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Testosterona baixa: quando é sinal de problema de saúde?

Apesar de sintomas como cansaço, queda da libido e perda de massa muscular alimentarem a procura de testosterona por conta própria, novo posicionamento de três sociedades médicas estabelece como identificar quando existe uma deficiência hormonal

Apesar de sintomas como cansaço, queda da libido e perda de massa muscular alimentarem a procura de testosterona por conta própria, novo posicionamento de três sociedades médicas estabelece como identificar quando existe uma deficiência hormonal

Cansaço, redução da libido, perda de força e dificuldade de ereção são sintomas que podem levar um homem a suspeitar de testosterona baixa, mas eles, isoladamente, não significam que exista uma deficiência do hormônio, muito menos que seja necessário fazer reposição. 

Para organizar o diagnóstico e o tratamento dessa condição, endocrinologistas, urologistas e especialistas em medicina sexual brasileiros elaboraram, pela primeira vez, um posicionamento conjunto sobre o hipogonadismo masculino, reunindo recomendações da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e da Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual (Abemss). O documento foi publicado em 2026 no International Brazilian Journal of Urology e propõe critérios comuns para diagnóstico, tratamento e acompanhamento.

Alexandre Hohl, professor de endocrinologia e metabologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ex-presidente da SBEM e atual presidente da Abemss, explica que o hipogonadismo não pertence a uma única área da medicina, já que envolve avaliação hormonal e metabólica e também provoca repercussões sobre função sexual, fertilidade, saúde urológica, composição corporal e ossos. 

Já Gustavo Marquesine Paul, coordenador do Departamento de Andrologia, Reprodução e Medicina Sexual da SBU, resume os dois cenários que preocupam os especialistas: de um lado, homens com hipogonadismo verdadeiro sem diagnóstico nem tratamento adequado; do outro, homens que já recebem testosterona sem preencher os critérios clínicos para a reposição. O objetivo do documento é justamente separar essas duas situações.

Testosterona baixa sozinha não é sinônimo de problema de saúde

O hipogonadismo é uma condição em que existem sinais e sintomas compatíveis com deficiência de testosterona associados à confirmação laboratorial dessa alteração. Um resultado baixo de testosterona, isoladamente, não confirma o problema. 

“O diagnóstico de hipogonadismo não deve ser feito apenas com uma testosterona baixa em um exame. Precisamos juntar clínica e laboratório que estejam persistentemente alterados”, explica Marquesine Paul. 

Por isso, a testosterona total deve ser dosada pela manhã, e um resultado baixo deve ser confirmado em uma nova coleta, em condições semelhantes. O posicionamento recomenda que as amostras sejam coletadas entre 7 e 10 horas, em jejum, e que não sejam feitas durante doenças agudas ou piora de condições crônicas.

A obesidade merece atenção especial: em alguns homens, o excesso de peso está associado a uma redução da testosterona que pode ser, ao menos em parte, funcional. Nesses casos, tratar a obesidade e perder peso podem contribuir para a recuperação dos níveis hormonais, dependendo da causa.

Reposição hormonal e uso de testosterona não são a mesma coisa

A reposição de testosterona, explica Hohl, tem como objetivo corrigir uma deficiência comprovada e levar os níveis do hormônio a uma faixa fisiológica. É diferente de administrar testosterona a um homem que já a produz adequadamente, buscando ganho de massa muscular, melhora do desempenho esportivo ou uma suposta ação de rejuvenescimento. E o posicionamento conjunto das sociedades médicas reforça essa distinção.

A resolução CFM nº 2.333/2023 veda a prescrição médica de esteroides androgênicos e anabolizantes com finalidade estética, para ganho de massa muscular ou para melhora do desempenho esportivo. A norma não impede a indicação dessas substâncias para o tratamento de doenças ou condições clínicas quando houver justificativa médica.

Mesmo quando há indicação correta, a reposição não produz todos os efeitos de uma vez. Segundo Hohl, a libido costuma melhorar já nas primeiras semanas; mudanças de ereção, energia e humor levam alguns meses; e alterações na composição corporal tendem a aparecer mais lentamente, a partir de cerca de 12 a 16 semanas. Ainda de acordo com o endocrinologista, o objetivo do tratamento é corrigir uma deficiência hormonal, não fazer o organismo voltar às condições dos 20 ou 30 anos de idade.

Também é comum confundir testosterona baixa com disfunção erétil. Marquesine Paul diz que simplesmente aumentar a testosterona não resolve necessariamente a disfunção erétil, e em alguns casos a dificuldade de ereção pode ser um sinal de alterações vasculares ou metabólicas que precisam ser investigadas.

Veja também: Quais os riscos do uso recreativo de medicamentos para disfunção erétil?

Usar por conta própria pode trazer mais riscos do que soluções

A testosterona aplicada reduz a produção natural do hormônio e pode comprometer a formação de espermatozoides. 

“Por isso, a testosterona não deve ser utilizada como tratamento no hipogonadismo em um homem que deseja fertilidade no curto prazo”, afirma Marquesine Paul.

Ele também alerta para o efeito contrário ao esperado quando alguém tenta se automedicar: a testosterona e os esteroides anabolizantes usados em doses elevadas suprimem a produção natural do hormônio e podem provocar redução do volume dos testículos e comprometimento importante da fertilidade. 

Depois que o uso é interrompido, a resposta do organismo varia de pessoa para pessoa e pode levar muitos meses. Em exposições prolongadas a anabolizantes, segundo Hohl, pode haver recuperação incompleta, inclusive anos depois da interrupção.

O posicionamento também destaca que a recuperação da espermatogênese (processo de formação e desenvolvimento dos espermatozoides) pode ser demorada e que homens que desejam preservar a fertilidade devem ser avaliados antes do início do tratamento.

O risco também envolve a procedência do produto. Medicamentos obtidos no mercado irregular não oferecem as mesmas garantias de composição, concentração, esterilidade e controle de qualidade. Mas mesmo um produto regularmente produzido não torna seguro o uso de testosterona sem indicação médica ou em doses acima das fisiológicas.

Quais os cuidados quando há indicação de reposição de testosterona?

Quando a reposição é indicada, ela exige avaliação médica completa antes do início e acompanhamento periódico depois. Entre os aspectos considerados estão histórico clínico, exame físico, hemograma e hematócrito, além da avaliação da próstata e de fatores de risco individuais. O posicionamento também destaca situações que exigem atenção especial ou contraindicam o início do tratamento, como hematócrito elevado, câncer de próstata ou de mama, apneia obstrutiva do sono grave não tratada, insuficiência cardíaca grave e desejo de fertilidade futura.

O estudo TRAVERSE, citado no documento, não encontrou aumento significativo de eventos cardiovasculares maiores em homens com hipogonadismo e doença cardiovascular preexistente ou alto risco cardiovascular que receberam reposição de testosterona em condições controladas. No entanto, houve maior incidência de alguns eventos adversos, como fibrilação atrial, lesão renal aguda e embolia pulmonar no grupo que recebeu testosterona. 

Além disso, o estudo não avaliou o uso de anabolizantes em doses suprafisiológicas. “A mensagem não deve ser nem que a testosterona é perigosa, nem que a testosterona é completamente inofensiva. Quando existe indicação correta, avaliação prévia e acompanhamento, temos bons dados de segurança”, resume o urologista.

A duração do tratamento também varia e hipogonadismos permanentes podem exigir reposição prolongada, mas, quando a causa é reversível, como obesidade ou uso de certos medicamentos, corrigi-la pode contribuir para a recuperação da produção hormonal, tornando desnecessária a manutenção da reposição em alguns casos.

Antes de tentar identificar qual testosterona tomar, a pergunta mais importante é se existe realmente uma deficiência que precisa ser tratada.

“Testosterona não deve ser iniciada com base em sintomas isolados, em um exame feito sem contexto ou em orientações da internet. Se houver suspeita de deficiência hormonal ou alguma disfunção sexual, o homem deve procurar o seu médico endocrinologista ou urologista, investigar adequadamente a causa e, só então, discutir se existe ou não indicação de tratamento”, finaliza Hohl.

Veja também: A masturbação interfere na testosterona?

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