enxaqueca com aura?

Mário Peres – Os distúrbios de ansiedade e os transtornos de humor, como depressão, irritabilidade, mente acelerada, estão mais associados à enxaqueca com aura. Além disso, pesquisas recentes indicam a presença do forame oval patente em 40%, 50% das pessoas com enxaqueca (entende-se por forame oval patente uma comunicação entre as câmaras cardíacas que permite a passagem do sangue de um átrio para o outro). Muitos pacientes que tiveram acidente vascular cerebral aparentemente sem causa determinada possuem essa ligação interatrial, também encontrada nos portadores da enxaqueca com aura. Como esse é um dado novo, há estudos em andamento procurando verificar se o fechamento desse orifício melhora o quadro de enxaqueca. Na verdade, ainda estamos querendo entender o que essa comunicação tem a ver com a enxaqueca com aura, uma vez que diversos fatores podem influir na prevalência dessa enfermidade.

 

VOZ DO PACIENTE

 

Drauzio – Márcia, dr. Mário falou que a enxaqueca é uma doença multifatorial.  Na longa convivência com o problema, você conseguiu identificar o que provoca a crise em você?

Márcia Liu – O estado emocional interfere bastante. Estado emocional aliado a alimento mais ácido, odor mais forte, perfume, tudo é motivo para desencadear o quadro. Por isso, quando estou elétrica, ligada na tomada, nesse momento, preciso ficar alerta, porque pode advir uma reação em cadeia.

 

Drauzio – O que quer dizer “estar ligada na tomada”?

Márcia Liu – Quer dizer que quando a pessoa está muito excitada, trabalhando muito, desenvolvendo inúmeras atividades simultaneamente, com nível alto de excitabilidade, tem de tomar cuidado, porque o estado emocional interfere no desencadear da crise.

São três os fatores que ajudam a disparar as crises: jejum prolongado, bebida alcoólica e consumo excessivo de café.

Drauzio – Que cuidados você toma?

Márcia Liu – São anos de convivência com a doença. Aos poucos, fui me autoconhecendo e me disciplinando. Outro dia, por exemplo, estive no consultório do dr. Mário. Assim que entrei, disse: “Hoje, preciso tomar cuidado, porque estou com o nível lá em cima”.

 

Drauzio  Você citou os alimentos muito ácidos ou condimentados. Você poderia citar alguns exemplos?

Márcia Liu – Abacaxi, suco de laranja, de maracujá, alimentos muito gordurosos, carne vermelha, vinho tinto. Às vezes, passei bem o dia inteiro, mas bastou determinado alimento cair em meu estômago para desencadear a crise.

 

Drauzio – Café, refrigerantes também estão incluídos nessa lista?

Márcia Liu – Também. É muita coisa. Há certos alimentos que não ponho na boca faz anos. A gente vai pegando implicância.  Para ter uma ideia, um dia comi um ovo e tive enxaqueca. Por isso, passei anos sem provar um ovo novamente. O mesmo aconteceu com a carne vermelha. Você rompe relações com o alimento.

 

FATORES DE RISCO

 

Drauzio – Essa relação entre certos alimentos e a crise de enxaqueca existe mesmo?

Mário Peres – Há mitos e verdades em relação a alimentos e enxaqueca. Entretanto, existem três fatores praticamente universais que disparam as crises. O primeiro e mais importante é ficar sem comer. O segundo é a ingestão de bebidas alcoólicas, de vinho tinto principalmente; o terceiro, o alto consumo de café.

É bom lembrar também que a cafeína não está só no café, mas no chocolate, na coca-cola, no chá preto. Admite-se que 200 mg de cafeína, ou seja, o equivalente a três cafés expressos ou a quatro latinhas de coca-cola, seja o bastante para provocar uma crise de enxaqueca.

 

Drauzio – E o café feito em casa feito com água quente e coador?

Mário Peres – O café coado tem um pouco menos de cafeína. Estima-se que quatro ou cinco cafezinhos contenham 200 mg de cafeína. Entretanto, um hábito comum nos escritórios e repartições é tomar vários cafezinhos ao longo do dia. A soma dessas pequenas doses gera propensão maior para dor de cabeça, irritabilidade, insônia, tremor nas mãos, ansiedade. Por isso, é importante vigiar o consumo de café.

Na verdade, a dor é sintoma e reflexo de uma doença. Dar um passo para trás a fim de determinar o que está acontecendo com aquela pessoa pode ajudar bastante no controle das crises. Só então, indica-se o tratamento preventivo, que pode ser medicamentoso ou não medicamentoso.

Drauzio – Existe ligação entre a ingestão de outros alimentos e a enxaqueca?

Mário Peres – Em relação aos alimentos de maneira geral, há muitos mitos. Um deles é a enxaqueca ser resultado do mau funcionamento do fígado, por causa de sintomas como enjoo e vômito que podem ocorrer durante a crise. “Foi alguma coisa que comi que me fez mal e disparou a crise de enxaqueca”, é uma ligação natural, a primeira que a pessoa faz.

Como a Márcia disse, a história dos pacientes é longa. Se considerarmos apenas um ano, são mais ou menos mil refeições para serem avaliadas, mas geralmente o indivíduo sabe quais alimentos lhe fazem mal e devem ser evitados.

É preciso, porém, ter cuidado para não desenvolver birra excessiva contra alguns deles. Não tem sentido restringir a alimentação a não ser que a pessoa reconheça a ligação existente entre a enxaqueca e determinado alimento.

 

Drauzio – Vamos repetir, então, os fatores que ajudam a disparar as crises de enxaqueca.

Mário Peres -São três os fatores que ajudam a disparar as crises: jejum prolongado, bebida alcoólica e consumo excessivo de café.

 

Drauzio – Chocolate pode ser considerado um fator de risco para a enxaqueca? 

Mário Peres – Nesse sentido, vale lembrar que além das duas fases citadas – aura e enxaqueca – existe a fase do pródomo, que precede a dor de cabeça. Mais ou menos 12 horas antes da crise, às vezes um dia antes, aparecem sintomas da enxaqueca sem dor, como irritabilidade, incômodo com a luz, bocejos e vontade de comer chocolate.

Por causa disso, o chocolate é considerado erroneamente como um fator desencadeante da enxaqueca. Claro que ele contém cafeína, mas estudos mostram que se for ingerido com moderação não é um fator de risco importante.

 

TRATAMENTO

 

Drauzio – Como agem os analgésicos na enxaqueca? 

Márcia Liu – A primeira vez que fiz tratamento para enxaqueca foi ao redor dos 13 anos e usei a medicação existente na época. Depois, apareceram outros medicamentos, mas cheguei à conclusão de que não funcionam. Você toma o remédio, que corta a crise; mas, passado o efeito, ela volta, e volta com tudo.

 

Drauzio – Você está se referindo aos analgésicos comuns?

Márcia Liu – Aos analgésicos comuns vendidos nas farmácias e aos específicos para enxaqueca. Os dois cortam a crise na fase em que está, mas ela volta depois, pior ainda, quando o efeito termina. Como no meu caso esses analgésicos não funcionam, sempre levei a crise até o fim.

 

Drauzio – Você não tomava aspirina nem paracetamol?
Márcia Liu – Não tomava. O que me levou a tentar mais um tratamento é que descobriram novas medicações para a enxaqueca.

 

Drauzio  Que medicações são essas? Como devem ser usadas?

Mário Peres – Há várias classes que podem ser usadas, mas antes de indicá-las é indispensável fazer o diagnóstico correto e o paciente entender por que a dor existe no organismo. Ela é um sinal de alerta do sistema de defesa com a função específica de readquirir o equilíbrio interno o organismo.

Na verdade, a dor é sintoma e reflexo de uma doença. Dar um passo para trás a fim de determinar o que está acontecendo com aquela pessoa pode ajudar bastante no controle das crises. Só então, indica-se o tratamento preventivo, que pode ser medicamentoso ou não medicamentoso. Em muitos casos, eles estão associados para evitar que a dor apareça.

Embora seja essa a conduta preconizada, quem tem enxaqueca precisa contar com um plano terapêutico eficaz para livrar-se da dor, se ela por acaso aparecer.

 

Veja também: Como funciona o tratamento preventivo da enxaqueca?

 

Drauzio É diferente a doença que provoca uma crise de enxaqueca por ano da que provoca uma crise a cada semana. Como é o tratamento preventivo indicado nesses casos? 

Mário Peres – O tratamento preventivo deve ser instituído quando há várias distúrbios associados: enxaqueca, depressão, ansiedade, problemas de sono. Enxaqueca com aura merece também cuidado especial.

No mundo todo, a frequência das crises é levada em consideração para indicar o tratamento. Quatro crises por mês é o limite máximo para introduzir as medidas preventivas. Embora esse número de corte seja importante, crises infrequentes, mas muito incapacitantes, merecem tratamento diário para evitar que a dor apareça.

 

Drauzio – Você faz esse tratamento, Márcia?

Mário Peres – Faço e estou muito bem, muito contente, porque tinha crises de enxaqueca todos os meses, há anos. A última durou quatro dias seguidos. Depois que iniciei o tratamento, faz dois meses, não tive nenhuma crise.

 

Drauzio – A medicação tem efeitos colaterais?

Márcia Liu – Nenhum. Não tive nenhum efeito colateral com a medicação.

 

Drauzio – O tratamento é sempre bem suportado? 

Mário Peres – O tratamento tem de ser estratificado conforme o tipo da doença e a frequência das crises. Pessoas com enxaquecas diárias precisam de tratamento mais agressivo. No entanto, é importante destacar que o tratamento não medicamentoso tem peso significativo no controle das crises.

 

Drauzio – Em que consiste o tratamento não medicamentoso?

Mário Peres – Infelizmente, apesar de existir pouca informação científica, algumas medidas mostram bons resultados no tratamento da enxaqueca. Exercício físico é fundamental, como é fundamental cuidar-se bem. Qualquer desvio comportamental (excessos alimentares ou de trabalho, sedentarismo) e do equilíbrio do organismo é ruim para a enxaqueca e deve ser corrigido.

O lado psíquico e emocional também é um fator que não pode ser desprezado. Se a pessoa exige muito de si própria, antecipa situações, antevê catástrofes, pode beneficiar-se recorrendo à psicoterapia e a técnicas como ioga e meditação que costumam funcionar bem. Caso haja envolvimento de um componente da musculatura cervical, a fisioterapia é um recurso com bons resultados e há evidências de que a acupuntura também tem ação positiva no tratamento da enxaqueca.

 

Drauzio – Como devem ser indicados os medicamentos? 

Mário Peres – Em relação aos remédios, é preciso selecionar a combinação mais favorável. Em algumas situações, dois ou três medicamentos têm de ser substituídos, mas isso não é problema porque o leque de opções é realmente grande. Nesse campo, estão sempre surgindo novidades. Por exemplo, a toxina botulínica é uma alternativa que vem sendo utilizada com resultados interessantes, apesar de existirem algumas dúvidas de como pode ser  aproveitada de modo mais eficiente.

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