Alguns procedimentos médicos são realizados sem anestesia, contrariando o sentido de prática humanizada da medicina.

 

Quando seu Araújo disse que seria submetido a uma biópsia de próstata, alertei-o a não aceitar o exame sem anestesia. Que falasse com o médico antes do procedimento, mostrasse estar informado de que se tratava de uma intervenção dolorida, e não se deixasse convencer do contrário.

O conselho foi de pouca valia. O jovem médico que o atendeu explicou-lhe que o convênio dava direito à biópsia, mas não à sedação. Se fizesse questão de recebê-la, teria de pagar por ela; gasto inútil, a seu ver, porque seriam apenas algumas “picadinhas” com uma agulha introduzida por via retal. Coisa à toa. Terminado o exame voltaria para casa sem necessidade de permanecer na clínica até acabar o efeito da anestesia.

Dias mais tarde, seu Araújo lamentaria:

— Cada vez que o aparelho disparava a agulha, parecia que o diabo me cutucava com um tridente em brasa. Nunca senti dor tão fina e profunda, só não gritei porque fiquei envergonhado. Foram doze estocadas, nas últimas ainda tomei bronca porque não consegui ficar sem me mexer.

Quando terminou, vestiu a roupa e saiu na direção do ponto de ônibus:

— Encostei num poste e fechei os olhos para passar a tontura. Não sei o que era pior: a dor ou a humilhação.

Essa história foi contada na mesa de um bar, numa reunião com um grupo de carcereiros do antigo Carandiru, encontro que repetimos a cada duas ou três semanas, há muitos anos.

 

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Dos homens ali presentes, outros dois haviam passado pelo mesmo suplício, depois de cair na conversa das “picadinhas” e da “dorzinha”.

No caso de um deles, ex-diretor do pavilhão dos reincidentes, o médico teve a boa vontade de pedir para o convênio autorizar a anestesia, mas o pedido foi negado. Segundo o ex-diretor, no entanto, a negativa ocorreu por causa dos termos em que a solicitação foi redigida:

— Imagine que ele justificou a necessidade de anestesia dizendo que era para “dar conforto ao paciente”. Conforto? Ele devia ter dito que era para evitar aquela dor horrível cada vez que a agulha me beliscava por dentro. Pegou até mal para mim, ele dizer que eu ia levar no rabo, e ainda fazia questão de conforto.

Daí em diante, a conversa enveredou pelo questionamento da masculinidade de cada um dos presentes, tema recorrente entre homens reunidos em mesas de bar.

Na história da humanidade, resistir à dor sempre foi apreciado como ato de heroísmo: o soldado no campo de batalha com a perna amputada, a mulher em trabalho de parto sem dar um gemido, a criança imóvel enquanto lhe arrancavam as amídalas, despertavam respeito e admiração geral. Para os mais religiosos, sofrer purificava as almas pecadoras.

Antes da descoberta da anestesia, é compreensível que a Medicina desse ouvidos a essa ideologia estúpida de valorização do sofrimento. Diante da dor, o que podia dizer o médico além de recomendar coragem, determinação e bolsa de água quente?

Mas, conviver com a dor na prática diária em pleno século 21, sem fazer uso da melhor tecnologia para aliviá-la, é voltar aos tempos medievais. Dispomos de analgésicos potentes e de anestésicos de ação rápida que permitem acordar o enfermo imediatamente ao final da intervenção. Se é considerado desumano o profissional que deixa de medicar uma pessoa com dor, qual a justificativa para submetermos alguém a um procedimento que irá provocá-la, sem tomarmos as devidas precauções?

Aceitar passivamente que a culpa é dos convênios, que se recusam a cobrir os gastos com anestésicos e sedativos, é compactuar com a defesa de interesses financeiros às custas do sofrimento alheio. Para ficar no exemplo das biópsias de próstata: se nós nos recusarmos terminantemente a realizá-las sem sedação, o impasse será resolvido.

Esse problema não é exclusivo da medicina brasileira. Biópsias de próstata sem anestesia são realizadas todos os dias em alguns dos melhores centros americanos e europeus, com a mesma justificativa: dá para suportar!

Dá para suportar quer dizer exatamente o quê? Que ninguém morre de dor?

Se nossos Conselhos Regionais considerarem comportamento antiético indicar intervenções como essa a sangue frio, e punirem os profissionais e as instituições que insistirem na sua realização, teremos dado um passo importante para tornar mais humana a prática da medicina, profissão que tem como finalidade aliviar o sofrimento humano.