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Reflexões sobre o câncer de mama | Artigo

médico examina mamografia, um dos principais exames de diagnóstico do câncer de mama

O diagnóstico do câncer de mama exige biópsia do tumor, seguida de exame anatomopatológico. Outras técnicas podem tornar o procedimento mais preciso e menos traumático. 

 

Trato casos de câncer de mama há 40 anos. Para a maioria das mulheres, talvez não haja doença mais assustadora. Você dirá que todos os tumores malignos o são, mas nenhum outro aflige tanto o imaginário feminino.

Uma pessoa com câncer de estômago, por exemplo, costuma ter desconforto depois das refeições, sensação de plenitude gástrica, diminuição do apetite e até perda involuntária de peso. Ela sente que não está bem. Quando é feito o diagnóstico, fica com medo, mas experimenta um certo alívio, porque poderá ser operada e livrar-se dos males que a fazem sofrer.

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De fato, quando a cirurgia corre bem, os sintomas desaparecem e tudo volta ao que era antes. A única sequela visível será a da cicatriz no abdômen; mutilações internas como a perda do estômago são imperceptíveis.

No câncer de mama, ao contrário, a mulher não está doente. Simplesmente palpou um caroço no seio na hora do banho ou recebeu a notícia do nódulo num ultrassom ou mamografia de rotina. Por mais que o médico procure tranquilizá-la dizendo que a biópsia com agulha é procedimento rotineiro nesses casos, a insegurança e o medo se instalam em seu espírito.

Nos tumores pequenos, não palpáveis, diagnosticados por imagens de rotina, as biópsias são orientadas pelo ultrassom ou pela mamografia.

Perdi a conta de quantas pacientes vi chorar ao ouvir que o resultado era negativo. Uma notícia que deveria trazer-lhes alívio é capaz de provocar descontrole emocional na vigência de uma crise de ansiedade.

Quando o resultado é positivo, o quadro adquire contornos mais dramáticos. Mulher nenhuma que passou por essa experiência é capaz de esquecer esse momento; lembranças carregadas de emoção ficam gravadas para sempre na memória.

O diagnóstico do câncer de mama exige biópsia do tumor, seguida de exame anatomopatológico. Por mais típica que seja a lesão no ultrassom, mamografia ou ressonância magnética, a necessidade do exame confirmatório no microscópio é absoluta.

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Existem várias técnicas para tornar esse procedimento mais preciso e menos traumático:

  • Biópsia com agulha fina

Como o nome indica, a espessura da agulha reduz muito a dor, fato que não justifica realizá-la sem a aplicação de anestesia local, especialmente no caso de nódulos mais profundos. A desvantagem da agulha fina é que permite retirar fragmentos muito pequenos de tecido, nem sempre suficientes para os exames necessários para caracterizá-lo adequadamente.

  • Biópsia do tipo “core”

É feita com agulha mais grossa, portanto mais traumática, inconveniente minimizado com o emprego de anestésicos locais. Essa desvantagem é compensada pela qualidade do material obtido, em quantidades que permitem fazer o diagnóstico com mais segurança, definir e caracterizar o subtipo do tumor por meio de um exame que recebe o nome de imunohistoquímico.

  • Mamotomia

Está disponível apenas em alguns serviços. Não passa de uma biópsia realizada com o uso de um aparelho dotado de uma agulha que é introduzida sob anestesia local. Quando a extremidade da agulha está posicionada no interior do nódulo, o aparelho cria um vácuo que através dela aspira o tecido tumoral. A técnica permite recolher quantidades maiores de material e, eventualmente, retirar o nódulo inteiro.

  • Biópsia excisional

Também é chamada de biópsia a céu aberto. Nesse caso, o cirurgião anestesia o local e retira o nódulo – ou um fragmento dele – através de uma incisão na pele. Muito popular no passado, é uma intervenção pouco empregada hoje, porque precisa ser realizada em centro cirúrgico e é muito mais invasiva do que as biópsias com agulha.

Nos tumores pequenos, não palpáveis, diagnosticados por imagens de rotina, as biópsias são orientadas pelo ultrassom ou pela mamografia. Para que mais tarde o cirurgião localize a lesão, o radiologista toma o cuidado de deixar um fio metálico bem fino com uma das pontas no local exato em que o nódulo foi biopsiado.

Sobre o autor: Drauzio Varella

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

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