Sob a luz das informações advindas desse congresso mundial, o médico infectologista Esper Kallás faz uma avaliação  sobre o desenvolvimento da infecção nos últimos 20 anos. Veja entrevista sobre combate ao HIV.

 

Nos últimos anos, e pela primeira vez desde o início da epidemia, na década de 1980, as notícias sobre aids ganharam tom mais otimista graças, principalmente, ao tratamento com antivirais que em muito melhorou as condições de vida dos infectados.

Passado o entusiasmo inicial diante do aumento da expectativa de vida dos soropositivos, as conclusões do Congresso Mundial de Aids realizado em Barcelona, em 2002, levam a crer que a medicina e a ciência estão no caminho certo para o controle da epidemia em médio prazo. Antes disso, porém, há fortes indicações de que o quadro epidêmico se agravará.

Atualmente, os índices de contaminação atingem a marca de 15 mil ao dia e devem continuar crescendo. Além disso, já morreram 20 milhões de pessoas em todo o mundo por causa dessa doença e estima-se que haja 40 milhões de infectados.

A situação africana é trágica. Em países como a África do Sul, por exemplo, a epidemia, que continua se alastrando, já provocou redução populacional. Por outro lado, a extrema pobreza do continente como um todo inviabiliza o tratamento com antivirais, uma vez que o custo médio por pessoa varia entre 10 e 15 mil dólares/ano.

A situação é grave também na Índia, na China e nas ex-repúblicas soviéticas, regiões com maiores índices de crescimento do número de casos.

Dados apresentados em Barcelona dão clara ideia das dificuldades a enfrentar.Em 2002, a previsão de gastos dos países pobres com a prevenção à aids era de 1,2 bilhão de dólares. O número considerado ideal pelas autoridades no assunto é 4,8 bilhões/ano, uma verdadeira utopia para a realidade econômica desses lugares.

Nesse quadro de poucos recursos, o Brasil é apontado como exemplo a ser seguido. A política de quebra de patentes de remédios e a fabricação de genéricos conseguiu não só baratear os medicamentos como oferecer tratamento gratuito com antivirais. Como resultado, desde de 1996, caiu em 50% o número de casos fatais e as previsões feitas, em 1990, sobre o avanço da doença não se concretizaram. O próprio Ministério da Saúde chegou a afirmar que, em 1992, haveria 1,2 milhão de soropositivos. Dados recentes, porém, apontam para a metade desse número: cerca de 600 mil contaminados no País.

Sob a luz das informações advindas desse congresso mundial, o médico infectologista Esper Kallás faz uma avaliação  sobre o desenvolvimento da infecção nos últimos 20 anos. Nesta entrevista, ele explica a origem da infecção pelo HIV no homem, afastando especulações fantasiosas a respeito do assunto. Trata também de conquistas importantes para o tratamento com antivirais e aponta as maiores dificuldades para o controle da epidemia: o crescimento vertiginoso dos casos de mulhers infectadas, a tendência mundial ao relaxamento do uso de preservativos e a necessidade de convencer os pacientes que tomam antivirais a não suspender o tratamento para evitar que surjam cepas do vírus mais resistentes e com maior poder de transmissão.

Data da entrevista: 22/10/2011

 

RECENTES CONQUISTAS PARA O TRATAMENTO DA AIDS

 

Drauzio – Na sua opinião, quais foram os avanços mais importantes no campo da aids, nos últimos anos?

Ésper Kallás – Entre 1995 e 1996, surgiram drogas mais potentes para o tratamento da aids. Nos últimos anos, esse foi o grande marco no conhecimento da infecção pelo vírus HIV e de suas consequências. Com elas, o controle da multiplicação do vírus nas pessoas infectadas tem melhorado bastante e ficou possível evitar a piora progressiva que ocorria no passado. A maioria dos que seguem corretamente o tratamento tem conseguido controlar a doença.

Outra conquista importante foi o avanço no conhecimento de como o vírus destrói a defesa do organismo, que permitiu ampliar algumas perspectivas para desenvolver, além dos remédios usados habitualmente, outros tipos de tratamento para fortalecer o sistema imunológico, reforçando a possibilidade de se criarem vacinas úteis na prevenção tanto do contágio quanto da evolução da doença.

 

Drauzio – Quanto tempo ainda será necessário para que surja a vacina?

Ésper Kallás  – É muito difícil prever o tempo necessário para a descoberta de uma vacina, mas acho que existem boas perspectivas no momento. Ao que me parece, as pesquisas estão andando mais depressa agora. Durante muitos anos, os estudos se voltaram para conhecer melhor o sistema imunológico e o vírus HIV. Vencido em grande parte esse desafio, os pesquisadores têm obtido resultados importantes.

 

Drauzio – Os antivirais, essas novas drogas popularmente conhecidas como “coquetel” possibilitam reduzir e até fazer desaparecer da circulação periférica as partículas virais. As pessoas infectadas, tomando remédios que suprimem a detecção do vírus, podem transmiti-lo por meio do contato sexual?

Ésper Kallás  – Já foi estabelecido que quanto maior a quantidade de vírus existente no sangue, maior sua quantidade nas secreções dos órgãos genitais, ou seja, no esperma ou na secreção vaginal. Era de se imaginar que essa correlação se repetisse quando o número de vírus no sangue caísse. De fato isso acontece. Está demonstrado que, quanto menos vírus houver no sangue, menos partículas virais serão encontradas nas secreções. Embora ainda não sejam definitivos, alguns estudos teóricos a respeito do assunto sugerem que tal redução repercute na diminuição da capacidade de uma pessoa transmitir o vírus. É possível que em breve cheguemos à conclusão de que o tratamento com antivirais ajuda a diminuir a transmissão do vírus.

No entanto, há um aspecto que deve ser considerado. Aparentemente, os vírus não desaparecem totalmente. Estudo recente demonstrou que, usando técnicas mais sofisticadas de análise, é possível detectar algumas partículas no esperma de indivíduos infectados pelo HIV e submetidos ao tratamento com remédios que tinham revelado a carga viral negativa no sangue, isto é, o vírus não era encontrado nos exames convencionais de laboratório, mas podia ser detectado através de técnicas mais sensíveis. Portanto, mesmo nesse caso, existe risco teórico de transmissão, embora provavelmente seja menor.

 

Drauzio – É sempre bom repetir que o fato de a carga viral não ser detectada, porque a pessoa está tomando antivirais, não significa que ela deixe de apresentar risco para os parceiros sexuais, pois o vírus ainda pode estar presente no esperma ou na secreção vaginal.

Ésper Kallás  – Exatamente. Ainda existe a possibilidade de transmissão, porque o vírus pode estar presente no esperma ou na secreção vaginal dos parceiros.

 

CONTROLE DA DOENÇA

 

Drauzio  – No Brasil, atualmente, há um programa de distribuição de medicamentos que é exemplar no mundo todo. Esse programa trouxe não só a melhora da qualidade de vida dos infectados que levam vida normal, livres de infecções oportunistas, como provavelmente está colaborando para diminuir a disseminação da doença, não é verdade?

Ésper Kallás  – É bem provável porque, reduzindo a quantidade de vírus nos órgãos genitais, a possibilidade de contágio também decresce. Os resultados iniciais apontam nessa direção. No entanto, é preciso ter cuidado porque faltam estudos definitivos que comprovem essa suposição.

 

Drauzio  – Por outro lado, é preciso estar de olhos bem abertos, porque isso só está acontecendo com a parcela dos infectados que toma antivirais. Esses sabem que estão infectados e podem ser tratados com antivirais porque o grau de evolução da doença assim o permite. Existe, porém, um enorme contingente que sequer sabe que está infectado.

Ésper Kallás  – Há ainda outro problema. Voltando ao grupo que sabe que tem o vírus e está em tratamento, alguns dados iniciais indicam que infelizmente menos da metade consegue manter a carga viral não detectável. Várias são as razões para que isso ocorra.

Algumas desses pacientes sabem que estão infectados há muito tempo e já se submeteram a diversos tipos de tratamento. Nesses casos, eventualmente, o vírus pode ter adquirido resistência e eles responderão pior ao tratamento. Existem, também, aqueles que não seguem o tratamento como deveriam. Muitos assumem a falsa segurança de que há um tratamento fácil e que basta tomar um comprimido para resolver o problema. Há ainda os que, sob o pretexto de estarem se sentindo bem, não voltam ao médico ou tomam o remédio de forma inadequada e há, ainda, os que voltam a beber ou a usar drogas em excesso e abandonam o tratamento.

Tudo isso acaba dificultando o controle da doença. Muito do esforço despendido hoje não se restringe ao desenvolvimento de novas drogas ou à criação de estratégias que demandem prescrever menor número de comprimidos diários. Tornou-se fundamental convencer o paciente de que o tratamento precisa ser seguido com seriedade. O uso inadequado das medicações ou sua suspensão, mesmo que por um tempo curto, duas ou três semanas, faz com que o vírus volte a ser detectado na circulação e aumente a capacidade de a pessoa transmitir a infecção. Talvez a aderência ao tratamento seja o próximo desafio a vencer no campo da aids.

 

Veja também: Profilaxia e exposição ao HIV

 

RELAXAMENTO DAS MEDIDAS PREVENTIVAS

 

Drauzio – Muita gente afirma, e às vezes os jornais publicam trabalhos, em geral elaborados no exterior, que houve certo relaxamento nas medidas preventivas e que hoje especialmente os mais jovens parece não estarem conscientes da necessidade de usar preservativos durante as relações sexuais. Você tem essa mesma impressão ou conhece algum trabalho no Brasil que aponte nessa direção?

Ésper Kallás  – É muito importante levantar esse assunto. As pessoas que tiveram mais contato com as informações sobre o HIV e a aids, na década de 1980 e na primeira metade da década de 1990, sob certos aspectos, viveram uma realidade bastante trágica. O tratamento era muito difícil, sua eficácia era pequena, muitos doentes morreram. Quem acompanhou o que se passava naquele momento demonstra maior preocupação com a transmissão e as consequências da doença. Os mais jovens, entretanto, relaxam nos cuidados, porque vivem uma fase em que o tratamento alcança resultados melhores, os sintomas desaparecem e não se desenvolvem as chamadas doenças oportunistas. Alguns estudos realizados na Califórnia, Estados Unidos, evidenciaram claramente essa situação. O risco de contrair o vírus aumentou especialmente entre os mais jovens por absoluto relaxamento com a prevenção. Não acredito que, nesse aspecto, haja muita diferença entre a realidade americana e a brasileira.

 

Drauzio – No começo dos anos 1990, numa cidade grande como São Paulo, não havia homossexual que não tivesse perdido um amigo, uma pessoa de suas relações ou um ex-companheiro por causa da aids. Aquelas imagens de seres cadavéricos que não paravam em pé e tinham de ser amparados por duas pessoas, eram muito fortes. Hoje, como ninguém mais fica nesse estado, pode-se ter a falsa impressão de que o problema da aids está resolvido e muitos homossexuais jovens estão entrando na vida sexual sem proteção nenhuma.

Ésper Kallás  – Eu estenderia essa observação para os heterossexuais também. Se observarmos o que está acontecendo com a epidemia no Brasil, ano após ano, a frequência de casos de aids notificados pelo Ministério da Saúde aumenta no grupo de heterossexuais e diminui no grupo de homens homossexuais. Então, a infecção alastrou-se, no Brasil, entre os heterossexuais com uma característica marcante. No começo, havia 30 homens infectados para cada mulher; hoje existem dois homens para uma mulher e a proporção tende a diminuir mais ainda. A comparação que você estabeleceu com os homossexuais do início da epidemia e os de agora também é pertinente para os heterossexuais, ou porque não têm acesso à informação adequada ou porque consideram as recomendações radicais e alarmistas.

 

RESISTÊNCIA AO USO DE PRESERVATIVOS

 

Drauzio – Ainda hoje, muitos homens acham que usar preservativo é bobagem, pois não conhecem ninguém que tenha pegado vírus de mulher. Como você interpreta essa conclusão?

Ésper Kallás  – Essa conclusão é fruto de quem não conhece a realidade. A experiência mostra claramente que o contágio pode acontecer até numa única relação convencional. Um homem sai numa noite, conhece uma mulher, mantém uma relação com penetração só vaginal (não precisa haver sexo anal) e fica infectado pelo vírus HIV. Relatos de pessoas assim contaminadas e todos os números de análise da epidemia comprovam esse fato. A transmissão pode acontecer tanto do homem para a mulher, o que é mais fácil de entender porque a mulher é mais receptiva, quanto da mulher para o homem. Se não houver uma barreira, no caso, a camisinha masculina ou feminina, pode ocorrer a transmissão do vírus numa única relação, não fazendo diferença se do homem para a mulher ou da mulher para o homem. Isso acontece com a aids e com qualquer outra doença sexualmente transmissível.

 

Drauzio – No Carandiru, não existe a reprovação social que obriga os de fora da cadeia a mentir sobre o consumo de drogas. Os presos não negam que usam drogas. Quando lhes perguntamos se injetaram droga nas veias e eles respondem que não, podemos acreditar no que falam. Como prova, exibem veias perfeitas, sem o menor sinal de picadas. Se dizem que não são homossexuais, podemos acreditar. Na cadeia, não há como esconder isso. Se alguém for homossexual, todo mundo sabe. O interessante é que muitos desses presos heterossexuais e não usuários de drogas injetáveis estão infectados com o vírus da aids que apanharam de mulheres.

Ésper Kallás – Essa experiência se repete na clínica. Às vezes, atendemos homens com diagnóstico recente que contam a mesma história: só mantiveram relações com pessoas do sexo oposto. Num ou noutro caso, pode-se até suspeitar de que alguns fatos da história individual estejam sendo omitidos, mas, quando o número de relatos idênticos assume proporção considerável, é sinal de que o vírus foi mesmo transmitido por mulheres.

 

CRESCIMENTO DO NÚMERO DE MULHERES INFECTADAS

 

Drauzio   Proporcionalmente, as mulheres continuam a infectar-se mais do que os homens?

Ésper Kallás  – É muito grande o número de mulheres infectadas pelo HIV. Acho que elas constituem a população mais indefesa, especialmente as mulheres monogâmicas, fiéis ao marido que opta por relacionamentos extraconjugais sem tomar a devida precaução e traz o vírus para dentro de casa. Esses casos são os mais difíceis de ser abordados. Como dizer a uma mulher que deve usar camisinha nas relações com o homem com o qual está casada há 20 anos? Como alertá-la, já que não faz a menor ideia do que possa estar acontecendo? Em se tratando da disseminação do vírus e da epidemia de aids, essa talvez seja a situação mais delicada que enfrentamos.

 

Drauzio  O impressionante é que ocorre exatamente o oposto do que se imagina. Quando aparece uma mulher infectada, a tendência das pessoas é supor que ela deve ter aprontado muito para chegar a esse ponto. Nós, que estamos do outro lado, sabemos que a verdade é bem diferente. Como regra, as mulheres infectadas são monogâmicas, confiam no companheiro, seja ele marido, namorado ou noivo, e jamais ousaram pensar que ele lhes pudesse transmitir o vírus. Uma corrente de epidemiologistas do Ministério da Saúde defende que se deve aconselhar as mulheres a usarem camisinha até dentro do casamento. Como você vê isso?

Ésper Kallás  – Acho uma tentativa válida, porém pouco factível. No dia a dia, é complicado para a mulher aproximar-se do marido com o qual está casada há muito tempo e pedir-lhe que, daquele momento em diante, use camisinha. Sem dúvida, ele vai querer saber o porquê daquele pedido e haverá conflitos. É evidente que, por via das dúvidas, o ideal seria todo mundo usar camisinha qualquer que fosse o relacionamento. As campanhas procuram salientar esse tipo de conduta, mas é difícil avaliar os resultados obtidos.

Por isso, por mais que se tente, vai ser difícil controlar o alastramento da epidemia, enquanto não existir uma vacina que interrompa a cadeia de transmissão.

 

Drauzio – Gostaria de fazer uma pergunta a respeito dessa transformação da epidemia. No início, a aids era uma doença masculina, de homossexuais. Progressivamente, espalhou-se entre as mulheres de tal forma que hoje, em cada três casos, dois são de homens e um é de mulher. Na África, a epidemia em grande escala começou mais ou menos na mesma época que no Brasil, no início dos anos 1980. Na verdade, a contaminação começou um pouco antes naquele continente porque é provável que tenha sido lá que se originou a doença. Por que os africanos chegaram antes a um índice superior de mulheres infectadas, 1,1 ou 1,2 mulheres para cada homem?

Ésper Kallás – Acredito que uma série de fatores contribuiu para que o número das mulheres infectadas tenha se equiparado ao dos homens. Alguns estudos realizados recentemente estimam que a epidemia africana começou por volta da década de 1930. Por meio de mapeamento genético do vírus, foram obtidos modelos matemáticos que permitem concluir que, nessa época, ele foi transmitido para os humanos especialmente na região abaixo do Saara, no centro-africano. Com certeza, esse é um dado importante para explicar o amadurecimento da epidemia nessa região. Outro fator a considerar é que a epidemia foi levada com grande força para a Europa, Estados Unidos e Brasil pelo uso de drogas injetáveis e pelo contato homossexual. Essa circunstância peculiar inicial favoreceu o alastramento muito rápido entre os homens.

Existe um estudo interessante a respeito do aparecimento do vírus da aids. O HIV originou-se nos chimpanzés e foi transmitido por zoonose aos seres humanos. Na África, com o passar do tempo, esse vírus adquiriu a capacidade de produzir uma doença mais agressiva e de ser transmitido mais facilmente.

 

A ORIGEM DA AIDS: FANTASIAS E REALIDADE

Drauzio – A epidemia da aids começou mesmo na África?

Ésper Kallás Estudo realizado nos Estados Unidos baseou-se na análise das características genéticas do vírus HIV isolado em várias regiões do mundo para traçar o local onde a epidemia teria surgido. Essas sequências genéticas foram colocadas num grande computador que, utilizando programas matemáticos complexos, mapeou a evolução do vírus, estabelecendo as modificações adquiridas e sua adaptação às diversas regiões em que foi identificado no planeta.

Esse e outros estudos sugerem que a epidemia tenha surgido de fato no centro da África, numa região abaixo do deserto do Saara onde o vírus, antes encontrado somente em chimpanzés, foi transmitido para os humanos através de contato ocasional entre esses animais e os homens.

 

Drauzio   Existem teorias fantasiosas de que o homem teria adquirido o vírus através do contato sexual com chimpanzés. O que realmente aconteceu?

Ésper Kallás  – Esse estudo americano foi muito cuidadoso e investigou os costumes do povo que habitava a região da África na qual o vírus teria surgido. Os pesquisadores observaram que, em alguns lugares, as pessoas viviam em tribos afastadas da civilização e tinham o hábito de caçar chimpanzés. Muitas vezes, esses animais eram mortos e esquartejados no local onde eram abatidos. Há fotos de pessoas manipulando os macacos mortos, cobertas de sangue até os ombros. Elas mexiam nas vísceras, cortavam a carne em pedaços e os levavam para serem comercializados nos mercados onde outras pessoas podiam entrar contato com o sangue do bicho. Por outro lado, é fácil imaginar que esses caçadores, andando dentro da mata ou lidando com o animal, podiam machucar-se, ferir-se e serem infectados pelo vírus dos chimpanzés. Desse primeiro contágio até a epidemia avassaladora que se espalhou pela África provavelmente decorreram décadas. e estima-se que mais de 15 milhões de africanos já morreram infectados pelo HIV. É uma grande tragédia.

Em relação à disseminação do vírus entre os chimpanzés, é importante ressaltar dois pontos. Primeiro, é que a infecção pelo HIV não provoca doença no animal. Segundo, não existe um estudo para demonstrar quantos chimpanzés estariam infectados por esse tipo de vírus. Pode ser que essa infecção fosse muito comum entre eles. Há um estudo a respeito do assunto em andamento. Os dados preliminares, apresentados em fevereiro de 2002, indicam a dificuldade de obter essas amostras, porque os chimpanzés estão soltos na natureza e há a preocupação em não interferir no ecossistema desses animais. Por isso, foram desenvolvidos métodos para vencer esses obstáculos. Os pesquisadores coletam fezes e urina dos animais e aplicam o teste para verificar a presença do vírus. O problema, todavia, é que com o avanço da urbanização na região diminuiu muito a população de chimpanzés que hoje vive confinada em pequenos nichos, em pequenas comunidades preocupadas em preservá-los. Consequentemente, a população atual é muito menor do que era há 30 ou 40 anos.

 

Drauzio  – Atualmente não se discute mais que essa foi a origem do vírus HIV?

Ésper Kallás  – Não se discute mais que essa foi a origem do vírus, porque estudos muito convincentes estão se acumulando para provar essa teoria. Só para se ter uma ideia, tempos atrás, ouvia-se que o vírus da aids era obra de uma mente maquiavélica num laboratório de terrorismo. Essa hipótese foi descartada por estudos moleculares. Outra suposição descartada por estudos epidemiológicos foi que o vírus teria sido transmitido pela vacina da poliomelite que era produzida em células extraídas de rins de macacos. Se as células utilizadas tivessem o HIV, seriam produzidas milhões de vacinas contaminadas que espalhariam a doença. Se essa hipótese fosse verdadeira, a epidemia teria características completamente diversas das que apresentou. A começar, as crianças teriam sido as primeiras pessoas a serem infectadas.

 

Drauzio – Há uma série de trabalhos bem fundamentados que deixam claro que isso não aconteceu de maneira nenhuma. O impressionante é que ainda se ouve falar nessas teorias que foram completamente abandonadas, superadas, não é?

Ésper Kallás  – Basta acompanhar o que tem sido apresentado nos congressos para constatar que essas ideias a respeito da transmissão do vírus pela vacina da poliomelite são obsoletas e sem fundamentação. E os congressos, hoje, podem ser acompanhados pela internet. Os interessados podem acessar as aulas dos cientistas, os resultados das pesquisas e as publicações sem sair de onde estão.

 

VÍRUS EM CONSTANTE MUTAÇÃO

 

Drauzio – O vírus da aids sofre mutações genéticas com facilidade. Talvez, das viroses que provocam infecção humana, seja a mais mutante de que se tem notícia. Que diferenças genéticas apresenta o vírus que caminhou na África, passou pela Europa e América do Norte e chegou até nós?

Ésper Kallás  – Quanto mais o tempo passa, mais aumentam as diferenças. Investigando o vírus no centro-africano, berço da epidemia de aids, observa-se que ele apresenta enorme diversidade genética resultante das modificações que vem sofrendo há mais tempo, já que foi ali que apareceu primeiro. Nos Estados Unidos, América do Norte, leste da Ásia e Brasil, a epidemia é mais recente e surgiu mais ou menos na mesma época. Como consequência, os vírus são muito parecidos entre si.

Atualmente, segundo convenções genéticas e científicas, esses vírus são classificados por letras. Nos Estados Unidos, predomina o tipo B; no Brasil, também há mais o do tipo B, mas os tipos F e C começam a proliferar no nosso país. Na África, encontram-se todos os tipos que se conhece. No leste asiático predomina o tipo A, ou melhor, um híbrido de A com E. Só para chamar a atenção, devemos diferenciar essa classificação de um segundo tipo de vírus que é o HIV II, transmitido ao ser humano por outra espécie de macaco. É uma doença de evolução mais lenta do que a do HIV I e a epidemia está restrita à África.

 

CONDIÇÕES PARA A TRANSMISSÃO DO HIV

 

Drauzio  Um estudo realizado com as prostitutas do Senegal, identificou um subgrupo de mulheres altamente expostas à infecção que não contraíram a doença. Como se explica isso?

Ésper Kallás  – Nesse estudo, foram pesquisados os locais onde há grande disseminação do vírus, por exemplo, o centro africano. A epidemia ali é avassaladora. Para dar uma ideia, de 1995 até 2000, a expectativa de vida da população caiu doze anos. Existem algumas regiões em que mais da metade da população adulta tem o vírus. É uma tragédia epidemiológica. As pessoas não têm acesso ao tratamento e os cuidados com a saúde são precários.

Na sequência dos trabalhos, constatou-se que havia alguns grupos nos quais a incidência da infecção era ainda maior. As prostitutas, por exemplo, em determinados lugares, tinham uma atividade sexual tão intensa que seria impossível imaginar que não pegassem o vírus. Na verdade, a esmagadora maioria dessas mulheres estava infectada pelo HIV, mas um pequeno porcentual delas não tinha sido contaminado. Seria sorte, já que vinham praticando sexo sem proteção com múltiplos parceiros, todos os dias e durante muitos anos? Não, essas mulheres têm alguma coisa especial. O que é não se sabe.

Fato semelhante pode ser observado em certos casais em que um dos membros é soropositivo sem que o outro saiba. Durante muitos anos, eles mantém relações sexuais sem a precaução necessária e o vírus não é transmitido para parceiro saudável. Alguma coisa deve explicar isso. Talvez seja a constituição genética ou o desenvolvimento de uma resposta imunológica mais eficaz ou, ainda, um vírus menos agressivo e por isso incapaz de transmitir-se facilmente.

Quem encontrar a resposta para esses enigmas estará contribuindo para que se descubram uma vacina contra o HIV e a cura da Aids.

 

Drauzio  Você falou de pessoas casadas com parceiros infectados que, após muitos anos de relacionamento sexual, não foram contaminadas. Para mim, elas desenvolveram algum tipo especial de resistência, porque sem dúvida entraram em contato com o vírus. Agora, vamos pegar o oposto, aquelas que se infectam logo no início de um relacionamento sexual com um portador do HIV. Quais as pessoas que além de constituição genética desfavorável apresentam condições clínicas que favorecem a infecção?

Ésper Kallás  Há algumas variações genéticas, denominadas mutações, que facilitam a multiplicação do vírus e sua ação deletéria mais rápida. Em certas pessoas mais protegidas, o vírus encontra maior dificuldade para penetrar na célula. Noutras, esse obstáculo desaparece. Alguns vírus apresentam maior facilidade de serem transmitidos. São mais agressivos. Quem entra em contato com eles, sai em desvantagem.

Por outro lado, num relacionamento sexual, contam muito as condições em se encontra a superfície dos órgãos genitais. Se a mucosa dos parceiros estiver saudável, a transmissão do vírus será mais difícil quando comparada com outra que tenha uma ferida. Várias doenças sexualmente transmissíveis, como herpes, cancro mole ou sífilis, produzem feridas na superfície dos órgãos genitais que aumentam a probabilidade de transmissão do HIV.

Outro fator importante na transmissão do vírus é o sexo anal. Primeiro, porque o ânus e o reto não foram concebidos para o relacionamento sexual, uma vez que sua superfície é muito fina e frágil, o que favorece o aparecimento de lesões e a transmissão do vírus. Além disso, é preciso considerar as condições imunológicas do indivíduo. Se está enfraquecido, não se cuida direito ou tem um problema qualquer de saúde, o risco de infectar-se aumenta e a evolução da doença será mais rápida.

 

Drauzio  E a circuncisão, como funciona?

 

Ésper Kallás  Vários estudos demonstraram que homens circuncidados estão mais protegidos contra o vírus HIV. Alguns deles realizados na África chegaram à conclusão de que a circuncisão é tão benéfica que, em determinados locais, pensou-se em adotá-la como medida de saúde pública para evitar a transmissão do vírus da aids. É bem possível, ainda, que ela ajude a reduzir a incidência de outras doenças sexualmente transmissíveis e do câncer de pênis.

Não sou epidemiologista, mas sou levado a crer que a circuncisão deva exercer um impacto nada desprezível na transmissão da doença.

 

PANORAMA DA AIDS NO BRASIL E NO MUNDO

 

Drauzio – No começo da epidemia, dizia-se que nós, no Brasil, poderíamos chegar à situação da África. Você acha que ainda corremos esse risco?

Ésper Kallás  Acho essa afirmação exagerada. Na África, a epidemia adquiriu proporções inacreditáveis por causa das condições desfavoráveis de prevenção e tratamento. No Brasil, o combate à epidemia está sendo muito mais agressivo do que em qualquer outro país em desenvolvimento. Não se pode desconsiderar o empenho do Ministério da Saúde e das organizações não governamentais não só para evitar o alastramento da epidemia, como para tratar os infectados. Portanto, nossa situação é muito diferente da que se verifica em alguns países africanos. Não que ela deixe de ser preocupante. Nada justifica que se baixe a guarda nem que seja por instantes.

 

Drauzio  – O problema com a epidemia da aids é que os sintomas só aparecem muitos anos depois de a pessoa ter-se infectado. Por isso, quando se olha o número de casos atuais, estamos constatando como era a epidemia há 8-10 anos. Dessa forma, a programação de medidas preventivas e de tratamento têm de obedecer a uma projeção nem sempre fácil de calcular, não é verdade?

Ésper Kallás – É muito difícil trabalhar com esses dados. Sempre estamos atrasados. Quando o Ministério da Saúde divulga que a epidemia está se tornando mais juvenil, refere-se a pessoas que foram infectadas há anos. Para corrigir essa distorção, estão sendo realizados levantamentos não apenas das pessoas em que a doença já se manifestou, mas também daquelas que são só portadoras do vírus. Para tanto, o Ministério da Saúde realiza estudos sentinelas, por exemplo, em clínicas de doenças sexualmente transmissíveis ou de pré-natal e testa todo mundo, traçando uma estimativa da infecção entre as pessoas que ainda não estão doentes. Localizá-las ajuda a fazer um retrato de como o vírus está se alastrando no país.

 

Drauzio – Em 1988, na Conferência Internacional de Aids, na Suécia, falava-se que a aids estava batendo às portas da Ásia. Hoje a aids é um caso de calamidade pública em certos países asiáticos, como a Índia, por exemplo.

Ésper Kallás – O tempo mostrou que ela não só bateu, mas chutou a porta e entrou correndo. Apesar de a África ter o maior contingente de infectados, na Ásia o crescimento da epidemia é muito mais rápido. Países como a Tailândia, a Índia e até mesmo a China estão sofrendo um processo de contaminação pelo HIV que em alguns anos pode transformar-se numa enorme tragédia. Aparentemente, o problema é mais grave na Índia, mas não se conhece bem a evolução da epidemia na China, onde a doença se espalha com grande velocidade.

 

Drauzio – As autoridades sanitárias da Organização Mundial de Saúde dizem que o problema mais grave é na Índia, porque lá parece que ninguém se preocupa com ele.

Ésper Kallás  Infelizmente é verdade. Um pouco de esperança vem do Congresso Internacional de Aids que se realizará na Espanha, neste ano de 2002. Depois dos Estados Unidos, o país que mais submeteu trabalhos para a apresentação foi a Índia e, em terceiro lugar, o Brasil. Tomara isso signifique que a preocupação e os investimentos em pesquisa estejam aumentando para tentar controlar os problemas.